===== REFLEXOLOGIA ===== A reflexologia tem [[lexico:v:valor|valor]] inestimável como diagnóstico de uma [[lexico:e:epoca|época]], para a qual toda manipulação do [[lexico:h:homem|homem]] é, [[lexico:n:nao|não]] só legítima como também necessária, desde que feita cientificamente. Descobre-se que o [[lexico:s:ser|ser]] vivo é um conjunto de [[lexico:r:reflexos|reflexos]] que podem ser alterados cientificamente. Um dos pressupostos do [[lexico:p:pavlovismo|pavlovismo]] é que, se a [[lexico:e:experiencia|experiência]] souber associar um [[lexico:r:reflexo|reflexo]] condicionado a um [[lexico:i:incondicionado|incondicionado]], o [[lexico:o:organismo|organismo]] vivo pode ser manipulado pela [[lexico:c:ciencia|ciência]] no [[lexico:s:sentido|sentido]] que esta entender. Nesta linha, a [[lexico:m:massa|massa]] das experiências e da bibliografia pavloviana é realmente impressionante. Os [[lexico:r:reflexos-condicionados|reflexos condicionados]] se gravam sobre os incondicionados como um tecido de arcos reflexos sobre uma base fundamental. Essa base fundamental são os antigos instintos que constituem cadeias de [[lexico:r:reflexos-incondicionados|reflexos incondicionados]]; esses reflexos básicos são pouco numerosos: reflexo alimentar, reflexo de [[lexico:i:investigacao|investigação]], reflexo sexual, reflexo de defesa e também, por estranho que pareça, reflexo de [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. De que liberdade se trata? — O reflexo pavloviano de liberdade confunde a liberdade com a [[lexico:e:espontaneidade|espontaneidade]]. — O pavlovismo ignora que há um [[lexico:p:psiquico|psíquico]] [[lexico:o:organico|orgânico]] e um psíquico espiritual; ignora que o psíquico orgânico, que se manifesta nos instintos, se distingue do psíquico espiritual, que se manifesta na [[lexico:c:consciencia|consciência]]. A reflexologia mostrou que a inibição põe em [[lexico:a:atividade|atividade]] centros nervosos de importância para a [[lexico:s:sobrevivencia|sobrevivência]] do [[lexico:a:animal|animal]], suprimindo a [[lexico:r:reacao|reação]] temporária estabelecida pelo excitante. Esta [[lexico:a:atitude|atitude]] de defesa cede quando o novo excitante se repete muitas vezes, tornando-se habitual: recomposto o quadro da experiência com o novo ingrediente, pela [[lexico:r:repeticao|repetição]] constante, por ex., do toque estridente da campainha associado ao do metrônomo, o reflexo se recondiciona subordinando-se ao metrônomo e à campainha. Era apenas uma inibição "externa", um dos fatos que revelam a extrema plasticidade do conjunto vital. [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:f:fato|fato]] é a inibição "interna": é o caso em que o [[lexico:p:proprio|próprio]] excitante condicionado se transforma em inibidor. Se um cão está habituado a receber o alimento condicionado pelo metrônomo e se, a partir de certa fase do [[lexico:c:condicionamento|condicionamento]], começamos a aplicar o metrônomo sem o alimento, ao cabo /de algum [[lexico:t:tempo|tempo]] o metrônomo não só não produz mais a salivação, como ainda a inibe. Este fato é frequentemente explicado pelos pavlovianos como [[lexico:d:dialetica|dialética]] de centros nervosos que se galvanizam; mas esta [[lexico:e:explicacao|explicação]] é falsa como as demais, porque não leva em conta a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do ser vivo como [[lexico:u:unidade|unidade]] animada por um [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:s:superior|superior]] às partes; a plasticidade do organismo só é [[lexico:p:possivel|possível]] porque o organismo reage como um [[lexico:t:todo|todo]] e não como uma superposição de partes; os reflexos e suas inibições põem em relevo a [[lexico:i:impossibilidade|impossibilidade]] das teorias mecânicas do [[lexico:c:comportamento|comportamento]] e sublinham, ao contrário, a organicidade do animal, que é a base e não o [[lexico:e:efeito|efeito]] das cadeias de reflexos. Longe de [[lexico:v:ver|ver]], na maleabilidade dos reflexos, a [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] que rege as formas da [[lexico:v:vida|vida]], os pavlovistas não vêm outra cousa senão a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de manusear indefinidamente os seres vivos, convertendo-os em robôs da ciência. Sabe-se que, uma vez obtido, o reflexo pode ser modificado segundo o capricho do cientista. Quando um cachorro foi condicionado a receber o alimento anunciado pelo metrônomo, novos condicionamentos podem retardar ou apressar a [[lexico:m:manifestacao|manifestação]] do reflexo salivar; facilmente os experimentadores obtêm que a salivação comece