===== PSICOLOGISMO ===== (in. Psychologism; fr. Psychologisme; al. Psychologismus; it. Psicologismó). 1. Este [[lexico:t:termo|termo]] tem [[lexico:o:origem|origem]] no séc. XIX; designa em primeiro [[lexico:l:lugar|lugar]] qualquer [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] que assuma como [[lexico:f:fundamento|fundamento]] os dados da [[lexico:c:consciencia|consciência]], como [[lexico:r:reflexao|reflexão]] do [[lexico:h:homem|homem]] sobre [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]]. Foi assim que G. F. Fries (1773-1844) e F. E. Beneke (1798-1854) entenderam. O psicologismo, em [[lexico:o:oposicao|oposição]] ao [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] hegeliano. Ambos assumiram explicitamente como [[lexico:m:metodo|método]] e [[lexico:t:tarefa|tarefa]] da filosofia a [[lexico:a:auto-observacao|auto-observação]] ou consciência. Desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, a [[lexico:p:psicologia|psicologia]], como [[lexico:d:descricao|descrição]] da [[lexico:e:experiencia|experiência]] interna, torna-se a única filosofia [[lexico:p:possivel|possível]] (cf. Fries, Neue oder anthropologische Kritik der Vernunft, 1828; Beneke, Die Philosophie in ihrem Verhaltnis zur Erfahrung, zur Speculation und Zum Leben, 1833). Mais genérica e polemicamente, V. Gioberti entendia por psicologismo o procedimento filosófico que vai do homem a [[lexico:d:deus|Deus]], contraposto àquele que vai de Deus ao homem. Este [[lexico:u:ultimo|último]] é o [[lexico:o:ontologismo|ontologismo]] (v). O psicologismo é considerado por Gioberti como a [[lexico:c:caracteristica|característica]] da [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]], de [[lexico:d:descartes|Descartes]] em diante (Intr. allo studio della filosofia, 1840. II, p. 175). I 2. No seu [[lexico:u:uso|uso]] [[lexico:p:polemico|polêmico]], o termo é constantemente empregado para designar a confusão entre a [[lexico:g:genese|gênese]] psicológica do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] e sua [[lexico:v:validade|validade]]; ou a [[lexico:t:tendencia|tendência]] a julgar justificada a validade de um conhecimento, quando na [[lexico:v:verdade|verdade]] só se explicou seu [[lexico:a:acontecimento|acontecimento]] na consciência. Neste [[lexico:s:sentido|sentido]], foi [[lexico:k:kant|Kant]] o primeiro a esclarecer o [[lexico:c:conceito|conceito]] de psicologismo (apesar de [[lexico:n:nao|não]] [[lexico:t:ter|ter]] usado [[lexico:e:esse|esse]] [[lexico:n:nome|nome]]); foi [[lexico:q:quem|quem]] iniciou a polêmica contra ele, fazendo a [[lexico:d:distincao|distinção]] a propósito dos [[lexico:c:conceitos|conceitos]] apriori, entre a [[lexico:q:quaestio|quaestio]] facti de sua "derivação fisiológica", isto é, do seu acontecimento na [[lexico:m:mente|mente]] ou na consciência do homem, e a quaestio juris, que consiste em perguntar o fundamento de sua validade, exigindo como resposta a [[lexico:d:deducao|dedução]] (v. [[lexico:d:deducao-transcendental|dedução transcendental]]) ([[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], § 12). Essa distinção, sempre presente na [[lexico:o:obra|obra]] de Kant, significa a [[lexico:d:descoberta|descoberta]] da [[lexico:d:dimensao|dimensão]] lógico-objetiva do conhecimento; irredutibilidade dessa dimensão à consciência ou às condições subjetivas do conhecer foi defendida por muitas escolas kantianas: pela [[lexico:e:escola-de-baden|escola de Baden]] ([[lexico:w:windelband|Windelband]], [[lexico:r:rickert|Rickert]]), pela de Marburgo ([[lexico:c:cohen|Cohen]], [[lexico:n:natorp|Natorp]]) e pela [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] ([[lexico:h:husserl|Husserl]]), que, na filosofia dos últimos decênios do séc. XIX e nos primeiros do séc. XX, combateram constantemente o psicologismo. Herman Lotze, em [[lexico:l:logica|Lógica]] (1874), insistiu