===== REALISMO CRÍTICO TOMISTA ===== Há meia centena de anos, um certo [[lexico:n:numero|número]] de filósofos tomistas se preocuparam em constituir uma [[lexico:t:teoria-critica|teoria crítica]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] culminando no [[lexico:r:realismo|realismo]], mas que [[lexico:n:nao|não]] o suporia como [[lexico:d:dado|dado]]. Tratar-se-ia de delimitar uma [[lexico:e:especie|espécie]] de terreno neutro constituindo uma [[lexico:p:posicao|posição]] inicial comum, que realistas e idealistas poderiam, de [[lexico:a:acordo|acordo]], escolher como seu [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida, na [[lexico:e:esperanca|esperança]] de finalmente se encontrarem no final. Este ponto de partida comum, ou pelo menos aceitável para ambos os lados, só pode [[lexico:s:ser|ser]] o [[lexico:p:pensamento|pensamento]], na [[lexico:m:medida|medida]] em que se apresenta como um [[lexico:o:objeto|objeto]] [[lexico:i:imediato|imediato]] de [[lexico:r:reflexao|reflexão]]. Partiríamos portanto do [[lexico:c:cogito|cogito]], mas sem que esteja precisado ainda, neste [[lexico:m:momento|momento]] inicial, se este cogito se dobra sobre [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], na [[lexico:i:interioridade|interioridade]] sem saída de uma [[lexico:c:consciencia|consciência]] idealista, ou se desemboca efetivamente em uma [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:e:exterior|exterior]]. [[lexico:e:eu|eu]] penso, e me é [[lexico:i:impossivel|impossível]] duvidar disso no [[lexico:i:instante|instante]] mesmo em que penso. Mas não sei ainda, ou não [[lexico:d:desejo|desejo]] [[lexico:s:saber|saber]], qual é a [[lexico:s:significacao|significação]] desse [[lexico:a:ato|ato]]. Não o saberei senão ulteriormente, quando terei compreendido, graças às análises que vou empreender, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:p:pensar|pensar]]. Parto, portanto, do [[lexico:f:fato|fato]] [[lexico:p:puro|puro]] do pensamento e vou procurar, através de um [[lexico:m:metodo|método]] de reflexão sobre meu ato, o que é pensar. Tomemos como [[lexico:e:exemplo|exemplo]] dessa [[lexico:a:atitude|atitude]] filosófica um dos trabalhos mais sérios que foram tentados nessa base, o Essai d’une étude critique de la connaissance do Pe. Roland-Gosselin (Paris, 1932); e ouçamos [[lexico:e:esse|esse]] autor definir ele [[lexico:p:proprio|próprio]] sua posição inicial: "Do ponto de vista da reflexão [[lexico:c:critica|crítica]], o [[lexico:e:estudo|estudo]] do [[lexico:e:espirito|espírito]] repousa solidamente sobre o fato de que o ato de pensar pode ser apreendido imediatamente na consciência de si. A [[lexico:h:homogeneidade|homogeneidade]] perfeita, a [[lexico:u:unidade|unidade]] do cognoscente e do conhecido, no ato de reflexão, é imediatamente evidente, e nenhuma reflexão ulterior, se exercendo sobre a reflexão primeira, pode introduzir nela a obscuridade e a [[lexico:d:duvida|dúvida]]. Existe aí um ponto de partida [[lexico:a:absoluto|absoluto]], porque há de início um [[lexico:r:retorno|retorno]] absoluto do espírito sobre si..." (p. 11). E daí, sem [[lexico:n:nada|nada]] prejulgar de seu [[lexico:v:valor|valor]] definitivo, se encontrará estabelecido um contato inicial com o [[lexico:i:idealismo|Idealismo]]; "Como o idealismo, com [[lexico:e:efeito|efeito]], aceitaremos inicialmente considerar o ato de nosso pensamento, o [[lexico:j:juizo|juízo]], a título de [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:r:relacao|relação]] [[lexico:a:atual|atual]] entre um [[lexico:s:sujeito|sujeito]] e um objeto... Por que isto? Porque não cabe abandonar benevolamente ao idealismo o privilégio de uma posição sólida, de uma base de [[lexico:o:operacao|operação]] inatacável." (p. 35). Essa base de operação é de fato inatacável? Desde o início, pode