===== PSYCHE ===== ψυχή = psyche, psyché, [[lexico:p:psukhe:start|psukhé]]: respiração de [[lexico:v:vida:start|vida]], [[lexico:f:fantasma:start|fantasma]], [[lexico:p:principio-vital:start|princípio vital]], [[lexico:a:alma:start|alma]], [[lexico:a:anima:start|anima]] 1. Uma das incursões mais pormenorizadas de [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] ([[lexico:v:ver:start|ver]] [[lexico:e:endoxon:start|endoxon]] para o [[lexico:m:metodo:start|método]] e [[lexico:p:principio:start|princípio]] envolvidos) ocorre no Livro I do [[lexico:d:de-anima:start|De anima]] onde passa em revista e critica as opiniões dos seus predecessores sobre a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] da psyche. Tal como a vê, a [[lexico:e:especulacao:start|especulação]] primitiva deu-se em [[lexico:r:relacao:start|relação]] à alma a partir de dois ângulos que tenderam a unir-se: a alma como o princípio do [[lexico:m:movimento:start|movimento]] ([[lexico:k:kinesis:start|kinesis]]) e da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] ([[lexico:a:aisthesis:start|aisthesis]]). Isto parece [[lexico:s:ser:start|ser]] correto, embora, evidentemente, grande [[lexico:p:parte:start|parte]] das provas sobre o assunto consista apenas naquilo que Aristóteles escolhe para citar; há, no entanto, duas facetas adicionais na [[lexico:h:historia:start|história]] da psyche que Aristóteles ignora em grande parte: o [[lexico:u:uso:start|uso]] pré-filosófico do [[lexico:t:termo:start|termo]] e a psyche como [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]]. 2. A conexão entre a vida e o movimento por ura lado e a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] pelo [[lexico:o:outro:start|outro]] [[lexico:n:nao:start|não]] é de [[lexico:m:modo:start|modo]] algum óbvia em Homero, que designa duas entidades separadas para [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a vida e a consciência. Para Homero a psyche é a «respiração de vida» (e também, no que pode ser um estrato de [[lexico:c:crenca:start|crença]] completamente diferente, um «fantasma» individualizado que continua a [[lexico:v:viver:start|viver]] de uma [[lexico:f:forma:start|forma]] atenuada depois da [[lexico:m:morte:start|morte]]) que se escapa normalmente da boca do [[lexico:h:heroi:start|herói]] moribundo (esta conexão com a cabeça pode ser o [[lexico:c:comeco:start|começo]] sugestivo da [[lexico:t:teoria:start|teoria]] posterior que localizou a sede da alma no cérebro: ver [[lexico:k:kardia:start|kardia]] e confrontar [[lexico:p:pneuma:start|pneuma]]). Em contraste há o [[lexico:t:thymos:start|thymos]], o [[lexico:e:espirito:start|espírito]], localizado no diafragma (phrenes) onde um [[lexico:h:homem:start|homem]] pensa e sente (ver kardia). 3. A psyche homérica estava intimamente ligada ao movimento pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de a sua partida transformar o [[lexico:a:agregado:start|agregado]] de membros animados que era o «[[lexico:c:corpo:start|corpo]]» do herói num [[lexico:s:soma:start|soma]] ou cadáver sem movimento. O thymos também está ligado ao movimento num [[lexico:s:sentido:start|sentido]] mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] explorado por Aristóteles; são os impulsos do thymos que impelem o herói à [[lexico:a:atividade:start|atividade]]. 4. O [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]], ao contrário do [[lexico:p:poeta:start|poeta]], conclui mais do que descreve. Podemos ver este [[lexico:h:habito:start|hábito]] de espírito em Tales. Uma vez que, sustenta ele (Aristóteles, De anima I, 405a), o poder que origina a kinesis é uma indicação da [[lexico:p:presenca:start|presença]] da alma, não se devia concluir que mesmo algo aparentemente inanimado, como uma pedra, é animado visto que a pedra magnesiana (magnete) é capaz de mover outras [[lexico:c:coisas:start|coisas]]? O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] aqui é especialmente ousado pois que ignora completamente a presença do [[lexico:a:ar:start|ar]] ou respiração. Todavia a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] mais arcaica reaparece com [[lexico:a:anaximenes:start|Anaxímenes]] que, contudo, trai de fato uma certa ousadia muito sua ao alargar o princípio da alma ao [[lexico:u:universo:start|universo]] total (frg. 2; ver pneuma). respiração parte do [[lexico:p:processo:start|processo]] cognitivo (Diels 22A16; ver aisthesis), 5. A conexão entre a psyche e a respiração é intermitente entre os [[lexico:p:pre-socraticos:start|pré-socráticos]]. [[lexico:a:anaximandro:start|Anaximandro]] disse que a alma era «de ar» (Aécio IV, 3, 2), tal como [[lexico:a:anaxagoras:start|Anaxágoras]] (ibid.). [[lexico:h:heraclito:start|Heráclito]] faz da respiração parte do processo cognitivo (Diels 22A16; ver aisthesis), mas apenas durante o sono quando os outros sentidos estão afastados do [[lexico:l:logos:start|Logos]] cósmico. [[lexico:d:diogenes-de-apolonia:start|Diógenes de Apolônia]], por outro lado, sustenta fortemente a conexão entre a psyche e o [[lexico:a:aer:start|aer]] (ver pneuma) porque a vida depende dele (frgs. 4, 5). 