===== SARX ===== Um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] inerte [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] aos que se encontram no [[lexico:u:universo:start|universo]] material — ou ainda os que se podem construir utilizando os processos materiais extraídos deste, organizando-os e combinando-os segundo as leis da [[lexico:f:fisica:start|física]] –, tal corpo [[lexico:n:nao:start|não]] sente nem experimenta [[lexico:n:nada:start|nada]]. Ele não se sente nem se experimenta a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], não se ama nem se deseja. Nem, menos ainda, sente ou experimenta, ama ou deseja nenhuma das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que o cercam. Segundo a [[lexico:o:observacao:start|observação]] profunda de [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]], a mesa não “toca” a parede contra a qual está colocada. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] de um corpo como o nosso, ao contrário, é que ele sente cada [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:p:proximo:start|próximo]] de si; percebe cada uma de suas qualidades, vê as cores, ouve os sons, inspira um odor, calcula com o pé a dureza de um chão, com a mão a suavidade de um tecido. E só sente tudo isso, as qualidades de todos esses objetos que compõem seu [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]], só experimenta o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] que o pressiona por todos dos lados, porque se experimenta antes de tudo a si mesmo, no [[lexico:e:esforco:start|esforço]] que faz para subir a ruela, na [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de [[lexico:p:prazer:start|prazer]] em que se resume o frescor da água ou do vento. Essa [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre os dois corpos que acabamos de distinguir — o nosso, que, por um lado, se experimenta a si mesmo ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que sente o que o cerca e, por [[lexico:o:outro:start|outro]], um corpo inerte do universo, seja ele uma pedra no [[lexico:c:caminho:start|caminho]] ou as partículas microfísicas que se supõe a constituem —, nós a fixamos a partir de [[lexico:a:agora:start|agora]] numa [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] apropriada. Chamaremos [[lexico:c:carne:start|carne]] ao primeiro, reservando o [[lexico:u:uso:start|uso]] da [[lexico:p:palavra:start|palavra]] corpo para o segundo. Pois nossa carne não é senão isto que, experimentando-se, sofrendo-se, padecendo-se e suportando-se a si mesmo e, assim, desfrutando de si segundo impressões sempre renascentes, é, por essa mesma [[lexico:r:razao:start|razão]], suscetível de sentir o corpo que lhe é [[lexico:e:exterior:start|exterior]], de tocá-lo, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como de [[lexico:s:ser:start|ser]] tocado por ele — [[lexico:c:coisa:start|coisa]] de que o corpo exterior, o corpo inerte do universo material, é, por [[lexico:p:principio:start|princípio]], incapaz. A elucidação da carne constituirá o primeiro [[lexico:t:tema:start|tema]] de nossa [[lexico:i:investigacao:start|investigação]]. Queremos [[lexico:f:falar:start|falar]] dos seres encarnados que somos nós, os homens, desta [[lexico:c:condicao:start|condição]] [[lexico:s:singular:start|singular]] que é a nossa. Mas esta condição, o [[lexico:f:fato:start|fato]] de ser encarnado, nada mais é que a [[lexico:e:encarnacao:start|encarnação]]. Sucede, porém, que a encarnação não consiste em [[lexico:t:ter:start|ter]] um corpo, em se propor desse [[lexico:m:modo:start|modo]] como um “ser corporal” e, portanto, material, [[lexico:p:parte:start|parte]] integrante do universo a que se confere o mesmo qualificativo. A encarnação consiste no fato de ter uma carne; mais, talvez: de ser carne. Seres encarnados não são, pois, corpos inertes que não sentem e não experimentam nada, sem [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de si mesmos nem das coisas. Seres encarnados são seres padecentes, atravessados pelo [[lexico:d:desejo:start|desejo]] e pelo medo, e que sentem toda a [[lexico:s:serie:start|série]] de impressões ligadas à carne porque estas são constitutivas de sua [[lexico:s:substancia:start|substância]] — uma substância impressionai, portanto, que começa e termina com o que experimenta. Definida por tudo aquilo de que um corpo se acha desprovido, a carne não poderia confundir-se com ele; ela é