===== SENTENÇAS ===== Nas culturas da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]], provérbios, máximas e frases de impacto constituíam uma [[lexico:f:forma:start|forma]] de [[lexico:d:discurso:start|discurso]] extremamente importante em todos os níveis da [[lexico:s:sociedade:start|sociedade]]. Sentenças brilhantes cristalizavam os insights de um [[lexico:p:povo:start|povo]] de [[lexico:m:modo:start|modo]] memorável, e logo tornavam-se lugares-comuns que todos usavam para interpretar e controlar os eventos ordinários da [[lexico:v:vida:start|vida]] cotidiana. Era preciso certo jeito, talvez uma piscadela, para aplicar uma formulação conhecida numa determinada [[lexico:s:situacao:start|situação]] a [[lexico:f:fim:start|fim]] de explicá-la, mas isso era perfeitamente compreendido como [[lexico:p:parte:start|parte]] dos desafios da vida, e o [[lexico:b:bom:start|Bom]] [[lexico:u:uso:start|uso]] de um velho adágio era tido como [[lexico:p:prova:start|prova]] de [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]]. Um ditado como "de grão em grão a galinha enche o papo" pode [[lexico:s:ser:start|ser]] aplicável a uma determinada situação banal, ainda que apenas em certos sentidos, mas de qualquer forma sua [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:m:mencao:start|menção]] identifica [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:m:momento:start|momento]] e pode vir a calhar. Os provérbios surgiam em [[lexico:m:meio:start|meio]] ao povo, mas eram coligidos por escribas em escolas templárias, nas cortes reais e nos centros de florescimento de escolas filosóficas. Colecionar provérbios era uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] erudita, e a coleção de um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] específico de provérbios normalmente era atribuída a alguma [[lexico:f:figura:start|figura]] do passado célebre por sua sabedoria. A Bíblia, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], inclui entre seus livros os Provérbios e a Sabedoria de Salomão. As literaturas sapienciais do Egito e do antigo Oriente Médio também têm grande [[lexico:n:numero:start|número]] de coletâneas de vários tipos de sentenças de sabedoria atribuídas a cortesões ou sábios. Durante a era greco-romana, o [[lexico:h:habito:start|hábito]] de coligir sentenças era comum nos centros de ensino. A [[lexico:a:atribuicao:start|atribuição]] dessas sentenças a um [[lexico:s:sabio:start|sábio]] ou [[lexico:p:poeta:start|poeta]] legendário, ou ao fundador de uma [[lexico:e:escola:start|escola]] grega, era o [[lexico:m:metodo:start|método]] de [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] mais usado. O gnomologium, ou coleção de sentenças, era considerado uma importante maneira de preservação da sabedoria do passado em tempos de mudanças. Assim, temos as Máximas de Teógnis, a Gnomologia para Ciro, os Monásticos (ou "poemas de um só verso") de Menandro, as Kyriai Dóxai (ou "Principais Ensinamentos") de [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]], as Sentenças de Sexto, e assim por diante. No caso de autores que tivessem trabalhos escritos em circulação, a coleção poderia começar com citações originais, mas logo seria transformada num repositório de outras sentenças do mesmo [[lexico:g:genero:start|gênero]]. Uma coleção de sentenças coerente era tida em alta conta como a destilação da sabedoria de um determinado sábio e em [[lexico:n:nome:start|nome]] dele atraía outras sentenças do mesmo gênero. A [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] com as sentenças dos sábios [[lexico:n:nao:start|não]] era meramente a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] de um [[lexico:i:interesse:start|interesse]] de antiquário, e as coleções não eram feitas apenas para preservar os chavões do passado. O [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] com as sentenças de um sábio era motivado pelo interesse por aquilo que os gregos chamavam de [[lexico:e:ethos:start|ethos]], ou o que nós chamaríamos de [[lexico:c:carater:start|caráter]]. Para os gregos, caráter não era uma [[lexico:q:questao:start|questão]] de [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] ou daquilo que chamaríamos de [[lexico:e:etica:start|ética]]. A concepção [[lexico:m:moderna:start|moderna]] de ética é moralista e geralmente pressupõe padrões de [[lexico:v:virtude:start|virtude]] preestabelecidos. A concepção grega de caráter tinha a [[lexico:v:ver:start|ver]] com o [[lexico:e:estilo:start|estilo]] de vida [[lexico:c:caracteristico:start|característico]] de um [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]]. Era algo parecido com o que nós, modernos, queremos dizer quando afirmamos que determinada [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] é "uma figura". Para os gregos, o caráter de uma pessoa era definido por um padrão estável de [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] e por um tipo de discurso correspondente. Os gregos sabiam que as [[lexico:p:palavras:start|palavras]] são muito importantes e que aquilo que alguém diz numa dada situação faz [[lexico:d:diferenca:start|diferença]]. O que uma pessoa diz revela sua postura com [[lexico:r:relacao:start|relação]] aos outros, assim