6. Este elo com o passado homérico torna-se cada vez mais tênue à [[lexico:m:medida:start|medida]] que a própria [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] homérica é revista. Por volta do séc. VI a psyche tinha absorvido as funções do thymos homérico e era então o termo usado para descrever a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] psíquica do homem, enquanto, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], o agregado [[lexico:f:fisico:start|físico]] dos membros e das partes corpóreas cedia ao soma, já não como cadáver, mas como a [[lexico:u:unidade:start|unidade]] [[lexico:f:fisica:start|física]] que tem a psyche como o seu correlato [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]. 7. Liberta assim das suas imediatas associações pneumáticas, a psyche encontra o seu [[lexico:l:lugar:start|lugar]], como sugere Aristóteles, dentro dos quadros mais vastos do movimento e da percepção. Típicas no que a isto se refere são as opiniões dos [[lexico:a:atomistas:start|atomistas]] e de [[lexico:e:empedocles:start|Empédocles]]. Aqueles tinham reduzido a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] aos atoma e ao [[lexico:v:vacuo:start|vácuo]] ([[lexico:k:kenon:start|kenon]]) e estavam, evidentemente, interessados na alma como a [[lexico:f:fonte:start|fonte]] do movimento quando a descreviam como um agregado ([[lexico:s:synkrisis:start|synkrisis]]; ver [[lexico:g:genesis:start|genesis]]) de átomos que são esféricos e semelhantes ao [[lexico:f:fogo:start|fogo]] fundamentando-se em que estes átomos são os mais móveis e mais competentes para causarem movimento nos outros (Aristóteles, De anima I, 405a). Há aqui, evidentemente, dificuldades que surgem em grande parte da relação entre a alma e o corpo e da relação entre a alma e a [[lexico:m:mente:start|mente]] ou espírito ([[lexico:n:nous:start|noûs]]). Onde está este agregado que, em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do movimento dos seus próprios atoma, é capaz de mover o corpo (ver ibid. I, 406b)? A resposta é preservada por Lucrécio que nos diz (III, 370-395) que [[lexico:d:democrito:start|Demócrito]] sustentou qus os atoma do corpo e da alma estavam justapostos (appositio, parathesis; ver Diels 68A64), [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] essa que Lucrécio achou indefensável (ver [[lexico:n:noesis:start|noesis]] 6). 8. Um [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de percepção mais elevado e mais digno de confiança fora distinguido da mera [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] desde o tempo de Heráclito e [[lexico:p:parmenides:start|Parmênides]] (ver aisthesis, [[lexico:e:episteme:start|episteme]], [[lexico:d:doxa:start|doxa]], noesis) e, a despeito da [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de Aristóteles de que eles pensaram que as duas eram o mesmo, os atomistas fizeram uma tentativa séria, mesmo dentro dos limites do seu [[lexico:s:sistema:start|sistema]] materialista, para distinguir a psyche e o noûs tanto em termos de [[lexico:f:funcao:start|função]] (ver noesis) como de [[lexico:l:localizacao:start|localização]] (ver kardia). 9. Embora os atomistas estivessem profundamente interessados na sensação (para as suas teorias ver aisthesis), a aproximação da sensação à alma é ainda mais notória em Empédocles. Aristóteles vê, por trás da [[lexico:r:reducao:start|redução]] da alma a um ou outro dos [[lexico:e:elementos:start|elementos]] (stoicheia) dos corpos físicos, a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de que «o [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] conhece o semelhante» com a [[lexico:c:consequencia:start|consequência]] de que, se a alma conhece, deve ser composta da mesma [[lexico:m:materia:start|matéria]] que a [[lexico:c:coisa:start|coisa]] conhecida (De anima I, 409b). Cita Empédocles como o principal [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]] deste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista (frg. 109), mas é [[lexico:b:bem:start|Bem]] evidente que Empédocles, que pode [[lexico:t:ter:start|ter]] [[lexico:d:dito:start|dito]] que esta [[lexico:s:semelhanca:start|semelhança]] (homoiotes) era a [[lexico:r:razao:start|razão]] pela qual a sensação ocorre, não queria sugerir que cada um dos seus [[lexico:q:quatro-elementos:start|quatro elementos]] era a alma. Pelo contrário, parece mais [[lexico:p:provavel:start|provável]] que seja o [[lexico:s:sangue:start|sangue]] que é uma [[lexico:m:mistura:start|mistura]] perfeita dos elementos (frgs. 105, 98; isto liga também a teoria às reflexões sobre o calor [[lexico:n:natural:start|natural]]; ver kardia). Há uma terceira [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] e Aristóteles considera-a (e rejeita-a) também. Talvez que, como no caso do sangue, a alma empedocliana não seja a mistura mas a proporção (logos) em si (ibid. I, 408a; ver [[lexico:h:holon:start|holon]]). 