===== PSICOLOGIA DA FORMA ===== VIDE [[lexico:g:gestaltismo:start|gestaltismo]] e gestaltismo Antes de examinar como a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] utiliza a [[lexico:f:fisiologia:start|fisiologia]] para criticar o [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] watsoniano, detenhamo-nos na Gestalttheorie, que, dentre todas as escolas psicológicas, foi a que mais se aproximou das teses fenomenológicas: os psicólogos da [[lexico:f:forma:start|forma]] são discípulos de [[lexico:h:husserl:start|Husserl]]. O [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] é retomado e precisado no de forma. O [[lexico:e:erro:start|erro]] de Watson, como o demonstra Koffka (Principles of Gestalt Psychology) foi [[lexico:t:ter:start|ter]] implicitamente admitido a [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] do comportamento. O [[lexico:f:fato:start|fato]] de uma [[lexico:c:conduta:start|conduta]] [[lexico:s:ser:start|ser]] observável [[lexico:n:nao:start|não]] significa que ela seja um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] cuja [[lexico:o:origem:start|origem]] se deva procurar numa conexão por sua vez objetiva, como aquela que a liga à organização nervosa- Na [[lexico:r:realidade:start|realidade]], os estímulos perceptivos por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] que condicionam nossa [[lexico:a:atividade:start|atividade]] não são eles mesmos percebidos. Se retomarmos a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] elementar de Müller-Lyer, na qual os segmentos iguais por construtrução são percebidos como desiguais, teremos um exemplo significativo da [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que se deve fazer entre aquilo que é "[[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]" e aquilo que é "[[lexico:d:dado:start|dado]]". A confusão watsoniana resulta do fato de que o dado é precisamente um dado "objetivo", porque é [[lexico:e:essencia:start|essência]] da [[lexico:p:percepcao:start|percepção]] nos fornecer o objetivo. Quando se afirma que essa experiência produz uma "[[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]", não se compreende que, ao contrário, para qualqur [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] perceptor os dois segmentos são efetivamente desiguais, que é apenas em [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de [[lexico:r:referencia:start|referência]] do experimentador que constrói a [[lexico:f:figura:start|figura]] que há ilusão. Justamente o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] matemático ou mensurável no qual foi construída a figura não é o mundo perceptivo e é preciso dissociar o [[lexico:m:meio:start|meio]] perceptivo e o meio que Koffka denomina "geográfico" como [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] dado imediatamente e o que é [[lexico:c:construido:start|construído]] por [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] conceituai e instrumental (conceito de [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]], duplo decímetro). O [[lexico:p:problema:start|problema]] não é [[lexico:s:saber:start|saber]] qual desses meios é o mais [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]: quando se [[lexico:f:fala:start|fala]] de ilusão de ótica, concede-se indevidamente um privilégio ao meio científico e construído. De fato, não se frafa de saber se percebemos o [[lexico:r:real:start|real]] tal como ele é (no caso, por exemplo, a igualdade dos dois segmentos) pois é precisamente o real que percebemos; é claro sobretudo que a aparelhagem mental e instrumental da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] ganha por sua vez eficácia na relação imediata do sujeito que a utiliza com o mundo e era exatamente isso que Husserl queria dizer quando demonstrava que a própria [[lexico:v:verdade:start|verdade]] científica funda-se, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], apenas na "experiência" ante-predicativa da ciência. Quando se propõe o problema de saber se o sujeito [[lexico:e:empirico:start|empírico]] percebe o real propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]] colocamo-nos de certa forma acima dessa relação, o [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] contempla então, do alto de um pretenso [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], a relação que mantém a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] com o objeto e denuncia as "ilusões" dessa relação. Como o indicava A [[lexico:r:republica:start|República]], a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] do fato de estarmos dentro da caverna pressupõe que se tenha saído dela. A fenomenologia, apoiando-se nos dados empíricos das investigações da Gestaltpsyahologie denuncia essa inversão de [[lexico:s:sentido:start|sentido]]: pode-se [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o