===== REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS ===== intuitiven Vorstellungen A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] [[lexico:c:capital:start|capital]] entre todas as nossas representações é a entre intuitivas e abstratas. Estas últimas constituem apenas uma [[lexico:c:classe:start|classe]] de representações, os [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] – que são sobre a face da [[lexico:t:terra:start|Terra]] [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] exclusiva do [[lexico:h:homem:start|homem]], cuja [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] para formulá-los o distingue dos animais e desde sempre foi nomeada [[lexico:r:razao:start|razão]]. Mais adiante consideraremos tais [[lexico:r:representacoes-abstratas:start|representações abstratas]] [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmas; antes, porém, falaremos exclusivamente das **[[lexico:r:representacoes-intuitivas:start|REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS]]**. Estas abrangem [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] visível, ou a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] inteira, ao lado das suas condições de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. Trata-se, como [[lexico:d:dito:start|dito]], de uma [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] muito importante de [[lexico:k:kant:start|Kant]] o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que justamente semelhantes condições, formas do mundo visível, o mais [[lexico:u:universal:start|universal]] em sua [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] comum a todos os seus fenômenos, isto é, [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e [[lexico:e:espaco:start|espaço]], possam [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:n:nao:start|não]] apenas pensados in abstracto por si e separados do seu conteúdo, mas também intuídos imediatamente. [[lexico:i:intuicao:start|Intuição]] que não é como um [[lexico:f:fantasma:start|fantasma]], extraído por [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] da experiência, mas tão [[lexico:i:independente:start|independente]] desta que, ao contrário, a experiência tem antes de ser pensada como dependente dela, visto que as propriedades do espaço e do tempo, conhecidas [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] pela intuição, valem para toda experiência [[lexico:p:possivel:start|possível]] como leis com as quais, na experiência, tudo tem de concordar. Eis por que, no meu ensaio sobre o [[lexico:p:principio:start|princípio]] de razão, considerei o tempo e o espaço, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que são intuídos puramente e vazios de conteúdo, uma classe especial de representações que subsistem por si mesmas. De extrema importância é a propriedade descoberta por Kant de que justamente essas formas [[lexico:u:universais:start|universais]] da intuição são intuíveis por si, independentes da experiência, e cognoscíveis segundo sua inteira conformidade a leis, nisso baseando-se a [[lexico:m:matematica:start|matemática]] com sua infalibilidade. Contudo, uma propriedade não menos digna de consideração das mesmas é que, aqui, o princípio de razão, que determina tanto a experiência como [[lexico:l:lei-de-causalidade:start|lei de causalidade]] e [[lexico:m:motivacao:start|motivação]] quanto o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] como [[lexico:l:lei:start|lei]] de fundamentação dos juízos, assume uma [[lexico:f:figura:start|figura]] inteiramente peculiar, à qual dei o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:p:principio-de-razao-de-ser:start|princípio de razão de ser]], que, no tempo, é a [[lexico:s:sequencia:start|sequência]] de seus momentos e, no espaço, é a [[lexico:p:posicao:start|posição]] de suas partes que se determinam reciprocamente ao [[lexico:i:infinito:start|infinito]]. SMVR1 Livro I §3 Contudo, guardemo-nos do grande mal-entendido de que, por ser a intuição intermediada pelo [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]], existe uma [[lexico:r:relacao:start|relação]] de [[lexico:c:causa-e-efeito:start|causa e efeito]] entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]]. Antes, a mesma só tem [[lexico:l:lugar:start|lugar]], sempre, entre [[lexico:o:objeto:start|objeto]] [[lexico:i:imediato:start|imediato]] e [[lexico:m:mediato:start|mediato]], sempre, pois, apenas entre objetos. Precisamente sobre aquela [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] falsa assenta-se a tola controvérsia acerca da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] do mundo [[lexico:e:exterior:start|exterior]], na qual se enredam [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] e [[lexico:c:ceticismo:start|ceticismo]], o primeiro entrando em cena ora como [[lexico:r:realismo:start|realismo]], ora como [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]. O realismo põe o objeto como [[lexico:c:causa:start|causa]], e o [[lexico:e:efeito:start|efeito]] dele no [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]. O idealismo fichtiano faz do objeto um efeito do sujeito. Como, entretanto – no que nunca é demais insistir –, entre sujeito e objeto não há relação alguma segundo o princípio de razão, segue-se que nem uma nem outra das duas afirmações pode ser comprovada, e o ceticismo faz ataques vitoriosos a ambas. De fato, visto que a lei de causalidade já precede como sua [[lexico:c:condicao:start|condição]] a intuição e a experiência, e, assim, não pode ser aprendida desta (como o queria [[lexico:h:hume:start|Hume]]); segue-se também que sujeito e objeto já precedem como primeira condição a qualquer experiência, logo também precedem ao princípio de razão em [[lexico:g:geral:start|geral]], já que este é apenas a [[lexico:f:forma:start|forma]] de todo objeto, a maneira universal de sua aparição: o objeto, não obstante, já pressupõe sempre o sujeito: por isso entre os dois não pode haver relação alguma de [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] a [[lexico:c:consequencia:start|consequência]]. Meu ensaio sobre o princípio de razão mostrou justamente isso. O conteúdo do princípio de razão é a forma [[lexico:e:essencial:start|essencial]] de todo objeto e precede a ele como tal, ou seja, é a maneira universal de todo ser-objeto. Mas, desse [[lexico:m:modo:start|modo]], o objeto pressupõe em toda [[lexico:p:parte:start|parte]] o sujeito como seu correlato [[lexico:n:necessario:start|necessário]]. Sujeito que permanece sempre fora do domínio de [[lexico:v:validade:start|validade]] do referido princípio. A controvérsia sobre a realidade do mundo exterior baseia-se exatamente sobre a falsa [[lexico:e:extensao:start|extensão]] da validade do princípio de razão ao sujeito. Partindo desse mal-entendido ela nunca pôde entender a si mesma. O dogmatismo realista, ao considerar a [[lexico:r:representacao:start|representação]] como efeito do objeto, quer separar representação e objeto, que no fundo são uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] só, e assumir uma causa completamente diferente da representação, um objeto em si independente do sujeito: algo no todo impensável, pois, precisamente como objeto, este já pressupõe sempre de novo o sujeito e permanece, por isso, sempre apenas uma sua representação. Contrapõe-se a ele o ceticismo, sob a mesma falsa pressuposição de que na representação se tem todas as vezes apenas o efeito, nunca a causa, portanto conhece-se apenas o fazer-efeito, jamais o ser dos objetos. Fazer-efeito que, contudo, não poderia [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] alguma com o ser, todavia falsamente assumida, já que a lei de causalidade é primeiro tomada a partir da experiência, cuja realidade deve novamente assentar nela. Em face desses procedimentos, tem-se de fazer uma correção de ambos, primeiro com o ensinamento de que objeto e representação são uma única e mesma coisa; em seguida, que o ser dos objetos intuíveis é precisamente o seu fazer-efeito, exatamente neste consistindo a efetividade das [[lexico:c:coisas:start|coisas]], e que exigir a [[lexico:e:existencia:start|existência]] do objeto exteriormente à representação do sujeito, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como um ser da coisa efetiva diferente de seu fazer-efeito, não possui [[lexico:s:sentido:start|sentido]] algum e constitui uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Eis por que o conhecimento da maneira de fazer efeito de um objeto intuído o esgota como objeto mesmo, isto é, como representação, fora da qual [[lexico:n:nada:start|nada]] resta dele para o conhecimento. Neste sentido, o mundo intuído no espaço e no tempo, a dar [[lexico:s:sinal:start|sinal]] de si como causalidade pura, é perfeitamente [[lexico:r:real:start|real]], sendo no todo aquilo que anuncia de si – e ele se anuncia por completo e francamente como representação, ligada conforme a lei de causalidade. Trata-se da realidade empírica do mundo. Por sua vez, a causalidade