===== QUESTÃO FILOSÓFICA ===== Para [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], uma única [[lexico:q:questao|questão]] definiu desde sempre o [[lexico:e:estatuto|estatuto]] do [[lexico:p:pensamento-filosofico|pensamento filosófico]] em tudo que ele pensa: a questão da [[lexico:r:realidade|realidade]] realizando-se nas realizações do [[lexico:r:real|real]]. O primeiro capítulo do Sétimo Livro da [[lexico:m:metafisica|Metafísica]] nos lembra: E assim, pois, o que tanto outrora, como [[lexico:a:agora|agora]], como em qualquer hora se procurou e nunca se encontrou uma saída, foi o [[lexico:q:questionamento|questionamento]] da questão, [[lexico:o:o-que-e|o que é]] o [[lexico:s:ser|ser]] de qualquer sendo... Na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] o [[lexico:p:pensamento|pensamento]] se concentra em ser, [[lexico:t:todo|todo]] e somente, o questionamento desta questão da [[lexico:e:essencia|essência]] de tudo que é. É desta [[lexico:a:atencao|atenção]] inveterada que a Filosofia recebe tanto sua especificidade irredutível como sua virtuosidade sem [[lexico:f:fim|fim]], como a temeridade incrível de sua pretensão. È aí também que aparece a exaustão e o [[lexico:l:limite|limite]] insuperável de seu [[lexico:e:esforco|esforço]] de [[lexico:p:pensar|pensar]]. Na avalanche da [[lexico:q:questao-filosofica|questão filosófica]] tudo é levado de roldão pela tríplice radicalidade do questionamento. A envergadura do empenho de pensar se estica até às fronteiras do [[lexico:n:nada|nada]] e do [[lexico:n:nao|não]] ser, cobrindo a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] do real. Toda a questão filosófica se estende entre o [[lexico:s:ser-e-o-nada|Ser e o Nada]]. Por isso não é [[lexico:p:possivel|possível]] escapar ao alcance de sua atropelada. Mas não se trata de uma totalidade extensiva, apenas. É também o questionamento mais [[lexico:p:profundo|profundo]] do Pensamento. Pois não se contenta com muito. Quer tudo. Somente o satisfaz o [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:f:fundamento|fundamento]] e o derradeiro porquê. O porquê do porquê não o atrai. É um marcar passo no mesmo nível. Por isso apenas um porquê é capaz de levá-lo à plenitude de seu viço interrogativo: o porquê que extingue a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de [[lexico:o:outro|outro]] porquê e abole a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de ulterior questionamento. Com e por ser a mais extensa e profunda, a questão filosófica exige também um questionamento originário. É um questionamento matinal. Remonta à primeira manhã, "à aurora dos dedos de rosa" da aventura ocidental: aparecimento, comparecimento e desaparecimento contemporâneo da [[lexico:t:terra|Terra]], do [[lexico:h:homem|homem]], do [[lexico:m:mundo|mundo]] e do [[lexico:c:ceu|céu]]: dia e noite da [[lexico:h:historia|história]] do Ocidente. Por isso tudo, a questão filosófica do Pensamento não é uma questão entre muitas outras. É a única questão, por ser ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] a mais [[lexico:u:universal|universal]] e a mais concreta, a mais [[lexico:s:simples|simples]] e a mais difícil, a mais indeterminada e a mais determinante. É a questão que mais nos tem, atém e detém, a única que, em sua obscuridade mesma, esclarece e nutre todas as demais questões. Sendo a questão extra-ordinária, tem por [[lexico:i:instancia|instância]] o ser, fundo de sustentação (hy-archei) de todo é, de todo era, de todo será: o [[lexico:v:verbo|verbo]] mais ordinário e banal, a [[lexico:e:experiencia|experiência]] mais corriqueira e comum, a primeira [[lexico:p:palavra|palavra]] das línguas ocidentais, em que desde sempre a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] nos é concedida. A audácia da questão filosófica não conhece limites. O Pensamento se entrega todo a questionar. A [[lexico:i:interrogacao|interrogação]] é levada até aos confins das possibilidades interrogativas e corta para si mesma qualquer ajuda que não advenha da própria interrogação. Isto significa: na Filosofia, pelo tremor da vertigem interrogativa, o [[lexico:p:proprio|próprio]] real cambaleia em toda a sua [[lexico:e:extensao|extensão]]. Falta-lhe o chão e se apresenta a [[lexico:f:finitude|finitude]] do questionamento. Abre-se o [[lexico:a:abismo|abismo]] do Nada, que o questionamento não consegue exorcizar de todo. O Nada nunca deixa de constituir a terra natal de todo questionamento, a [[lexico:f:fonte|fonte]] de qualquer interrogação, a própria possibilidade de arrancar e mover-se de sua audácia de pensamento.