===== REAÇÃO POSITIVISTA ===== Estes homens, [[lexico:f:fichte|Fichte]], [[lexico:s:schelling|Schelling]] e [[lexico:h:hegel|Hegel]], preencheram a [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] da primeira metade do século XIX. Mas estes homens que preencheram a filosofia na primeira metade do século XIX exageram e [[lexico:n:nao|não]] pouco. Afastaram-se demais das vias que seguia o [[lexico:c:conhecimento-cientifico|conhecimento científico]]. Apartaram-se demais delas; não as tiveram em conta nem como [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida nem como ponto de chegada. Empenharam-se em que sua [[lexico:d:deducao-transcendental|dedução transcendental]], essa construção [[lexico:s:sistematica|sistemática]] que partia do [[lexico:a:absoluto|absoluto]], compreendesse também no seu seio a [[lexico:c:ciencia|ciência]] do seu [[lexico:t:tempo|tempo]]. Assim foi-se cavando pouco a pouco um [[lexico:a:abismo|abismo]] entre a filosofia e a ciência. A filosofia, afastando-se da ciência, e a ciência, desviando-se, afastando-se também da filosofia. Que resultou de tudo isto? Que a meados do século XIX [[lexico:e:esse|esse]] rompimento, esse abismo entre a ciência e a filosofia era tão grande que trouxe consigo um [[lexico:e:espirito|espírito]] de hostilidade, de receio e de amargo afastamento com [[lexico:r:respeito|respeito]] à filosofia. Sobreveio o espírito que chamaríamos positivista. O [[lexico:p:positivismo|positivismo]] está estruturado por um certo [[lexico:n:numero|número]] de preferências e de desvios intelectuais que vou enumerar. Em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], a hostilidade radical a toda construção. Chama-se construção ao empenho desses filósofos românticos alemães de deduzir do absoluto, construtivamente, [[lexico:t:todo|todo]] o pormenor do [[lexico:u:universo|universo]]. Em tom de brincadeira (sempre falava em tom jocoso, porém muitas vezes com grande profundidade) dizia Heine que Hegel era capaz de deduzir a [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] do lápis com que escrevia, partindo do absoluto, sem solução de continuidade. Pois o espírito positivista de hostilidade à construção consiste nessa hostilidade a toda [[lexico:d:deducao|dedução]] que não esteja baseada em dados imediatos dá [[lexico:e:experiencia|experiência]]. Esses filósofos não tiveram a precaução de [[lexico:k:kant|Kant]]; Kant partira da [[lexico:f:fisica|física]] de Newton e da [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]] como um [[lexico:f:fato|fato]]. Sua filosofia estava vinculada às articulações da ciência. Mas estes filósofos partem dos resultados da filosofia de Kant; e então se distanciaram extraordinariamente dos dados mesmos da [[lexico:o:observacao|observação]] e das experimentações científicas. O segundo ponto do positivismo é a hostilidade ao [[lexico:s:sistema|sistema]]. O positivismo diz: a [[lexico:r:realidade|realidade]] será ou não será sistemática. Isso não sabemos [[lexico:a:a-priori|a priori]]. Em troca, esses filósofos constroem sua realidade sistematicamente, [[lexico:c:como-se|como se]] a priori soubessem que a realidade é sistemática. Se a realidade for sistemática, haveremos de sabê-lo quando a conheçamos; o primeiro é conhecê-la tal como é. [[lexico:t:terceiro|terceiro]] ponto [[lexico:e:essencial|essencial]] do positivismo: dos dois pontos anteriores se deriva a [[lexico:r:reducao|redução]] da filosofia a puros resultados da ciência. A filosofia não pode [[lexico:s:ser|ser]] outra [[lexico:c:coisa|coisa]] que a [[lexico:g:generalizacao|generalização]] dos mais importantes e vultosos resultados da física, da química, da [[lexico:h:historia|história]] [[lexico:n:natural|natural]]. Não se pode fazer outra coisa. O [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:h:humano|humano]] não pode sair do [[lexico:c:circulo|círculo]] em que está fechado o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]]. Por conseguinte, o mais que pode pretender o [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] é tomar esses resultados gerais a que chega a ciência e esticá-los e dar-lhes as formas mais ou menos sistemáticas possíveis. Por [[lexico:u:ultimo|último]], o traço essencial do positivismo é o [[lexico:n:naturalismo|naturalismo]]. Que é naturalismo? Algo muito [[lexico:s:simples|simples]]. Existem umas ciências que estudam a [[lexico:n:natureza|natureza]]. Essas ciências são: a [[lexico:a:astronomia|astronomia]], a física, a química, a [[lexico:b:biologia|biologia]], a história natural. Nessas ciências os métodos que elas empregam deram resultados magníficos. Durante séculos, os métodos experimentais, de observação de redução das formas a leis ou sequências, deram resultados excelentes. Então o naturalismo consiste em dizer: todas as demais ciências, a [[lexico:p:psicologia|psicologia]], a [[lexico:c:ciencia-da-historia|ciência da história]], a ciência do [[lexico:d:direito|direito]] e do espírito, devem seguir os mesmos métodos. Visto que naquelas foram tão bons esses métodos, que estas sigam também os mesmos. Isso é naturalismo. E isso está [[lexico:i:implicito|implícito]] no pensamento positivista. Mas, [[lexico:a:alem|além]] disso, esse naturalismo nos leva a outra conclusão ou [[lexico:c:consequencia|consequência]]: que os objetos da ciência do espírito, a psicologia, a história, o direito, os [[lexico:c:costumes|costumes]], a [[lexico:m:moral|moral]], a [[lexico:e:economia-politica|economia política]] etc. são objetos que devem poder reduzir-se à natureza. Cremos que são de [[lexico:e:essencia|essência]] e de índole diferentes; cremos que entre o espírito, o pensamento e a [[lexico:m:materia|matéria]] cerebral há um abismo. Não é assim, dizem eles; forçosamente, quando chegar com o [[lexico:p:progresso|progresso]] seu dia, descobrir-se-á como um se vincula ao [[lexico:o:outro|outro]] e como o espírito pode reduzir-se aos fenômenos materiais. O naturalismo tem, pois, dois sentidos: primeiro, a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de estender os métodos das ciências naturais a toda a ciência, e segundo, reduzir à natureza os objetos que parecem irredutíveis à natureza, O caso mais impressionante do naturalismo o encontramos no livro de [[lexico:s:spengler|Spengler]], A [[lexico:d:decadencia-do-ocidente|Decadência do Ocidente]], em que se considera que a [[lexico:c:cultura|cultura]] é o mesmo que um tigre ou um rinoceronte, um ser [[lexico:v:vivente|vivente]] que tem seu nascer, seu [[lexico:d:desenvolvimento|desenvolvimento]], sua proliferação, sua [[lexico:m:morte|morte]], suas leis biológicas, às quais está [[lexico:s:sujeito|sujeito]]. Este ponto de vista positivista teve que [[lexico:t:ter|ter]] uma consequência forçosa: a [[lexico:d:depressao|depressão]] da filosofia. A filosofia ficou deprimida. Durante a segunda metade do século XIX a filosofia caminhou miserável, pedindo [[lexico:p:perdao|perdão]] pela sua [[lexico:e:existencia|existência]], como dizendo aos [[lexico:c:cientistas|cientistas]]: desculpem, [[lexico:e:eu|eu]] não tenho [[lexico:c:culpa|culpa]]; farei o que puder. Pedia perdão pela sua existência, renunciando aos seus próprios problemas. De vez em quando algum atrevido que se aventurava a [[lexico:p:por|pôr]] em [[lexico:d:duvida|dúvida]] as grandes generalizações de Haeckel, de Ostwald ou de [[lexico:s:spencer|Spencer]], recebia imediatamente um golpe de férula nos dedos: "O senhor é metafísico!" E ele dizia: "Coitado de mim! Sou um metafísico!" E então sentia-se acabrunhado e desesperado.