está apenas no [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] e para o entendimento; daí todo o mundo que faz-efeito, isto é, [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], ser sempre como tal condicionado pelo entendimento, nada sendo sem ele. Porém, não exclusivamente por [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:m:motivo:start|motivo]], mas já porque, em geral, objeto algum se deixa [[lexico:p:pensar:start|pensar]], isento de contradição, sem o sujeito, temos de negar absolutamente ao dogmático a sua explanação da realidade do mundo exterior como algo independente do sujeito. O mundo inteiro dos objetos é e permanece representação, e precisamente por isso é, sem [[lexico:e:excecao:start|exceção]] e em toda a [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]], condicionado pelo sujeito, ou seja, possui [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]. Desta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] não é uma [[lexico:m:mentira:start|mentira]] nem uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]. Ele se oferece como é, como representação, e em [[lexico:v:verdade:start|verdade]] como uma [[lexico:s:serie:start|série]] de representações cujo vínculo comum é o princípio de razão. Assim, o mundo, como tal, é compreensível para o entendimento saudável, mesmo em sua [[lexico:s:significacao:start|significação]] mais íntima, e lhe [[lexico:f:fala:start|fala]] uma [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] perfeitamente clara. Meramente ao [[lexico:e:espirito:start|espírito]] pervertido por [[lexico:s:sofismas:start|sofismas]] pode ocorrer disputar acerca da sua realidade, o que todas as vezes ocorre pelo [[lexico:u:uso:start|uso]] incorreto do princípio de razão, que de fato liga todas as representações entre si, não importa o seu [[lexico:t:tipo:start|tipo]], mas de modo algum as liga com o sujeito, ou com algo que não seria sujeito nem objeto mas mero fundamento do objeto; um [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], visto que apenas objetos podem ser fundamento e, em verdade, sempre de outros objetos. Caso se investigue mais a fundo a [[lexico:o:origem:start|origem]] dessa polêmica acerca da realidade do mundo exterior, então se encontrará que, [[lexico:a:alem:start|além]] daquele [[lexico:f:falso:start|falso]] uso do princípio de razão naquilo que se encontra fora de seu domínio, ainda Há uma confusão especial envolvendo as suas figuras. Noutros termos, a figura que ele tem exclusivamente em [[lexico:r:referencia:start|referência]] aos conceitos ou representações abstratas é aplicada às **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, aos objetos reais, e, assim, exige-se um fundamento do conhecer para objetos que não podem ter [[lexico:o:outro:start|outro]] senão um fundamento do [[lexico:d:devir:start|devir]]. As representações abstratas, os conceitos ligados em juízos, são regidas com [[lexico:c:certeza:start|certeza]] pelo princípio de razão, na medida em que cada uma delas tem seu [[lexico:v:valor:start|valor]], sua validade, sua existência inteira, aqui denominada verdade, única e exclusivamente mediante a relação do [[lexico:j:juizo:start|juízo]] com algo fora dele, seu fundamento de conhecimento, ao qual, portanto, sempre tem de ser referida. Os objetos reais, as **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, ao contrário, são regidos pelo princípio de razão não como princípio de razão de conhecer, mas de devir, como lei de causalidade. Cada um de tais objetos paga o seu tributo a ele pelo fato de ter vindo-a-ser, isto é, ter surgido como efeito de uma causa. A exigência, aqui, de um fundamento de conhecimento não tem validade alguma, nem sentido, mas pertence a uma classe completamente diferente de objetos. Em [[lexico:f:funcao:start|função]] disso, o mundo intuitivo, por mais que se permaneça nele, não desperta [[lexico:e:escrupulo:start|escrúpulo]] nem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] no contemplador. Aqui não há [[lexico:e:erro:start|erro]] nem verdade (confinados ao domínio [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]). Aqui o mundo se dá [[lexico:a:aberto:start|aberto]] aos sentidos e ao entendimento, com ingênua verdade como aquilo que é, como representação [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]], a desenvolver-se legalmente no vínculo da causalidade. SMVR1 Livro I §5 O procedimento [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] pode ser desenvolvido mais consequentemente e levado o mais longe possível quando se dá como [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] propriamente dito. Este pressupõe a [[lexico:m:materia:start|matéria]], junto com o tempo e o espaço, como subsistindo absolutamente, e salta por sobre a relação com o sujeito, unicamente no qual tudo isso decerto existe. O materialismo assume a lei de causalidade como fio. condutor, e com ela quer progredir, tomando-a como uma ordenação de coisas a [[lexico:s:subsistir:start|subsistir]] por si, veritas aeterna ; em consequência, salta por sobre o entendimento, unicamente no qual e para o qual existe a lei de causalidade. Então, tenta encontrar o primeiro e mais [[lexico:s:simples:start|simples]] [[lexico:e:estado:start|Estado]] da matéria, para, em seguida, desenvolver todos os outros a partir dele, ascendendo do mero [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] ao quimismo, [[lexico:p:polaridade:start|polaridade]], vegetação, animalidade. Ora, supondo que tudo isso desse certo, o [[lexico:u:ultimo:start|último]] elo da cadeia seria a [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]] [[lexico:a:animal:start|animal]], o conhecimento, que, portanto, [[lexico:a:agora:start|agora]], entraria em cena como uma mera modificação da matéria, um estado produzido a partir desta pela causalidade. Se com **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** seguíssemos o materialismo até este [[lexico:p:ponto:start|ponto]], então, ao chegar no ápice, seríamos subitamente assaltados pelo [[lexico:r:riso:start|riso]] inextinguível dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] do Olimpo, na medida em que, como despertando de um [[lexico:s:sonho:start|sonho]], perceberíamos de repente que seu último resultado, laboriosamente produzido, o conhecimento, já era [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] como condição absolutamente necessária no primeiríssimo ponto de partida, a mera matéria que pensávamos figurar, mas de fato tínhamos pensado tão-somente no sujeito que a representa, no olho que a vê, na mão que a sente, no entendimento que a conhece. Assim, desvelar-se-ía a inesperada e enorme petitio principii, [petição de princípio] pois subitamente se mostraria o último elo como o ponto fixo do qual o primeiro já pendia, e a cadeia formaria um [[lexico:c:circulo:start|círculo]]. O materialista se assemelha ao Barão de Munchhausen, que, debatendo-se na água e montado em seu cavalo, puxa este para cima com as pernas, e levanta a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] pela ponta da peruca estendida ao alto. Daí que a absurdidade fundamental do materialismo consiste em partir do objetivo, em tomar algo objetivo por fundamento último de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]], seja a matéria como ela é apenas pensada in abstracto, ou já revestida de forma e dada empiricamente, portanto o estofo, como os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] químicos fundamentais e suas combinações primárias. Procedendo assim, considera a matéria como existente em si e absolutamente, para dela fazer surgir a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] orgânica e, ao [[lexico:f:fim:start|fim]], o sujeito que conhece, e assim explica a este de maneira completa; – enquanto, em verdade, todo objetivo, já como tal, é condicionado de maneira variada pelo sujeito que conhece e suas formas cognitivas, pressupondo-os. Logo, caso se abstraia o sujeito, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] objetivo desaparece por completo. O materialismo é, portanto, a tentativa de nos explicitar o que é [[lexico:d:dado:start|dado]] imediatamente a partir do que é dado mediatamente. Todo objetivo, extenso, que faz-efeito, portanto todo material, que o materialismo considera um fundamento tão sólido de suas explicitações, que uma [[lexico:r:reducao:start|redução]] a ele (sobretudo se o resultado forem choques e contra-choques) não deixa nada a desejar – tudo isso é algo dado de maneira inteiramente mediata e condicionada, portanto, tem [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] meramente relativa, pois passou pela maquinaria e [[lexico:f:fabricacao:start|fabricação]] do cérebro; por conseguinte, entrou em suas formas, tempo, espaço e causalidade, apenas devido às quais se expôs como extenso no espaço e fazendo efeito no tempo. De algo dado dessa maneira o materialismo pretende [[lexico:e:explicar:start|explicar]] inclusive o que é dado imediatamente, a representação (na qual