===== RIQUEZA ===== [[lexico:q:quantidade|quantidade]] de [[lexico:b:bens|bens]] possuídos por uma [[lexico:p:pessoa|pessoa]] [[lexico:f:fisica|física]] ou [[lexico:m:moral|moral]]. O [[lexico:c:conceito|conceito]] é essencialmente intuitivo. Em [[lexico:e:economia|economia]], fala-se essencialmente de bens e de [[lexico:v:valor|valor]]. Opõe-se à vezes uma riqueza quantitativa a uma riqueza qualitativa. O [[lexico:a:aspecto|aspecto]] qualitativo porta então sobre o [[lexico:o:objeto|objeto]] da riqueza, [[lexico:n:nao|não]] sobre o [[lexico:f:fato|fato]] da riqueza, que é sempre [[lexico:q:quantitativo|quantitativo]]. Da mesma maneira opõe-se a riqueza como [[lexico:p:posse|posse]] dos bens materiais à riqueza interior do [[lexico:h:homem|homem]] que possui múltiplas qualidades morais, a segunda sendo moralmente preferível à primeira. De [[lexico:o:origem|origem]] inteiramente diferente e mais recente na [[lexico:h:historia|história]] é a [[lexico:s:significacao|significação]] [[lexico:p:politica|política]] da riqueza privada, da qual o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] retira os meios de sua [[lexico:s:subsistencia|subsistência]]. Já mencionamos a antiga identificação da [[lexico:n:necessidade|necessidade]] com o domínio [[lexico:p:privado|privado]] do [[lexico:l:lar|lar]], onde cada um tinha de dominar, por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], as [[lexico:n:necessidades-da-vida|necessidades da vida]]. O homem livre, que podia dispor de sua [[lexico:p:privatividade|privatividade]] e não estava, como o [[lexico:e:escravo|escravo]], à [[lexico:d:disposicao|disposição]] de um amo, podia ainda [[lexico:s:ser|ser]] “forçado” pela [[lexico:p:pobreza|pobreza]]. A pobreza [[lexico:f:forca|força]] o homem livre a agir como escravo. A riqueza privada, portanto, tornou-se [[lexico:c:condicao|condição]] para [[lexico:a:admissao|admissão]] à [[lexico:v:vida|vida]] pública não pelo fato do seu dono [[lexico:e:estar|estar]] empenhado em acumulá-la, mas, ao contrário, porque [[lexico:g:garantia|garantia]] com [[lexico:r:razoavel|razoável]] [[lexico:c:certeza|certeza]] que ele não teria de se dedicar a prover para si mesmo os meios do [[lexico:u:uso|uso]] e do consumo, e estava livre para a [[lexico:a:atividade|atividade]] pública. Obviamente, a vida pública somente era [[lexico:p:possivel|possível]] depois de atendidas as muito mais urgentes necessidades da vida. O [[lexico:m:meio|meio]] de atendê-las era o [[lexico:t:trabalho|trabalho]] e, portanto, a riqueza de uma pessoa era muitas vezes computada em termos do [[lexico:n:numero|número]] de trabalhadores, isto é, de [[lexico:e:escravos|escravos]], que ela possuía. Nesse contexto, a posse de [[lexico:p:propriedade|propriedade]] significava dominar as próprias necessidades vitais e, portanto, ser potencialmente uma pessoa livre, livre para transcender a sua vida e ingressar no [[lexico:m:mundo|mundo]] que todos têm em comum. Somente com o aparecimento desse mundo comum em uma tangibilidade concreta, isto é, com o surgimento da cidade-Estado, pôde [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:t:tipo|tipo]] de [[lexico:p:propriedade-privada|propriedade privada]] adquirir sua eminente significação política; e é, portanto, um tanto [[lexico:n:natural|natural]] que o famoso “desdém pelas ocupações servis” não seja ainda encontrado no mundo homérico. Caso o dono de uma propriedade preferisse ampliá-la ao invés de utilizá-la para [[lexico:v:viver|viver]] uma vida política, era [[lexico:c:como-se|como se]] ele sacrificasse prontamente a sua [[lexico:l:liberdade|liberdade]] e voluntariamente se tornasse aquilo que o escravo era contra sua [[lexico:v:vontade|vontade]], ou seja, um servo da necessidade. os romanos demonstravam [[lexico:e:eficiencia|eficiência]] e [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de organização em larga escala em outros setores, nos serviços públicos e no exército” (Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 109-110). Esperar a mesma capacidade de organização em questões privadas como em “serviços públicos” parece ser um preconceito devido às condições modernas. Max [[lexico:w:weber|Weber]], em seu notável ensaio (“Agrarverhältnisse im Altertum”, Gesammelte Aufsätze zur Sozialund Wirtschaftsgeschichte ), já havia insistido sobre o fato de que as cidades antigas eram mais “centros de consumo que de produção”, e que o antigo proprietário de escravos era um “rentier e não um capitalista (Unternehmer)” (p. 13, 22 ss. e 144). A indiferença dos autores antigos no tocante a questões econômicas, aliada à [[lexico:f:falta|falta]] de documentos a esse [[lexico:r:respeito|respeito]], aumenta o [[lexico:p:peso|peso]] do [[lexico:a:argumento|argumento]] de Weber.] Até o início da era [[lexico:m:moderna|moderna]], esse tipo de propriedade nunca foi visto como [[lexico:s:sagrado|sagrado]], e somente quando a riqueza como [[lexico:f:fonte|fonte]] de renda coincidia com o pedaço de [[lexico:t:terra|Terra]] no qual se radicava uma [[lexico:f:familia|família]], isto é, em uma [[lexico:s:sociedade|sociedade]] essencialmente agrícola, esses dois tipos de propriedade podiam coincidir a tal [[lexico:p:ponto|ponto]] que toda propriedade adquiria um [[lexico:c:carater|caráter]] de [[lexico:s:sacralidade|sacralidade]]. De qualquer [[lexico:f:forma|forma]], os modernos defensores da propriedade privada, que unanimemente a veem como riqueza privada e [[lexico:n:nada|nada]] mais, pouco [[lexico:m:motivo|motivo]] têm para apelar a uma [[lexico:t:tradicao|tradição]] segundo a qual não podia [[lexico:e:existir|existir]] um domínio [[lexico:p:publico|público]] livre sem o devido estabelecimento e a devida proteção da privatividade. Pois o enorme acúmulo de riqueza ainda em curso na [[lexico:s:sociedade-moderna|sociedade moderna]], que teve início com a expropriação – o esbulho das classes camponesas que, por sua vez, foi [[lexico:c:consequencia|consequência]] quase acidental da expropriação de bens monásticos e da Igreja após a [[lexico:r:reforma|Reforma]] [v. classe operária] –, jamais demonstrou grande consideração pela propriedade privada; ao contrário, sacrificava-a sempre que ela entrava em conflito com o acúmulo de riqueza. O [[lexico:d:dito|dito]] de [[lexico:p:proudhon|Proudhon]] – que a propriedade é um roubo – tem sólida base de [[lexico:v:verdade|verdade]] nas [[lexico:o:origens|origens]] do [[lexico:m:moderno|moderno]] capitalismo; e é tanto mais significativo que mesmo Proudhon tenha hesitado em aceitar o duvidoso remédio da expropriação [[lexico:g:geral|geral]], por [[lexico:s:saber|saber]] muito [[lexico:b:bem|Bem]] que a abolição da propriedade privada, ainda que pudesse curar o [[lexico:m:mal|mal]] da pobreza, muito provavelmente provocaria o mal ainda maior da [[lexico:t:tirania|tirania]]. Uma vez que ele não via [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre propriedade e riqueza, essas duas compreensões parecem contraditórias em sua [[lexico:o:obra|obra]], o que, de fato, não são. A longo prazo, a apropriação individual de riqueza não terá maior respeito pela propriedade privada do que a [[lexico:s:socializacao|socialização]] do [[lexico:p:processo|processo]] de acumulação. Não é uma [[lexico:i:invencao|invenção]] de Karl [[lexico:m:marx|Marx]], mas algo da [[lexico:n:natureza|natureza]] dessa mesma sociedade que a privatividade, em qualquer [[lexico:s:sentido|sentido]], possa apenas estorvar a [[lexico:e:evolucao|evolução]] da “[[lexico:p:produtividade|produtividade]]” [[lexico:s:social|social]] e, portanto, que quaisquer considerações em torno da posse privada devam ser rejeitadas em benefício do