sistematicamente no ponto de vista antipsicológico, fazendo a distinção entre [[lexico:a:ato|ato]] [[lexico:p:psiquico|psíquico]] de [[lexico:p:pensar|pensar]], que existe só como determinado [[lexico:e:evento|evento]] [[lexico:t:temporal|temporal]], e o conteúdo do [[lexico:p:pensamento|pensamento]], que tem [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]] de [[lexico:s:ser|ser]], o da validade. Na [[lexico:l:logica-matematica|lógica matemática]], Frege impusera o mesmo ponto de vista: "Que não se tome como [[lexico:d:definicao|definição]] [[lexico:m:matematica|matemática]] a [[lexico:s:simples|simples]] descrição do modo [[lexico:c:como-se|como se]] [[lexico:f:forma|forma]] em nós certa [[lexico:i:imagem|imagem]], nem como [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] de um [[lexico:t:teorema|teorema]] o rol de condições físicas ou psíquicas que em nós devem ser satisfeitas para que possamos [[lexico:c:compreender|compreender]] seu [[lexico:e:enunciado|enunciado]]. Que não se confunda a verdade de uma [[lexico:p:proposicao|proposição]] com o [[lexico:f:fato|fato]] de ela ser pensada! É preciso lembrar [[lexico:b:bem|Bem]]: que uma proposição não deixa de ser verdadeira quando não a penso, assim como o [[lexico:s:sol|sol]] não deixa de [[lexico:e:existir|existir]] quando fecho os olhos" (Die Grundlagen der Arithmetik, 1884, Intr.; trad. it., em [[lexico:a:aritmetica|Aritmética]] e Lógica, p. 23). Essas considerações eram repetidas quase literalmente por Husserl (Logische Untersuchungen, 1900, I, §§ 17 ss.), que mais [[lexico:t:tarde|Tarde]] reforçava: "se dissermos que um [[lexico:n:numero|número]] é uma [[lexico:f:formacao|formação]] psíquica, incidiremos num [[lexico:a:absurdo|absurdo]], chocar-nos-emos contra o sentido [[lexico:i:intrinseco|intrínseco]] do [[lexico:d:discurso|discurso]] aritmético, que está acima de todas as teorias e em todos os momentos e claramente contemplável em sua plena validade" (ldeen, 1,1913, § 22), prevenindo contra a tendência a "psicologizar o [[lexico:e:eidetico|eidético]]", a identificar as [[lexico:e:essencias|essências]] com a consciência que se tem delas em cada caso (Ibid., § 61). A corrente antipsicológica, nesse sentido, hoje é a base de filosofias aparentemente díspares, como p. ex. do [[lexico:e:existencialismo|existencialismo]], na forma observada na obra de [[lexico:h:heidegger|Heidegger]], que é a [[lexico:a:analise|análise]] das situações humanas em sua [[lexico:e:essencia|essência]], e não em sua [[lexico:o:ocorrencia|ocorrência]] psíquica (cf. Sein und Zeit, § 7); o mesmo se pode dizer do [[lexico:e:empirismo-logico|empirismo lógico]], cujo principal representante, R. Carnap, travou polêmicas constantes contra o psicologismo (cf. Der Logische Aufbau der Welt, 1928, §§ 151 ss.; "Empiricism, Semantics, and Ontology", 1950, em Readings in Phil. of Science, 1953, p. 514). A polêmica contra o psicologismo é, aliás, frequente no [[lexico:e:empirismo|empirismo]] [[lexico:l:logico|lógico]] (cf. p. ex., A. Pap, Elements of Analytic Philosophy, 1949, p. 406). A [[lexico:a:atitude|atitude]] ou doutrina que consiste em tratar os fatos da consciência como [[lexico:c:coisas|coisas]]. — Denunciando o psicologismo, a fenomenologia de Husserl faz [[lexico:q:questao|questão]] de mostrar que [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] da consciência não é uma [[lexico:c:coisa|coisa]], e sim um "[[lexico:s:significado|significado]]", que requer não uma simples descrição e sim uma [[lexico:i:interpretacao|interpretação]]; a reflexão filosófica sobre os "atos" do [[lexico:e:espirito|espírito]] não se reduz, como crê o psicologismo, a uma descrição empírica de "conteúdos" de consciência. Implica num ato de [[lexico:a:abstracao|abstração]], através do qual o [[lexico:i:individuo|indivíduo]] que reflete abstrai o