===== PSICOLOGIA TOMISTA ===== Etimologicamente o [[lexico:t:termo:start|termo]] [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] significa: [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] da [[lexico:a:alma:start|alma]]. Esta ciência é tão antiga quanto a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Desde a [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]], em todos os sistemas, houve um conjunto, mais ou menos organizado, de considerações relativas a este assunto. Mas o vocábulo psicologia é relativamente recente. [[lexico:n:nao:start|Não]] vai [[lexico:a:alem:start|além]] do século XVI, [[lexico:e:epoca:start|época]] na qual um professor de Marburg, Goclenius, deu-o como título a um de seus livros. Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] introdutor deste [[lexico:n:nome:start|nome]] parece [[lexico:t:ter:start|ter]] sido [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] que, em sua [[lexico:p:psychologia:start|psychologia]] empirica (1732) e em sua Psychologia rationalis, popularizou, com o nome, uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] que se mostraria, com o [[lexico:t:tempo:start|tempo]], bastante feliz. [[lexico:k:kant:start|Kant]] retomou esta [[lexico:d:denominacao:start|denominação]]. Na França, [[lexico:m:maine-de-biran:start|Maine de Biran]] e os ecléticos terão uma [[lexico:i:influencia:start|influência]] decisiva na sua vulgarização e adoção generalizada que foi [[lexico:o:obra:start|obra]] do século XIX. Por um [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]] bastante curioso, o termo psicologia, ou ciência da alma, tornar-se-á [[lexico:c:classico:start|clássico]] no [[lexico:m:momento:start|momento]] preciso em que os que entendem tratar desta [[lexico:m:materia:start|matéria]] renunciarão, em grande [[lexico:p:parte:start|parte]], ao [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] da própria alma. O que poderá colocar sob este vocábulo [[lexico:q:quem:start|quem]] entenda filosofar na linha de [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]]? Para responder a esta [[lexico:q:questao:start|questão]], convém considerar preliminarmente a [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] histórica das doutrinas da alma. Na antiguidade e na Idade Média, duas concepções sobre a alma marcarão linhas distintas: uma mais espiritualista, com [[lexico:p:platao:start|Platão]] e S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], outra mais empirista, com [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] e sua [[lexico:e:escola:start|escola]]. No século XIII, prevaleceu a segunda concepção, juntamente com o conjunto da filosofia do Estagirita. A partir deste momento, a [[lexico:f:filosofia-crista:start|filosofia cristã]] será fundamentalmente aristotélica. Com o advento do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]], caiu em descrédito a psicologia da Escola, como também tudo o que vinha de Aristóteles Era [[lexico:n:necessario:start|necessário]] reconstruir. A obra de [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] marca, neste domínio, uma volta ao [[lexico:e:espiritualismo:start|espiritualismo]] mais exclusivo do agostinianismo, mas não deixa de [[lexico:s:ser:start|ser]] inovadora por adotar, como [[lexico:p:principio:start|princípio]] mesmo do [[lexico:s:saber:start|saber]], um [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista de [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]. A partir daí, [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] tenderá [[lexico:a:a-se:start|a se]] confundir com perceptível pela [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]. Mas, quanto ao seu conteúdo, a psicologia cartesiana permanece ainda essencialmente [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]: é sempre a própria alma, em sua [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] profunda, aquilo que se procura conhecer. No século XVIII, sob o [[lexico:i:impulso:start|impulso]] de [[lexico:l:locke:start|Locke]] e de seus êmulos, um novo passo será [[lexico:d:dado:start|dado]], desta feita no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de se separar dos valores metafísicos tradicionais. Os [[lexico:f:fatos-psiquicos:start|fatos psíquicos]] tornam-se puros fenômenos, atrás dos quais a alma e suas potências aparecem como inacessíveis. Tende assim a psicologia a se constituir como ciência empírica comparável às outras ciências da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e