===== REAL E REALIDADE ===== **[[lexico:r:real-e-realidade:start|real e realidade]] PARA NICOLAI [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]]** Reproduzimos a seguir uma [[lexico:s:sintese:start|síntese]] realizada por [[lexico:f:ferrater:start|Ferrater]] Mora do livro "Möglichkeit und Wirklichkeit" ([[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] e [[lexico:r:realidade:start|realidade]]), onde são distinguidos várias acepções do [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:r:real:start|real]], submetidos à [[lexico:c:critica:start|crítica]]: "1) O real como oposto ao [[lexico:a:aparente:start|aparente]]. Esta [[lexico:s:significacao:start|significação]] [[lexico:n:nao:start|não]] pode [[lexico:s:ser:start|ser]] admitida, pois o aparente é também real, já que de outra [[lexico:f:forma:start|forma]] "não seria uma [[lexico:a:aparencia:start|aparência]] real". 2) A realidade como [[lexico:a:atualidade:start|atualidade]] (Wirklichkeit) pode equiparar-se à realidade como [[lexico:e:existencia:start|existência]] (Realität). Tal equiparação é duplamente errônea, pois o real ([[lexico:r:reale:start|Reale]]) possui em si também os outros modos de possibilidade real, [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] real, etc. — [[lexico:a:alem:start|além]] disso, podemos conceber uma "realidade [[lexico:e:essencial:start|essencial]] ou [[lexico:i:ideal:start|ideal]]", da mesma forma que uma "realidade [[lexico:l:logica:start|lógica]], ou cognitiva". A mencionada equiparação é um [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de confusão da [[lexico:e:esfera:start|esfera]] do ser com o [[lexico:m:modo:start|modo]] de ser. 3) A realidade como atualidade pode equiparar-se com a efetividade "Tatsächlichkeit". Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]], esta última é só "atualidade real", e exclui por [[lexico:p:principio:start|princípio]] as outras esferas. 4) A realidade como atualidade pode equiparar-se com a existência. Trata-se de uma confusão difícil de desentranhar, pois, como diz Hartmann "o ser real é o mais essencial na existência". Isto representa uma confusão do modo de ser com o [[lexico:m:momento:start|momento]] do ser. Os modos do ser são do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] do real e do ideal. Os momentos do ser são do tipo da [[lexico:e:essencia:start|essência]] e da existência. E a essência reclama, por isso, o ser real. 5) O real pode equiparar-se com o ativo ou [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]]. Mas isto representaria converter um modo do ser em uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] sua. 6) O real pode ser definido como algo que designa a maior ou menor plenitude do ser (o [[lexico:o:organico:start|orgânico]] como algo mais "real" que o inorgânico, etc). Tal conceito da realidade se aproxima ao sustentado pelos escolásticos, já que faz depender a realidade de um ser, da [[lexico:s:soma:start|soma]] de seus [[lexico:p:predicados:start|predicados]] positivos. Confundir-se-ia em tal caso a Wirklichkeit com a realitas. Em outros termos, haveria confusão do modo com a determinabilidade. Mas enquanto a determinabilidade varia, o modo permanece, segundo Hartmann, através de todas as suas possíveis determinações. No modo, como tal, não há gradações. 7) Poder-se-ia equiparar e confundir a realidade com a actualitas, enquanto [[lexico:a:ato:start|ato]] de ser. Mas tal significaria só a realidade de um [[lexico:e:eidos:start|eidos]] ou essentia. Não afeta ao [[lexico:m:modal:start|modal]], e pressupõe um [[lexico:e:esquema:start|esquema]] [[lexico:t:teleologico:start|teleológico]] (o que vai da [[lexico:d:dynamis:start|dynamis]] à [[lexico:e:energeia:start|energeia]]) que não somente não é aplicável a [[lexico:t:todo:start|todo]] o real, mas que exclui o imperfeito. 8) Pode confundir-se realidade com "possibilidade de [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] de algo" e ainda com "o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que algo dê aos sentidos "(como ocorre com o segundo [[lexico:p:postulado:start|postulado]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:e:empirico:start|empírico]] em [[lexico:k:kant:start|Kant]]). Neste caso, faz-se da realidade não uma maneira de ser, mas um modo de conhecer. Daí por que a [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] critico-descritiva deva estabelecer claras distinções entre os distintos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] do real: realidade lógica, realidade cognoscitiva, realidade essencial, etc, com o [[lexico:f:fim:start|fim]] de não aplicar a uma as [[lexico:c:categorias:start|categorias]] que pertencem à outra. A realidade, como existência, seria, assim, um dos momentos do ser; a realidade como algo distinto ou oposto à [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] seria uma das formas do ser, e a realidade como atualidade seria um dos modos do ser". É o conceito de real uma das maiores dificuldades da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], pois não é [[lexico:m:materia:start|matéria]] pacífica a sua nítida acepção. Assim se se [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] se é real Don Quixote, ou Tartufo, ou Karamazov, pode-se responder que não e também sim. Convém, portanto, distinguir, no conceito de real, dois aspectos. Real, como [[lexico:a:adjetivo:start|adjetivo]], qualifica e afirma realidade ao que qualifica. Neste caso, examinemos [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] Tartufo: 1) uma [[lexico:p:personagem:start|personagem]] de uma peça de Molière (ficcional); 2) pensamento de Molière, que se objetivou em sua [[lexico:o:obra:start|obra]]; exemplo do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] de [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]); 3) [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] da hipocrisia religiosa. Assim Tartufo, enquanto em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], não é real, mas ficcional. É um ser ficcional e, como tal, persiste, não resiste, prefixação imprescindível da [[lexico:s:sistencia:start|sistência]] que se objetiva. Como ser [[lexico:h:humano:start|humano]], existente, não é real, mas Tartufo é ainda um pensamento de Molière que se objetivou por [[lexico:m:meio:start|meio]] de sinais que o apontam. Como [[lexico:o:objetivacao:start|objetivação]] de um espírito é real; como símbolo, encerra todas as condições para [[lexico:t:ter:start|ter]] tal caracterização, pois tem notas que repetem notas da hipocrisia religiosa, portanto, como símbolo, é real (ontologicamente [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]], e, por isso, real). E se tem realidade de símbolo, de espírito objetivado, tem ainda de [[lexico:v:valor:start|valor]], como veremos na "[[lexico:a:axiologia:start|axiologia]]". Portanto para responder à pergunta se Tartufo é real ou não, é preciso primeiramente distinguir para depois responder. Logo, a qualificação de real não pode ser negada facilmente sem exame. Vemos que os seres que não existem como corpos, e como tal não oferecem uma presencialidade tempo-espacial, com resistência, [[lexico:c:consistencia:start|consistência]], persistência, [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]], assistência (que se verifica nas [[lexico:r:relacoes:start|relações]]), desistência, e, ademais, estância, distância, etc, os quais são considerados entes de [[lexico:r:razao:start|razão]], ou de [[lexico:f:ficcao:start|ficção]], ideais, metafísicos, etc, devem ser distinguidos em todas os suas [[lexico:s:significacoes:start|significações]] para que se apontem o que oferecem e o que não oferecem de real. Se são seres em si (com ensidade e [[lexico:p:perseitas:start|perseitas]], perseidade) a realidade é incontestável. Se são seres em [[lexico:o:outro:start|outro]] (in alius ou ab alius, com inaliedade, ou [[lexico:a:abaliedade:start|abaliedade]]) devem ser vistos dialeticamente dos seguintes campos: a) como realização conceitual; b) se recebem uma significação puramente de sinais; c) como símbolo de algo real, como realidade [[lexico:e:eidetica:start|eidética]] ou fáctica, isto é, como realidade de eidos, ou de acontecer [[lexico:i:independente:start|independente]] do [[lexico:n:nous:start|noûs]] humano (extra mentis); d) como valor decorrente da sua realidade. Aos primeiros seres que são fisicamente reais e se dão tensionalmente, como uma [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]], chamemos como reais-físicos; aos que têm realidade tensional (como estrutura esquemática), mas em outros, como reais-reais; deixando as classificações de reais-ideais, aos que são reais em alguns planos, mas surgidos eideticamente, sem separabilidade [[lexico:f:fisica:start|física]]; como reais-metafísicos, os não separáveis fisicamente, mas distinguíveis cum [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] in re; reais-ficcionais, quando oferecem as condições, como as de Tartufo; e reais-valorativos-objetivos, quando há valor com base real; valoráveis; reais-valorativos-noéticos, quando são apenas valores de valorização. Com esta [[lexico:c:classificacao:start|classificação]], que acompanha as linhas traçadas pelos escotistas, e as nossas da decadialética, evitam-se as inúmeras discussões sobre o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de real que se dá à [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] esquemática de um ser, quando se deve considerar a sua realidade, segundo a sua colocação [[lexico:r:relacional:start|relacional]]. Assim uma [[lexico:a:alucinacao:start|alucinação]], que não tem realidade objetiva, [[lexico:e:exterior:start|exterior]], tem uma realidade [[lexico:n:noetica:start|noética]], e portanto não pode ser classificada como real nem como [[lexico:i:irreal:start|irreal]], sem que se procedam as distinções que, por analisarem, esclarecem, e permitem uma colocação concrecional, portanto dialéctica, sem os costumeiros defeitos de tantas inúteis discussões que perpassam pelos livros de filosofia. Não se justifica assim colocar real ante ideal com exclusão, [[lexico:c:como-se:start|como se]] processa formalmente. Pois o ideal é real e o real pode ser ideal, dependendo apenas do [[lexico:c:campo:start|campo]] em que é visto, do ângulo em que é tomado, do relacionamento em que se encontra. Uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] não é apenas uma ideia, mas algo que tem coordenadas para a [[lexico:f:formacao:start|formação]] da sua realidade ideal. E há realidade nessas coordenadas, que o ideal, depois, significa, aponta. Portanto, todo ser é real, segundo seus modos de ser e segundo seu relacionamento. Todo ideal é ser, portanto, como tal, é real. Os conceitos de real e ideal devem ser tomados dialeticamente como "reais-ideais", em toda a gama da sua escolaridade, sem exclusões, mas concretamente. Em [[lexico:s:suma:start|suma]], para nós, a realidade é o [[lexico:n:nexo:start|nexo]] do acontecer cósmico: idealidade o nexo do acontecer das [[lexico:i:ideias:start|ideias]]. Este, de certo modo, inclui-se naquele, por isso também é real, mas dele se distingue.. Na realidade cósmica, as macieiras, estão aqui, ali, acolá. Na realidade ideal, elas estão englobadas no esquema eidético-noético. Unir o nexo da realidade ao da idealidade, considerando este como um momento daquele, numa concreção, é o que faz a decadialética. Desta forma, as críticas de Hartmann incorporam-se à nossa classificação corroborando-a. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}