um minuto depois do término da aplicação do excitante. Podem alterar o [[lexico:r:ritmo|ritmo]] do metrônomo; quando este bate na cadência de oitenta por minuto, não será [[lexico:d:dado|dado]] alimento ao animal: quando bate a 120 é dado o alimento; ao [[lexico:f:fim|fim]] de certo tempo, o ritmo de oitenta não produz mais a salivação; mas o ritmo de 120 se torna o excitante do reflexo, isto é, condiciona certo comportamento reflexo das células corticais. São experiências de extinção, de retardamento e de [[lexico:d:diferenciacao|diferenciação]], nas quais varia, segundo confessam, não mais o excitante [[lexico:e:externo|externo]] e sim a [[lexico:r:relacao|relação]] interna. Examinando os arcos reflexos divisíveis e sub-divisíveis, estudando os mecanismos corticais e sub-corticais, levantando o mapa dos mosaicos nervosos, os pavlovistas declaram, com a maior gravidade filosófica, que a [[lexico:f:finalidade|finalidade]] dos reflexos é sempre estabelecer a [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] do organismo ao [[lexico:m:meio|meio]] externo e interno; e que por isso os estímulos excitantes ou inibitórios podem ser igualmente "internos" e "externos". Toda a reflexologia supõe a adaptação do ser vivo ao meio; é o meio que modela o ser vivo; mas, por outro lado, se essa adaptação depende do psiquismo do ser vivo ou ainda, se o que muda nas experiências da inibição interna não é o excitante externo, mas as [[lexico:r:relacoes|relações]] internas entre o [[lexico:e:estimulo|estímulo]] e a resposta, como [[lexico:e:explicar|explicar]] o psíquico pelo fisiológico, se aqui se dá justamente o contrário, isto é, se aqui o psiquismo determina a [[lexico:a:alteracao|alteração]] dos arcos reflexos? — O pavlovismo traz esta [[lexico:c:contradicao|contradição]] que afirma insistentemente o psiquismo como emanando do fisiológico, mas em seguida explica os processos nervosos como produtos do psiquismo. O reflexo é sempre psíquico e altera o [[lexico:f:fisico|físico]]. Nisto se funda a terapêutica pavloviana, tanto na [[lexico:p:psiquiatria|psiquiatria]], como na ginecologia, quando, por via psíquica altera as circunstâncias fisiológicas da neurose ou do parto. Tudo indica que os arcos reflexos da zona cortical são efeitos e não [[lexico:c:causas|causas]] do condicionamento, o qual é sempre psíquico. Mas o pavlovismo trata o psíquico como fotocópia do físico e por isso, na [[lexico:l:linguagem|linguagem]] pavloviana, a medula espinhal, o bulbo, o córtex e o sub-córtex aparecem como forças propulsoras do reflexo, quando a experiência revela exatamente o contrário. O [[lexico:p:problema|problema]] se põe também de outro [[lexico:m:modo|modo]], porque os reflexos não seriam possíveis se as experiências anteriores não fossem guardadas na [[lexico:m:memoria|memória]]; e a memória pavloviana é apenas a memória cortical, aquela memória de repetição e automatização que [[lexico:b:bergson|Bergson]] demonstrou poder [[lexico:e:estar|estar]] situada realmente no cérebro. Mas, assim como o pavlovismo não poderia nunca explicar o psíquico espiritual, assim também não poderia nunca interpretar a memória do [[lexico:e:espirito|espírito]]. Bergson demonstrou que a memória espiritual não pode estar situada no cérebro; o córtex e o sub-córtex responderão, [[lexico:q:quem|quem]] sabe, pela memória automática; mas, a memória verdadeira, ou seja, a memória imaginativa, a memória criadora, que negam todo [[lexico:a:automatismo|automatismo]], não poderão nunca ser explicadas reflexologicamente. Tudo o que se passa no psíquico deve [[lexico:t:ter|ter]] sua contrapartida no físico e inversamente; o exame do físico pode diagnosticar o psíquico; mas disto não se infere que o psíquico se possa explicar pelo físico, porque o psíquico transborda do físico em todas as direções. E uma [[lexico:t:teoria|teoria]] como a dos pavlovistas, que reduzem o mais ao menos, que fazem emanar o espírito do [[lexico:c:corpo|corpo]], teoria que transuda o [[lexico:m:materialismo|materialismo]] já tão velho do século XVIII, não pode atualmente [[lexico:s:subsistir|subsistir]] senão como sobrevivência histórica. De fato, o fisiologismo pavloviano é contraditado pelas experiências metapsíquicas e pela [[lexico:p:psicologia|psicologia]] do [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]], desde [[lexico:f:freud|Freud]] até [[lexico:j:jung|Jung]], [[lexico:a:alem|além]] de ter sido completamente expulso do âmbito filosófico, pela [[lexico:c:critica|crítica]] que fez ruírem os fundamentos do materialismo. O fisiologismo não é mais [[lexico:o:objeto|objeto]] de cogitações psicológicas, nem filosóficas.