===== QUALIDADE DOS VALORES ===== Vamos examinar esta segunda [[lexico:c:categoria:start|categoria]] dos valores, a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] (v. [[lexico:o:objetividade-dos-valores:start|objetividade dos valores]]). É uma qualidade [[lexico:i:irreal:start|irreal]], ou seja, que [[lexico:n:nao:start|não]] é [[lexico:r:real:start|real]]. Uma qualidade irreal, por quê? Porque não é [[lexico:c:coisa:start|coisa]]. Uma qualidade irreal é uma qualidade tal que se [[lexico:e:eu:start|eu]] a imagino artificialmente, à [[lexico:p:parte:start|parte]] do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] que a possui, não posso senão considerá-la irreal. Se eu me represento o verde à parte da lâmpada, posso considerar a "verdosidade" como algo real, porque tem todos os [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Quais são estes caracteres da realidade? Descrevemo-los na lição anterior: têm [[lexico:s:ser:start|ser]], têm espacialidade, têm [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] e [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]. Porém se eu separo a [[lexico:b:beleza:start|beleza]] daquilo que é [[lexico:b:belo:start|belo]], a beleza carece de ser; a beleza não é; não há algo entitativamente existente, ainda que seja idealmente, que seja a beleza, antes sempre beleza é qualidade de uma coisa. Por conseguinte, examinando as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] entre a coisa que tem [[lexico:v:valor:start|valor]] e o valor tido pela coisa, chegamos à conclusão de que a qualidade valiosa — o valor — é irreal no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de que não é uma res, uma coisa. Mas não basta com isto, porque, como conhecemos outra [[lexico:e:esfera:start|esfera]] de objetos que são os objetos ideais, poderíamos sentir-nos tentados a tirar daqui, em conclusão, que se o valor não é uma qualidade real, talvez seja uma qualidade [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. Mas também não é uma qualidade ideal. Porque, que é o ideal? Definimo-lo numa lição anterior. Assim como o real é aquilo que tem [[lexico:c:causa:start|causa]] e produz efeitos, disséramos que o ideal é aquilo que tem [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] e consequências. O [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]], o [[lexico:c:circulo:start|círculo]], o [[lexico:n:numero:start|número]] 3, qualquer objeto matemático, as relações, são ideais; o que quer dizer que seu [[lexico:m:modo:start|modo]] de conexão não é o modo de conexão por causa é [[lexico:e:efeito:start|efeito]], mas o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] de conexão por fundamento e [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], como, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], no [[lexico:s:silogismo:start|silogismo]], e por isso estão fora do [[lexico:t:tempo:start|tempo]] e do [[lexico:e:espaco:start|espaço]], porque os fundamentos de conexão entre os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] de um conjunto ideal não se sucedem uns aos outros no tempo por "causação", mas estão conexos fora do tempo por [[lexico:i:implicacao:start|implicação]] de fundamento e consequência. E então se os valores fossem o fundamento da "valiosidade" da coisa, eu poderia demonstrar a beleza, demonstrar a [[lexico:b:bondade:start|bondade]], demonstrar os valores mesmos, como posso demonstrar a [[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] dos números ou posso demonstrar as propriedades das figuras, as relações puras, as [[lexico:e:essencias:start|essências]] puras. Mas eis aqui que os valores não se podem demonstrar, mas a única coisa que se pode fazer é mostrá-los. Logo os valores não têm [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] no sentido que demos nós a essa [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. Não a têm, e não são, pois, qualidades nem reais nem ideais. Por isso, a única maneira de designá-los é uma maneira negativa, e dizer que são qualidades irreais, não reais. Porém não devemos chamá-los ideais, porque então os intuiríamos no conjunto das estruturas do ser ideal e os faríamos cair sob as leis rígidas da [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]]. Com isto não fica ainda perfeitamente determinada a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]] dos valores, porque, embora já saibamos que são valentes e não entes, e que são qualidades irreais, ainda devemos declarai mais algumas [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. São, por exemplo, estranhos por completo à [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]], e sendo estranhos à quantidade, são também estranhos — como já o indicamos de passagem — ao tempo e ao espaço. Quando uma coisa é valiosa, quando um quadro é belo, ou um [[lexico:a:ato:start|ato]] é justo ou generoso, assim é independentemente do tempo, do espaço e do número. Não se pode dizer que um quadro seja tantas vezes belo. Não há maneira de contar, de dividir a beleza em unidades. Não se pode dizer que um quadro começa a ser belo, que esteja sendo belo num [[lexico:m:momento:start|momento]] e depois deixe de ser belo. Não se pode dizer que um quadro seja belo aqui e feio lá. De modo que os valores são independentes do número, independentes do tempo e independentes do espaço. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, os valores são absolutos. Se não fossem absolutos os valores, que seriam? Teriam que ser [[lexico:r:relativos:start|relativos]]. E, que significa ser [[lexico:r:relativo:start|relativo]]? Significa ser valor para uns indivíduos mas não para outros; para umas épocas históricas, mas não para outras. Mas isto não pode acontecer com os valores, porque vimos que os valores são alheios ao tempo, ao espaço e ao número. Se houvesse valores que fossem valores para uns mas não para outros, seriam dependentes desses uns para os quais são valores e não dependentes daqueles outros; quer dizer, estariam em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao tempo, e não o podem [[lexico:e:estar:start|estar]]. Se dizemos que pode haver valores que o são para uma [[lexico:e:epoca:start|época]] histórica mas não para outra, também estariam em dependência de tempo e de espaço, e não o podem estar. Mas exclamará alguém: Isso não se pode dizer, já que há [[lexico:a:acoes:start|ações]] que foram consideradas como justas e logo mais, na [[lexico:h:historia:start|história]], foram consideradas como injustas; que há quadros ou objetos naturais que foram considerados como belos e logo mais, na história, foram considerados como feios, ou vice-versa: em [[lexico:s:suma:start|suma]], que não há unanimidade na história e no tempo sucessivo, nem no espaço, nem nos homens ao intuírem os valores. Mas isto não é uma [[lexico:o:objecao:start|objeção]]. Note-se [[lexico:b:bem:start|Bem]] que esta não é uma objeção; é o mesmo que se dissesse que antes de [[lexico:p:pitagoras:start|Pitágoras]] o [[lexico:t:teorema:start|teorema]] de Pitágoras não era [[lexico:v:verdade:start|verdade]], ou que antes de Newton a [[lexico:l:lei:start|lei]] da gravitação não existia. Não têm sentido estas suposições relativistas, porque a única coisa que pode [[lexico:t:ter:start|ter]] e tem um sentido é dizer que a lei da gravitação não foi conhecida pelo [[lexico:h:homem:start|homem]] até Newton; mas não que a lei da gravitação dependa na sua realidade ôntica do tempo em que foi [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]]. Pois é exatamente o mesmo. Os homens podem intuir tais valores ou não intuí-los, ser cegos ou clarividentes para eles; mas o [[lexico:f:fato:start|fato]] de que exista uma [[lexico:r:relatividade:start|relatividade]] "histórica" no homem e nos seus atos de [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] e de [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] de valores, não nos autoriza de modo algum a trasladar esta relatividade histórica do homem aos valores e dizer que porque o homem é relativo, relativamente [[lexico:h:historico:start|histórico]], sejam assim também os valores. O que se passa é que há épocas que não têm possibilidades de perceber certos valores; mas quando as épocas seguintes chegam a perceber tais valores, isto não quer dizer que de pronto ao perceberem-nos os criam, mas que estavam aí, de um modo que não vou [[lexico:a:agora:start|agora]] definir, e que esses valores que estavam aí são, num momento da história, percebidos ou intuídos por essas épocas históricas e por esses homens descobridores de valores Tudo isto encontramos nas duas primeiras [[lexico:c:categorias:start|categorias]] dessa esfera axiológica, dessa esfera estimativa, a [[lexico:s:saber:start|saber]]: que os valores não são entes, mas valentes. Que os valores são qualidades de coisas, qualidades irreais, qualidades alheias à quantidade, ao tempo, ao número, ao espaço, e absolutas. VIDE [[lexico:p:polaridade-dos-valores:start|polaridade dos valores]] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}