===== RELAÇÃO TOMISTA ===== O [[lexico:s:ser:start|ser]] do que é [[lexico:r:relativo:start|relativo]] consiste no referir-se a [[lexico:o:outro:start|outro]], como o expressa [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]. Por sua [[lexico:r:razao:start|razão]] própria, a [[lexico:r:relacao:start|relação]] [[lexico:n:nao:start|não]] significa mais que [[lexico:r:referencia:start|referência]] a outro. Os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que entram numa relação são os seguintes: a) um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] que diz [[lexico:o:ordem:start|ordem]] a outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]], no qual tem a relação a sua [[lexico:e:existencia:start|existência]]. b) um [[lexico:t:termo:start|termo]] a que o sujeito diz ordem ou referência ([[lexico:r:referente:start|referente]]); c) um [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] em que se baseia a referência. Para que uma relação seja [[lexico:r:real:start|real]] é [[lexico:n:necessario:start|necessário]] que todos esses elementos sejam reais. A relação, como vimos, pode ser considerada como: a) [[lexico:a:acidente-predicamental:start|acidente predicamental]], ou ainda como b) [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], A [[lexico:r:relacao-predicamental:start|relação predicamental]] expressa uma [[lexico:c:categoria:start|categoria]] distinta de ser, irredutível a todas as outras, a qual consiste na ordem, [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ou referência entre dois termos, e não é nem [[lexico:s:substancia:start|substância]], nem [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]], nem [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], etc., mas apenas relação. A relação [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] é só relação no [[lexico:n:nome:start|nome]], porque, em sua [[lexico:e:essencia:start|essência]], ela se identifica com os seres aos quais se atribui. Por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], a ordem da [[lexico:p:potencia:start|potência]] de entender ou de querer e os actos da [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] ou volição, são transcendentalmente [[lexico:r:relativos:start|relativos]], por se identificarem na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] do sujeito, como já vimos. Examinemos alguns pontos importantes: para Tomás de Aquino a relação não é uma realidade objetiva em si; ela representa apenas o [[lexico:a:ad-aliquid:start|ad aliquid]], Em outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]]: a relação é um ser assistência!. Sua sistenda consistiria apenas nesse ad-aliquid, nesse pros tir não tendo uma [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]], um [[lexico:s:suppositum:start|suppositum]], uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] de per se ([[lexico:p:perseitas:start|perseitas]], perseidade). Mas não se julgue que Tomás de Aquino, desse [[lexico:m:modo:start|modo]], ponha a perder a relação, pois a admite real, quando seus fundamentos são reais. Se a relação, de per se, não tem subsistência, subsiste, no entanto, em outros, os quais lhe dão realidade. A relação predicamental seria uma relação ad-aliquid, para algo, enquanto a transcendental seria ab aliquo, de algo, vinda de algo. Como aqui já se invade um [[lexico:t:tema:start|tema]] controverso, não poderíamos examiná-lo [[lexico:a:agora:start|agora]], o que caberá à [[lexico:p:problematica:start|problemática]], já que os neotomistas, influenciados pela [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]» aceitam-na contra a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] dos “velhos tomistas”. O tema da relação é de uma complexidade extraordinária, pois não é ela imediatamente acessível à [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], como o é a substancia, nem aos sentidos, como o são os accidentes em [[lexico:g:geral:start|geral]]. A relação obriga outro modo de conhecer, e como muitas vezes se nos escapa, é [[lexico:n:natural:start|natural]] que pairem aqui muitas controvérsias, cuja solução permite o surgimento de outras, no [[lexico:c:campo:start|campo]] metafísico. Na “[[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]]”, [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] explicava: “A relação é, de todas as [[lexico:c:categorias:start|categorias]], aquela que tem a menor realidade determinada ou substância; ela é até posterior à qualidade e à quantidade,.. É, portanto, [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]], ou antes, [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] fazer do que não é uma substância, um [[lexico:e:elemento:start|elemento]] de [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que são uma substância e de fazer dela uma coisa anterior à substância, pois todas as outras categorias, [[lexico:a:alem:start|além]] da substância, são posteriores a esta”. A relação deve sustentar-se numa base sólida para ser real, como o expôs Tomás de Aquino. “Relatio autem semper fundatur super aliquid [[lexico:a:absolutum:start|absolutum]]” (a relação contudo sempre se funda sobre algo [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]). A substância é o [[lexico:s:substrato:start|substrato]] das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] reais “[[lexico:s:substantia:start|substantia]] est fundamentum omnium entium” (a substância é o fundamento de todos os entes). Mas admite Tomás de Aquino que outras categorias possam servir de fundamento para a relação. Assim a relação de [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] funda-se na qualidade. Quanto à [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]], que é a concordância na quantidade, é nesta que se funda a relação. [[lexico:d:duns-scotus:start|Duns Scotus]] estabelece que a relação fundamenta-se não só na substanda como também na qualidade e na quantidade. Exclui Tomás de Aquino as outras categorias. Dessa [[lexico:f:forma:start|forma]] uma relação não pode ser fundamento real da relação. Também [[lexico:e:esse:start|esse]] é o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] de Duns Scotus, quando diz “Impossibile est relationem relationis (realis)”. É um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] controverso