conteúdo material dos dados da consciência: por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], compreender a cólera de outro é fazer abstração das condições e manifestações particulares de "sua" cólera para [[lexico:a:apreender|apreender]], através delas, o "significado" [[lexico:h:humano|humano]] [[lexico:g:geral|geral]] da cólera. Em [[lexico:s:suma|suma]], o [[lexico:e:erro|erro]] do psicologismo é tratar a consciência como uma "coisa" que teria uma [[lexico:i:interioridade|interioridade]] e que se poderia decompor, e querer aplicar, em psicologia, os métodos das ciências da [[lexico:n:natureza|natureza]]. O psicologismo atribui à psicologia a primazia absoluta entre todas as ciências filosóficas. Em especial, faz que a lógica e a [[lexico:e:epistemologia|epistemologia]] ([[lexico:t:teoria|teoria]] do conhecimento) fiquem absorvidas pela psicologia. Procede assim, porque para ele as [[lexico:c:causas|causas]] psíquicas, que determinam a [[lexico:r:relacao|relação]] do [[lexico:j:juizo|juízo]], são, ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]], a [[lexico:n:norma|norma]] da verdade: [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] é aquele pensamento que decorre normalmente, ou seja, em conformidade com as leis das causas psicológicas. Segundo a maneira de conceber esta norma, distinguem-se várias formas de psicologismo. Para o antropologismo, a norma consiste na peculiaridade específica do homem, de [[lexico:s:sorte|sorte]] que há uma norma de verdade comum a todos os homens e válida só para eles; outras formas de psicologismo restringem ainda mais a norma: segundo o psicologismo tipológico ([[lexico:d:dilthey|Dilthey]], Leisegang), os vários tipos de pensar conduzem necessariamente a mundividências diferentes; segundo o [[lexico:h:historicismo|historicismo]], o nível da [[lexico:e:evolucao|evolução]] cultural em cada [[lexico:m:momento|momento]] influi decisivamente na norma de verdade. Fundamento de um certo [[lexico:c:carater|caráter]] comum da verdade são a [[lexico:a:alma|alma]] da [[lexico:c:cultura|cultura]] ([[lexico:s:spengler|Spengler]]) relativamente ao mesmo ciclo cultural, a alma da [[lexico:r:raca|raça]] ou as circunstâncias econômico-sociais ([[lexico:m:marxismo|marxismo]]). Todas as variedades de psicologismo coincidem no [[lexico:r:relativismo|relativismo]] da verdade. A impugnação do psicologismo brota fundamentalmente da [[lexico:r:refutacao|refutação]] do relativismo. Quanto à mescla da psicologia com a lógica e a epistemologia, importa dizer que estas ciências se ocupam efetivamente com o mesmo [[lexico:o:objeto|objeto]]: o conhecimento, mas de pontos de vista essencialmente distintos. A psicologia estuda um [[lexico:p:processo|processo]] num [[lexico:s:sujeito|sujeito]], as condições de sua produção e [[lexico:e:existencia|existência]], e só atende ao conteúdo, na [[lexico:m:medida|medida]] em que este influi naquelas. Pelo contrário, a lógica abstrai de tudo isto; interessam-lhe somente os puros conteúdos e suas [[lexico:r:relacoes|relações]] recíprocas, a [[lexico:r:retidao|retidão]] e legitimidade do pensar. Mas a epistemologia investiga a verdade do conhecimento, isto é, procura [[lexico:s:saber|saber]] se o conhecimento é tal como o objeto o exige. Por esta forma, fica indicada uma norma, que é [[lexico:i:independente|independente]] da natureza do sujeito. Também os raciocínios logicamente ilegítimos e os juízos objetivamente falsos se regem, em sua realização, pelas leis psicológicas. Norma da verdade e leis lógicas e psicológicas são, por conseguinte, coisas distintas. — Santeler. O psicologismo contra o qual Husserl [[lexico:l:luta|luta]] identifica sujeito do conhecimento e sujeito [[lexico:p:psicologico|psicológico]]. Afirma que o juízo "essa parede é amarela" não é uma proposição independente de mim, que o expresso e percebo essa