10. Aristóteles cita esta última possibilidade como [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] de uma [[lexico:e:escola:start|escola]] mais [[lexico:g:geral:start|geral]] de pensamento que tentou definir a psyche como uma [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] (ibid. I, 407b e confrontar Pol. 1340b). [[lexico:p:platao:start|Platão]] também conhece a teoria da harmonia; foi exposta por Símias no [[lexico:f:fedon:start|Fédon]] (85e-86d) e subsequentemente refutada por [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]] (91c-95e). As [[lexico:o:origens:start|origens]] da teoria têm sido muito debatidas. A [[lexico:p:palavra:start|palavra]] harmonia é pitagórica e há afinidades pitagóricas no Fédon (Equécrates sustenta a teoria (88d) e foi um pitagórico (D. L. VIII, 46); Símias tinha estudado com o pitagórico Filolau (61); ver testemunho tardio a favor dele em Diels 44B22, 23). Mas nem Platão nem Aristóteles a identificam em parte nenhuma como pitagórica e a teoria, pelo menos como aparece no Fédon, relaciona-se com a harmonia dos contrários ([[lexico:e:enantia:start|enantia]]) físicos. 11. Mas a teoria de um contrabalanço ou equilíbrio das forças (dynameis) opostas de um corpo não é a mesma coisa que a proporção numérica estabelecida pelos pitagóricos. E, embora possa ter afinidades pitagóricas, parece derivar de círculos médicos que a usaram para explicar a saúde como um equilíbrio ([[lexico:i:isonomia:start|isonomia]]) de qualidades opostas no corpo [[lexico:h:humano:start|humano]] e em que está associada com Alcméon de Crotona (Aécio, V, 30, 17; aparece também no [[lexico:d:discurso:start|discurso]] do médico Erixímaco in Symp. 188a). Mas não há [[lexico:p:prova:start|prova]] de que Alcméon a aplicasse à alma (ver De anima I,405a). 12. O que era então a doutrina pitagórica da alma? Havia, de fato, mais do que uma e esta estranha [[lexico:a:ambivalencia:start|ambivalência]] aparece igualmente em Empédocles. Os pitagóricos reduziram todas as coisas à [[lexico:a:arche:start|arche]] do [[lexico:n:numero:start|número]] ([[lexico:a:arithmos:start|arithmos]]) e assim sucede não ser surpresa descobrir que eles consideravam a alma e o noûs como «propriedades (pathe) dos números» (Aristóteles, [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]] 985b). Esta pode ser uma versão de uma teoria [[lexico:m:matematica:start|matemática]] da harmonia, mas o mesmo não pode ser [[lexico:v:verdade:start|verdade]] no que se refere ao ponto de vista, exposto no De anima I, 407b como um [[lexico:m:mythos:start|mythos]] pitagórico, que sugere que a alma é completamente distinta do corpo e que é [[lexico:p:possivel:start|possível]] que «qualquer alma casual entre em qualquer corpo casual». Voltando a Empédocles, enquanto a teoria de que a alma é sangue faz sentido [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] dentro da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] das suas explicações mecanicistas dos elementos e das suas misturas, o que se há de dizer do ponto de vista, exposto nas suas Purificações, de que a alma é um [[lexico:d:daimon:start|daimon]] que cometeu um «[[lexico:p:pecado-original:start|pecado original]]» (ver [[lexico:k:kathodos:start|kathodos]]) e sofre uma [[lexico:s:serie:start|série]] de reencarnações (frg. 115)? 13. O que apareceu aqui, no centro da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] pitagórica na [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]], é outro ponto de vista da psyche que parece pouco ou [[lexico:n:nada:start|nada]] [[lexico:d:dever:start|dever]] ao [[lexico:p:panvitalismo:start|panvitalismo]] ou pandeísmo (ver [[lexico:t:theion:start|theion]]) que é o [[lexico:l:legado:start|legado]] dos Milésios. Todas as implicações desta nova crença de que a natureza divina da alma é radicalmente diferente de todas as outras coisas podem ver-se no famoso passo de Píndaro (frg. 131), uma das suas primeiras [[lexico:a:aparicoes:start|aparições]]: a alma que é de [[lexico:o:origem:start|origem]] divina sobrevive à morte do corpo; a sua [[lexico:o:operacao:start|operação]] pode ser mais bem observada nos sonhos onde é ativa enquanto o corpo dorme. As origens desta nova crença na especial divindade e [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]] e a sua [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] básica e antagonismo com o corpo são algo obscuros; uma [[lexico:s:sugestao:start|sugestão]] é a de que os Gregos a receberam do contato com o xamanismo cita. Mas sejam quais forem as suas origens a crença aparece, com todas as suas divisões, em [[lexico:p:pitagoras:start|Pitágoras]], Empédocles e na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] órfica e as suas formas mais notórias são a doutrina da bilocalização e reencarnação ([[lexico:p:palingenesia:start|palingenesia]]) e a teoria com ela associada da [[lexico:r:reminiscencia:start|reminiscência]] ([[lexico:a:anamnesis:start|anamnesis]]), o antagonismo entre o corpo e a alma que se torna tão familiar desde a [[lexico:m:metafora:start|metáfora]] platônica do corpo/prisão (soma/sema; ver Crát. 400c, Fédon 62b) e uma série de mitos escatológicos que aparecem também em Platão (ver athanathos). 