===== RAZÃO PRÁTICA ===== A conclusão a que chega a [[lexico:c:critica-da-razao-pura:start|Crítica da Razão Pura]] é a [[lexico:i:impossibilidade-da-metafisica:start|impossibilidade da metafísica]] como [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], como [[lexico:c:conhecimento-cientifico:start|conhecimento científico]], que pretende a [[lexico:c:contradicao:start|contradição]] de conhecer, e conhecer [[lexico:c:coisas:start|coisas]] em si mesmas. Visto que conhecer é uma [[lexico:a:atividade:start|atividade]] regida por um certo [[lexico:n:numero:start|número]] de condições que tornam as coisas objetos ou fenômenos, existe uma contradição [[lexico:e:essencial:start|essencial]] na pretensão [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] de conhecer coisas em si mesmas. Porém, se a metafísica é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] como [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] científico, ou, como diz [[lexico:k:kant:start|Kant]], [[lexico:t:teoretico:start|teorético]], especulativo, [[lexico:n:nao:start|não]] quer dizer que seja impossível em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]. Poderia haver talvez outras vias, outros caminhos que não fossem os caminhos do conhecimento, mas que conduzissem aos objetos da metafísica. Se existissem esses outros caminhos que, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], conduzissem aos objetos da metafísica, então a [[lexico:c:critica:start|Crítica]] da [[lexico:r:razao-pura:start|Razão Pura]] teria feito um grande [[lexico:b:bem:start|Bem]] à própria metafísica; porque, se bem teria demonstrado a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] para a [[lexico:r:razao:start|razão]] [[lexico:t:teoretica:start|teorética]] de chegar por [[lexico:m:meio:start|meio]] do conhecimento a esses objetos, demonstraria também a impossibilidade dessa mesma razão teorética destruir as conclusões metafísicas que se consigam por outras vias distintas do conhecimento. Resta-nos [[lexico:a:agora:start|agora]] examinar o [[lexico:p:problema:start|problema]] de se existem, com efeito, essas outras vias e quais são. Kant pensa, com efeito, que atrás do exame crítico da razão pura existem uns caminhos que conduzem aos objetos da metafísica, mas que não são os caminhos do conhecimento teorético-científico. Quais são esses caminhos? Nossa [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] humana não consta somente da atividade de conhecer. Mais ainda: a atividade de conhecer, o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] para situar-nos diante das coisas para conhecê-las, é somente uma de tantas [[lexico:a:atividades:start|atividades]] que o [[lexico:h:homem:start|homem]] exerce. O homem vive, trabalha, produz: o homem faz comércio com outros homens, edifica casas, estabelece instituições morais, políticas e religiosas; por conseguinte, o vasto [[lexico:c:campo:start|campo]] da atividade humana ultrapassa de longe a [[lexico:s:simples:start|simples]] atividade do conhecimento. **A [[lexico:c:consciencia-moral:start|consciência moral]] ou [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]].** Entre outras, existe uma [[lexico:f:forma:start|forma]] de atividade espiritual que podemos condensar no [[lexico:n:nome:start|nome]] de "[[lexico:c:consciencia:start|consciência]] [[lexico:m:moral:start|moral]]". A consciência moral contém dentro de si um certo número de [[lexico:p:principios:start|princípios]] em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] dos quais os homens regem sua [[lexico:v:vida:start|vida]]. Ajustam sua [[lexico:c:conduta:start|conduta]] a esses princípios, e, de outra [[lexico:p:parte:start|parte]], têm neles uma base para formular juízos morais acerca de si mesmos e de quanto os rodeia. Essa consciência moral é um [[lexico:f:fato:start|fato]], um fato da vida humana, tão [[lexico:r:real:start|real]], tão [[lexico:e:efetivo:start|efetivo]], tão inabalável como o fato do conhecimento. Vimos que Kant, na sua crítica do conhecimento, parte do fato do conhecimento, parte da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] histórica do conhecimento, Pois