parede. Diremos que "parede", "amarela" são conceitos definíveis em [[lexico:e:extensao|extensão]] e em [[lexico:c:compreensao|compreensão]] independentemente de todo pensamento [[lexico:c:concreto|concreto]]. Será, pois, [[lexico:n:necessario|necessário]] conferir-lhes uma existência em si, [[lexico:t:transcendente|transcendente]] ao sujeito e ao [[lexico:r:real|real]]? As contradições de [[lexico:r:realismo|realismo]] das [[lexico:i:ideias|ideias]] (platônico por exemplo) são inevitáveis e insolúveis. Mas, se ao menos admitimos o [[lexico:p:principio-de-contradicao|princípio de contradição]] como [[lexico:c:criterio|critério]] para a validade de uma [[lexico:t:tese|tese]] (no caso platônica), não estaremos afirmando a independência em relação ao pensamento concreto? Passamos assim do [[lexico:p:problema|problema]] da [[lexico:m:materia|matéria]] lógica, o conceito, ao problema de sua organização, os [[lexico:p:principios|princípios]]. Mas o psicologismo não se rende nesse ponto. Quando o lógico supõe que duas proposições contrárias não podem ser verdadeiras simultaneamente ele está apenas exprimindo que me é [[lexico:i:impossivel|impossível]] de fato, no nível do [[lexico:v:vivido|vivido]] pela consciência, acreditar que a parede seja amarela e verde. A validade dos grandes princípios funda-se sobre minha organização psíquica, e se são indemonstráveis é porque são inatos. Disto decorre evidentemente que não existe enfim verdade independente dos passos psicológicos que a ela conduzem. Como poderei saber se meu saber se adéqua a seu objeto, como o exige a concepção clássica de verdadeiro? Qual é o [[lexico:s:sinal|sinal]] de sua [[lexico:a:adequacao|adequação]]? Necessariamente, um determinado "[[lexico:e:estado|Estado]] de consciência" pelo qual qualquer [[lexico:i:indagacao|indagação]] sobre o objeto do qual existe saber se mostra supérfluo: a [[lexico:c:certeza|certeza]] subjetiva. Assim, o conceito era algo vivido, o [[lexico:p:principio|princípio]] uma [[lexico:c:condicao|condição]] [[lexico:c:contingente|contingente]] do [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] psicológico, a verdade uma [[lexico:c:crenca|crença]] coroada de êxito. Sendo o [[lexico:p:proprio|próprio]] [[lexico:s:saber-cientifico|saber científico]] [[lexico:r:relativo|relativo]] à nossa organização, nenhuma [[lexico:l:lei|lei]] poderia ser considerada absolutamente verdadeira mas tão-somente uma [[lexico:h:hipotese|hipótese]] em via de [[lexico:v:verificacao|verificação]] sem [[lexico:f:fim|fim]], a eficácia das operações ([[lexico:p:pragma|pragma]]) que ela torna possíveis definia sua validade. A [[lexico:c:ciencia|ciência]] teceria portanto uma rede de [[lexico:s:simbolos|símbolos]] cômodos ([[lexico:e:energia|energia]], [[lexico:f:forca|força]], etc.) com que veste o [[lexico:m:mundo|mundo]]; seu [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:o:objetivo|objetivo]] seria então estabelecer entre esses símbolos relações constantes que permitam a [[lexico:a:acao|ação]]. O problema de um conhecimento do mundo propriamente [[lexico:d:dito|dito]] não se propunha. Não se podia mais afirmar um [[lexico:p:progresso|progresso]] desse conhecimento no decorrer da [[lexico:h:historia|história]] da ciência: a história é um [[lexico:d:devir|devir]] sem significado determinado, um acúmulo de tentativas e de erros. É portanto necessário renunciar a propor problemas à ciência para os quais não existe resposta. Enfim, a matemática é um vasto [[lexico:s:sistema-formal|sistema formal]] de símbolos estabelecidos convencionalmente e de axiomas operatórios sem conteúdo limitativo: tudo aí é possível à nossa [[lexico:f:fantasia|fantasia]] (Poincaré). A verdade matemática define-se ela própria segundo o referencial de axiomas escolhidos de início. Todas essas teses convergem para o [[lexico:c:ceticismo|ceticismo]].