tudo existe) e, ao fim, até mesmo a [[lexico:v:vontade:start|vontade]], a partir da qual, antes, todas aquelas forças fundamentais, que se exteriorizam pelo fio condutor das [[lexico:c:causas:start|causas]] (portanto legalmente) são na verdade para se explicitar. – À [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que o conhecimento é modificação da matéria, contrapõe-se sempre com igual [[lexico:d:direito:start|direito]] a afirmação contrária, de que toda matéria é apenas modificação do conhecer do sujeito, como representação do mesmo. Não obstante, o fim e [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de qualquer [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] da natureza é, no fundo, um materialismo desenvolvido até as suas últimas consequências. Todavia, este é por nós aqui reconhecido como manifestamente [[lexico:i:impossivel:start|impossível]], o que confirma uma outra verdade, que resultará da nossa consideração posterior, de que toda ciência no sentido [[lexico:p:proprio:start|próprio]] do [[lexico:t:termo:start|termo]], compreendida como conhecimento [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]] guiado pelo fio condutor do princípio, de razão, nunca alcança-um fim último, nem pode fornecer uma explicação completa e suficiente, porque jamais roca a [[lexico:e:essencia:start|essência]] mais íntima do mundo, jamais vai além da representação, antes, basicamente, somente conhece a relação de uma representação com outra. SMVR1 Livro I §7 Os conceitos [representações abstratas] formam uma classe [[lexico:p:particular:start|particular]] de representações, encontrada apenas no espírito do homem, e diferente toto genere das **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** consideradas até agora. Não podemos, por isso, jamais alcançar um conhecimento evidente de sua essência, mas tão-somente um conhecimento abstrato e [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]]. Seria, pois, absurdo exigir que eles fossem comprovados pela experiência – na medida em que esta é compreendida como o mundo [[lexico:e:externo:start|externo]] real, que justamente é representação intuitiva – ou devessem ser trazidos perante os olhos, ou perante a [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]] como os objetos intuíveis. Os conceitos permitem apenas pensar, não intuir, e tão-somente os efeitos que o homem produz por eles são objetos da experiência propriamente dita. É o caso da linguagem, da [[lexico:a:acao:start|ação]] planejada e refletida, da ciência e de tudo o que delas resulta. A fala, como objeto da experiência externa, manifestamente não é outra coisa senão um telégrafo bastante aperfeiçoado que comunica sinais arbitrários com grande rapidez e nuances sutis. Que significam, porém, semelhantes sinais? Como são interpretados? Por [[lexico:a:acaso:start|acaso]], quando alguém fala, traduzimos o seu [[lexico:d:discurso:start|discurso]] instantaneamente em imagens da fantasia, que voam e se movimentam diante de nós com rapidez relâmpago, encadeadas, transformadas e matizadas de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com a torrente das [[lexico:p:palavras:start|palavras]] e suas flexões gramaticais? Que tumulto, então, não ocorreria em nossa cabeça durante a [[lexico:a:audicao:start|audição]] de um discurso ou a [[lexico:l:leitura:start|leitura]] de um livro! Mas de modo algum se passa dessa forma. O sentido do discurso é imediatamente intelectualizado, concebido e determinado de maneira precisa, sem que, via de [[lexico:r:regra:start|regra]], fantasmas se imiscuam. E a razão que fala para a razão, sem sair de seu domínio, e o que ela comunica e recebe são conceitos abstratos, representações não intuitivas, as quais, apesar de formadas uma vez para sempre e em [[lexico:n:numero:start|número]] relativamente pequeno, abarcam, compreendem e representam todos os incontáveis objetos do mundo efetivo. Por aí é explicável por que um animal nunca pode [[lexico:f:falar:start|falar]] e inteligir, embora possua o [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] da linguagem e também as **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**: justamente porque as palavras indicam aquela classe de representações inteiramente peculiar, cujo correlato [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] é a razão, não possuindo, assim, nenhum sentido e referência para os animais. Desse modo, a linguagem, como qualquer outro [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] que creditamos à razão e como tudo o que diferencia o homem do animal, pode ser explicitada por esta única e simples [[lexico:f:fonte:start|fonte]]: os conceitos, representações abstratas e universais, não individuais, não intuitivas no tempo e no espaço. Apenas em casos particulares passamos dos conceitos à intuição, formando fantasmas como intuitivos representantes dos conceitos, aos quais, todavia, nunca são adequados. Isto mereceu abordagem especial no meu ensaio sobre o princípio de razão, §28, pelo que me dispenso aqui de repetição. Com o que foi ali dito, compare-se o que escreveram Hume no décimo segundo dos seus Philosophical essays, p 244, e Herder em sua [[lexico:m:metacritica:start|Metacrítica]] (de resto um livro ruim), parte I, p 274 (a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] platônica, possível pela [[lexico:u:uniao:start|união]] de fantasia e razão, constituirá o [[lexico:t:tema:start|tema]] principal do [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] livro do presente [[lexico:e:escrito:start|escrito]]). SMVR1 Livro I §9 Embora, pois, os conceitos sejam desde o fundamento diferentes das **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, ainda assim se encontram numa relação necessária com estas, sem as quais nada seriam. Relação que, por conseguinte, constitui toda a sua [[lexico:e:essencia-e-existencia:start|essência e existência]]. A reflexão é necessariamente cópia, embora de tipo inteiramente especial, é repetição do mundo intuitivo primariamente figurado num estofo completamente heterogêneo. Por isso os conceitos podem ser denominados de maneira bastante apropriada representações de representações. O princípio de razão possui entre estas uma figura própria; e, assim como a figura pela qual ele rege uma classe de representações também sempre constitui e esgota a essência completa dela, na medida em que são representações; assim como, e isso já vimos, o tempo é absolutamente [[lexico:s:sucessao:start|sucessão]] e nada mais, o espaço é absolutamente [[lexico:s:situacao:start|situação]] e nada mais, a matéria é absolutamente causalidade e nada mais; – assim também a essência completa dos conceitos, ou da classe de representações abstratas, reside exclusivamente na relação que o princípio de razão exprime nelas. Ora, como tal relação é a do fundamento de conhecimento, segue-se que a representação abstrata possui sua essência, inteira e exclusivamente, em sua relação com uma outra representação que é seu fundamento de conhecimento. Esta última pode ser de novo um [[lexico:c:conceito:start|conceito]], ou representação abstrata, que por sua vez também pode ter um [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] fundamento de conhecimento; mas não ao infinito, pois a série de fundamentos de conhecimento tem de findar num conceito que tem seu fundamento no conhecimento intuitivo. Em verdade, o mundo todo da reflexão estriba sobre o mundo intuitivo como seu fundamento de conhecer. Eis por que a classe das representações abstratas possui como distintivo em relação à classe das **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** o fato de nestas o princípio de razão sempre exigir apenas uma referência a outra representação da mesma classe, enquanto naquelas exige, ao fim, uma referência a uma representação de outra classe. SMVR1 Livro I §9 Aqueles conceitos que, como especificado, referem-se ao conhecimento intuitivo não imediatamente, mas pela intermediação de um ou muitos outros conceitos, denominaram-se de preferência abstracta; ao contrário, aqueles que possuem seu fundamento imediatamente no mundo intuitivo, denominaram-se concreta. No entanto, esta última [[lexico:d:denominacao:start|denominação]] combina muito inapropriadamente com os conceitos por ela descritos, visto que também estes sempre ainda são abstracta e de modo algum **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**. Tais denominações procedem de uma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] muito obscura da diferença aí indicada; podem, no entanto, ser conservadas com o [[lexico:s:significado:start|significado]] referido. Exemplos do primeiro tipo, portanto abstracta em sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]], são conceitos como “relação, [[lexico:v:virtude:start|virtude]], [[lexico:i:investigacao:start|investigação]], princípio” etc.; exemplos do último tipo, ou os inapropriadamente chamados concreta, são os conceitos de “homem, pedra, cavalo” etc. Se não fosse uma comparação muito figurada e brincalhona, poder-se-ia