tal base se autorizar do patrocínio de [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]]? Sabe-se que este normalmente desenvolve seu pensamento a partir do realismo. Mas, pelo menos, não abriu, em alguma circunstância, as vias para um [[lexico:t:tipo|tipo]] de reflexão filosófica que encontraria seu apoio na consciência que temos de nossa [[lexico:a:atividade|atividade]] intelectual? Um certo [[lexico:t:texto|texto]] do De Veritate foi frequentemente interpretado neste [[lexico:s:sentido|sentido]], texto que Mgr. Noël (Notes d’épistémologie thomiste, p. 59-60), não teme colocar em paralelo com uma passagem das Regulae de [[lexico:d:descartes|Descartes]] e do primeiro prefácio da [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], onde somos convidados a proceder a uma crítica reflexiva [[lexico:g:geral|geral]] de nossa [[lexico:f:faculdade|faculdade]] de conhecer. "A [[lexico:v:verdade|verdade]]... é na [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] [[lexico:s:sequencia|sequência]] do ato da inteligência e conhecida pela inteligência; ela se segue à operação da inteligência na medida em que o juízo desta [[lexico:p:potencia|potência]] se refere à [[lexico:c:coisa|coisa]], enquanto ela é; e ela é conhecida pela inteligência na medida em que esta reflete sobre seu ato, e não somente enquanto ela conhece este ato, mas enquanto tem conhecimento de sua proporção à coisa, secundum [[lexico:q:quod|quod]] cognoscit porportionem ejus ad rem... " E Tomás de Aquino afirma que esse conhecimento supõe que se saiba o que é esse próprio ato em si mesmo e a inteligência que está no seu [[lexico:p:principio|princípio]]: "na [[lexico:n:natureza|natureza]] da qual está implicado que ela deve se conformar às [[lexico:c:coisas|coisas]]: in cujus natura est ut rebus conformetur". E conclui que é por um ato de conhecimento reflexivo que a inteligência atinge a verdade, (De Veritate, q. 1, a. 9). Longe de nós o pensamento de reduzir a importância desse texto, que nos informa exatamente a [[lexico:r:respeito|respeito]] da via pela qual nossa inteligência toma consciência de seu valor realista; mas não lhe pedimos demais, no momento em que se vê aí um convite para constituir uma [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] reflexiva, no sentido precedentemente definido? Os partidários de um realismo imediato e sem crítica prévia aí encontram, também, algo em que fundar suas pretensões. Tomás de Aquino, em realidade, não pensava aqui no debate a propósito do qual é invocado. Qualquer que seja a significação e a [[lexico:d:dimensao|dimensão]] verdadeira desse texto, não se pode, sem trair a inspiração geral do [[lexico:t:tomismo|tomismo]], instituir uma crítica reflexiva do conhecimento que inicialmente não implicaria nem idealismo, nem realismo? Não é esta a [[lexico:o:opiniao|opinião]] de Gilson que, após outros, mas com brilho maior, manifestou-se contra todas as tentativas para estabelecer um "realismo crítico" (Cf. sobretudo Réalisme thomiste et critique de Ia connaissance). Coloquemos à [[lexico:p:parte|parte]] desde logo, na viva polêmica que foi empreendida por esse autor, uma querela de [[lexico:p:palavras|palavras]]. Gilson não quer absolutamente ouvir [[lexico:f:falar|falar]] de "realismo crítico"; é uma [[lexico:e:expressao|expressão]] que revela um disparate: se alguém é crítico, não poderá jamais ser realista; mas é preciso subentender que a [[lexico:p:palavra|palavra]] "crítico" é tomada aqui no sentido kantiano, que, com efeito, excluiu o realismo. Outros, [[lexico:m:maritain|Maritain]] por exemplo, julgam que não cabe abandonar aos idealistas a prerrogativa de constituir uma [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] "crítica", com a [[lexico:c:condicao|condição]] evidentemente de que esse [[lexico:t:termo|termo]] seja liberado