na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Aceitá-lo porém, como diz o aquinatense, seria um nunca acabar. Quando a relação surge da [[lexico:m:mutacao:start|mutação]], apresenta ela aspectos que merecem destaque. Os termos mutação e [[lexico:p:processo:start|processo]], embora aparentemente [[lexico:s:sinonimos:start|sinônimos]], exigem um esclarecimento. A mutatio (mutação) e transitus (processo) distinguem-se: a primeira é mais restricta, e a segunda mais ampla, muito embora sejam ambos os termos tomados sinonimicamente na filosofia. No entanto, podemos dizer que, no processo, há sempre processões activas e passivas. Tomás de Aquino distinguiu duas espécies de processos: um interno e outro [[lexico:e:externo:start|externo]]. “In omni mutatione et motu invenitur duplex processus: unus ab [[lexico:u:uno:start|uno]] termino motus ad alium, sicut albedine in nigredinem (eiusdem subiecti), alius ab [[lexico:a:agente:start|agente]] in patiens, sicut a faciente in factum”. O primeiro, [[lexico:i:intrinseco:start|intrínseco]], como a passagem do branco para o preto, no mesmo sujeito; o segundo, como a passagem (transitus) da [[lexico:a:acao:start|ação]] realizada no paciente pelo agente. Tomás de Aquino estabelece estas proposições solidárias: Não há relação real sem mutação: não há mutação sem nova relação real. A segunda é evidente, pois qualquer mutação implica previamente uma nova relação real. Quanto à primeira se presta a dúvidas, ponto, portanto, que provoca grandes controvérsias. Entre o fundamento de uma relação, e esta, estabelece-se uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]], que, para Tomás de Aquino, é real, embora surjam entre os tomistas divergências de opinião. Duns Scotus aceita a [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] da distinção, visto que o mesmo fundamento pode servir a relações opostas, salvo na relação de [[lexico:c:criacao:start|criação]], a qual é apenas [[lexico:f:formal:start|formal]]. Entre os adversários desta concepção, temos João de [[lexico:s:santo:start|santo]] Tomás e Suarez, entre outros. É [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que, em Tomás de Aquino, a [[lexico:p:presenca:start|presença]] de um pequeno [[lexico:n:numero:start|número]] de passagens, que admitem a distinção real, leva a muitos tomistas a porem em [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] a aceitação desta [[lexico:p:posicao:start|posição]]. Krempel, esquadrinhando a [[lexico:o:obra:start|obra]] do aquinatense, reuniu copioso material para justificar tal [[lexico:t:tese:start|tese]]. Krempel simplifica da seguinte maneira: “mudar equivale a afastar-se de um [[lexico:t:terminus-a-quo:start|terminus a quo]]; e [[lexico:d:devir:start|devir]] o alcançar um [[lexico:t:terminus-ad-quem:start|terminus ad quem]]. Ora, já que em toda [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] absoluta, os dois termos são intrínsecos do sujeito, a aproximação de um comporta inevitavelmente o afastamento do outro. Ao contrário, o terminus [[lexico:a:ad-quem:start|ad quem]] da relação, encontrando-se fora, pode ser atingido, ao seu surgimento, sem que o sujeito abandone o terminus [[lexico:a:a-quo:start|a quo]]: quer dizer, sem que ele mude — atendendo-se objetivamente se todas as condições são realizadas. O [[lexico:a:argumento:start|argumento]] principal da distinção real está em poder guardar-se um fundamento, podendo perder-se totalmente a relação real que dele nasceu. Ademais, para Tomás de Aquino, uma entidade absoluta e uma relação criada nunca se confundem sobre o [[lexico:p:plano:start|plano]] da existência. Para tornar mais claro o pensamento do aquinatense, Krempel oferece o seguinte exemplo: se numa peça, a [[lexico:l:luz:start|luz]] de uma vela caí sobre uma criança que entra, não somente a vela está acesa, mas ainda ela a ilumina; determinatur ad istum, como dizia Tomás de Aquino a propósito da relação. Antes da entrada da criança, a vela queimava sem dúvida, mas não iluminava, nêm tampouco depois da saída da criança. Ao iluminá-la, a vela [[lexico:n:nada:start|nada]] ganha nem nada perde após. Nenhuma mudança se produziu nela, salvo naturalmente a de consumir-se. E, contudo, não só logicamente, mas ainda objetivamente, queimar é uma coisa, iluminar uma criança é totalmente outra, e o que decorre com toda evidência do facto que um pode [[lexico:e:existir:start|existir]] sem o outro: não a [[lexico:i:iluminacao:start|iluminação]] sem a luz, mas o inverso; não a relação sem o fundamento, mas o fundamento sem a relação. Este exemplo, desprezando-se o que possui naturalmente de grosseiro, serve para dar uma [[lexico:n:nocao:start|noção]] clara da distinção real entre a relação e o seu fundamento. Ademais, se Tomás de Aquino [[lexico:p:prova:start|prova]] que, de um mesmo fundamento, só pode surgir uma única relação da mesma [[lexico:e:especie:start|espécie]], tal não impede, como ele mesmo o considerava, que, do mesmo fundamento, surjam diversas relações de espécies diferentes. As relações podem ser reais ou de razão. As reais, também chamadas de relativum secundum dici, não se fundam nos termos reais. Esta segunda relação é a que vários tomistas chamam de relação transcendental. Quanto ao genuino [[lexico:s:sentido:start|sentido]] dessas expressões não se encontra ainda na [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] [[lexico:m:materia:start|matéria]] pacífica, surgindo sempre controvérsias. Dividia Tomás de Aquino as relações em relações estáticas, as que têm por fundamento uma quantidade ([[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]), e relações dinâmicas, as que têm por fundamento o processo. Todas as relações dinâmicas realizam o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de ordem (ordo ad), supondo, consequentemente, um principium e, portanto, um prius e um posterius. O conceito de ordo é duplicemente considerado: 1) o de gravidade, como a [[lexico:h:hierarquia:start|hierarquia]], ou 2) de relação entre diversos graus, e não apenas no sentido [[lexico:m:moderno:start|moderno]] de relação entre um [[lexico:t:todo:start|todo]] e suas partes, e destas entre si. Também se usava no sentido de [[lexico:f:fim:start|fim]], ordo ad, ou de convenientia, ou de cooperatio. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}