14. A dívida de Platão à [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] órfico-pitagórica da alma é nitidamente acentuada nos primeiros [[lexico:d:dialogos:start|diálogos]]. No Charm. 156d--157a estão presentes todos os [[lexico:m:motivos:start|motivos]] tradicionais deste «antigo [[lexico:r:relato:start|relato]]» (palaios logos: Fédon 70c; ver [[lexico:m:menon:start|Ménon]] 81a, Ep. VII, 335a): a psyche é uma unidade, imortal (athanathos), sujeita a um [[lexico:r:renascimento:start|Renascimento]] cíclico num corpo que é a fonte de todos os seus males. O [[lexico:f:fim:start|fim]] da vida, e a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de [[lexico:p:philosophia:start|philosophia]], é uma [[lexico:p:purificacao:start|purificação]] ([[lexico:k:katharsis:start|katharsis]]) que é uma preparação para a morte e o [[lexico:r:retorno:start|retorno]] da alma ao seu habitat natural. Associada a este [[lexico:c:complexo:start|complexo]] de [[lexico:i:ideias:start|ideias]] está a teoria da reminiscência (anamnesis; conforme uma [[lexico:a:autoridade:start|autoridade]] posterior in D. L. VIII, 4 Pitágoras lembrou as suas incarnações prévias; para Empédoeles, ver ibid. VIII, 77) e é esta que leva Platão a considerações mais originais. No Fédon, a anamnesis resvala de repente para o nível da episteme e aquilo que é recordado não são os pormenores de uma outra vida mas um [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] das Formas (eide). A psyche é a [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] na qual conhecemos os eide (65a-67b) e isto porque a alma é mais afim dos eide (78b-79b), como eles imortal, imaterial e invisível. 15. Gradualmente os aspectos mais radicais da diferença entre o corpo e a alma são modificados em Platão. Em muitos aspectos isto representa um [[lexico:r:regresso:start|regresso]] às [[lexico:c:categorias:start|categorias]] tradicionais pelo fato de reconhecer que várias funções somáticas pertencem também à alma, que no Fédon se esforça por operar só na [[lexico:e:esfera:start|esfera]] [[lexico:n:noetica:start|noética]] e separada dos sentidos. Esta acomodação é realizada pela tripartição da alma (Republica IV, 435e-444e). A psyche, como a própria [[lexico:p:politeia:start|politeia]], está dividida em três partes: a [[lexico:r:racional:start|racional]] ([[lexico:l:logistikon:start|logistikon]]), a «dotada de espírito» (thymoeides), e a apetitiva ([[lexico:e:epithymetikon:start|epithymetikon]]), com [[lexico:v:virtudes:start|virtudes]] e pathe adequadas a cada uma. A [[lexico:d:divisao:start|divisão]] aparece novamente na Republica IX, 580d-581a, no [[lexico:f:fedro:start|Fedro]] 2463-b, 253c-255b, e de novo no [[lexico:t:timeu:start|Timeu]] 69d-72d onde se atribuem às partes os seus [[lexico:l:lugares:start|lugares]] corpóreos apropriados, ligadas pela espinal medula (73b-d; a ligação do cérebro (enkephalos) com a coluna vertebral era bem conhecida, embora negada por Aristóteles, De part. anim. II, 652a; ver também kardia). 16. Como as funções da alma são alargadas a partir da [[lexico:r:republica:start|República]], a parte [[lexico:s:superior:start|superior]] ou logistikon começa a revestir-se das características da psyche unitária do Fédon. É divina, criada pelo [[lexico:d:demiourgos:start|demiourgos]] (Timeu 41c-d), alojada na cabeça (ibid. 44d; ver kardia), teve uma [[lexico:v:visao:start|visão]] pré-natal dos eide (Fedro 247b-248b, Timeu 41e-42a), e sujeita à palingenesia cíclica (Fedro 248c-249d, Timeu 42b-d). É, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, imortal, em contraste com as duas outras partes da alma que são [[lexico:m:mortais:start|mortais]] e criadas por [[lexico:d:deuses:start|deuses]] menores (Timeu 69c-d; ver Republica X, 611b-612a, Pol. 309a-c). 17. Uma das dificuldades decorrentes do tratamento que Platão faz da alma é o fato de ele ter [[lexico:p:postulado:start|postulado]] claramente a tripartição da alma em bases éticas, enquanto a alma unitiva do Fédon é sugerida por considerações epistemológicas. [[lexico:d:dado:start|dado]] que a psyche do Fédon é evidentemente o logistikon dos diálogos posteriores, podemos integrar as suas funções e vê-la como a arche cognitiva de uma [[lexico:d:dianoia:start|dianoia]] não [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]] (Fédon 79a, Soph. 248a) e legislador ético das duas partes inferiores da alma (Republica IV, 441e; Fedro 253c-254e). Mas é menos claro quais são os poderes cognitivos das partes inferiores da alma, e se os há. Que a sensação (aisthesis) envolve a alma bem como o corpo é mencionado mais de uma vez; o [[lexico:p:prazer:start|prazer]], dizem-nos, estende-se do corpo à alma (Republica IX, 584c) e no Phil. 33d-34a, este [[lexico:p:pathos:start|pathos]] ético é alargado para incluir também o