de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] subjetivista. Mas isso pouco importa. Reportemo-nos aos argumentos de fundo. Para Gilson existe uma [[lexico:l:logica|lógica]] interna dos sistemas; se começamos com Descartes pela dúvida e pelo Cogito, ou se adotamos no seu ponto de partida o [[lexico:t:transcendentalismo|transcendentalismo]] kantiano, não recuperaremos jamais o [[lexico:r:real|real]] e terminaremos idealistas: partindo-se do conhecimento previamente isolado do real, jamais se conseguirá reencontrá-lo. Deveremos pois, para Gilson, nos refugiar, em face da crítica idealista, nas afirmações espontâneas de um realismo ingênuo? De [[lexico:m:modo|modo]] algum, pois o realismo tomista é um realismo refletido ou que tem perfeitamente consciência de si mesmo e que repousa, não sobre qualquer [[lexico:o:obscuro|obscuro]] [[lexico:i:instinto|instinto]], mas sobre a [[lexico:e:evidencia|evidência]] que tenho de ser, no meu conhecimento, [[lexico:r:relativo|relativo]] a um objeto real. Uma vez, contudo, reconhecido este dado inicial do realismo fundamental do meu pensamento, resta-me ainda, do ponto de vista epistemológico, um [[lexico:t:trabalho|trabalho]] considerável a realizar: o como desta [[lexico:a:apreensao|apreensão]] primeira, suas diversas condições, não se encontram imediatamente esclarecidos. [[lexico:a:alem|Além]] disso, ser-me-á preciso proceder a uma crítica dos meus conhecimentos com a [[lexico:f:finalidade|finalidade]] de determinar sua exata dimensão e suas mútuas [[lexico:r:relacoes|relações]]. Todo esse esfôrço de reflexão e de [[lexico:a:analise|análise]] fará do realismo, que professo espontaneamente na minha [[lexico:v:vida|vida]] corrente, um realismo verdadeiramente filosófico ou metódico, mas sem que em momento algum deva fazer intervir esta [[lexico:s:suposicao|suposição]] de que, talvez, meu pensamento seja puramente [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]]. Que partido convém tomar? É preciso, já no momento inicial da reflexão crítica, reconhecer o realismo, ou é preferível partir do puro fato do conhecimento sem que seja ainda precisado se ele tem um valor de [[lexico:t:transcendencia|transcendência]]? A solução desta [[lexico:a:alternativa|alternativa]] depende para nós da resposta que se dará a esta [[lexico:q:questao|questão]]: é [[lexico:p:possivel|possível]] formar uma [[lexico:n:nocao|noção]] do conhecimento que não implique sua ordenação ao real? Do ponto de vista da [[lexico:p:percepcao|percepção]] da verdade — isto é, da relação entre o pensamento e a coisa — distinguem-se, na filosofia tomista, duas espécies de conhecimento: de um lado, as simples apreensões e as sensações e, de [[lexico:o:outro|outro]] lado, os juízos. Sabe-se que formalmente e enquanto conhecida, a verdade não se encontra senão na segunda dessas [[lexico:c:categorias|categorias]] de conhecimento. Na [[lexico:s:sensacao|sensação]] pura ou na simples [[lexico:i:inteleccao|intelecção]], o espírito não sabe se é [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]], uma vez que ainda não refletiu sobre si mesmo, nem em [[lexico:c:consequencia|consequência]], tomou posição em face do objeto que conhece; a relação do pensamento, ou do sujeito pensante, com a coisa exterior, só se manifesta no juízo. Se tal se dá, dever-se-á concluir, com efeito, que existe um primeiro momento do conhecimento onde o objeto não aparece na sua [[lexico:d:distincao|distinção]] do sujeito: mas devemos nos apressar em acrescentar que neste nível, que, por outro lado, corresponde a um [[lexico:e:estado|Estado]] instável e inacabado do pensamento, o próprio conhecimento não é [[lexico:c:consciente|consciente]]: sou como que absorvido pelo objeto. Se venho então a refletir sobre meu ato, meu pensamento se torna consciente em mim, objeto e sujeito se destacam um do outro, vejo