cujo domínio é circunscrito pela consciência. Nesta linha, vão os estudos psicológicos tomar um [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] prodigioso. Embora posteriormente não faltem metafísicos do espiritual, como um [[lexico:l:lachelier:start|Lachelier]] ou um [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] na França, a [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] fundamental consiste em erigir uma psicologia científica autônoma, da qual serão eliminados os problemas transcendentes da alma e de seu [[lexico:d:destino:start|destino]]. Os progressos maravilhosos das ciências experimentais autorizam todas as esperanças. Se fenômenos físicos são organizados e explicados segundo métodos científicos rigorosos, por que não acontecerá o mesmo com a [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]]? Abandonemos, ou deixemos a outros, disputas sobre a alma e suas [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] e fiquemos com a [[lexico:o:observacao:start|observação]] de fatos precisos e com a formulação de leis [[lexico:b:bem:start|Bem]] controladas: assim construiremos uma psicologia verdadeiramente científica e objetiva capaz de conjugar a adesão de todos. Seguindo este programa, um intenso [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] de observação e de [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] é efetuado no [[lexico:m:mundo:start|mundo]] dos psicólogos, ao qual trabalho somos devedores por este imponente monumento da [[lexico:m:moderna:start|moderna]] ciência da alma que, praticamente, tomou o [[lexico:l:lugar:start|lugar]] da antiga psicologia especulativa. Pode ser justificada uma tal evolução no sentido da [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] de uma ciência psicológica autônoma? Ou, de maneira mais precisa, pode-se reconhecer, ao lado da suposta sempre válida metafísica da alma, uma psicologia do [[lexico:t:tipo:start|tipo]] das ciências experimentais? Tal é a questão a que deveremos, antes de tudo, responder. Até o século XVIII, como dissemos, há só um conjunto de considerações psicológicas sistemáticas integrado em uma [[lexico:s:sabedoria:start|sabedoria]] filosófica [[lexico:g:geral:start|geral]] e tratado segundo seus métodos. Quais são seus [[lexico:c:caracteres:start|caracteres]]? A psicologia antiga é, antes de tudo, de [[lexico:d:dimensao:start|dimensão]] verdadeiramente filosófica: isto é, pretende chegar aos [[lexico:p:principios:start|princípios]] primeiros do psiquismo; e também no sentido em que não se [[lexico:t:tema:start|tema]], para isso, lançar mão de [[lexico:c:categorias:start|categorias]] mais gerais, como, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], no [[lexico:a:aristotelismo:start|aristotelismo]], [[lexico:s:substancia:start|substância]] e acidentes, [[lexico:m:materia-e-forma:start|matéria e forma]], [[lexico:a:ato-e-potencia:start|ato e potência]], etc. Em segundo lugar, uma tal psicologia deve ser chamada, rigorosamente falando, científica: isto é, procura a [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] pela [[lexico:c:causa:start|causa]] própria, sendo a observação e a [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] dos fenômenos somente uma fase preparatória a este escopo. Todavia, é preciso reconhecer que, mesmo tendo um acentuado [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:r:racional:start|racional]], a Psicologia Antiga era também, a seu [[lexico:m:modo:start|modo]], empírica, se não [[lexico:e:experimental:start|experimental]]. No aristotelismo, em [[lexico:p:particular:start|particular]], parte-se sempre de um dado controlado: um [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] moderado, onde a explicação prolonga e sistematiza de maneira feliz a experiência, surge como o traço distintivo desta filosofia. Em resumo, a psicologia compreende uma única ciência da alma, empírica e racional ao mesmo tempo. Deveremos concluir que os princípios deste [[lexico:s:sistema:start|sistema]] proíbem considerar separadamente um ou [[lexico:o:outro:start|outro]] tipo desta ciência psicológica? Parece que não. Em nossos dias, aliás, a [[lexico:s:separacao:start|separação]] é comumente admitida. São necessárias, porém, algumas observações. Antes de tudo, seja reconhecido que a distinção pelos caracteres experimental e racional só tem um [[lexico:v:valor:start|valor]] aproximativo, marcando apenas uma acentuação do [[lexico:m:metodo:start|método]] em um sentido ou em