===== REALISMO METAFÍSICO ===== A [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] de [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] de Eleia representa uma façanha intelectual de extraordinária magnitude, [[lexico:n:nao:start|não]] somente por aquilo que no seu [[lexico:t:tempo:start|tempo]] significou de [[lexico:e:esforco:start|esforço]] genial para dominar o [[lexico:p:problema:start|problema]] metafísico, mas sobretudo pela profundidade incalculável da penetração que levou este [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] a formular [[lexico:i:ideias:start|ideias]], [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]], direções, que Imprimiram a toda a filosofia europeia uma marcha que desde então continuou ininterrupta com a mesma [[lexico:o:orientacao:start|orientação]]. Das linhas gerais da filosofia de Parmênides podemos tirar as duas bases fundamentais em que se assenta [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:s:sistema:start|sistema]]. Essas duas bases fundamentais são: primeiramente, a identificação do [[lexico:s:ser:start|ser]] com o [[lexico:p:pensar:start|pensar]]; em segundo [[lexico:l:lugar:start|lugar]], a aplicação rigorosa das condições do pensar à [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do ser. Essas duas bases fundamentais do sistema eleático poderiam induzir, e muitas vezes induziram, ao [[lexico:e:erro:start|erro]] de considerar o [[lexico:e:eleatismo:start|eleatismo]] como a primeira [[lexico:f:forma:start|forma]] conhecida de [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]. Alguns historiadores da filosofia pensaram encontrar na filosofia de Parmênides a forma primária do idealismo filosófico. Visto que — [[lexico:c:como-se:start|como se]] tem [[lexico:d:dito:start|dito]] — Parmênides identifica o [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] e o ser, visto que estabelece que o pensamento e as condições do pensamento são a única diretriz que nos pode guiar através de nossa procura empós do ser; esta identificação constitui o núcleo mesmo da filosofia que os modernos chamam Idealismo. Todavia, esta [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] está radicalmente errada. Nem todos os historiadores da filosofia a compartilham, nem de longe. Mas alguns, levados por um afã que poderíamos qualificar de intimamente [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]], acreditaram podê-lo interpretar assim. Refiro-me principalmente com estas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] à [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] recente dos filósofos que se agrupam em torno do professor Hermann [[lexico:c:cohen:start|Cohen]], em Marburgo na Alemanha, os renovadores do [[lexico:k:kantismo:start|kantismo]] na Alemanha. Esses filósofos, preocupados em sistematizar intimamente, propendem a [[lexico:v:ver:start|ver]] a [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] de uma maneira falsa, porque, como colocam no centro do [[lexico:p:pensamento-filosofico:start|pensamento filosófico]] [[lexico:u:universal:start|universal]] o sistema kantiano, resulta que tudo o mais, que aparece no panorama [[lexico:h:historico:start|histórico]] da filosofia, desde o seu nascimento na [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] até nossos dias, fica para eles subdividido geralmente em dois planos: os que se situam no mesmo [[lexico:p:plano:start|plano]] de [[lexico:k:kant:start|Kant]] e os que se situam fora do plano kantiano; os que de uma ou outra maneira podem eles considerar como precursores, vislumbradores, da filosofia kantiana, que são os que constituem a corrente central, segundo eles, e os que, por uma ou outra [[lexico:c:causa:start|causa]], se afastam da filosofia tal como Kant a entende, e traçam outros sulcos distintos do idealismo filosófico. Assim, os historiadores da [[lexico:e:escola-de-marburgo:start|escola de Marburgo]] viram em Parmênides um idealista. Sobretudo em [[lexico:p:platao:start|Platão]], sucessor de Parmênides, acreditaram vislumbrar um [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] precursor de Kant. Interpretaram o eleatismo e o [[lexico:p:platonismo:start|platonismo]], Parmênides e Platão, como idealistas avant la lettre. Pelo contrário, filósofos como [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], cuja [[lexico:i:influencia:start|influência]] no pensamento [[lexico:h:humano:start|humano]] não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum negar, nem sequer diminuir o mínimo que seja, aparecem para eles como fatais desvios de uma corrente que, se tivesse seguido o curso iniciado por Parmênides ou Platão, teria chegado muito antes ao pleno esplendor que recebe com Kant. Isto é uma maneira parcialíssima de focalizar a [[lexico:h:historia:start|história]] da filosofia. Parcialíssima e, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, radicalmente falsa. A filosofia de Parmênides não pode, de modo algum, ser entendida como um idealismo antes do idealismo. É certo que os dois esteios fundamentais do pensamento parmenídico (a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] entre o ser e o pensar e a submissão do ser às diretrizes do pensar) oferecem evidentemente o flanco para que, jogando com as palavras, injetando em uma [[lexico:m:mente:start|mente]] do século VI antes de Cristo concepções que nem de longe podem [[lexico:e:estar:start|estar]] nela, se tirem conclusões que abonam uma interpretação idealista de Parmênides. Mas Isto é um abuso. