===== REFERÊNCIA AOS VALORES ===== Para [[lexico:w:weber|Weber]], portanto, temos uma "só" [[lexico:c:ciencia|ciência]] porque é "[[lexico:u:unico|único]]" o [[lexico:c:criterio|critério]] de cientificidade das diversas ciências: tanto nas ciências naturais como nas ciências histórico-sociais, temos [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]] quando conseguimos produzir explicações causais. Entretanto, [[lexico:n:nao|não]] é difícil [[lexico:v:ver|ver]] que toda [[lexico:e:explicacao|explicação]] causal é somente [[lexico:v:visao|visão]] fragmentária e parcial da [[lexico:r:realidade|realidade]] investigada (por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], as [[lexico:c:causas|causas]] econômicas da Primeira [[lexico:g:guerra|guerra]] Mundial). E como, [[lexico:a:alem|além]] disso, a realidade é infinita, tanto extensiva como intensivamente, é óbvio que a [[lexico:r:regressao|regressão]] causal deveria ir até o [[lexico:i:infinito|infinito]]: para o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] exaustivo do [[lexico:o:objeto|objeto]], os efeitos seriam estabelecidos "desde a [[lexico:e:eternidade|Eternidade]]". Entretanto, nós nos contentamos com certos aspectos do [[lexico:d:devir|devir]], estudamos fenômenos precisos e não todos os fenômenos, em [[lexico:s:suma|suma]] realizamos uma [[lexico:s:selecao|seleção]], tanto dos fenômenos a estudar como dos pontos de vista a partir dos quais os estudamos e, consequentemente, das causas de tais fenômenos. Não pode haver dúvidas sobre tudo isso. Mas [[lexico:c:como-se|como se]] realiza, ou melhor, como funciona essa seleção? Com uma [[lexico:e:expressao|expressão]] tomada de [[lexico:r:rickert|Rickert]], Weber responde a essa [[lexico:p:pergunta|pergunta]] dizendo que a seleção se realiza tendo por [[lexico:r:referencia|referência]] os valores. Aqui, é preciso que nos entendamos com muita clareza. Antes de mais [[lexico:n:nada|nada]], a [[lexico:r:referencia-aos-valores|referência aos valores]] (Wertbeziehung) não tem nada a ver com o [[lexico:j:juizo|juízo]] de [[lexico:v:valor|valor]] ou com a apreciação de [[lexico:n:natureza|natureza]] [[lexico:e:etica|ética]]. Weber é [[lexico:e:explicito|explícito]]: o juízo que glorifica ou condena, que aprova ou desaprova, não tem [[lexico:l:lugar|lugar]] na ciência, precisamente pela [[lexico:r:razao|razão]] de que ele é [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]. Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, a referência aos valores, em Weber, não tem nada a dividir com um [[lexico:s:sistema|sistema]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]] e [[lexico:u:universal|universal]] qualquer de valores, um sistema em condições de expressar uma [[lexico:h:hierarquia|hierarquia]] de valores unívoca, definitiva e válida sub specie aeternitatis. [[lexico:d:dilthey|Dilthey]] já constatara a [[lexico:m:moderna|moderna]] "[[lexico:a:anarquia|anarquia]] de valores". E Weber aceita [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:r:relativismo|relativismo]]: "[[lexico:q:quem|quem]] vive no [[lexico:m:mundo|mundo]] não pode experimentar em si a [[lexico:l:luta|luta]] entre uma [[lexico:p:pluralidade|pluralidade]] de valores, cada um dos quais, tomado em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], parece obrigatório: deverá escolher a qual desses [[lexico:d:deuses|deuses]] quer servir, mas sempre se encontrará em conflito com algum dos outros deuses do mundo". No [[lexico:c:campo|campo]] da ética, Weber é favorável a um [[lexico:p:politeismo|politeísmo]] de valores. A referência aos valores, portanto, não equivale a pronunciar juízos de valor ("isto é [[lexico:b:bom|Bom]]", "aquilo é justo", "isto é [[lexico:s:sagrado|sagrado]]"), nem implica o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] de valores absolutos e incondicionais. Então, o que pretende Weber quando questiona a "referência aos valores"? Para sermos breves, devemos dizer que a referência aos valores é [[lexico:p:principio|princípio]] de [[lexico:e:escolha|escolha]]: ele serve para estabelecer quais os problemas e os aspectos dos fenômenos, isto é, o campo de [[lexico:p:pesquisa|pesquisa]] no qual posteriormente a [[lexico:i:investigacao|investigação]] se realizará de [[lexico:m:modo|modo]] cientificamente objetivo, tendo em vista a explicação causal dos fenômenos. A realidade é ilimitada, aliás, infinita. E o sociólogo e o historiador só acham interessantes certos fenômenos e aspectos desses fenômenos. E eles são interessantes não por uma sua [[lexico:q:qualidade|qualidade]] intrínseca, mas somente em referência aos valores do pesquisador. Escreve Weber: "Sem as [[lexico:i:ideias|ideias]] de valor do pesquisador, não haveria nenhum princípio para a escolha da [[lexico:m:materia|matéria]] e nenhum conhecimento significativo do [[lexico:r:real|real]] em sua [[lexico:i:individualidade|individualidade]]". Na realidade, "a prostituição é [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] cultural, a exemplo da [[lexico:r:religiao|religião]] ou do dinheiro. E todos os três o são enquanto e somente enquanto sua [[lexico:e:existencia|existência]] e sua [[lexico:f:forma|forma]], que assumem historicamente, toquem direta ou indiretamente os nossos pontos de vista, orientados com base em ideias de valor, que tornam significativo para nós o setor da realidade pensando naqueles [[lexico:c:conceitos|conceitos]]". Segue-se daí que [[lexico:e:explicar|explicar]] causalmente um [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] em sua individualidade não significa reproduzi-lo tal e qual ou explicá-lo causalmente na [[lexico:t:totalidade|totalidade]] de suas qualidades individuais: "Isso seria [[lexico:t:tarefa|tarefa]] não apenas [[lexico:i:impossivel|impossível]], mas também, em princípio, desprovida de [[lexico:s:sentido|sentido]]". Ao historiador cabe exclusivamente a explicação de [[lexico:e:elementos|elementos]] e aspectos do acontecimento enquadrável em determinado [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista (ou [[lexico:t:teoria|teoria]]). E os pontos de vista não são dados uma vez por todas: a variação dos valores condiciona a variação dos pontos de vista, suscita novos problemas, propõe considerações inéditas, descobre novos aspectos. É o feixe do maior [[lexico:n:numero|número]] de pontos de vista definidos e comprovados que nos permite [[lexico:t:ter|ter]] a [[lexico:i:ideia|ideia]] mais exata [[lexico:p:possivel|possível]] de um [[lexico:p:problema|problema]]. Tudo isso, mais uma vez, mostra o [[lexico:a:absurdo|absurdo]] da pretensão de que as ciências da [[lexico:c:cultura|cultura]] poderiam e deveriam elaborar um sistema fechado de conceitos definitivos. "Os pontos de partida das ciências da cultura projetam-se mutáveis (...) até o mais distante [[lexico:f:futuro|futuro]], enquanto nenhum enrijecimento da [[lexico:v:vida|vida]] espiritual fizer a [[lexico:h:humanidade|humanidade]] desistir de propor novas questões à vida, sempre igualmente inexaurível".