===== PSICANÁLISE ===== (in. Psychoanalysis; fr. Psychanalyse; al. Psychoanalyse; it. Psicanalisi). A [[lexico:d:designacao:start|designação]] psicanálise compreende: 1) um [[lexico:m:metodo:start|método]] de tratamento de certas doenças mentais; 2) uma doutrina psicológica; 3) uma doutrina [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]; e, mais frequentemente, certa mescla desordenada dessas três [[lexico:c:coisas:start|coisas]]. Os fundamentos da psicanálise foram resumidos por seu fundador, Sigmund [[lexico:f:freud:start|Freud]], na introdução de uma de suas principais obras, da seguinte maneira: 1) os processos psíquicos são em si mesmos inconscientes, e os processos conscientes são apenas atos isolados, frações da [[lexico:v:vida-psiquica:start|vida psíquica]] total; 2) os processos psíquicos inconscientes são em boa [[lexico:p:parte:start|parte]] dominados por tendências que podem [[lexico:s:ser:start|ser]] qualificadas de "sexuais" no [[lexico:s:sentido:start|sentido]] restrito ou lato do [[lexico:t:termo:start|termo]], Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] [[lexico:p:pressuposto:start|pressuposto]] na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] é a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] fundamental da psicanálise, que consiste essencialmente na tentativa de [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:v:vida:start|vida]] do [[lexico:h:homem:start|homem]] ([[lexico:n:nao:start|não]] só a [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] ou individual, mas também a pública ou [[lexico:s:social:start|social]]) recorrendo a uma única [[lexico:f:forca:start|força]], que é o [[lexico:i:instinto:start|instinto]] sexual ou [[lexico:l:libido:start|libido]] no sentido técnico deste termo (Einfuhrung in díe Psychoanalyse, 1917, intr.). Do conflito entre os impulsos sexuais do [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]] e as superestruturas morais e sociais constituídas por proibições e censuras acumuladas e consolidadas pela infância, nascem os fenômenos a seguir descritos: d) Sonhos: expressões deformadas e simbólicas dos desejos reprimidos (cf. Die Traumdeutung, 1900). b) Atos falhos, ou lapsos: distrações falsamente atribuídas ao [[lexico:a:acaso:start|acaso]], chegando às brincadeiras e ao humorismo (cf. Zur Psychopathologie des Alltagslebens, 1901; Der Witz und seine Bedeutung Zum Unbewussten, 1905). c) Doenças mentais: que podem ser tratadas levando o paciente a identificar os conflitos dos quais elas emergem, através da conversação. A [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:r:respeito:start|respeito]], o [[lexico:s:sintoma:start|sintoma]] de uma [[lexico:d:doenca:start|doença]] deve ser considerado como "[[lexico:s:sinal:start|sinal]] e [[lexico:s:substituicao:start|substituição]] de uma satisfação instintiva que ficou [[lexico:l:latente:start|latente]], resultado de um [[lexico:p:processo:start|processo]] de recalque" (Hemmung, Symptom und Angst, 1926, cap. 2; trad. it, p. 29). Um dos fenômenos característicos do tratamento psicanalítico é a [[lexico:t:transferencia:start|transferência]] dos sentimentos do doente (positivos ou negativos, de [[lexico:a:amor:start|amor]] ou de ódio) para a [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] do médico (Einfuhrung, cit., cap. 27; trad. fr., pp. 461 ss.). d) [[lexico:s:sublimacao:start|Sublimação]] transferência do [[lexico:i:impulso:start|impulso]] sexual para outros objetos, o que ensejaria os fenômenos chamados espirituais: [[lexico:a:arte:start|arte]], [[lexico:r:religiao:start|religião]], etc. é) Complexos, sistemas ou mecanismos associativos, relativamente constantes em todas as pessoas, aos quais devem ser atribuídas as principais perturbações mentais. