===== REVELAÇÃO ===== (in. Revelation; fr. Révélation; al. Offenbarung; it. Rivelazioné). [[lexico:m:manifestacao|Manifestação]] da [[lexico:v:verdade|verdade]] ou da [[lexico:r:realidade|realidade]] suprema aos homens. A revelação foi entendida de duas maneiras: 1) como revelação histórica; 2) como revelação [[lexico:n:natural|natural]]. 1) É histórica a revelação que toda [[lexico:r:religiao|religião]] positiva adota como [[lexico:f:fundamento|fundamento]]. Consiste na [[lexico:i:iluminacao|iluminação]] com que foram agraciados alguns membros da [[lexico:c:comunidade|comunidade]], cuja [[lexico:t:tarefa|tarefa]] teria sido encaminhar a comunidade para a [[lexico:s:salvacao|salvação]]. Neste [[lexico:s:sentido|sentido]], a revelação é um [[lexico:f:fato-historico|fato histórico]], ao qual se atribui a [[lexico:o:origem|origem]] da [[lexico:t:tradicao|tradição]] religiosa. 2) A revelação natural é a manifestação de [[lexico:d:deus|Deus]] na [[lexico:n:natureza|natureza]] e no [[lexico:h:homem|homem]]. Às vezes essa [[lexico:f:forma|forma]] de revelação é admitida ao lado da outra, outras vezes é negada ou subordinada à outras. Só o [[lexico:c:conceito|conceito]] de revelação natural tem [[lexico:v:valor|valor]] filosófico, sendo o [[lexico:o:outro|outro]] especificamente [[lexico:r:religioso|religioso]]. Contudo a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] hauriu o conceito de realidade natural e humana como manifestação de um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:s:sobrenatural|sobrenatural]] ou [[lexico:d:divino|divino]] da própria religião, sendo [[lexico:e:esse|esse]] conceito [[lexico:t:tipico|típico]] das filosofias que têm [[lexico:c:carater|caráter]] ou [[lexico:f:finalidade|finalidade]] religiosa. Na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], esse conceito pertenceu aos neoplatônicos, para [[lexico:q:quem|quem]] o [[lexico:m:mundo|mundo]], como [[lexico:p:produto|produto]] da [[lexico:e:emanacao|emanação]] divina, revela, pelo menos parcial ou imperfeitamente, a natureza divina que o produz. Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, [[lexico:s:scotus-erigena|Scotus Erigena]] chamava de [[lexico:t:teofania|teofania]] o [[lexico:p:processo|processo]] de descida de Deus ao homem e de subida do homem a Deus; também chamava de teofania toda a [[lexico:o:obra|obra]] da [[lexico:c:criacao|criação]], porquanto ela manifesta a [[lexico:s:substancia|substância]] divina que se torna [[lexico:s:sensivel|sensível]] nela e através dela (De divis. nat., I, 10; V, 23). Este conceito reapareceu com frequência na [[lexico:h:historia-da-filosofia|história da filosofia]], mas a maior [[lexico:r:recorrencia|recorrência]] se deu na filosofia do [[lexico:r:romantismo|Romantismo]]. [[lexico:f:fichte|Fichte]], p. ex., dizia: "O [[lexico:s:saber|saber]] é a [[lexico:e:existencia|existência]], a manifestação, a perfeita [[lexico:i:imagem|imagem]] da [[lexico:f:forca|força]] divina" (Grundzuge der gegenwärtigen Zeitalters, 1806, LX). Este [[lexico:p:pensamento|pensamento]] domina também as filosofias de Scheling e de [[lexico:h:hegel|Hegel]]. No entanto, cumpre observar que nelas a revelação [[lexico:n:nao|não]] é apenas manifestação: é também — como dizia Fichte — existência (isto é, realização) de Deus. É essa a [[lexico:c:caracteristica|característica]] específica assumida pelo conceito de revelação no romantismo e conservada de maneira mais ou menos decisiva nas filosofias da revelação que constituem a segunda fase do romantismo e têm como [[lexico:l:lema|lema]] a defesa da tradição. As filosofias de [[lexico:m:maine-de-biran|Maine de Biran]], Rosmini, Gioberti, Mazzini partem todas do princípio de que a [[lexico:c:consciencia|consciência]] é a revelação de Deus. A propósito, Maine de Biran [[lexico:n:nada|nada]] mais fazia que exprimir uma [[lexico:c:conviccao|convicção]] bastante difundida ao afirmar que a revelação não é apenas externa (tradição oral ou [[lexico:e:escrita|escrita]]), mas é também interna ou da consciência, visto que ambas procedem diretamente de Deus (OEuvres, ed. Naville, III, p. 96). O conceito de revelação foi adotado como fundamento da filosofia de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]], mas sem o tom religioso do séc. XIX. A revelação do [[lexico:s:ser|ser]], segundo Heidegger, nunca é perfeita e exaustiva porque o ser se esconde ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] em que se revela: "O ser subtrai-se