pathos cognitivo da sensação (confrontar o passo paralelo no Timeu 64b). Mas devemos resistir à tentação de localizar a sensação no thymoeides, um tanto à maneira de uma psyche aisthetike aristotélica. O Timeu localiza o logistikon na cabeça e ao mesmo tempo faz do cérebro (enkephalos) a sede da sensação (44d, 73b). O logistikon, podia supor-se, é a única parte cognitiva da psyche. A sua função [[lexico:n:normal:start|normal]] e natural é a dianoia ou o [[lexico:l:logismos:start|logismos]], mas devido à sua ligação com o corpo estranho, à nascença, é invadida por vários pathe desse corpo e quando estes alcançam a alma dá-se a sensação (Timeu 42e-44a; para [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] destes pathe corpóreos ver aisthesis, 15-17). A função do thymoeides, localizado no peito, é, nesta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], receber comunicações do logistikon e atuar sobre elas (ibid. 69d-70b). O epithymetikon, localizado na cavidade abdominal, não recebe nenhuma [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]] do logistikon, mas a sua procura impetuosa de prazeres físicos é ocasionalmente temperada pela presença do fígado, que é a sede dos sonhos ([[lexico:o:oneiros:start|oneiros]]) e a base da [[lexico:a:adivinhacao:start|adivinhação]] ([[lexico:m:mantike:start|mantike]]; para um funda mento posterior da adivinhação ver [[lexico:s:sympatheia:start|sympatheia]] 8). 18. Então dificilmente se pode chamar ao logistikon a arche da sensação como os pré-socráticos a entendiam. É antes uma encruzilhada entre um «outro em si» xamanístico pitagórico e a faculdade do «[[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] conhecimento» no sentido parmenidiano. É capaz de episteme por [[lexico:c:causa:start|causa]] da sua semelhança com as coisas conhecidas, os eide (Fédon 79b; in Soph. 248e-249b, com as suas perspectivas alteradas, recebe um quinhão do «realmente [[lexico:r:real:start|real]]») e é capaz de sensação faute de mieux. 19. No Timeu 43a-d e nas Leis X, 896e-897b Platão faz uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre os movimentos primários próprios da alma e os movimentos secundários que se originam no corpo e entram na alma, e no Phil. 33d descreve a sensação como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de agitação (seismon) que é peculiar ao corpo e à alma e ao mesmo tempo comum a ambos. Assim, Platão é levado a abordar a psyche de um modo diferente mais afim do outro [[lexico:m:motivo:start|motivo]] [[lexico:p:pre-socratico:start|pré-socrático]] da kinesis. Uma das maiores provas de Platão para a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] da alma, i. e., o logistikon, é o fato de ela [[lexico:e:estar:start|estar]] sempre em movimento (aeikineton) e daí ter de ser automovida (antokineton), doutro modo não haveria genesis (Fedro 245c-e). O [[lexico:a:argumento:start|argumento]] não é inteiramente novo; foi usado por Alcméon que, contudo, não argumenta a partir do auto-movimento mas sim a partir do fato da alma ser aiekineton (Aristóteles, De anima I, 405a). O argumento de Platão, por outro lado, deriva do auto-movimerito do noûs que é parte da realidade (Soph. 249a-b) e está relacionado com o [[lexico:e:eidos:start|eidos]] da kinesis (ibid. 254d onde é um dos megista gene; ver eidos 13 e kinesis 6). Este não é, pois, um dos muitos tipos de [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] secundária pormenorizada nas Leis X, 893b-894c, mas o movimento [[lexico:p:primario:start|primário]] com que termina o catálogo, o movimento «real» que se move e que é a arche da kinesis (Leis X, 895b; [[lexico:c:comparar:start|comparar]] Fedro 245d). Ele está preparado para avançar ainda mais. O auto-movimento é a [[lexico:e:essencia:start|essência]] ([[lexico:o:ousia:start|ousia]]) e a definição da alma (Fedro 245s). 20. Aristóteles segue esta teoria no De anima I, 406b-407b e põe-lhe objeções baseado numa série de razões, mas principalmente porque pensa que nela Platão reduziu a alma à [[lexico:e:extensao:start|extensão]] ([[lexico:m:megethos:start|megethos]]). Para a sua maneira de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] a kinesis teria de ser movimento circular (ver noesis) de tal maneira que Platão, tal como Demócrito, pôs a alma a mover um corpo por estar ela própria em movimento, em vez de ver que a alma move as coisas por ser a causa final delas e por isso pode dizer-se que origina o movimento por [[lexico:m:meio:start|meio]] do pensamento (noesis) ou da [[lexico:e:escolha:start|escolha]] ([[lexico:p:proairesis:start|proairesis]]; ibid. I, 406b). Para outras abordagens do [[lexico:p:problema-da-alma:start|problema da alma]], feitas por Aristóteles, como a arche da kmesis, ver kinonn 8 e [[lexico:p:physis:start|physis]] 3. 