mundo [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] de [[lexico:p:platao:start|Platão]] como o conjunto das construções a partir das quais a ciência explica o mundo [[lexico:s:sensivel:start|sensível]], mas, para nós não se trata de partir do construído: antes é preciso compreender o [[lexico:i:imediato:start|imediato]] a partir do qual a ciência elabora seu sistema. De qualquer [[lexico:m:modo:start|modo]], [[lexico:e:esse:start|esse]] sistema não deve ser "realizado", ele é apenas, como dizia Husserl, uma "vestimenta" do mundo perceptivo. Por conseguinte aquilo que Kofka denomina o meio de comportamento ([[lexico:u:umwelt:start|Umwelt]]) constitui o [[lexico:u:universo:start|universo]] efetivamente real, porque efetivamente [[lexico:v:vivido:start|vivido]] como real; e Lewin, dando continuidade a seu [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], mostra que é preciso liquidar toda [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] substancialista do meio geográfico como do meio de comportamento: apenas na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que os dois "universos" são "realizados é que se coloca o problema de sua relação, e especialmente, de sua antecedência e mesmo de sua [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]]. Se se admite, ao contrário, que se trata apenas de [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] operatórios, o problema deixa de [[lexico:e:existir:start|existir]]. O [[lexico:t:termo:start|termo]] de "realidade" não implica portanto, absolutamente, um remetimento a uma [[lexico:s:substancia:start|substância]] material. Poder-se-ia defini-lo melhor como a pré-existência. É com [[lexico:e:efeito:start|efeito]] uma [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] do Umwelt fenomenal, como o denomina Koffka, [[lexico:e:estar:start|estar]] ele sempre já ali. Em certo sentido o livro [[lexico:t:todo:start|todo]] de [[lexico:m:merleau-ponty:start|Merleau-Ponty]] sobre a percepção consiste em separar esse núcleo de já, o que ele chama por vezes a "pré-história", dando a entender com isso que toda tentativa [[lexico:e:experimental:start|experimental]] objetiva para extrair o como de minha relação com o mundo remete sempre a um como já instituído, anterior a toda [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] predicativa e sobre a qual se estabelece precisamente a relação explícita que mantenho com o mundo. Retomemos por exemplo a experiência de Wertheimer: um sujeito, colocado num quarto de modo a vê-lo apenas por intermédio de um espelho com uma inclinação de 45° em relação à vertical, percebe esse quarto inicialmente como oblíquo. Todo deslocamento que aí se produz parece-lhe estranho: um [[lexico:h:homem:start|homem]] que anda parece inclinado, um [[lexico:c:corpo:start|corpo]] que cai parece cair obliquamente etc. Ao cabo de alguns minutos (se o sujeito não procura, é claro, perceber o cômodo de [[lexico:o:outro:start|outro]] modo que não pelo espelho) as paredes, o homem que se desloca, a [[lexico:q:queda:start|Queda]] do corpo parecem "retos", verticais, desaparecendo a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de obliquidade. Trata-se de uma "redistribuição instantânea do alto e do baixo". Pode-se dizer termos objetivistas que a vertical "girou" mas tal [[lexico:e:expressao:start|expressão]] é errônea porque precisamente para o sujeito não foi isso que ocorreu. Que sucedeu então? A [[lexico:i:imagem:start|imagem]] do quarto no espelho parece-lhe inicialmente como um [[lexico:e:espetaculo:start|espetáculo]] estranho: a própria estranheza é a [[lexico:g:garantia:start|garantia]] de que se trata de um espetáculo, isto é, que o sujeito "não é presa dos utensílios que o quarto encerra, ele não o habita, ele não coabita com o homem que ele vê ir e vir." Após alguns instantes esse mesmo sujeito sente-se apto a [[lexico:v:viver:start|viver]] nesse quarto, "em vez de suas pernas e de seus braços verdadeiros, ele sente quais pernas e quais braços ele deveria possuir para andar e agir no quarto refletido, ele habita o espetáculo" (ibid., 289). Isto significa, entre outras [[lexico:c:coisas:start|coisas]], que a direção alto-baixo, que produz poderosamente nossa relação no mundo, não pode ser definida a partir do eixo de [[lexico:s:simetria:start|simetria]] de nosso corpo concebido como [[lexico:o:organismo:start|organismo]] fisiológico e sistema de reações objetivas; relação com o alto e com o baixo, que permanecem assim independentes para mim de sua [[lexico:p:posicao:start|posição]]. Significa isto que a verticalidade existe em si? Isto seria igualmente errôneo pois a experiência de Wertheimer, ou a de Stratton sobre a [[lexico:v:visao:start|visão]] com inversão da imagem retiniana, demonstram ao contrário que se pode perfeitamente [[lexico:f:falar:start|falar]] de direções espaciais objetivas