===== RES COGITANS ===== Ao [[lexico:s:ser|ser]], [[lexico:d:descartes|Descartes]] em sua [[lexico:l:linguagem|linguagem]], denomina [[lexico:s:substancia|substância]], [[lexico:c:coisa|coisa]]. Aquilo que significa o [[lexico:s:substancialismo|substancialismo]] no [[lexico:c:cartesianismo|cartesianismo]] do [[lexico:c:comeco|começo]], [[lexico:n:nao|não]] o das Regras, mas o da Segunda [[lexico:m:meditacao|meditação]], o que se iguala ao Começo e, nesse [[lexico:m:momento|momento]] inaudito e [[lexico:u:unico|único]] do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] ocidental, identifica-se com o surgimento inaugural do [[lexico:a:aparecer|aparecer]], torna-se transparente. “Coisa”, na [[lexico:e:expressao|expressão]] “coisa que pensa”, não indica [[lexico:n:nada|nada]] para [[lexico:a:alem|além]] do aparecer na [[lexico:a:atualidade|atualidade]] de sua efetuação, [[lexico:c:como-se|como se]] aparecer designasse uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:a:aparencia|aparência]], um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] – Shein, Ersheinung – deixando ainda atrás de si a [[lexico:r:realidade|realidade]], revelando-a de [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:m:mediato|mediato]], quer dizer, ocultando-a, algo que, em seu mostrar-se, remete a [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] de [[lexico:o:outro|outro]] que, por sua vez, não se mostra, não se manifesta. “Coisa pensante” designa antes o que se mostra no mostrar-se, ao passo que o que se mostra não é alguma coisa, mas o [[lexico:p:proprio|próprio]] mostrar-se. A “alguma coisa da substância”, a “coisa”, é apenas a aparição do próprio aparecer e seu brilho. Para [[lexico:s:saber|saber]] [[lexico:o:o-que-e|o que é]] uma coisa, algo, o ser, Descartes não vê como necessária a consideração dos animais, das plantas, das [[lexico:i:ideias|ideias]] – [[lexico:d:dado|dado]] que nada disso existe depois da [[lexico:d:duvida|dúvida]]. Para ele, é suficiente tomar [[lexico:n:nota|nota]] da [[lexico:f:fulguracao|fulguração]] do aparecer e de sua [[lexico:p:parusia|parusia]] [gr. παροὐσία, parousia, nova vinda ou visita]. Uma “coisa que pensa” nada mais é do que o resplendor do clarão, a [[lexico:l:luz|luz]] que se ilumina, a [[lexico:s:substancialidade|substancialidade]] desta coisa é a efetividade fenomenológica, a materialidade da [[lexico:f:fenomenalidade|fenomenalidade]] como tal. É ainda novamente contra [[lexico:g:gassendi|Gassendi]], talvez também contra toda [[lexico:a:assercao|asserção]] da [[lexico:c:consciencia|consciência]] [[lexico:n:natural|natural]], que Descartes direciona a sua a [[lexico:i:ironia|ironia]] exasperada: *Admira-me também que sustentais que possa não [[lexico:e:estar|estar]] no [[lexico:e:espirito|espírito]] a [[lexico:i:ideia|ideia]] do que, em [[lexico:g:geral|geral]], nomeia-se coisa, e isso ‘caso não se encontrem juntas nele também as ideias de um [[lexico:a:animal|animal]], de uma planta, de uma pedra e de todos os [[lexico:u:universais|universais]]’, como se, para conhecer que [[lexico:e:eu|eu]] sou uma coisa que pensa, eu devesse conhecer os animais e as plantas, posto que eu devo conhecer o que se nomeia coisa ou, então, o que é, em geral, uma coisa [FA, II, p. 805; AT, VII, p. 362.]*. Ao referir subitamente a ideia de coisa à coisa que pensa e ao pretender fundá-la exclusivamente sobre essa última, Descartes não rejeita somente, de maneira explícita, toda [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do ser a partir do [[lexico:e:ente|ente]] e como ser do ente. Ele faz com que sejam dados os primeiros passos de uma [[lexico:d:disciplina|disciplina]] inteiramente nova, aquela que, depois dele, não seria quase nada desenvolvida, e à qual denominaremos doravante como [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] material. Nessa fenomenologia, não é o [[lexico:f:fato|fato]] de aparecer que é considerado, em [[lexico:r:relacao|relação]] ao que aparece, por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e em sua [[lexico:d:diferenca|diferença]] radical, mas é seu conteúdo que é explicitamente e exclusivamente levado em conta, todavia, enquanto conteúdo [[lexico:o:ontologico|ontológico]] e [[lexico:p:puro|puro]] conteúdo fenomenológico. Nesse [[lexico:p:ponto|ponto]], encontra-se o que significa, inicialmente, a ideia de [[lexico:r:res-cogitans|res cogitans]], porquanto ela é uma coisa da qual toda [[lexico:e:essencia|essência]] é [[lexico:p:pensar|pensar]], quer dizer, da qual a substancialidade e a materialidade são a substancialidade e a materialidade pura como tais, e nada mais. [[lexico:m:mhpsique|MHPsique]]:53-55]