21. A seguir, trata Aristóteles o ponto de vista de que a alma é número auto-movido, teoria de outro membro da [[lexico:a:academia:start|Academia]], [[lexico:x:xenocrates:start|Xenócrates]] (ibid. I, 408b-409b; ver Plutarco, De procr. an. 1012d). Ora o número é um agregado de unidades ([[lexico:p:plethos:start|plethos]] monadon; ver Metafísica 1053a) e, além do [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] de aplicar a teoria da fluxão, então popular, do movimento de pontos para linhas, etc. (ver arithmos), a teoria de Xenócrates parece aberta ao mesmo tipo de acusações mecanicistas feitas contra Demócrito. 22. Aristóteles vai até ao âmago das teorias pré-socráticas. A alma, é bem verdade, é um princípio motor, não no sentido mecanicista de Demócrito ou como ele entendeu as afirmações de Platão e Xenócrates, mas como a causa final; ela move pelo pensamento e [[lexico:d:desejo:start|desejo]] (De anima III, 433a-b; Metafísica 1072a-b; para algumas das dificuldades que isto envolve ver sympatheia 7). Mas não é auto-movida a não ser acidentalmente (ibid. I, 405b-406b), visto que o que move os outros não tem necessariamente de estar em movimento em si [[lexico:p:proprio:start|próprio]] ([[lexico:p:physica:start|Physica]] VIII, 256a-258b). 23. O seu próprio tratamento, contudo, afasta-se da [[lexico:c:categoria:start|categoria]] da kinesis (que ele transfere para a physis) e move-se noutra direção. Anteriormente, durante o seu período mais platônico, Aristóteles havia tratado a alma [[lexico:c:como-se:start|como se]] ela fosse uma [[lexico:s:substancia:start|substância]] completa ([[lexico:e:eudemo:start|Eudemo]] frgs. 45, 46) que pouco necessitava do corpo (ibid. frg. 41). Mas no De anima é totalmente diferente. Uma substância completa é um ser individual, um [[lexico:t:tode-ti:start|tode ti]], e um destes é o «corpo vivo ou animado» (soma empsychon) [[lexico:c:composto:start|composto]] de um princípio material ([[lexico:h:hyle:start|hyle]]) e de um princípio [[lexico:f:formal:start|formal]] (eidos). Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] é a alma e se ela é abordada a partir da função ([[lexico:e:ergon:start|ergon]]; ver [[lexico:e:energeia:start|energeia]]) pode ser definida (ibid. II, 412b) como a primeira (i. e., não necessariamente operante) [[lexico:e:entelecheia:start|entelecheia]] de um corpo [[lexico:o:organico:start|orgânico]] (ver holon). 24. Platão dá frequentemenlte a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de estar mais interessado no [[lexico:c:conceito:start|conceito]] geral de alma do que na alma individual. A prova da imortalidade já indicada desde o Fedro é exposta no sentido de abranger «toda a alma». Nos passos pormenorizados do Timeu, além disso, onde Platão descreve a composição da alma a partir dos seus elementos (35b-36b), é à [[lexico:a:alma-do-mundo:start|alma do mundo]] ([[lexico:p:psyche-tou-pantos:start|psyche tou pantos]]) que ele se refere; as almas individuais são versões dela de segunda ou terceira categoria (ibid. 41d). Para Aristóteles, todavia, é o ser vivo individual que é o [[lexico:p:paradigma:start|paradigma]] e o método de abordagem é investigar as suas várias [[lexico:a:atividades:start|atividades]]. Deste modo ele passa a uma [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] das [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] (dynameis) da alma de um [[lexico:o:organismo:start|organismo]] vivo. 25. Platão dividira a alma em partes (mere; ver 15) e por vezes a sua [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] sugere que as partes da alma são realmente almas individuais dentro do mesmo ser (ver Timeu 69d-e, e a [[lexico:q:questao:start|questão]] aberta nas Leis IX, 863b). Aristóteles também lhes chama partes mas trata-as como faculdades (ver De anima III, 433b), i. e., dynameis na acepção primária que a palavra tinha de poder para efetuar [[lexico:m:mudanca:start|mudança]] noutra ou em si qua outro (Metafísica 1046a e ver dynameis 3). Há uma grande variedade destas dynameis, mas elas são o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] mais [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]] para estudar a natureza da alma (De anima II, 415a). Aristóteles propõe-se elaborar o seu caminho a partir da threptike nutritiva e mais fundamental (ibid. II, 414a-415a), através das séries ascendentes (cada [[lexico:d:dynamis:start|dynamis]] mais elevada pressupõe a [[lexico:e:existencia:start|existência]] da mais baixa), até à sensitiva (aisthetike; ver aisthesis), e finalmente até à faculdade distintiva do homem, a noetike (ver noûs, noesis). 26. Aristóteles é claro sobre a questão da imortalidade [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]. Dado que a alma é a causa formal e final de um corpo organicamente qualificado, ela não pode sobreviver à dissolução da [[lexico:u:uniao:start|união]] com [[lexico:e:esse:start|esse]] corpo, exceto talvez, como parte da espécie (ibid. II, 415b). Mas não há nada que evite que uma faculdade da alma seja separável (chroriston; ibid. I, 408b) e isto é, na realidade, assim no caso do noûs (ibid. III, 430a). 