de maneira muito acertada denominar os últimos conceitos o andar térreo e os primeiros, os andares superiores do edifício da reflexão . SMVR1 Livro I §9 Não é uma [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] essencial do conceito, como muitas vezes se diz, que ele abranja muito em si, ou seja, que muitas outras **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, ou mesmo abstratas estejam para ele na relação do fundamento de conhecimento, isto é, sejam pensadas por ele. Eis aí uma sua característica secundária e derivada, que, embora exista sempre potencialmente, não tem de se dar sempre, e provém de o conceito ser representação de uma representação, isto é, possuir sua essência inteira e exclusivamente em sua referência a outra representação. Ora, como ele não é essa representação mesma, a qual muitas vezes pertence a uma outra classe completamente diferente de representações, vale dizer, intuitivas, podendo possuir determinações temporais, espaciais e em geral muitas outras referências que não são pensadas de maneira alguma no conceito, segue-se que muitas representações não essencialmente diferentes são pensadas pelo mesmo conceito, isto é, podem ser nele subsumidas. Só que esse valer para muitas coisas não é uma característica essencial do conceito, mas meramente acidental. Pode haver conceitos mediante os quais um [[lexico:u:unico:start|único]] abjeto real é pensado. Tais conceitos, entretanto, são representações abstratas e universais e de modo algum particulares e intuitivas. Desse tipo, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], é o conceito que alguém faz de uma [[lexico:c:cidade:start|cidade]] determinada, porém conhecida só pela geografia. Embora apenas essa cidade seja aí pensada, o seu conceito poderia possivelmente servir para muitas outras cidades que se diferenciam apenas em certos aspectos. Logo, um conceito possui generalidade não porque é abstraído de muitos objetos, mas, ao contrário, justamente porque a generalidade, ou seja, a não [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do particular, é essencial ao conceito como representação abstrata da razão, apenas por isso podem diversas coisas ser pensadas mediante um mesmo conceito. SMVR1 Livro I §9 A razão é de natureza feminina, só pode dar depois de ter recebido. Abandonada a si mesma possui apenas as formas destituídas de conteúdo com que opera. Conhecimento [[lexico:r:racional:start|racional]] [[lexico:p:puro:start|puro]] e [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]] só há os dos [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] [[lexico:p:principios:start|princípios]] aos quais atribuí verdade metalógica, portanto, os princípios de [[lexico:i:identidade:start|identidade]], de contradição, do terceiro excluído e de [[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]] do conhecer. Pois até mesmo o restante da [[lexico:l:logica:start|lógica]] já não é mais conhecimento racional perfeitamente puro, já que pressupõe [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e combinações das esferas conceituais. Conceitos em geral, todavia, só existem depois das **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** prévias, em relação às quais se constitui toda a essência deles que, por conseguinte, já as pressupõe. Por outro lado, na medida em que essa pressuposição não se estende ao conteúdo determinado dos conceitos, mas somente, em geral, a uma existência dele, a lógica pode, sim, tomada em seu conjunto, passar por uma ciência pura da razão. Em todas as demais ciências a razão adquire o seu conteúdo a partir das **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**. Na matemática, a partir das relações do espaço e do tempo, conhecidas intuitivamente antes de qualquer experiência. Na ciência pura da natureza, isto é, naquilo que sabemos sobre o curso da natureza antes de qualquer experiência, o conteúdo da ciência provém do entendimento puro, ou seja, do conhecimento a priori da lei de causalidade, sua ligação com as intuições puras do espaço e do tempo. Nas demais ciências, tudo aquilo que não foi extraído das fontes mencionadas pertence à experiência. [[lexico:s:saber:start|saber]] em geral significa: ter determinados juízos em poder do próprio espírito para [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]] arbitrária, juízos estes que têm algum tipo de fundamento suficiente de conhecer exterior a si mesmos, isto é, são verdadeiros. Unicamente o conhecimento abstrato, pois, é um saber, que, portanto, é condicionado pela razão. Dos animais não podemos propriamente dizer que sabem algo, embora possuam conhecimento intuitivo, para o qual também dispõem de recordação e até mesmo de fantasia, comprovadas por seus sonhos. Atribuímos aos animais consciência, conceito este que, embora seja derivado de saber, coincide com o de representação em geral, não importa seu tipo. Eis por que atribuímos [[lexico:v:vida:start|vida]] às plantas, mas não consciência. – saber, numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]], é a consciência abstrata, o ter-fixo em conceitos da razão aquilo que foi conhecido em geral de outra maneira. SMVR1 Livro I §10 Não me deterei aqui mencionando anedotas e exemplos com o fim de exemplificar a minha explicação, pois se trata de algo tão simples e acessível, que dispensa tal procedimento. Como [[lexico:p:prova:start|prova]] do que foi dito, que o leitor leve em conta qualquer risível que lhe ocorra. Todavia, a nossa explicação é ao mesmo tempo confirmada e elucidada pelo desdobramento de dois tipos possíveis de risível, nos quais este se divide, e que procedem justamente daquela explicação, a saber: ou no conhecimento estão presentes dois ou mais objetos reais bem diferentes, **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, identificadas arbitrariamente pela [[lexico:u:unidade:start|unidade]] de um conceito que as engloba – caso em que se tem o dito espirituoso. Ou, ao contrário, o conceito primeiro se encontra no conhecimento e se vai dele para a realidade e para o fazer-efeito sobre ela, isto é, para o agir, e assim, objetos que noutros aspectos são fundamentalmente diferentes, porém pensados naquele conceito, são vistos e tratados da mesma maneira, até que a sua grande diferença entre em cena, para surpresa e [[lexico:a:admiracao:start|admiração]] de [[lexico:q:quem:start|quem]] age – caso em que se tem o disparate [[lexico:c:comico:start|cômico]]. Em conformidade com isso, todo risível é ou um caso de dito espirituoso, ou de uma ação disparatada, dependendo de se ter partido desde a discrepância dos objetos para a identidade do conceito, ou vice-versa: o primeiro caso é sempre voluntário, o último sempre involuntário e imposto de fora. Inverter de modo [[lexico:a:aparente:start|aparente]] esse ponto de vista e mascarar o dito espirituoso com o disparate cômico é a [[lexico:a:arte:start|arte]] do – bobo da corte e do palhaço. Tal [[lexico:p:personagem:start|personagem]], plenamente [[lexico:c:consciente:start|consciente]] da [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] dos objetos, une-os com secreto dito espirituoso num conceito e, partindo deste, obtém da diversidade ulteriormente encontrada entre os objetos aquela surpresa que ele mesmo havia preparado. – Infere-se desta curta, porém suficiente, [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do risível que, tirante o último caso do fazedor de brincadeiras, o dito espirituoso sempre se deve mostrar em palavras, o disparate cômico, entretanto, na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]] em [[lexico:a:acoes:start|ações]], embora também em palavras quando meramente expressa a [[lexico:i:intencao:start|intenção]], em vez de efetivamente consumá-la, ou também quando se exprime em meros juízos e opiniões. SMVR1 Livro I §13 Após as considerações sobre a razão enquanto [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] especial e exclusiva do homem, e sobre aqueles fenômenos e realizações próprios da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]], [[lexico:f:falta:start|falta]] ainda falar da razão na medida em que conduz a ação das pessoas, portanto, podendo nesse [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] ser denominada prática. Porém, o que aqui será mencionado encontra em grande parte o seu lugar em outro contexto, a saber, no apêndice deste livro, em que se contesta a existência da chamada [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]] de Kant, que ele (certamente por comodidade) expõe como fonte imediata de todas as [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] e sede de um deve [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] (ou seja, caído do [[lexico:c:ceu:start|céu]]). A [[lexico:r:refutacao:start|refutação]] minuciosa, desde os fundamentos, desse princípio kantiano da [[lexico:m:moral:start|moral]] foi por mim ulteriormente realizada nos Dois problemas fundamentais da [[lexico:e:etica:start|ética]]. – Em função disso, tenho aqui muito pouco a falar sobre a real [[lexico:i:influencia:start|influência]] da razão, no sentido [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] deste conceito, sobre o agir. Já no início de nossa consideração acerca dessa faculdade observamos, em termos gerais, como a ação e o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] do homem se diferenciam bastante da ação e do comportamento animal, e como semelhante diferença deve ser vista tão-somente como consequência da [[lexico:p:presenca:start|presença]] de conceitos abstratos na consciência. A influência destes sobre a nossa existência inteira é tão determinante e significativa que, em certo sentido, pode-se dizer que estamos para os animais, assim como os animais que vêem estão para os destituídos de olhos (certas larvas, vermes, zoófitos). Estes, pelo [[lexico:t:tato:start|tato]], conhecem apenas o que lhes está imediatamente presente no espaço e lhes chega pelo contato; os animais que veem, ao contrário, conhecem um amplo círculo do que está [[lexico:p:proximo:start|próximo]] e distante. Da mesma forma, a [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] de razão limita os animais às **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** que lhes são imediatamente presentes no tempo, ou seja, objetos reais. O homem, ao contrário, em virtude do conhecimento in abstracto, abrange, ao lado do presente efetivo e próximo, ainda o passado inteiro e o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], junto com o vasto [[lexico:r:reino:start|reino]] das possibilidades. Divisamos livremente a vida em todos os lados, a vida distante, além do presente e da realidade efetiva. Nesse sentido, portanto, o que no espaço é o olho para o [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]], corresponde, em certa medida, ao que no tempo é a razão para o conhecimento interior. E assim como a visibilidade dos objetos só tem valor e significação desde que indique a sua palpabilidade, assim também todo o valor do conhecimento abstrato reside sempre na sua referência ao conhecimento intuitivo. Eis por que o homem [[lexico:n:natural:start|natural]] sempre atribui mais valor àquilo que foi conhecido imediata e intuitivamente do que aos conceitos abstratos, meramente pensados. Ele prefere o conhecimento [[lexico:e:empirico:start|empírico]] ao [[lexico:l:logico:start|lógico]]. O contrário pensam as pessoas que vivem mais nas palavras que nos atos, que enxergaram mais no papel e nos livros que no mundo efetivo, e que, ao degenerarem, tornam-se pedantes e apegados à letra. Daí se torna concebível como [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] e Wolf, junto aos seus seguidores, puderam errar tanto a ponto de afirmarem, em conexão com Duns Skotus, que o conhecimento intuitivo não passa de um conhecimento abstrato confuso! Em [[lexico:h:honra:start|honra]] de Espinosa seja dito que seu [[lexico:s:senso:start|senso]] de correção, ao contrário, explicava todo conceito ordinário como tendo se originado da confusão do que foi conhecido intuitivamente (Eth II, prop 40, Schol. I). – Daquele pensamento invertido também resultou, na matemática, o desprezo por sua [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] propriamente dita, para fazer valer apenas a evidência lógica. Do mesmo pensamento invertido ainda resultou que, em geral, todo conhecimento não abstrato seja concebido sob o amplo conceito de [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]], merecedor de pouca consideração, e que, por fim, a ética kantiana afirme que a pura e [[lexico:b:boa-vontade:start|boa vontade]] despertada imediatamente pelo conhecimento das circunstâncias e que conduz à ação justa e benevolente, é mero sentimento, o que o faz tomá-la como destituída de valor e [[lexico:m:merito:start|mérito]]: ao contrário, só as ações derivadas de máximas abstratas são por ele reconhecidas como dotadas de valor moral. SMVR1 Livro I §16 A [[lexico:v:visao:start|visão]] panorâmica e multifacetada da vida em seu todo, que o homem tem pela razão e constitui [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] em face dos animais, é também comparável a um diminuto, descolorido e abstrato [[lexico:e:esquema:start|esquema]] geométrico que indica seu [[lexico:c:caminho:start|caminho]] de vida; com isso, ele está para os animais como o navegante, que, com suas cartas marítimas, compasso e quadrante, conhece com [[lexico:p:precisao:start|precisão]] a sua rota a cada posição no mar, está para a tripulação leiga que vê somente ondas e céu. Por isso é digno de consideração, sim, espantoso como o homem, ao lado de sua vida in [[lexico:c:concreto:start|concreto]], sempre leva uma segunda in abstracto. Na primeira está sujeito a todas as tempestades da realidade efetiva e à influência do presente, tendo de se esforçar, sofrer, morrer como o animal. Sua vida in abstracto, entretanto, [[lexico:c:como-se:start|como se]] dá à sua percepção racional, é o calmo [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] da vida in concreto do mundo em que vive, sendo justamente o seu mencionado diminuto esquema. Aqui, no domínio da calma [[lexico:p:ponderacao:start|ponderação]], aquilo que antes o assaltava por inteiro, movimentando-o vigorosamente, aparece-lhe como algo frio, descolorido e alheio ao [[lexico:m:momento:start|momento]]: ele se torna um mero [[lexico:o:observador:start|observador]] e espectador. Esse recolher-se na reflexão faz o homem parecer um ator que, depois de seu desempenho e até que entre novamente em cena, ocupa um lugar na plateia entre os espectadores, de onde, sereno, assiste à sucessão dos acontecimentos, mesmo que seja a preparação de sua [[lexico:m:morte:start|morte]] (na peça); depois, porém, volta ao palco e age e sofre como estava escrito. A partir dessa dupla vida provém aquela serenidade do homem, tão diferente da ausência de pensamento do animal e com a qual alguém, depois de ponderação prévia, [[lexico:d:decisao:start|decisão]] calculada ou conhecida [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]], suporta ou pratica com [[lexico:s:sangue:start|sangue]] frio aquilo que para si é da maior, amiúde da mais terrível, significação: o [[lexico:s:suicidio:start|suicídio]], a execução, o [[lexico:d:duelo:start|duelo]], os empreendimentos arriscados de todo tipo e em geral as coisas contra as quais se insurge toda a sua natureza animal. Por aí se vê em que medida a razão domina a natureza animal e exclama ao forte: [citação em latim em II. 24, 521: “Decerto tens um coração de ferro!”]. Aqui de fato é possível dizer que a razão se exterioriza de maneira prática. Portanto, em qualquer lugar onde a [[lexico:c:conduta:start|conduta]] é conduzida pela faculdade racional, os [[lexico:m:motivos:start|motivos]] são conceitos abstratos, e o determinante não são **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, particulares, nem a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] do momento que conduz o animal: aí se mostra a razão prática. Que, todavia, tudo isso seja por inteiro diferente e independente do valor moral da ação, que a ação racional e a virtuosa são duas coisas Completamente distintas, que a razão se encontra unida tanto à grande [[lexico:m:maldade:start|maldade]] quanto à grande [[lexico:b:bondade:start|bondade]], que o seu auxílio confere grande eficácia seja a esta primeira ou à segunda, que ela está igualmente preparada e disponível para executar metodicamente e de maneira [[lexico:c:consequente:start|consequente]] tanto os propósitos nobres quanto os vis, tanto a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] inteligente quanto a imprudente, em consequência de sua natureza feminina, receptiva, retentiva, que não produz por si mesma – tudo isso foi tratado de maneira pormenorizada e ilustrado por exemplos no apêndice desta [[lexico:o:obra:start|obra]]. O dito nele encontraria aqui o seu lugar [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]], porém, em virtude da polêmica contra a pretensa razão prática de Kant, teve de lá ser abordado, pelo que remeto o leitor a esse apêndice. SMVR1 Livro I §16 De [[lexico:g:grau:start|grau]] em grau, objetivando-se cada vez mais nitidamente, a Vontade atua no reino [[lexico:v:vegetal:start|vegetal]], em que o elo de seus fenômenos não são propriamente causas, mas excitações. Vontade que aqui ainda é completamente destituída de conhecimento, é [[lexico:f:forca:start|força]] obscura que impele. Assim ela o é na parte vegetativa do fenômeno animal, em sua [[lexico:g:geracao:start|geração]] e [[lexico:f:formacao:start|formação]], e na manutenção da [[lexico:e:economia:start|economia]] interna dele, em que são ainda as meras excitações o que determina necessariamente o seu fenômeno. Os graus cada vez mais elevados de [[lexico:o:objetidade:start|objetidade]] da Vontade levam finalmente ao ponto no qual o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]], expressando a Ideia, não mais pode conseguir seu alimento para [[lexico:a:assimilacao:start|assimilação]] pelo mero [[lexico:m:movimento:start|movimento]] provocado