processo sempre crescente da riqueza social. [ArendtCH, 8] O que chamamos anteriormente de advento do social coincidiu historicamente com a [[lexico:t:transformacao|transformação]] do [[lexico:i:interesse|interesse]] privado pela propriedade privada em uma [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] pública. Logo que ingressou no domínio público, a sociedade assumiu o disfarce de uma organização de proprietários , que, ao invés de requererem o [[lexico:a:acesso|acesso]] ao domínio público em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua riqueza, exigiram dele proteção para o acúmulo de mais riqueza. Nas [[lexico:p:palavras|palavras]] de Bodin, o [[lexico:g:governo|governo]] pertencia aos reis e a propriedade aos súditos, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que era [[lexico:d:dever|dever]] do rei governar no interesse da propriedade de seus súbitos. “ [[lexico:c:comunidade|comunidade]] ” como se disse recentemente, “existia principalmente em benefício da riqueza comum ” [R. W. K. Hinton, “Was Charles I a tyrant?”, Review of Politics, v. XVIII (jan. 1956).]. Quando se permitiu que essa riqueza comum, resultado de [[lexico:a:atividades|atividades]] anteriormente relegadas à privatividade dos lares, conquistasse o domínio público, as posses privadas – essencialmente muito menos permanentes e muito mais vulneráveis à mortalidade de seus proprietários que o mundo comum, que sempre resulta do passado e se destina a continuar a existir para as gerações futuras – passaram a minar a [[lexico:d:durabilidade|durabilidade]] do mundo. É verdade que a riqueza pode ser acumulada a tal ponto que nenhuma vida individual será capaz de consumi-la, de sorte que a família, mais que o indivíduo, vem a ser sua proprietária. No entanto, a riqueza não deixa de ser algo destinado ao uso e ao consumo, não importa quantas vidas individuais ela possa sustentar. Somente quando a riqueza se transformou em [[lexico:c:capital|capital]], cuja [[lexico:f:funcao|função]] principal era gerar mais capital, é que a propriedade privada igualou ou avizinhou a [[lexico:p:permanencia|permanência]] inerente ao mundo partilhado em comum. Essa permanência, contudo, é de outra natureza: é a permanência de um processo, mais que a permanência de uma [[lexico:e:estrutura|estrutura]] estável. Sem o processo de acumulação, a riqueza recairia imediatamente no processo oposto de [[lexico:d:desintegracao|desintegração]] por meio do uso e do consumo. A riqueza comum, portanto, jamais pode tornar-se comum no sentido que atribuímos a um mundo comum; permaneceu – ou, antes, destinava-se a permanecer – estritamente privada. Comum era somente o governo, nomeado para proteger uns dos outros os proprietários privados na [[lexico:l:luta|luta]] competitiva por mais riqueza. A [[lexico:c:contradicao|contradição]] óbvia desse moderno conceito de governo, em que a única [[lexico:c:coisa|coisa]] que as pessoas têm em comum são os seus interesses privados, já não deve nos incomodar como ainda incomodava Marx, pois sabemos que a contradição entre o privado e o público, [[lexico:t:tipica|típica]] dos estágios iniciais da era moderna, foi um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] [[lexico:t:temporario|temporário]] que trouxe a completa extinção da diferença entre os domínios [[lexico:p:privado-e-publico|privado e público]], a submersão de ambos na [[lexico:e:esfera|esfera]] do social. Pela mesma [[lexico:r:razao|razão]], estamos em [[lexico:p:posicao|posição]] bem melhor para [[lexico:c:compreender|compreender]] as consequências, para a [[lexico:e:existencia|existência]] humana, do desaparecimento de ambas essas esferas da vida – a esfera pública, porque se tornou uma função da esfera privada, e a esfera privada, porque se tornou a única preocupação comum que restou. [ArendtCH, 9]