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], Parmênides não é um idealista. [[lexico:e:eu:start|eu]] me atreveria, pelo contrário, a assentar com um pouco de [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]], um pouco paradoxalmente, com um matiz de paradoxo, a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] contrária, a [[lexico:s:saber:start|saber]]: que Parmênides é o filosofo [[lexico:g:grego:start|grego]] que estabelece as bases do [[lexico:r:realismo:start|realismo]] filosófico. Porque é claro que existe no pensamento de Parmênides esta identidade entre o ser e o pensar; mas a interpretação dessa identidade dependerá do lugar em que nós coloquemos o [[lexico:a:acento:start|acento]]. Podemos colocar o acento no "pensar" e dizer que o ser se reduz a pensar, e então é claro que teremos algo parecido com o idealismo; mas coloquemo-lo ao inverso: coloquemos o acento no "ser", e concluímos que o ser é [[lexico:q:quem:start|quem]] recebe as determinações do pensar, que o pensar não é mais que aquele que injeta no ser suas próprias determinações. Então, colocando o acento sobre o ser, aparece esta filosofia com um [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] completamente diferente. Na realidade, na mente de Parmênides não se dilui, nem por um só [[lexico:i:instante:start|instante]], o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]] do seu pensamento; e o ponto de partida efetivo é a [[lexico:a:analise:start|análise]] da [[lexico:c:coisa:start|coisa]]. Parmênides [[lexico:p:parte:start|parte]] na sua [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] da realidade das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]; de que as coisas são reais; de que essas coisas que vemos, tocamos, sentimos, temos diante de nós, possuem a plenitude do ser. Porém, [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] imediatamente a [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]]: em que consiste [[lexico:e:esse:start|esse]] "ser" dessas coisas? Como podemos "pensar" fosse ser sem contradições? Como podemos chegar a ajustar, a identificar o nosso pensamento com esse ser? Pois não podemos fazê-lo mais que analisando esse ser, analisando as coisas e limpando-as de tudo aquilo que encontremos nelas de contrário às condições do pensar. Uma das condições fundamentais de todo pensamento é que o pensamento concorde consigo mesmo, que o pensamento seja coerente, ou, como dizemos vulgarmente e com uma [[lexico:e:expressao:start|expressão]] imprópria mas corrente, que o pensamento seja [[lexico:l:logico:start|lógico]]. Quer dizer, que o pensamento não afirme [[lexico:a:agora:start|agora]] uma coisa e um [[lexico:m:momento:start|momento]] depois o contrário, porque não pode ser [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que uma coisa seja certa e que imediatamente depois o contrário dessa coisa seja também certo. Pois se uma das condições do pensar é essa e temos aí o ser, então é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] que o ser que temos aí seja realmente contraditório e cheio de incoerências. Tiremos do ser que temos aí suas incoerências de vulto, aparentes, visíveis, essas incoerências notórias; digamos que essas incoerências não pertencem ao ser porque não podem pertencer a ele, já que são impensáveis, já que não concordam entro si; e o que ficar depois de [[lexico:t:ter:start|ter]] feito essa limpeza do ser, isto será o que verdadeiramente é. E dentre essas incoerências, que temos que tirar de diante de nós, está a [[lexico:m:multiplicidade:start|multiplicidade]] de seres, está a mutabilidade daquilo que temos diante. Vemos que muda; mas como mudar é ilógico, é [[lexico:i:irracional:start|irracional]], digamos que acreditamos que muda: porém, que na realidade não muda. A mobilidade do ser é outra dessas incoerências. Temos, pois, que para Parmênides a realidade continua a ser fundamentalmente uma coisa, uma coisa que não admite outra ao seu lado, porque seria contraditória; que não admite o [[lexico:m:movimento:start|movimento]], porque seria contraditório; que não admite a [[lexico:m:mudanca:start|mudança]], porque seria contraditória. Todavia o primeiramente existente para Parmênides é res, coisa; e por isso, eu me atreveria a dizer que Parmênides é, na realidade, o primeiro fundador do [[lexico:r:realismo-metafisico:start|realismo metafísico]], embora na expressão isto resulte paradoxal. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}