27. Para [[lexico:e:epicuro:start|Epicuro]] e Lucrécio a alma é um corpo compósito constituído por vários átomos (D. L. X, 63). Mas esta é uma opinião afastada do mero agregado de átomos ígneos proposto por Demócrito. Em primeiro lugar, a [[lexico:n:nocao:start|noção]] de corpo fora aperfeiçoada para a de um composto orgânico (concilium; ver holon 10). Em segundo lugar, a relação da alma e do corpo é [[lexico:a:agora:start|agora]] especificada com os atoma da alma que estão espalhados totalmente e contidos dentro do invólucro (stegazon) do corpo (D. L. X, 43, 64). Os atoma que entram na composição da alma já não são apenas «ígneos» mas incluem respiração (pneuma) e ar (ver Lucrécio III, 231-236). Há um acrescento mais espantoso, os átomos de um «[[lexico:e:elemento:start|elemento]] não nomeado» que não são semelhantes a quaisquer dos outros mas são mais subtis, mais suaves e mais móveis do que qualquer outra espécie de [[lexico:a:atomo:start|átomo]] (D. L. X, 63; Aécio IV, 3, 11; a quarta natura de Lucrécio III, 241-257). É este último que começa os movimentos que são a sensação (ver aisthesis 23 e holon 10) e os transmite ao resto do corpo (ibid. III, 262, 281). 28. A teoria estóica da alma ilustra o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]] curiosamente qualificado das suas posições. Numa definição reminiscente de Heráclito a alma é fogo material ou pneuma aquecido (Cícero, De fin. IV, 12; D. L. VII, 157 e confrontar a [[lexico:c:critica:start|crítica]] de [[lexico:p:plotino:start|Plotino]] in [[lexico:e:eneadas:start|Eneadas]] IV, 7, 4; mais pormenores sobre o ponto de vista estoico na rubrica pneuma 4-5). Tem oito faculdades: o [[lexico:h:hegemonikon:start|hegemonikon]], os cinco sentidos, e a faculdade da [[lexico:f:fala:start|fala]] e a produtiva (SVF I, 143; ver noesis 16), cada uma representada por uma corrente de pneuma que se estende até ao [[lexico:o:orgao:start|órgão]] apropriado e que regressa ao hegemonikon (SVF II, 836) e remetendo para ele as várias impressões dos sentidos (phantasiai), os impulsos (hormai) e as afecções (pathe) aos quais os sentidos são propensos (para as revisões na psicologia estóica ver noesis 17). 29. A tradição platônica tardia, com a sua teoria altamente desenvolvida da sympatheia, espalhou a sugestão platônica da [[lexico:s:similaridade:start|similaridade]] da psyche aos eide (ver 18 supra e confrontar [[lexico:m:metaxu:start|metaxu]] 2) para lhe dar uma [[lexico:p:posicao:start|posição]] média fortemente enfática entre os noeta e os aistheta (ver Simplício, In De anima I, 2, p. 30, citando Xenócrates; Plutarco, De procr. an. 1023b, citando [[lexico:p:posidonio:start|Posidônio]]; sobre os esforços para preencher as lacunas na scala naturae, ver sympatheia 3). Plotino afirma isto categoricamente (Eneadas IV, 8, 7), mas também se apercebe do [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]] que existia no ponto de vista platônico: como reconciliar a alma imortal enviada do [[lexico:c:ceu:start|céu]] do Fédon e do Fedro, cuja estadia no corpo é comparada por Platão a um encarceramento, com a alma [[lexico:i:imanente:start|imanente]] e directiva do Timeu, que tem uma função distintamente benigna vis-à-vis do organismo (Eneadas IV, 8, 1)? A primeira atitude levanta [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:p:problema:start|problema]] da descida da alma até à matéria (ver kathodos); a segunda, a função vitalista da alma vista como natureza (physis). 30. A alma, considerada como uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] [[lexico:s:simples:start|simples]], é uma [[lexico:h:hypostasis:start|hypostasis]], uma produção do noûs e sua [[lexico:i:imagem:start|imagem]] ([[lexico:e:eikon:start|eikon]]; Eneadas V, 1, 2), e ao voltar-se para o noûs fica ela própria fecundada e produz, na direção oposta, várias atividades que são [[lexico:r:reflexo:start|reflexo]] de si própria e cujas expressões são a sensação (aisthesis) e o crescimento (V, 2, 1). A alma, assim, pela própria natureza das coisas, tem uma dupla [[lexico:o:orientacao:start|orientação]]: está voltada para a sua origem, o [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], e está voltada para o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], que vitalizsa (ver noesis 20). 31. Mas a alma é mais do que uma hypostasis unitária; o seu afastamento descendente do [[lexico:u:uno:start|uno]] ([[lexico:h:hen:start|hen]]) fez com que ela se tornasse múltipla, e Plotino vê-se obrigado a explicar com certo pormenor a relação das várias almas que vitalizam os corpos com a hypostasis unitária de que fazem parte (IV, 3, 1-8). Não são, evidentemente, partes materiais de um todo material. Estão unificadas pelo fato de terem uma origem comum e uma operação natural; são divergentes porque operam dentro e sobre corpos diferentes (IV, 3, 4). Isto dá origem não só a uma [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] de almas mas também a graus de almas (IV, 3, 6), que vão desde a Alma do Mundo (psyche tou pantos), que ainda está próxima da fonte inteligível e cujas atividades estão consequentemente mais próximas da do noûs, até às almas das plantas, a última extensão do princípio da alma a partir do noûs. A distinção é [[lexico:u:util:start|útil]]: a natureza unitiva da alma permite a Plotino afirmar a estrutura [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]] das almas múltiplas em termos de sympatheia cósmica (ver Eneadas IV, 3, 8), e a distinção dos graus fornece uma base para uma continuada crença na reencarnação (palingenesia; Eneadas III, 4, 5). 