como sua própria [[lexico:v:visao-de-mundo:start|visão de mundo]]. O discurso também é um tipo de comportamento, mas passível de manipulação com fins enganadores. Por isso, o caráter de uma pessoa era julgado pela [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] entre o que ela dizia e o que ela fazia, ou como ela geralmente se comportava. O [[lexico:c:criterio:start|critério]] para julgar o caráter de um [[lexico:m:mestre:start|mestre]] era se ele vivia de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com seus próprios ensinamentos. Se o caráter de um mestre fosse delineado, as suas sentenças poderiam ser usadas para [[lexico:r:representar:start|representar]] esse caráter. Os fundadores das várias escolas filosóficas eram considerados como [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] que encarnavam os ensinamentos de suas escolas. Desta forma, as sentenças de um sábio ou mestre eram entendidas como expressão de seu caráter. Como as sentenças eram avaliadas enquanto maneiras particulares de ver a vida, e [[lexico:c:como-se:start|como se]] achava que o [[lexico:d:dito:start|dito]] e o feito equiparavam-se no caráter [[lexico:i:ideal:start|ideal]], a atribuição de sentenças a figuras idealizadas era uma questão de [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]]. Assim, mesmo os ditados formulados e postos em circulação num momento posterior podiam ser selecionados como atribuição apropriada para a coleção de sentenças deste ou daquele [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] ou sábio de um período anterior. Os fundadores de escolas normalmente eram responsabilizados pelas filosofias que se desenvolviam em seu nome na [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] de suas escolas. Como o caráter era definido pela correspondência entre [[lexico:i:ideias:start|ideias]] defendidas, tipo de discurso e estilo de vida, os perfis de uma indivíduo [[lexico:a:atuante:start|atuante]] também suscitavam grande interesse. Por isso, a [[lexico:l:literatura:start|literatura]] biográfica se difundiu tanto durante o período greco-romano. O [[lexico:p:problema:start|problema]], é claro, era que a maioria das pessoas consideradas dignas de serem biografadas já estavam mortas e, com a [[lexico:f:falta:start|falta]] de documentação, era [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] traçar o curso da vida de alguém. Havia, contudo, a tradição oral e outras formas de [[lexico:l:legado:start|legado]] acerca das figuras públicas. O legado [[lexico:e:escrito:start|escrito]] que um indivíduo importante porventura deixasse poderia ser usado para inferir que tipo de pessoa foi ele e que tipo de estilo de vida adotou e seguiu. Até os manuscritos dos poetas trágicos e cômicos foram minuciosamente investigados séculos a fio em busca de pistas das sentenças, opiniões e discursos que expressavam os pontos de vista do autor, e a partir deles escreviam-se biografias. No caso de reis, mandatários e estadistas, havia histórias, elogios, tradições de [[lexico:f:familia:start|família]] e cartas que podiam ser utilizados. E entre os integrantes das várias escolas filosóficas circulavam inúmeras anedotas sobre seus fundadores e discípulos. [[lexico:t:todo:start|todo]] esse material podia ser usado na redação de uma biografia ou, como os gregos a chamavam, uma bios, ou "vida". Temos uma extraordinária coleção de material anedótico sobre fundadores de escolas filosóficas na [[lexico:o:obra:start|obra]] Vidas de Filósofos Eminentes, [[lexico:e:escrita:start|escrita]] por Diógenes Laércio por volta do ano 200 d.C. O autor cita numerosas coleções de relatos, anedotas, máximas e biografias que usou como fontes de seu compêndio. Seu [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:g:geral:start|geral]] era traçar a [[lexico:s:sequencia:start|sequência]] das tradições das escolas gregas escrevendo a vida do fundador de cada escola e de seu sucessor [[lexico:i:imediato:start|imediato]] como líder, desde os [[lexico:s:sete-sabios:start|Sete Sábios]], passando pelo período [[lexico:c:classico:start|clássico]], até o século I a.C. A [[lexico:t:tipica:start|típica]] vida começava com a menção do que se sabia sobre a família de uma pessoa, sua [[lexico:c:cidade:start|cidade]], seus mestres e principais discípulos. Em seguida, apresentava-se uma relação das obras conhecidas do filósofo, pelo título. Entretanto, em vez de resumir o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] do autor em questão, Diógenes normalmente recorria ao formato de sentenças memoráveis. Na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] eram originalmente as coleções de proposições e máximas que reuniam, sobretudo, as fundamentais teses filosóficas e teológicas, que Peter Lombardus condensou em seus famosos Quattuor libri sententiarum; [[lexico:t:texto:start|texto]] que deveria ser lido pelos candidatos aos títulos acadêmicos e comentados de maneira eficiente com a maior [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] [[lexico:p:possivel:start|possível]]. Todos os grandes estudiosos das [[lexico:u:universidades:start|universidades]] medievais deixaram comentários sobre as sentenças. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}