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:c:complexo:start|complexo]] e o seu termo foram introduzidos por um discípulo de Freud, C. G. [[lexico:j:jung:start|Jung]] (Wandlungen und Symbole der Libido, 1912), mas já em [[lexico:i:interpretacao:start|Interpretação]] dos sonhos Freud esboçara todos os fatos fundamentais do [[lexico:c:chamado:start|chamado]] "[[lexico:c:complexo-de-edipo:start|complexo de Édipo]]", em [[lexico:v:virtude:start|virtude]] do qual o menino inclui no amor pela mãe certo ciúme ou aversão pelo pai. Em 1923, na [[lexico:o:obra:start|obra]] Das [[lexico:i:ich:start|Ich]] und das Es, Freud expôs uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] psicológica que foi amplamente aceita pela [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] de sua [[lexico:e:epoca:start|época]]. Dividia o espirito em três partes: [[lexico:e:ego:start|ego]], que é organização e [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], e por isso está em contato com a realidade e procura submetê-la a seus fins; [[lexico:s:superego:start|superego]], aquilo a que geralmente se dá o [[lexico:n:nome:start|nome]] de [[lexico:c:consciencia-moral:start|consciência moral]] e que é o conjunto das proibições insuladas ao homem em seus primeiros anos de vida, acompanhando-o depois, mesmo que de [[lexico:f:forma:start|forma]] inconsciente; e Id, que é constituído pelos impulsos múltiplos da libido, sempre voltada para o [[lexico:p:prazer:start|prazer]]. Esta doutrina, que foi revisada pelo [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Freud mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] (cf. Hemmung, Symptom und Angst, 1926), revelou-se bastante [[lexico:u:util:start|útil]] tanto para a [[lexico:d:descricao:start|descrição]] e a interpretação das doenças mentais quanto para a teoria da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]]. Freud e seus seguidores não apresentaram nem apresentam seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] como [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]] ou instrumentos de [[lexico:e:explicacao:start|explicação]], mas como realidades absolutas, de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] metafísica. Pode-se chamar de própria metafísica — e até de [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]] — a teoria formulada por Freud numa de suas últimas obras, Das Unbehagen in der Kultur (1930, trad. in., com o título de Civilisation and its Discontents, 1943), em que considera a [[lexico:h:historia:start|história]] da [[lexico:h:humanidade:start|humanidade]] como a [[lexico:l:luta:start|luta]] entre dois instintos, o da vida ([[lexico:e:eros:start|Eros]]) e o da [[lexico:m:morte:start|morte]] ([[lexico:t:thanatos:start|thanatos]]): "É nessa luta que consiste essencialmente a vida, e por isso o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da [[lexico:c:civilizacao:start|civilização]] pode ser descrito como a luta da [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana pela [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Trata-se de uma batalha de titãs, que nossas babás tentam compor com suas ladainhas sobre [[lexico:c:ceu:start|céu]]" (Civilisation and its Discontents, 1943, p. 102). Essa doutrina outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] não é senão a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] — não muito atualizada — do [[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] maniqueísta. A importância da psicanálise consiste, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], em dar destaque à [[lexico:f:funcao:start|função]] do fator sexual em todas as manifestações da vida humana. Pela primeira vez, esse fator deixou de ser uma zona de [[lexico:i:ignorancia:start|ignorância]] obrigatória para a [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e para a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] e pôde ser estudado em seus reais modos de [[lexico:a:acao:start|ação]]. Em segundo lugar, a psicanálise forneceu um conjunto de conceitos que, conquanto não muito compatíveis entre si, prestam-se a ser utilizados por vários ramos da psicologia contemporânea, principalmente se isentos do [[lexico:d:dogmatismo:start|dogmatismo]] com que alguns seguidores de Freud os trataram. Este segundo [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] [[lexico:p:positivo:start|positivo]] tem, porém, uma contrapartida negativa: a psicanálise dá a muitos diletantes a oportunidade de apresentar explicações aparentemente plausíveis e fáceis dos fenômenos