por excitação, pois esta tem de ser esperada. Aqui o alimento é de tipo mais especialmente determinado e, com a crescente variedade dos fenômenos, a profusão e o tumulto se tornaram tão grandes, que eles se perturbam mutuamente; de modo que o acaso, do qual o indivíduo movido por mera excitação tem de esperar o alimento, seria demasiado desfavorável. O alimento, por conseguinte, tem de ser procurado e escolhido desde o momento em que o animal sai do ovo ou ventre da mãe, nos quais vegetava sem conhecimento. Daí ser aqui necessário o movimento por motivo e, por isso, o conhecimento, que portanto aparece como um [[lexico:m:meio:start|meio]] de ajuda, [[lexico:m:mechane:start|mechane]], exigido nesse grau de [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] da Vontade para conservação do indivíduo e propagação da [[lexico:e:especie:start|espécie]]. O conhecimento aparece representado pelo cérebro ou por um grande gânglio; precisamente como qualquer outro [[lexico:e:esforco:start|esforço]] ou determinação da Vontade que se objetiva é representado por um [[lexico:o:orgao:start|órgão]], quer dizer, expõe-se para a representação como um órgão. – Com esse meio de ajuda, essa mechane surge de um só golpe o mundo como representação com todas as suas formas: objeto e sujeito, tempo e espaço, [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] e causalidade. O mundo mostra agora o seu segundo lado. Até então pura e simples vontade, doravante é simultaneamente representação, objeto do sujeito que conhece. A Vontade, até então a seguir na obscuridade o seu [[lexico:i:impulso:start|impulso]], com extrema certeza e infalibilidade, inflamou neste grau de sua objetivação uma [[lexico:l:luz:start|luz]] para si, meio este que se tornou necessário para a supressão da crescente desvantagem que resultaria da profusão e da índole complicada de seus fenômenos, o que afetaria os mais complexos deles. A infalível certeza e [[lexico:r:regularidade:start|regularidade]] com que a Vontade atuava ate então na natureza inorgânica e na meramente vegetativa assentava-se no fato de que ali ela era ativa exclusivamente em sua essência originária, como ímpeto cego; Vontade sem o auxílio, no entanto sem a perturbação de um segundo mundo inteiramente outro, o mundo como representação. Só que este mundo, em verdade, é apenas a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] copiada da sua essência, entretanto de natureza por completo diferente, e que agora intervém na conexão de seus fenômenos. Doravante cessa a infalível certeza da Vontade. Os animais mesmos já estão sujeitos à ilusão, ao engano. Contudo, têm apenas **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**; não têm conceitos nem reflexão; estão portanto presos ao presente e não podem levar em conta o futuro. – É como se esse conhecimento [[lexico:a:a-racional:start|a-racional]] não fosse em todos os casos suficiente para os fins da Vontade, com o que ela casualmente precisou de um auxílio. Com isso podemos observar o fenômeno bastante notável de que a atuação cega da Vontade e a ação iluminada pelo conhecimento invadem uma o domínio da outra da maneira mais surpreendente em dois tipos de fenômeno. Num primeiro caso, [[lexico:r:referente:start|referente]] às ações dos animais guiadas por conhecimento intuitivo e motivos, encontramos uma ação sem motivos, logo, consumada com a mesma necessidade da Vontade que atua cegamente: refiro-me ao impulso industrioso dos animais que, não sendo conduzidos por motivo ou conhecimento algum, até transmitem a [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] de executar as suas obras por meio de motivos abstratos, racionais. Um outro caso, oposto a este, é aquele em que a luz do conhecimento penetra na oficina da Vontade que atua cegamente e assim ilumina às funções vegetativas do [[lexico:o:organismo:start|organismo]] [[lexico:h:humano:start|humano]]: refiro-me à clarividência magnética. – Por fim, lá onde a Vontade atingiu o grau mais elevado de sua objetivação e não é mais suficiente o conhecimento do entendimento, do qual o animal é capaz e cujos dados são fornecidos pelos sentidos, dos quais surgem simples intuições ligadas ao presente, um ser complicado, multifacetado, plástico, altamente necessitado e indefeso como é o homem teve de ser iluminado por um duplo conhecimento para poder subsistir. Com isso, coube-lhe, por assim dizer, uma [[lexico:p:potencia:start|potência]] mais elevada do conhecimento intuitivo, um reflexo deste, vale dizer, a razão como faculdade de conceitos abstratos. Com esta surge a clareza de consciência que abarca panoramas do futuro e do passado e, em função destes, ponderação, cuidado, habilidade para a ação calculada e independente do presente, por fim a consciência totalmente clara das próprias decisões voluntárias enquanto tais. Se, de um lado, com o conhecimento meramente intuitivo surge a possibilidade da ilusão e do engano, e assim é suprimida a infalibilidade na atuação destituída de conhecimento da Vontade, tem de vir em seu auxílio, em meio às exteriorizações guiadas pelo conhecimento da Vontade, o [[lexico:i:instinto:start|instinto]] e o impulso industrioso como exteriorizações destituídas de conhecimento da Vontade; por outro lado, com o aparecimento da razão é quase que inteiramente perdida aquela segurança e infalibilidade das exteriorizações da Vontade (que no outro [[lexico:e:extremo:start|extremo]], na natureza inorgânica, aparece inclusive como estrita conformidade a leis): o instinto entra por completo no segundo [[lexico:p:plano:start|plano]]. A ponderação, que agora deve a tudo substituir, produz (como exposto no primeiro livro) vacilações e incertezas; o erro se torna possível, obstando em muitos casos a adequada objetivação da Vontade em atos. Pois, embora a Vontade já tenha tomado no [[lexico:c:carater:start|caráter]] a sua direção determinada e inalterável, em conformidade com o qual aparece de maneira infalível caso seja dada a [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] dos motivos, ainda assim o erro pode falsear as suas exteriorizações, na medida em que motivos ilusórios, agindo como se fossem reais, ocupam o lugar destes e os suprimem. . Por exemplo, a [[lexico:s:supersticao:start|superstição]] que compele o homem por motivos imaginários a modos de ação que são exatamente o oposto de como sua vontade se exteriorizaria nas circunstâncias existentes: Agamenon sacrifica sua filha; um avaro dá esmolas por puro [[lexico:e:egoismo:start|egoísmo]] na [[lexico:e:esperanca:start|esperança]] de um [[lexico:r:retorno:start|retorno]] cem vezes maior, e assim por diante. SMVR1 Livro II §27 A matéria, enquanto tal, não pode ser [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] de uma Ideia, pois, como vimos no primeiro livro, é por inteiro causalidade. Seu ser é o puro fazer-efeito. A causalidade é figuração do princípio de razão; o conhecimento da Ideia, todavia, exclui radicalmente o conteúdo deste princípio. Também vimos no segundo livro que a matéria é o [[lexico:s:substrato:start|substrato]] comum de todos os fenômenos particulares das [[lexico:i:ideias:start|ideias]], consequentemente, apresenta-se como o elo entre a Ideia e o fenômeno (coisa particular). Por conseguinte, seja por uma razão ou outra, a matéria por si mesma não pode expor Ideia alguma: o que se comprova [[lexico:a:a-posteriori:start|a posteriori]] pelo fato de não ser possível representação intuitiva alguma da matéria enquanto tal, mas apenas um conceito abstrato dela. Nas **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** expõem-se apenas formas e qualidades cujo sustentáculo é a matéria e nas quais as Ideias se manifestam. Isso corresponde ao fato de a causalidade (essência inteira da matéria) não ser por si mesma intuitivamente [[lexico:e:exponivel:start|exponível]]: mas só uma determinada conexão causai o é. – Por outro lado, todo fenômeno de um Ideia, na medida em que esta entrou na forma do princípio de razão, ou no principium individuationis, tem de se expor na matéria como [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] desta. Dessa forma, como dito, a matéria é o elo entre a Ideia e o principium individuationis, que é a forma de conhecimento do indivíduo, ou princípio de razão. – [[lexico:p:platao:start|Platão]] observa muito corretamente que, ao lado da Ideia e do fenômeno (a coisa particular), a compreenderem juntos todas as coisas do mundo, há ainda a matéria como um terceiro termo diferente de ambos (Timeu, 48-9). O indivíduo, como fenômeno da Ideia, é sempre matéria. Cada qualidade desta é também sempre fenômeno de uma Ideia e, como tal, passível de uma consideração [[lexico:e:estetica:start|estética]], isto é, conhecimento da Ideia que nela se expõe. Isso vale até mesmo para as qualidades mais gerais da matéria, sem as quais ela nunca existe, e que constituem a objetidade mais fraca da Vontade. Tais qualidades são: gravidade, coesão, rigidez,, fluidez, [[lexico:r:reacao:start|reação]] contra a luz etc. SMVR1 Livro III §43 A influência que