===== RITUAL ===== Através do [[lexico:m:mito|mito]], como [[lexico:r:relato|relato]] específico, dentro do [[lexico:g:genero|gênero]] narrativo, [[lexico:n:nada|nada]] feito! Todos os antropólogos e historiadores se concertam na [[lexico:v:verificacao|verificação]] de que mitos se contam e contaram, se escrevem e se escreveram, que nenhuma [[lexico:r:relacao|relação]] deixa entrever com [[lexico:d:drama|drama]] ritual conhecido. Tal como [[lexico:n:nao|não]] faltam exemplos de dramas rituais sem vestígio de mito com algum deles relacionável. É notável que ninguém queira levar em conta a extrema lacunaridade da [[lexico:t:tradicao|tradição]] [[lexico:e:escrita|escrita]]. Levamo-la nós. Por isso, ainda e sempre, repetimos, com inabalável [[lexico:c:certeza|certeza]], que a [[lexico:a:ausencia|ausência]] de provas não [[lexico:p:prova|prova]] a ausência do mais [[lexico:p:provavel|provável]]. Mesmo assim, desistimos de prosseguir por [[lexico:c:caminho|caminho]] que aparentemente não nos conduz a nenhum [[lexico:l:lugar|lugar]] em que alguém se disponha a reconhecer, sem provas, que a [[lexico:s:situacao|situação]] verificada hoje pode não [[lexico:s:ser|ser]] a de ontem, e que resultasse de outra muito diversa — a da [[lexico:o:originalidade|originalidade]] de uma íntima conexão do mito e do [[lexico:r:rito|rito]], do rito com o mito. Não importa; pois também não parece que haja mito relatado, descrevendo o ritual da nossa [[lexico:v:vida|vida]] quotidiana. Não parece, mas há. O ritual pode [[lexico:e:existir|existir]] sem mito, mas não sem o [[lexico:i:impulso|impulso]] [[lexico:m:mitico|mítico]], criador de mitos; e, de facto, um deles, o mais eloquente de todos eles, está aí, [[lexico:b:bem|Bem]] diante de nossos olhos: «[[lexico:d:deus|Deus]] morreu.» Leiam-no em [[lexico:n:nietzsche|Nietzsche]] e Dostoiewski. Curioso, excitante e, sobretudo, incitante é [[lexico:p:pensar|pensar]] que o mesmo impulso mítico persista desde o mais longínquo Outrora do pré-cerâmico de Hacilar e do protocerâmico de Çatal Huyuk, através de todos os séculos da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], em que se celebraram cultos «mistéricos», e de todos os da quase bimilenária [[lexico:h:historia|história]] da Cristandade, em que dia a dia o Cristo morre para dar vida a um [[lexico:m:mundo|mundo]] — mundo que não deixa de ser mundo, por [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]] que se diga — até ao mais [[lexico:p:proximo|próximo]] [[lexico:a:agora|agora]], quando o mesmo impulso leva alguns de nós a proclamar a [[lexico:m:morte|morte]] do [[lexico:p:proprio|próprio]] Deus e a propor a exigência de haurir em nós mesmos resignação para suportar o luto da orfandade, vivendo no mundo por Ele criado. Outrora, a morte de um entre os demais [[lexico:d:deuses|deuses]], agora, a morte do Deus que de todos os deuses se aparta — eis o grande mito, talvez o [[lexico:u:unico|único]] mito: por sua morte, os deuses se tornaram nos [[lexico:m:mundos|mundos]] em que outros homens viveram; por sua morte, Deus se torna no Mundo em que vivemos nós. Mais uma vez se nos defronta a [[lexico:c:cosmofania|cosmofania]] como teocriptia, e a teocriptia com Deicídio. O mito é este, e só este — só o genesíaco e escatológico, o que nos põe diante do [[lexico:p:principio|Princípio]] e do [[lexico:f:fim|fim]], mas do Fim que se religa ao Princípio — o mito da [[lexico:o:origem|origem]], em [[lexico:s:suma|suma]]. [EudoroMito:49-50]