===== QUESTÃO DO SER ===== O tratado O [[lexico:s:ser:start|ser]] e o [[lexico:t:tempo:start|tempo]] assenta inteiramente numa única [[lexico:q:questao:start|questão]] fundamental, a do [[lexico:s:sentido-do-ser:start|sentido do ser]]. «A elaboração concreta da questão do [[lexico:s:sentido:start|sentido]] do ser», escreve [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] no [[lexico:p:principio:start|princípio]] desta [[lexico:o:obra:start|obra]], «é o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do presente [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]]. O seu [[lexico:f:fim:start|fim]] provisório é o de fornecer uma [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] do tempo como [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] de toda a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do ser». A [[lexico:q:questao-do-ser:start|questão do ser]] caiu hoje em dia no [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]]. Esta questão inspirou as investigações de [[lexico:p:platao:start|Platão]] e de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]], mas extinguiu-se com eles, pelo menos como [[lexico:t:tema:start|tema]] [[lexico:e:explicito:start|explícito]] de uma verdadeira [[lexico:i:investigacao:start|investigação]]. Os filósofos que lhes sucederam [[lexico:n:nao:start|não]] fizeram mais que retomar, sem mais interrogações, as determinações ontológicas que estes dois pensadores tinham descoberto. Na [[lexico:v:verdade:start|verdade]], muitos preconceitos proporcionaram a indiferença a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do [[lexico:p:problema-do-ser:start|problema do ser]], e Heidegger denuncia os três principais. O primeiro é o da absoluta generalidade do ser: o ser é o «[[lexico:c:conceito:start|conceito]]» mais [[lexico:g:geral:start|geral]], e está já pré-compreendido em toda a [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] do [[lexico:e:ente:start|ente]]. O segundo é o da sua não definibilidade que se deduz da sua absoluta generalidade, se é verdade que toda a [[lexico:d:definicao:start|definição]] se deve fazer pelo [[lexico:g:genero:start|gênero]] [[lexico:p:proximo:start|próximo]] e pela [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] específica. O ser, sendo o que há de mais geral, não pode [[lexico:e:estar:start|estar]] subsu-mido sob um gênero mais vasto do qual ele seja uma das espécies. O [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] é o da sua [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] que dispensa, digamos, que se interrogue mais sobre este assunto. Estes preconceitos parecem condenar, à partida, toda a investigação [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]], e tornam-na inútil e vã. Eles não fazem mais que traduzir, na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], o embaraço onde nos encontramos desde que tentamos dizer [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ser. Longe de ser o que há de mais evidente, o ser é, pelo contrário, o que existe de mais enigmático e que merece, por conseguinte, ser interrogado em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]]. Antes e a fim de responder à questão do sentido do ser, Heidegger começa por analisar a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]]. Nesta questão, podemos, como em toda a questão, discernir três momentos: há, desde já, o que é perguntado (das Erfragte), isto é, o que orienta e motiva a investigação, na [[lexico:o:ocorrencia:start|ocorrência]] o sentido do próprio ser. Há, de seguida, o que é questionado (das Gefragte), ou seja, aquilo sobre que, falando com [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]], se faz a investigação, na ocorrência do ser. Há, por fim, o que é interrogado (das Befragte), quer dizer, o que constitui o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida da investigação e fornece uma via de [[lexico:a:acesso:start|acesso]] ao que é propriamente inquirido, que neste caso é o ente, pois que o ser só se revela a partir do ente. O ente, porém, recobre várias [[lexico:c:coisas:start|coisas]], pois tudo o que é dele faz [[lexico:p:parte:start|parte]]. Convém então determinar com [[lexico:p:precisao:start|precisão]] qual é o ente que deve servir de fio condutor à questão do ser. A [[lexico:e:escolha:start|escolha]] de Heidegger assenta no ente que põe a questão do ser, quer dizer sobre o ente que nós próprios somos, e que ele designa sob o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:d:dasein:start|Dasein]] (o [[lexico:s:ser-ai:start|ser-aí]]). O ser-aí goza de um privilégio insigne, que o designa muito especialmente por ser o objeto interrogado em primeiro lugar e antes de qualquer [[lexico:o:outro:start|outro]]. O ser [[lexico:h:humano:start|humano]] não é um ente qualquer, mas possui a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] fundamental de estar sempre já em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o ser. Nós movemo—nos sempre no seio de uma certa compreensão do ser, nós sabemos o que ele quer dizer, mesmo se somos incapazes de explicitar [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:s:saber:start|saber]], geralmente [[lexico:v:vago:start|vago]] e confuso. Juntemos que essa compreensão do ser não é algo que nos caiba ou que nos seja retirado, ela é uma [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] constitutiva do nosso ser. «A compreensão do ser», diz Heidegger, «é ela mesma uma determinação do ser do ser-aí». O ser-aí é um ser [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]], o que não significa, [[lexico:b:bem:start|Bem]] entendido, que ele tenha já elaborado uma [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], mas que, compreendendo o ser, ele é a [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de todas as ontologias. O [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de Heidegger em O Ser e o Tempo é então o seguinte: manifestar o sentido do ser, analisando antes de tudo o ser que compreende o ser, isto é, o ente que nós somos (o ser-aí). Heidegger chama à [[lexico:a:analise:start|análise]] preliminar do ser-aí «a [[lexico:a:analitica-existenciaria:start|analítica existenciária]]». O ser-aí possui, com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], um [[lexico:m:modo:start|modo]] de ser original que o distingue de todos os outros entes. De [[lexico:f:forma:start|forma]] diferente dos seres inanimados, das coisas materiais, ou mesmo dos outros seres vivos que estão sempre «[[lexico:i:indiferentes:start|indiferentes]]» ao seu ser, o ser-aí reporta-se sempre ao ser que é o seu. Como diz Heidegger, vai sempre, neste ser, o seu ser. Noutros termos, o ser-aí não subsiste simplesmente, mas existe. E o que Heidegger exprime numa [[lexico:f:formula:start|fórmula]] célebre: «’A [[lexico:e:essencia:start|essência]]’ do ser-aí reside na sua [[lexico:e:existencia:start|existência]].» A análise existenciária do ser-aí não deve ser confundida com a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] das escolhas existenciais e ônticas (lembremos que para Heidegger «[[lexico:o:ontico:start|ôntico]]» designa tudo o que se refere ao ente, e «ontológico» tudo o que se refere ao ser) que guiam o ser-aí na sua [[lexico:v:vida:start|vida]] concreta. Ela tem um alcance ontológico, e procura trazer à [[lexico:l:luz:start|luz]] a estrutura [[lexico:e:essencial:start|essencial]] da existência, quer dizer os diferentes modos de ser do ser-aí, a que Heidegger chama os existenciários para os opor às [[lexico:c:categorias:start|categorias]] ontológicas tradicionais. A [[lexico:a:analitica:start|analítica]] existenciária fornece o fio condutor procurado para a elaboração da questão do ser. Enquanto exploração da estrutura ontológica do ente que compreende o ser, ela condiciona a possibilidade de toda a investigação ontológica, e é por isto que Heidegger lhe chama ontologia fundamental. «A ontologia fundamental», diz Heidegger, «da qual todas as outras só podem derivar, deve ser procurada na analítica existenciária do ser-aí». {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}