antes, por assim dizer, o [[lexico:e:exato:start|exato]] contrário. Carne e corpo opõem-se como o sentir e o não sentir — o que desfruta de si, por um lado; a [[lexico:m:materia:start|matéria]] cega, opaca, inerte, por outro. Tão radical é essa diferença, que, por mais evidente que pareça, nos é muito difícil, e até [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], pensá-la verdadeiramente. E isso porque ela se estabelece entre dois termos, um dos quais, afinal de contas, nos escapa. Se nos é fácil conhecer nossa carne porque ela não nos deixa nunca e se cola à nossa pele na [[lexico:f:forma:start|forma]] dessas múltiplas impressões de [[lexico:d:dor:start|dor]] e de prazer que nos afetam sem cessar de modo que cada um, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], sabe muito bem, com um [[lexico:s:saber:start|saber]] [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] e ininterrupto, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] sua carne — ainda que não seja capaz de exprimir conceptualmente [[lexico:e:esse:start|esse]] saber –, totalmente diverso é nosso [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] dos corpos inertes da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] material: ele vem perder-se e terminar numa [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] completa. Não se trata aqui das dificuldades de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] encontradas pela física quântica, de que cada “[[lexico:m:medida:start|medida]]” provoca, no [[lexico:l:lugar:start|lugar]] mesmo do que ela buscava [[lexico:a:apreender:start|apreender]], uma perturbação ou indetermi-nação dos parâmetros escolhidos para esse [[lexico:f:fim:start|fim]]. Trata-se de uma [[lexico:a:aporia:start|aporia]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] e última que nos obstrui o caminho, porque o [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:e:elemento:start|elemento]] [[lexico:f:fisico:start|físico]] deve ainda chegar até nós de algum modo e não poderia privar-se deste [[lexico:d:dado:start|dado]] último: brilho numa tela, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], interpretado como choque de um fóton, [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] de [[lexico:l:luz:start|luz]] cuja chegada à nossa carne nunca é produzida senão ali onde esta carne se impressiona a si mesma. O que seria a coisa da física fora dessa [[lexico:r:referencia:start|referência]] inevitável, a “coisa em si”, isso a que [[lexico:k:kant:start|Kant]] chamava “noúmeno”, continua a ser o desconhecido e o [[lexico:i:incognoscivel:start|incognoscível]]. A [[lexico:a:analise:start|análise]] do corpo jamais poderá tomar-se a de nossa carne e o princípio, um dia, de sua [[lexico:e:explicacao:start|explicação]]; ao contrário: só nossa carne nos permite conhecer, nos limites prescritos por essa [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] incontornável, algo como um “corpo”. Assim, já se delineia diante de nosso olhar uma singular inversão. O [[lexico:h:homem:start|homem]] que não sabe nada [[lexico:a:alem:start|além]] do experimentar todos os sofrimentos em sua carne magoada, o pobre, o “bebê”, sabe disso provavelmente muito mais que um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] onisciente situado no [[lexico:t:termo:start|termo]] do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] [[lexico:i:ideal:start|ideal]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], para o qual, segundo uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]] difundida no século passado, “tanto o [[lexico:f:futuro:start|futuro]] como o passado estariam presentes aos seus olhos”. A elucidação [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] da carne, do corpo e de sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] enigmática nos permitirá abordar o segundo tema de nossa investigação: a Encarnação no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] cristão. Esta encontra seu [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] na [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] alucinante de João: “E o [[lexico:v:verbo:start|verbo]] se fez carne” (1,14). A que [[lexico:p:ponto:start|ponto]] essa palavra extraordinária vai acossar a consciência de todos os que, desde a irrupção do que se chamará cristianismo, se esforçarão por pensá-la eis o que é testemunhado pela primeira [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] de Paulo, pela dos evangelistas, dos apóstolos e de seus mensageiros, dos Padres da Igreja, dos hereges e de seus contraditores, dos concílios, em [[lexico:s:suma:start|suma]]: do conjunto de um desenvolvimento espiritual e cultural talvez sem equivalente na [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]]. gr. sarx (13); em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] a [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]], espírito, em Jo 3,6; 6,63; em paralelo com [[lexico:h:haima:start|haima]], [[lexico:s:sangue:start|sangue]], em 1,13 e, de Jesus, em 6,53.54.55.56. I. [[lexico:s:significado:start|significado]] e uso do termo. “Carne” denota-o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] [[lexico:h:humano:start|humano]] (Jo 17,2), conotando sua condição débil e caduca (Jo 11,4: astheneia), cuja última [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] é a [[lexico:m:morte:start|morte]]. Para Jo, o homem de carne é a primeira etapa do [[lexico:p:plano:start|plano]] criador de [[lexico:d:deus:start|Deus]]; a realização do desígnio criador (Jo 6, 39s) nele depende de sua opção livre: se aceitar o Espírito-amor que comunica o enviado de Deus, ficará acabado e terá a [[lexico:v:vida:start|vida]] (Jo 3,36; cf. 3,34 e passim); se rejeitar o [[lexico:a:amor:start|amor]] oferecido, não saberá o que é vida, ficará sob o domínio da morte, que será definitiva (Jo 3,36b; cf. 3,18;8,21.24) (Morte III). A carne, criada por Deus (Jo 1,3), não é princípio mau, mas somente fase inacabada; sua debilidade, porém, faz com que possa ser cegada e dominada pela “treva” (Jo 1,5) (Nascimento II). ”A carne” sozinha é [[lexico:p:principio-vital:start|princípio vital]] que não pode [[lexico:s:superar:start|superar]] sua própria condição e gera sua própria debilidade (Jo 3,6; cf. 1,13); contrapõe-se ao Espírito (to pneuma), o princípio que comunica a vida definitiva (Jo 3,6), que supera a morte (Vida IIc; Ressurreição III). [[lexico:p:por-si:start|por si]] só não pode dar a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de “fazer-se [[lexico:f:filho:start|filho]] de Deus” (l,12s); em consequência, malogra em sua tentativa de realizar o [[lexico:r:reino:start|reino]] de Deus (Jo 3,2-6) ou de levar a [[lexico:e:estado:start|Estado]] definitivo (Jo 6,63). Julgar a Jesus desde o ponto de vista da mera “carne” é falsear sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]] (Jo 8,15). II. A carne de Jesus. Jesus é o [[lexico:p:projeto:start|projeto]] de Deus feito carne (Jo 1,14), realidade humana. A descida do Espírito, que lhe dá capacidade de amor igual à do Pai, transforma sua “carne” realizando nele o [[lexico:m:modelo:start|modelo]] de Homem (”o Filho do homem”) (Homem I), o Filho de Deus (Filho Ha). A vida definitiva que produz o Espírito-amor supera as conotações negativas da “carne”, sua debilidade e caducidade (Espírito V); por isso, o homem que nasceu do Espírito já não se chama “carne”, mas “espírito” (Jo 3,6;7,39). A debilidade da “carne” manifesta-se, porém, em Jesus ao chegar a “sua hora” (Jo 12,23), a hora de entregar-se nas [[lexico:m:maos:start|mãos]] do mundo que o odeia (Jo 7,7; cf. 12,25); experimenta então forte agitação que ele vence com sua [[lexico:f:fidelidade:start|fidelidade]] ao Pai (Jo 12,27s). A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] “a carne e o sangue” de Jesus significa sua entrega até a morte por amor ao homem, realizando assim até ao final sua consagração pelo Espírito (Jo 17,19). A carne de Jesus torna-se alimento para o homem (Jo 6,51), ou seja, [[lexico:f:fonte:start|fonte]] de vida (Jo 6,53ss), em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] de comunicar o Espírito (Jo 6,63) a [[lexico:q:quem:start|quem]] “a come”, ou, em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], a quem se compromete a [[lexico:v:viver:start|viver]] a sua realidade humana tal como foi vivida por Jesus (Sangue). A eucaristia atualiza esta realidade na [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] cristã. Jesus, que se deu na cruz, dá-se como alimento aos seus. O Espírito que entregou na sua morte comunica-se através de sua carne e sangue; o discípulo que come e bebe responde a este amor de Jesus com o seu [[lexico:c:compromisso:start|compromisso]] de viver e morrer como ele. [Mateo, Vocabulário teológico do Evangelho de João] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}