o conhecimento, enquanto médium dos motivos, tem não só sobre a vontade mas também sobre o seu aparecimento em ações fundamenta também a diferença capital entre o agir do homem e o do animal, na medida em que o modo de conhecimento de ambos é diverso. De fato, o animal possui apenas **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**, o homem, devido à razão, ainda possui representações abstratas, conceitos. Embora animal e homem sejam determinados por motivos com igual necessidade, o homem, entretanto, tem a vantagem de uma [[lexico:d:decisao-eletiva:start|decisão eletiva]]. Esta amiúde foi vista como uma [[lexico:l:liberdade-da-vontade:start|liberdade da vontade]] em atos individuais; contudo, é apenas a possibilidade de um conflito duradouro entre vários motivos, até que o mais forte determine com necessidade a vontade. Para isso os motivos têm de ter assumido a forma de [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] abstratos, pois só por estes é possível uma [[lexico:d:deliberacao:start|deliberação]] propriamente dita, isto é, uma avaliação de fundamentos opostos para o agir. No caso do animal, a [[lexico:e:escolha:start|escolha]] só pode se dar entre motivos presentes intuitivamente; por conta disso, está limitada à [[lexico:e:esfera:start|esfera]] estreita de sua [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] [[lexico:a:atual:start|atual]] e intuitiva. Por conseguinte, a necessidade na determinação da vontade pelo motivo, igual àquela no efeito pela causa, só pode ser exibida intuitiva e imediatamente nos animais, porque aqui o espectador tem os motivos tão imediatamente diante dos olhos quanto o seu efeito, enquanto nos homens os motivos quase sempre são representações abstratas, inacessíveis ao espectador, sendo que até mesmo ao [[lexico:a:agente:start|agente]] é ocultada a necessidade do seu efeito por detrás do conflito delas. Apenas in abstracto podem várias representações se encontrar na consciência uma ao lado da outra, como juízos e séries de conclusão, e, então, fazer efeito reciprocamente, livres de qualquer determinação [[lexico:t:temporal:start|temporal]], até que a mais forte domine as restantes e determine a vontade. Eis aí a perfeita decisão eletiva, ou capacidade de deliberação, uma vantagem do homem em face dos animais, devido à qual se lhe atribuiu a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] da vontade, na [[lexico:s:suposicao:start|suposição]] de que seu querer era um mero resultado das operações do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]], isento de um impulso determinado a lhe servir de base; quando, em verdade, a motivação só faz efeito se fundamentada, e sob a pressuposição de um impulso determinado, que no seu caso é individual, ou seja, um caráter. Uma exposição detalhada dessa capacidade de deliberação e da diferença entre o arbítrio animal e humano por ela produzidos se encontra no meu Os dois problemas fundamentais da ética (I.ed., p 35 e ss.), ao qual portanto remeto aqui o leitor. Ademais, semelhante capacidade de deliberação no homem também pertence às coisas que tornam a sua existência tão mais atormentada que a do animal; pois em geral nossas grandes dores não se situam no presente, como **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** ou sentimento imediato, mas na razão, como conceitos abstratos, pensamentos atormentadores, dos quais os animais estão completamente livres, pois vivem apenas no presente, portanto num estado destituído de [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] e digno de inveja. SMVR1 Livro IV §55 É assombroso como Kant, sem mais reflexão, segue seu caminho, indo atrás de sua [[lexico:s:simetria:start|simetria]], tudo ordenando segundo ela, sem jamais levar em conta em si mesmo um dos objetos assim tratados. Quero explicar-me mais detalhadamente. Após ele levar em consideração o conhecimento intuitivo só na matemática, negligencia por completo o conhecimento intuitivo restante, no qual o mundo se coloca perante nós, e atém-se tão-somente ao pensamento abstrato; o qual, entretanto, recebe toda a sua significação e valor primeiro do mundo intuitivo, infinitamente mais significativo, mais universal, mais rico em conteúdo que a parte abstrata de nosso conhecimento. De fato, e este é o ponto principal, Kant nunca chegou a distinguir claramente o conhecimento intuitivo do conhecimento abstrato. Justamente por isso, como veremos depois, enreda-se em contradições insolúveis consigo mesmo. – Após ter concluído todo o mundo dos sentidos com a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] que nada diz “ele é dado”, faz agora, como dito, da [[lexico:t:tabua:start|tábua]] lógica dos juízos a pedra de toque do seu edifício. Mas aqui também, em momento algum, reflete sobre o que se encontra propriamente diante dele. As formas do juízo são decerto palavras e combinações de palavra. Deveria, portanto, ter sido primeiro perguntado o que elas designam imediatamente; com o que se teria descoberto que são conceitos. A [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] a fazer em seguida versaria sobre a natureza dos conceitos, e, a partir da resposta, dever-se-ia observar qual relação eles têm com as **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** nas quais o mundo existe. Com isso a intuição e a reflexão seriam separadas. Teria sido então investigado não só como a intuição pura a priori e apenas [[lexico:f:formal:start|formal]] mas também como seu conteúdo, a intuição empírica, chega à consciência. Depois se teria mostrado qual o papel que o entendimento desempenha nisso, portanto, em geral, o que é o entendimento e, em contrapartida, o que é propriamente a razão, cuja [[lexico:c:critica:start|crítica]] estava ali sendo [[lexico:e:escrita:start|escrita]]. É bastante notável que ele não determine esta última uma vez sequer de forma ordenada e suficiente; só ocasionalmente fornece sobre ela explanações incompletas, incorretas, tal qual exigidas pelo contexto, em total contradição com a regra de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] antes citada. Por exemplo, na p 11 (V, 24) da [[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da razão pura]], ela é a faculdade dos princípios a priori; na p 299 (V, 356) é dita de novo a faculdade dos princípios e é oposta ao entendimento, que é a faculdade das regras! Doravante se deveria pensar que entre princípios e regras existe uma ampla diferença, que nos justifica admitir para cada uma deles uma faculdade particular. No entanto, é dito que essa grande diferença deve residir meramente no fato de que, aquilo conhecido a priori pela pura intuição, ou pelas formas do entendimento, é uma regra, e apenas o que resulta a priori de meros conceitos é um princípio. Voltaremos depois a esta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] arbitrária e inadmissível quando tratarmos da [[lexico:d:dialetica:start|dialética]]. Na p 330 (V, 386) a razão é a faculdade de inferir: o simples julgar (p 69; V, 94) é frequentemente definido como a [[lexico:o:operacao:start|operação]] do entendimento. Com isto, porém, ele diz propriamente: julgar é a operação do entendimento quando o fundamento do juízo for empírico, transcendental ou [[lexico:m:metalogico:start|metalógico]] (ensaio sobre o princípio de razão, §31, 32, 33); mas se este fundamento for lógico, como aquele em que consiste a [[lexico:i:inferencia:start|inferência]], age aqui uma faculdade de conhecimento bem especial, e muito mais aprimorada, a razão. Sim, mais ainda, na p 303 (V, 360), explana-se que as consequências imediatas de uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] seriam ainda assunto do entendimento, e só aquelas nas quais é usado um conceito [[lexico:m:mediador:start|mediador]] seriam [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] da razão; como exemplo cita que, da [[lexico:p:premissa:start|premissa]] “todos os homens são [[lexico:m:mortais:start|mortais]]”, seria retirada pelo simples entendimento a conclusão “alguns homens são mortais”; ao contrário, a conclusão “todos os sábios são mortais” exigiria uma faculdade completamente diferente e muito mais aprimorada, a razão. Como foi possível que um grande pensador produzisse algo assim?! Na p 553 (V, 581), a razão, subitamente, é a condição permanente de todas as ações arbitrárias. Na p 614 (V, 642) ela consiste em que podemos prestar conta de nossas afirmações; nas p 643, 644 (V, 67I, 672) consiste em unir os conceitos do entendimento em ideias, assim como o entendimento une a diversidade dos objetos em conceitos. Na p 646 (V, 674) a razão nada é senão a faculdade de deduzir o particular do universal. SMVR1 Apêndice §71 Volto agora ao grande erro de Kant, já tocado acima, a saber, o fato de ele não ter separado de modo apropriado o conhecimento intuitivo do conhecimento abstrato, nascendo daí uma irremediável confusão, que agora temos de considerar detalhadamente. Caso tivesse separado rigorosamente as **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS** dos