que meu conhecimento é verdadeiro. Mas todo esse [[lexico:m:movimento|movimento]] reflexivo e as descobertas que o acompanham supõem que me pus a julgar. O conhecimento como a colocação de um objeto em face de um sujeito, e como percepção da relação original que os refere um ao outro, implica o juízo. Neste nível, o [[lexico:p:problema|problema]] real, isto é, das relações do pensamento com o ser, se encontra colocado. Mas não está ao mesmo tempo resolvido? Não é possível destacar do juízo o seu valor realista. Tal é a conclusão na qual nos deteremos. Seguir-se-á daí que a suposição de uma relação consciente, entre o sujeito e o objeto do conhecimento [[lexico:p:privado|privado]] de sua significação realista, corresponde a uma construção do espírito de fato artificial: desde o momento em que me ponho a refletir sobre meu pensamento, estou no estado daquele que julga. Conhecer, para uma inteligência humana, é julgar; e julgar, teremos a [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] de repetir, é perceber o que é. Não posso portanto, se quero tomar meu ponto de. partida no conhecimento, senão partir, ao mesmo tempo, do realismo. Quanto ao fundo da questão, Gilson parece [[lexico:e:estar|estar]] certo, ficando evidentemente entendido que múltiplos esclarecimentos concernentes ás condições e à dimensão precisa deste realismo ficam ainda por dar. [[lexico:a:agora|agora]] nos é possível, em conhecimento de [[lexico:c:causa|causa]], julgar sobre a questão das relações da "crítica" com a [[lexico:m:metafisica|metafísica]]. Os epistemólogos de [[lexico:t:tendencia|tendência]] criticista, aos quais fizemos alusão, eram naturalmente levados a separar as duas disciplinas e a fazer da "crítica" uma espécie de introdução à metafísica, ou pelo menos um método de [[lexico:v:verificacao|verificação]] autenticando com [[lexico:a:autoridade|autoridade]] os seus resultados: não se nega absolutamente que não seja possível continuar, como no passado, a construir uma metafísica tendo um certo valor sobre as bases do realismo, mas, se se quiser proceder de modo científico, é preciso, dizem, começar por experimentar criticamente nossos meios de conhecer, com isenção de todo preconceito. Deixando de lado, aqui, a questão de saber se não haveria uma certa [[lexico:v:vantagem|vantagem]] prática, de [[lexico:o:ordem|ordem]] [[lexico:a:apologetica|apologética]] por exemplo, em agrupar sob um mesmo título todo um conjunto de estudos convergentes sobre o valor do conhecimento ou de nossos diversos conhecimentos, devemos afirmar, todavia, de modo bastante distinto, que a [[lexico:s:separacao|separação]] observada e por vezes realizada da [[lexico:e:especulacao|especulação]] objetiva e da crítica tem o inconveniente de dissociar de maneira artificial e perigosa duas funções que, de fato, se nos apareceram estreitamente unidas e solidárias uma da outra neste ato adulto de conhecimento que é o juízo. Todo juízo é [[lexico:p:por-si|por si]] mesmo [[lexico:r:reflexo|reflexo]] ou, se se quiser, crítico. Segue-se daí que a metafísica que, como sabemos, repousa de modo especial sobre os juízos, é essencialmente reflexa e crítica. O metafísico, consciente daquilo que afirma, sabe porque afirma e que o que afirma é verdadeiro. Todos os aspectos subjetivos da atividade psicológica que precisou utilizar não são, talvez, no mesmo momento, perfeitamente claros para ele, mas, do lado [[lexico:o:objetivo|objetivo]], o que reconhece é absolutamente verdadeiro e nenhuma crítica prévia ou paralela poderia mudar nada. A metafísica, como por outro lado a filosofia inteira, é reflexa ou crítica, ou então é um puro [[lexico:j:jogo|jogo]] do espírito. Só existe, pois, para nós uma única [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] suprema: a metafísica, que possui, de modo, eminente, valor de uma crítica.