igualmente existe no âmbito da vida humana o fato da consciência moral. Existe essa consciência moral, que contém princípios tão evidentes, tão claros como possam [[lexico:s:ser:start|ser]] os [[lexico:p:principios-do-conhecimento:start|princípios do conhecimento]], os [[lexico:p:principios-logicos:start|princípios lógicos]] da razão. Existem juízos morais que são também juízos, como podem sê-lo os juízos lógicos da razão raciocinante. Pois bem: nesse conjunto de princípios que constituem a consciência moral encontra Kant a base que pode conduzir o homem à [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] dos objetos metafísicos. A [[lexico:e:esse:start|esse]] conjunto de princípios de consciência moral dá Kant um nome. Ressuscita, para denominá-lo, os termos de que se valeu para isso mesmo [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]]. Aristóteles chama a consciência moral e seus princípios "razão prática" ([[lexico:n:nous:start|noûs]] praktikos). Kant ressuscita essa [[lexico:d:denominacao:start|denominação]], e ao ressuscitá-la e aplicar à consciência moral o nome de razão prática, fá-lo precisamente para mostrar, para fazer patente e manifesto que na consciência moral atua algo que, sem ser a razão especulativa, se assemelha à razão, são também princípios racionais, princípios evidentes, dos quais podemos julgar por meio da apreensão interna de sua [[lexico:e:evidencia:start|evidência]]. Portanto, pode chamá-los legitimamente razão. Porém não é a razão enquanto se aplica ao conhecimento; não é a razão encaminhada a determinar a [[lexico:e:essencia:start|essência]] das coisas, aquilo que as coisas são, mas é a razão aplicada à [[lexico:a:acao:start|ação]], à prática, aplicada à moral. Pois bem. Uma [[lexico:a:analise:start|análise]] desses princípios da consciência moral conduz Kant aos qualificativos morais; por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], [[lexico:b:bom:start|Bom]], mau, moral, imoral, meritório, pecaminoso etc. Estes qualificativos morais, estes [[lexico:p:predicados:start|predicados]] morais que nós muitas vezes costumamos estender às coisas, não convém todavia às coisas. Dizemos que esta [[lexico:c:coisa:start|coisa]] ou aquela coisa é boa ou má; mas, em rigor, as coisas não são boas nem más, porque nas coisas não há [[lexico:m:merito:start|mérito]] nem demérito. Por conseguinte, os qualificativos morais não podem predicar-se das coisas, que são [[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]] ao bem e ao [[lexico:m:mal:start|mal]]; só podem predicar-se do homem, da [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] humana. Somente o homem, a pessoa humana é verdadeiramente digno de ser [[lexico:c:chamado:start|chamado]] bom ou mau. As demais coisas que não são o homem, como os animais, os objetos, são aquilo que são, porém não são bons nem maus. Por que é o homem o [[lexico:u:unico:start|único]] ser do qual pode, em rigor, predicar-se a [[lexico:b:bondade:start|bondade]] e a [[lexico:m:maldade:start|maldade]] moral? Pois é porque o homem realiza atos e na realização desses atos o homem faz algo, estatui uma ação, e nessa ação podemos distinguir dois [[lexico:e:elementos:start|elementos]]: aquilo que o homem faz efetivamente e aquilo que quer fazer. Feita esta [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre aquilo que faz e aquilo que quer fazer, notamos imediatamente que os predicados bom, mau, os predicados morais, não correspondem tampouco àquilo que o homem faz efetivamente, mas corresponde estritamente àquilo que quer fazer. Se uma pessoa comete um homicídio involuntário, este [[lexico:a:ato:start|ato]] evidentemente é uma grande desgraça, porém não pode qualificar-se de bom nem de mau aquele que o cometeu. Não, pois, ao conteúdo dos atos, ao conteúdo efetivo; não, pois, à [[lexico:m:materia:start|matéria]] do ato que convém os qualificativos morais de bom ou mau, mas à [[lexico:v:vontade:start|vontade]] mesma do homem . Esta análise conduz à conclusão de que a única coisa que verdadeiramente pode ser boa ou má é a vontade humana. Uma vontade boa ou uma vontade má. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}