conceitos, estes pensados meramente in abstracto, tê-los-ia conservado à parte e sempre teria sabido, em cada situação, com qual dos dois estava lidando. Porém este não foi o caso. E a censura a isso ainda não se tornou pública, portanto talvez seja inesperada. Seu “objeto da experiência”, sobre o qual fala constantemente, o objeto propriamente dito das [[lexico:c:categorias:start|categorias]], não é a representação intuitiva, mas também não é o conceito abstrato, é diferente de ambos, e, no entanto, é os dois ao mesmo tempo, vale dizer, um completo disparate. Por mais inacreditável que possa parecer, faltou-lhe clareza de consciência ou boa vontade para pôr-se de acordo consigo mesmo e assim explanar distintamente a si e aos demais se o seu “objeto da experiência, isto é, do conhecimento dado pela aplicação das categorias”, é a representação intuitiva no espaço e no tempo (minha primeira classe de representações) ou meramente o conceito abstrato. Por mais estranho que seja, paira diante dele constantemente um [[lexico:h:hibrido:start|híbrido]] entre os dois, daí advindo a infeliz confusão que tenho agora de trazer à luz e para cujo fim tenho de atravessar toda a doutrina dos elementos em geral. SMVR1 Apêndice §71 Teria ainda muitas particularidades a refutar no prosseguimento ulterior da [[lexico:a:analitica-transcendental:start|analítica transcendental]], temo todavia esgotar a paciência do leitor, e deixo-as portanto para a sua reflexão. Mas sempre de novo se nos apresenta na Crítica da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] aquele erro principal e fundamental de Kant, que acima censurei detidamente: a completa ausência de distinção entre o conhecimento abstrato, discursivo, o intuitivo. Isso espalha uma contínua sombra sobre toda a teoria kantiana da faculdade de conhecimento e nunca permite ao leitor saber em algum momento sobre o que de fato se fala, de tal maneira que, em vez [[lexico:c:compreender:start|compreender]], sempre apenas suspeita, procura compreender o que foi dito a cada vez alternadamente acerca do pensamento e da intuição, porém sempre ficando em suspense. Aquela inacreditável ausência de [[lexico:l:lucidez:start|lucidez]] sobre a essência das representações intuitiva e abstrata leva Kant, no capítulo “da distinção de todos os objetos em fenômenos e númenos”, como logo mais adiante discutirei em detalhe, à monstruosa afirmação de que sem pensamento, portanto sem conceitos abstratos, não haveria de modo algum conhecimento de um objeto, e que a intuição, visto que não é pensamento, também não é conhecimento algum, e em geral não passa de uma mera [[lexico:a:afeccao:start|afecção]] da sensibilidade, uma mera [[lexico:s:sensacao:start|sensação]]! Mais ainda, que intuição sem conceito é totalmente vazia; conceito sem intuição, entretanto, é sempre ainda [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] (p 253; V, 309). Isto é exatamente o oposto da verdade; justamente porque os conceitos obtêm toda significação, todo conteúdo, exclusivamente a partir de sua referência às representações, das quais foram abstraídos, extraídos, isto é, formados pelo [[lexico:a:abandono:start|abandono]] de todo inessencial. Por isso, se deles é retirado o alicerce da intuição, são vazios e nulos. Intuições, ao contrário, têm em si mesmas grande e imediata significação (nelas, de fato, objetiva-se a [[lexico:c:coisa-em-si:start|coisa-em-si]]). Fazem o papel de si mesmas, expressam a si, não têm conteúdo meramente emprestado, como os conceitos. Pois sobre elas impera o princípio de razão apenas como lei de causalidade, e determina, enquanto tal, apenas sua posição no espaço e no tempo, sem condicionar todavia seu conteúdo e seu significado, como no caso dos conceitos, em relação aos quais o referido princípio vale como fundamento do conhecer. De resto, parece, é como se Kant, exatamente aqui, quisesse propriamente distinguir a representação intuitiva da abstrata. Ele repreende Leibniz e [[lexico:l:locke:start|Locke]]. O primeiro por ter reduzido tudo às representações abstratas, o segundo às **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**. No entanto, distinção alguma é alcançada e, embora Locke e Leibniz efetivamente tenham cometido esse erro, Kant mesmo cai num terceiro, que inclui os dois erros anteriores, a saber, ter misturado intuitivo e abstrato numa tal extensão que daí nasce um híbrido monstruoso, uma não-coisa, da qual não é possível representação distinta alguma, e que, por conseguinte, só podia confundir, aturdir e [[lexico:p:por:start|pôr]] em conflito os discípulos. SMVR1 Apêndice §71 Em todos os casos descritos e concebíveis a distinção entre ações racionais e irracionais remete à [[lexico:q:questao:start|questão]] de saber se os motivos são conceitos abstratos ou **REPRESENTAÇÕES INTUITIVAS**. Justamente por isso a [[lexico:d:definicao:start|definição]] por mim fornecida da razão concorda precisamente com o uso linguístico de todos os tempos e povos, algo que não se deve tomar como casual ou [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]], mas ser visto como proveniente justamente da distinção, da qual cada homem está consciente, das diferentes [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] do espírito. O homem fala conforme essa consciência, embora certamente não o eleve à clareza da definição abstrata. Nossos antepassados não fizeram as palavras sem lhes atribuir um sentido determinado, e assim elas ficariam esperando possíveis filósofos chegarem séculos mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] e lhes determinar naquilo que deveriam ser pensadas, ao contrário, indicaram por elas conceitos bem determinados. As palavras, portanto, não mais estão sem dono. Sujeitá-las a um sentido totalmente diferente do que foi tido até agora significa abuso, concessão de uma licença para cada um poder usá-la no sentido que lhe aprouver, com o que, daí, resulta inevitavelmente uma confusão sem fim. Locke mesmo expôs detalhadamente que a maioria das discórdias na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] não passa do falso uso das palavras. Para esclarecimento, lance-se apenas um olhar ao escandaloso, abuso que hoje em dia os filosofastros pobres de pensamento praticam com as palavras [[lexico:s:substancia:start|substância]], consciência, verdade, entre outras. Também as declarações e definições de todos os filósofos, em todos os tempos, sobre a razão, excetuando-se os filósofos modernos, não concordam menos com minha definição que os conceitos prevalecentes entre todos os povos acerca daquela prerrogativa do homem. Veja-se o que Platão, no quarto livro da [[lexico:r:republica:start|República]] e em inumeráveis passagens esparsas, chama logimon ou [[lexico:l:logistikon:start|logistikon]] tes [[lexico:p:psyche:start|psyche]] ; veja-se também o que Cícero diz sobre isso em De Nat. Deor., III, 26-31, e Leibniz e Locke nas passagens já citadas no primeiro livro. Não haveria aqui fim para as citações, se quiséssemos mostrar como todos os filósofos antes de Kant falaram sobre a razão no sentido por mim atribuído, embora não soubessem explanar a sua natureza com perfeita determinidade e distinção, remetendo-a assim a um único ponto. Em [[lexico:s:sintese:start|síntese]], o que se entendia por razão, antes da entrada em cena de Kant, mostram-no no todo dois [[lexico:e:ensaios:start|Ensaios]] de Sulzer no primeiro volume da sua miscelânea de escritos filosóficos, um intitulado Zergliederung des Begriffes der Vernunft, outro Uber den gegenseitigen Einfluss von Vernunft uni Sprache. Em contrapartida, quando se lê o que é dito nos dias atuais sobre a razão – sob a influência do erro kantiano, depois aumentado como uma avalanche – obrigatoriamente teremos de admitir que todos os sábios da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]], bem como todos os filósofos anteriores a Kant, absolutamente não possuíam faculdade de razão, pois as agora descobertas percepções imediatas, intuições, apreensões, pressentimentos da razão, permaneceram-lhes tão desconhecidas como o é a nós o sexto sentido dos morcegos. De resto, no que me concerne, tenho de confessar: em minha [[lexico:l:limitacao:start|limitação]], não consigo [[lexico:a:apreender:start|apreender]] ou [[lexico:r:representar:start|representar]] de qualquer outro modo senão como sexto sentido dos morcegos aquela faculdade de razão que percebe diretamente, ou apreende, ou intui intelectualmente o [[lexico:s:supra-sensivel:start|supra-sensível]], o absoluto, junto com as longas narrativas que acompanham tudo isso. É preciso, porém, dizer em favor da [[lexico:i:invencao:start|invenção]] ou descoberta de uma semelhante razão que percebe imediatamente tudo que lhe agrada, que a mesma é um expédient incomparável para livrar-nos e às nossas ideias fixas, do mundo, da maneira a mais fácil, apesar da crítica de Kant à razão. A invenção e a aceitação obtidas por esse expediente fazem honra à [[lexico:e:epoca:start|época]]. SMVR1 Apêndice §71 {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}