mas não absolutas e essa [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] é inevitável na medida em que nos situamos no inferior da percepção, do mesmo modo que ainda há pouco não podíamos criticar a percepção da desigualdade dos segmentos a não ser se saíssemos da própria percepção. Mas a nova direção espacial não aparece como uma modificação da antiga; do mesmo modo, na experiência de Stratton, o sujeito munido de seus óculos inversores acaba por se instalar numa direção alto-baixo ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] visual e táctil que não é mais apreendida como inversa da vertical "comum". Ao contrário, a verticalidade "nova" é vivida como verticalidade simplesmente, isto é, precisamente como direção objetiva do [[lexico:e:espaco:start|espaço]]. Aí encontramos o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:c:carater:start|caráter]] da Gestalt: ela não é em si, isto é, ela não existe independentemente do sujeito que vê nela inserida sua relação com o mundo, ela não é tampouco construída por mim, no sentido simplista pelo qual [[lexico:c:condillac:start|Condillac]] pretendia ser a rosa construída pela ligação dos dados dos diversos campos sensoriais. Ela não é absoluta porque a [[lexico:e:experimentacao:start|experimentação]] [[lexico:p:prova:start|prova]] que se pode fazê-la variar: é o caso, por exemplo, da experiência clássica sobre as oscilações da [[lexico:a:atencao:start|atenção]] (cruz de Malta negra inscrita num [[lexico:c:circulo:start|círculo]] cujo "fundo" é branco); ela não é puramente relativa ao [[lexico:e:eu:start|eu]], porque nos dá um Umwelt objetivo., O que não se compreendia no [[lexico:a:associacionismo:start|associacionismo]] era precisamente como essa rosa composta no nível cortical e de modo [[lexico:i:imanente:start|imanente]] podia ser apreendida, assim como o é efetivamente, como [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]]. Assim o Uraweif no qual estamos instalados pela percepção é de fato objetivo, transcendente, mas não absoluto, pois um certo sentido é correto dizer que essa objetividade somos nós que lhe conferimos já; mas conferimo-la num nível mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] que aquele em que nos aparece, num nível primordial sobre o qual se funde nossa relação com o mundo. Pode-se portanto, concluir que a [[lexico:t:teoria-da-forma:start|teoria da forma]] empenhou-se em revelar uma [[lexico:l:lebenswelt:start|Lebenswelt]] fundamental, aquém do universo [[lexico:e:explicito:start|explícito]] e límpido no qual a [[lexico:a:atitude-natural:start|atitude natural]] e também a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] da [[lexico:c:ciencia-natural:start|ciência natural]] fazem-nos viver. Esta era justamente a ambição do Husserl das últimas obras, e Merleau-Ponty parece-nos realmente estar na mais rigorosa linha do pensamento fenomenológico quando retoma os resultados da Gestalttheorie e os interpreta no sentido que apontamos. O próprio fato de abordar o problema da percepção é um [[lexico:s:sintoma:start|sintoma]]: pois a percepção é aquilo pelo qual estamos no mundo, ou aquite pelo qual "temos" um mundo, [[lexico:c:como-se:start|como se]] quiser, e constitui por isso o núcleo de toda compreensão filosófica e psicológica do homem. Ora, a própria Gestalttheorie tem também seu eixo principalmente na percepção e o pensamento de Husserl por sua vez retomava constantemente, como sabemos, o problema da [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] da [[lexico:c:coisa:start|coisa]]. Essa convergência não é fortuita: ela se explica pela [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] com a radicalidade que, aquém do comportamento tomado por sua vez como relação do sujeite e de seu Umwelt, procura fundar sua [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] numa relação ainda mais originária: é essencial que essa originaridade tenha sido procurada tanto pelos psicólogos da forma como pelos fenomenólogos, não do lado do organismo fisiológico mas no âmago da própria relação. Não se trata de ir procurar num dos polos da [[lexico:r:retencao:start|retenção]] sua [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] pois é igualmente a própria relação que dá seu sentido aos dois polos que ela une. Encontramos novamente assim, inerente ao conceito de Gestalt t a [[lexico:n:nocao:start|noção]] central da fenomenologia: a [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]]. Mas, evidentemente, não se trata de intencionalidade de uma consciência [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]]: é antes a de um "Leben", como dizia Husserl, a intencionalidade de um sujeito profundamente enterrado no mundo primordial, e [[lexico:m:motivo:start|motivo]] pelo qual Merleau-Ponty procura sua origem no próprio corpo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}