===== PÚBLICO ===== (in. Public; fr. Publique; al. Offëntlich; it. Pubblico). [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:a:adjetivo|adjetivo]] foi usado em [[lexico:s:sentido|sentido]] filosófico (especialmente por escritores anglo-saxões) para designar os conhecimentos ou os dados ou [[lexico:e:elementos|elementos]] de [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] disponíveis a qualquer [[lexico:p:pessoa|pessoa]] em condições apropriadas e [[lexico:n:nao|não]] pertencentes à [[lexico:e:esfera|esfera]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] e não verificável da [[lexico:c:consciencia|consciência]]. Neste sentido, é público o que [[lexico:k:kant|Kant]] denominava [[lexico:o:objetivo|objetivo]]: aquilo de que todos podem participar igualmente, podendo portanto também [[lexico:s:ser|ser]] expresso ou comunicado pela [[lexico:l:linguagem|linguagem]] (cf. B. [[lexico:r:russell|Russell]], Human Knowledge, II, 1; trad. it., p. 81). O [[lexico:t:termo|termo]] “público” denota dois fenômenos intimamente correlatos, mas não completamente idênticos. Significa, em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]], que tudo o que aparece em público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação [[lexico:p:possivel|possível]]. Para nós, a [[lexico:a:aparencia|aparência]] – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a [[lexico:r:realidade|realidade]]. Em comparação com a realidade que decorre do ser visto e ouvido, mesmo as maiores forças da [[lexico:v:vida|vida]] íntima – as paixões do [[lexico:c:coracao|coração]], os [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] do [[lexico:e:espirito|espírito]], os deleites dos sentidos – levam uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:e:existencia|existência]] incerta e obscura, a não ser que, e até que, sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de [[lexico:m:modo|modo]] que assumam um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] [[lexico:a:adequado|adequado]] à aparição pública. [v. escravo] A mais comum dessas transformações ocorre na narração de histórias e, de modo [[lexico:g:geral|geral]], na [[lexico:t:transposicao|transposição]] artística de experiências individuais. Mas não necessitamos da [[lexico:f:forma|forma]] do [[lexico:a:artista|artista]] para testemunhar essa [[lexico:t:transfiguracao|transfiguração]]. Toda vez que falamos de [[lexico:c:coisas|coisas]] que só podem ser experimentadas na [[lexico:p:privatividade|privatividade]] ou na intimidade, traze-mo-las para uma esfera na qual assumirão uma espécie de realidade que, a despeito de sua [[lexico:i:intensidade|intensidade]], elas jamais poderiam [[lexico:t:ter|ter]] tido antes. A [[lexico:p:presenca|presença]] de outros que veem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade do [[lexico:m:mundo|mundo]] e de nós mesmos; e, embora a intimidade de uma vida privada plenamente desenvolvida, tal como jamais se conheceu antes do surgimento da era [[lexico:m:moderna|moderna]] e do concomitante declínio do domínio público, sempre intensificará e enriquecerá grandemente toda a escala de emoções subjetivas e sentimentos privados, essa intensificação sempre ocorre à custa da [[lexico:g:garantia|garantia]] da realidade do mundo e dos homens. [...] Em segundo lugar, o termo “público” significa o [[lexico:p:proprio|próprio]] mundo, na [[lexico:m:medida|medida]] em que é comum a todos nós e diferente do lugar que privadamente possuímos nele. Esse mundo, contudo, não é [[lexico:i:identico|idêntico]] à [[lexico:t:terra|Terra]] ou à [[lexico:n:natureza|natureza]], enquanto [[lexico:e:espaco|espaço]] limitado para o [[lexico:m:movimento|movimento]] dos homens e [[lexico:c:condicao|condição]] geral da vida orgânica. Antes, tem a [[lexico:v:ver|ver]] com o [[lexico:a:artefato|artefato]] [[lexico:h:humano|humano]], com [[lexico:o:o-que-e|o que é]] fabricado pelas [[lexico:m:maos|mãos]] humanas, assim como com os negócios realizados entre os que habitam o mundo feito pelo [[lexico:h:homem|homem]]. Conviver no mundo significa essencialmente ter um mundo de coisas interposto entre os que o possuem em comum, como uma mesa se interpõe entre os que se assentam ao seu redor; pois, como [[lexico:t:todo|todo]] espaço-entre , o mundo ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] separa e relaciona os homens entre si. O domínio público, enquanto mundo comum, reúne-nos na companhia uns dos outros e, contudo, evita que caiamos uns sobre os outros, por assim dizer. O que torna a [[lexico:s:sociedade|sociedade]] de massas tão difícil de ser suportada não é o [[lexico:n:numero|número]] de pessoas envolvido, ou ao menos não fundamentalmente, mas o [[lexico:f:fato|fato]] de que o mundo entre elas perdeu seu poder de congregá-las, relacioná-las e separá-las. A estranheza de tal [[lexico:s:situacao|situação]] assemelha-se a uma sessão espírita na qual determinado número de pessoas, reunidas em torno de uma mesa, vissem subitamente, por algum truque mágico, desaparecer a mesa entre elas, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que duas pessoas sentadas em frente uma à outra já não estariam separadas, mas tampouco teriam qualquer [[lexico:r:relacao|relação]] entre si por [[lexico:m:meio|meio]] de algo [[lexico:t:tangivel|tangível]]. [ArendtCH, 7]