outro. Na realidade, estas denominações podem trazer confusão, pois nenhuma ciência se estabelece sem experiência e sem [[lexico:r:razao:start|razão]] e seria preferível, para distinguir estas duas disciplinas, referir-se ao nível de explicação onde cada uma se situa. Assim, ter-se-á uma psicologia filosófica ou metafísica, que buscaria os princípios mais elevados, e uma psicologia científica, no moderno sentido da [[lexico:p:palavra:start|palavra]], que ficaria com as explicações mais imediatas. Seja admitido, além disto, que uma psicologia do tipo experimental não pode julgar, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], da profundidade dos problemas da alma, isto é, erigir-se em verdadeira sabedoria filosófica, pois tal [[lexico:f:funcao:start|função]] pertence propriamente à [[lexico:d:disciplina:start|disciplina]] [[lexico:s:superior:start|superior]]. **[[lexico:o:objeto:start|objeto]] da psicologia** A [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do objeto, ou do duplo objeto, da psicologia depende, evidentemente, da [[lexico:o:orientacao:start|orientação]] geral da filosofia que se professa. Um espiritualista, à maneira de S. Agostinho ou de Descartes, será levado a assinalar, como objeto desta ciência, a [[lexico:a:atividade:start|atividade]] da alma considerada fora de [[lexico:t:todo:start|todo]] [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] corporal. Partindo-se, pelo contrário, de preconceitos materialistas, a [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] será de reduzir o psiquismo ao fisiológico e mesmo ao [[lexico:f:fisico:start|físico]]. E, por [[lexico:f:fim:start|fim]], quem se colocar na linha, que é a nossa, do espiritualismo moderado de Aristóteles, deverá [[lexico:c:compreender:start|compreender]], no objeto em questão, um e outro destes aspectos. Mas nesta via ainda são possíveis duas opções. Para Aristóteles, todos os fenômenos vitais podem ser chamados psíquicos. Assim, o psiquismo define-se pela vida e todos os seres viventes, mesmo animais e plantas que estão abaixo de nós, pertencem à ciência da alma. Nesta [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] poder-se-á dizer que a psicologia tem por objeto: o [[lexico:v:vivente:start|vivente]] enquanto é princípio de [[lexico:a:atividades:start|atividades]] vitais. Esta concepção, como teremos [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] de mostrar, encontra sua [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] última na distinção, que é fundamental no peripatetismo, de dois grandes tipos de atividade: a atividade transitiva (que modifica um outro além do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]) e a atividade [[lexico:i:imanente:start|imanente]] (que, procedendo do sujeito, o aperfeiçoa). Segundo esta [[lexico:d:divisao:start|divisão]], os não viventes são seres que têm somente atividades transitivas, enquanto os viventes, como tais, são dotados de atividades imanentes ou movem-se a si mesmos. Pode-se consequentemente precisar que a psicologia tem por objeto: os seres dotados de atividades imanentes ou que se movem a si mesmos, considerados como tais. O psiquismo, segundo esta concepção, fica bem caracterizado, permanecendo na prática a dificuldade de discernir, em todos os casos, se tal [[lexico:o:operacao:start|operação]] é vital ou não. Na linha dos modernos, tender-se-á a reter um outro [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] para definir o psiquismo: o de [[lexico:c:consciente:start|consciente]]. É psíquico, ou interessa propriamente à psicologia, [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] suscetível de ser atingido pela consciência. Segundo esta maneira de [[lexico:v:ver:start|ver]], é fácil descobrir que toda uma parte do vital, o infra-consciente, encontra-se excluída de nosso objeto; é o caso da vida das plantas e, parcialmente, mesmo da vida do [[lexico:a:animal:start|animal]] e do [[lexico:h:homem:start|homem]]. O domínio a nós reservado é aqui mais restrito. De nossa parte, sem negar que o [[lexico:f:fato:start|fato]] de ser conscientes ou reflexivos constitua, em um certo nível, um dos traços mais notáveis dos atos da vida, preferimos, para definir o psiquismo, ficar com Tomás de Aquino no ponto de vista do vital que corresponde a uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] mais fundamental dos seres. Assim permaneceremos na linha do peripatetismo [[lexico:a:autentico:start|autêntico]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}