32. A função da alma é, então, vitalizar e governar a matéria (ver Eneadas IV, 8, 3). Como isto se realiza é explicado numa série de metáforas: a alma ilumina a matéria com uma [[lexico:l:luz:start|luz]] que, embora permanecendo no seu ponto de origem (sobre este assunto, ver [[lexico:p:proodos:start|proodos]] 3), emite os seus raios para uma escuridão que se aprofunda gradualmente. Ou vitaliza a matéria do mesmo modo que uma rede, inerte fora de água, se espalha e parece tomar vida quando lançada ao mar, sem ao mesmo tempo o afetar (IV, 3, 9). É deste modo que a alma do universo afeta o seu corpo, o [[lexico:k:kosmos:start|kosmos]] [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]. 33. Quanto às almas individuais, a questão é aqui consideravelmente mais complexa devido à óbvia [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] das funções. O ponto de vista aristotélico da alma como uma entelecheia do corpo parece sugerir uma conexão [[lexico:f:funcional:start|funcional]] demasiado íntima entre a alma e o corpo, e Plotino rejeita-a (Eneadas IV, 7, 8). Em contrapartida volta-se para o princípio microcósmico: cada alma humana tem, tal como a Alma do Mundo, uma «parte» que permanece virada para o inteligível e não é afetada pela descida ao corpo (IV, 3, 12). Mas o fato de ela ter ido até um corpo, desde os corpos celestes (ouranioi) até às plantas, leva à [[lexico:d:diminuicao:start|diminuição]] do poder natural da alma. Assim, a sua atividade normal, não discursiva e intelectual (ver noesis) degenera em formas inferiores de atividade: a [[lexico:t:theoria:start|theoria]] torna-se dianoia e, eventualmente, em [[lexico:p:praxis:start|praxis]] (IV, 3, 18; ver physis 5, noesis 20). 34. A alma individual, uma vez «no» corpo (a localização não é, evidentemente, espacial; a alma está «no» corpo no mesmo sentido em que a luz está «no» ar; IV, 3, 22; ver kardia), envia uma espécie de [[lexico:r:reflexos:start|reflexos]] de si própria, o primeiro dos quais é a aisthesis, seguido pelas outras faculdades (I, 1,8). Estas permitem que o corpo material atue sem afetar de qualquer modo a alma (I, 1, 6-7; ver aisthesis 26-27). 35. [[lexico:p:proclo:start|Proclo]] começa o seu tratamento da alma aplicando-lhe a sua familiar doutrina do meio (ver [[lexico:t:trias:start|trias]]). Há três tipos de almas: as divinas (incluindo as almas dos planetas; ver ouranioi e, para a sua [[lexico:i:influencia:start|influência]], [[lexico:o:ochema:start|ochema]] 4), as capazes de passarem da [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] à [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] (ver noesis 21), e um [[lexico:g:grau:start|grau]] intermediário que está sempre em [[lexico:a:ato:start|ato]] mas inferior às almas divinas (Elem. theol., prop. 184). Este grau [[lexico:m:mediador:start|mediador]], além de ser pedido pelo princípio [[lexico:t:triadico:start|triádico]] de Proclo, tinha uma história prévia na tradição. Estes são os daimones já definidos por Platão como intermediários (Symp. 202d), integrados pelo seu aluno Xenócrates nos vários graus de [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] (logos; ver Plutarco, De defec. orac. 416c; e divididos por Proclo em angeloi, daimones, e heroes (In Timeu III, 165, 11). 36. A perspectiva platônica da alma como substância está ainda em [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] em Proclo onde é descrita (Elem. theol. prop. 188) simultaneamente como vida ([[lexico:z:zoe:start|zoe]]) e como coisa [[lexico:v:vivente:start|vivente]] ([[lexico:z:zoon:start|zoon]]). A sua posição intermédia é afirmada (prop. 190), e, por causa dela, participa tanto da [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] ([[lexico:a:aion:start|aion]]) em virtude da sua ousia, como do tempo em virtude da sua energeia (prop. 191; ver Plotino, Eneadas IV, 4, 15). A palingenesia é ainda sustentada (prop. 206), mas Proclo nega que a alma possa transmigrar para animais (In Remp. II, 312-313). Sobre as [[lexico:f:faculdades-da-alma:start|faculdades da alma]], ver aisthesis, noesis, noûs, [[lexico:o:orexis:start|orexis]]; a sua imortalidade, [[lexico:a:athanatos:start|athanatos]]; descida ao mundo, kathodos; renascimento periódico, palingenesia; o seu corpo astral, ochema; para a inter-relação da alma com o corpo no [[lexico:e:estoicismo:start|estoicismo]] e no [[lexico:e:epicurismo:start|epicurismo]], genesis; para tentativas de distinção da psyche do noûs, noesis; sobre a Alma do Mundo, psyche tou pantos. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}