a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] enquanto se revela no [[lexico:e:ente|ente]]. Assim, o ser, iluminando o ente, ao mesmo tempo o desvia e o encaminha para o [[lexico:e:erro|erro]]" (Holzwege, p. 310). Segundo Heidegger, a revelação do ser ocorre através da [[lexico:l:linguagem|linguagem]], que não é [[lexico:i:instrumento|instrumento]] [[lexico:h:humano|humano]], mas o [[lexico:p:proprio|próprio]] ser em sua revelação (Brief uber den Humanismus, p. 81). Por outro lado, a concepção da linguagem como revelação hoje não pertence apenas a Heidegger. [[lexico:o:o-que-e|o que é]] mais uma [[lexico:p:prova|prova]] da persistência em filosofia do conceito teológico de revelação. Etimologicamente, é toda e qualquer manifestação do que está [[lexico:o:oculto|oculto]]. Em sentido religioso, revelação é a manifestação do oculto feita por um poder [[lexico:s:superior|superior]], concretamente por Deus. Na linguagem cor-rente dá-se, às vezes, o [[lexico:n:nome|nome]] de revelação a um [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] repentino, que já estava preparado no [[lexico:s:subconsciente|subconsciente]], cujas [[lexico:c:causas|causas]], porém, não se adivinham (como, p. ex., na inspiração do [[lexico:a:artista|artista]]). Aparentada com este sentido do [[lexico:t:termo|termo]] é a concepção modernista da revelação, segundo a qual a revelação é só o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] religioso que brota do subconsciente. Contudo, a revelação, em sentido propriamente [[lexico:d:dito|dito]], implica alguém que manifeste o oculto, alguém que receba a manifestação e uma verdade manifestada. A mera consciência da interna [[lexico:r:relacao|relação]] a Deus ([[lexico:m:mistica|mística]]) não constitui ainda revelação. — A manifestação da existência e de certos atributos de Deus, inseparavelmente unida à criação, recebe o nome de revelação natural. Dela importa distinguir, segundo a [[lexico:t:teologia|teologia]] católica, aquela revelação que se manifesta mediante linguagem propriamente dita e pelo [[lexico:t:testemunho|testemunho]] de Deus. Chama-se revelação sobrenatural, porque nem a [[lexico:n:natureza-humana|natureza humana]] a exige, nem ela obedece à [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de qualquer [[lexico:l:lei-natural|lei natural]]. Deve aqui entender-se por linguagem, não um processo fisiológico, mas uma atuação mediata (por [[lexico:m:meio|meio]] de sinais) ou imediata de Deus sobre o [[lexico:e:espirito|espírito]] humano, pela qual Ele não só lhe comunica certas [[lexico:i:ideias|ideias]] (enunciados), como também, por meio de sinais seguros ([[lexico:m:milagre|milagre]]) dá a conhecer que é Ele quem as comunica e abona a verdade delas. O [[lexico:o:objeto|objeto]] da [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] podem ser [[lexico:m:misterios|mistérios]], por sua natureza ocultos ao homem, e outrossim verdades em princípio não incognoscíveis ao homem, acerca das quais, porém, este recebe nova e infalível [[lexico:c:certeza|certeza]], mercê do testemunho divino. A [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] da revelação sobrenatural baseia-se em que Deus é um ser [[lexico:p:pessoal|pessoal]], inteligente e livre, cuja [[lexico:a:acao|ação]] extrínseca não pode ser limitada pelas leis naturais. A [[lexico:m:mudanca|mudança]], que a revelação implica, verifica-se exclusivamente no [[lexico:e:entendimento|entendimento]] que a recebe. — As religiões que invocam uma revelação sobrenatural em favor de seu conteúdo doutrinal [[lexico:e:essencial|essencial]] e de suas instituições fundamentais chama-se religiões reveladas. Religiões diferentes, na [[lexico:m:medida|medida]] em que se contradizem no que tange ao conteúdo doutrinal, não podem [[lexico:e:estar|estar]] simultaneamente fundadas numa revelação [[lexico:r:real|real]]. Para que a aceitação da revelação, que se verifica pela [[lexico:f:fe|fé]], seja obrigatória, deve o [[lexico:f:fato|fato]] da revelação estar assegurado pelo menos com certeza prática. Nem por [[lexico:p:parte|parte]] de Deus, nem por parte do homem, é [[lexico:n:necessario|necessário]] que a revelação se dirija imediatamente aos indivíduos: pode igualmente ser transmitida por pessoas intermédias, dignas de fé. A natureza do homem como ser [[lexico:h:historico|histórico]] implica que este deva poder encontrar a Deus pelo [[lexico:c:caminho|caminho]] da revelação e, por conseguinte, na [[lexico:h:historia|história]]. — [[lexico:b:brugger|Brugger]].