humanos mais díspares, confundindo também, às vezes, essa explicação com uma [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] [[lexico:m:moral:start|moral]] ou metafísica. Em [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] lugar, a psicanálise teve o [[lexico:m:merito:start|mérito]] de propiciar um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de tratamento que continua sendo eficaz, apesar de perdidas muitas das ilusões otimistas inicialmente suscitadas. Entre as muitas tendências interpretativas que modificaram em maior ou menor [[lexico:g:grau:start|grau]] as doutrinas fundamentais da psicanálise, é [[lexico:p:possivel:start|possível]] lembrar duas, a de Jung e a de Adler. Jung concebeu o instinto fundamental do homem não como de natureza sexual, mas como uma [[lexico:e:energia:start|energia]] originária e criativa que se identifica com o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] genérico de divindade e constitui o inconsciente coletivo, que é a base comum da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] (Psicologia do inconsciente, 1942-5). Adler, ao contrário, identificou o instinto fundamental do homem com a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de [[lexico:p:potencia:start|potência]] de que falava [[lexico:n:nietzsche:start|Nietzsche]], ou seja, como um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] de [[lexico:a:agressao:start|agressão]] e de luta em conflito com [[lexico:o:outro:start|outro]] instinto, o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] de [[lexico:c:comunidade:start|comunidade]] humana, que liga o [[lexico:i:individuo:start|indivíduo]] a todos os outros. A [[lexico:i:interacao:start|interação]] dessas duas forças determinaria o [[lexico:c:carater:start|caráter]] de cada homem e suas manifestações patológicas ([[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do homem, 1927). O método de [[lexico:a:analise:start|análise]] da personalidade que visa o [[lexico:s:simples:start|simples]] conhecimento [[lexico:t:teorico:start|teórico]] do psiquismo [[lexico:h:humano:start|humano]] ou a terapêutica clínica das neuroses, dos complexos e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], das perturbações mentais de [[lexico:o:origem:start|origem]] exclusivamente psicológica. — O fundador da psicanálise é Sigmund Freud (1856-1939), que aponta uma origem [[lexico:e:erotica:start|erótica]] para a maioria das perturbações psíquicas. A libido, ou instinto da vida, leva-nos a nutrir desejos que o "superego", ou consciência social, nos faz reprimir no inconsciente. O afloramento desses desejos à consciência provoca a [[lexico:a:angustia:start|angústia]] e toda a espécie de inibições e complexos na vida. O "ego", a personalidade, define-se como um equilíbrio, sempre instável, entre as tendências instintivas ("id") e a censura da consciência social ("superego"). Qual é a [[lexico:t:tecnica:start|técnica]] da terapêutica psicanalítica? As motivações e os desejos inconscientes só se manifestam por [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] das "associações livres", que se desenvolvem principalmente no [[lexico:s:sonho:start|sonho]]. A psicanálise apresenta-se como uma análise dos sonhos. O [[lexico:p:principio:start|princípio]] da [[lexico:c:cura:start|cura]] é que a conscientização dos [[lexico:m:motivos:start|motivos]] reais de nossas perturbações, angústias, obsessões e fobias provoca, ela mesma, a restauração do equilíbrio [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]]: reações instintivas, impulsos obscuros e incontroláveis, que angustiam profundamente o indivíduo, são substituídos, através da psicanálise, pela [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]] da consciência clara, da [[lexico:c:conduta:start|conduta]] [[lexico:r:racional:start|racional]] e voluntária. A psicanálise é aconselhada para os casos de perturbações da sexualidade (impotência no homem, frigidez na mulher), para as psicoses (esquizofrenia, [[lexico:p:perda:start|perda]] da noção do [[lexico:r:real:start|real]]), para os casos de fracassos repetidos na vida, de crianças delinquentes. A cura pode ser muito longa, de vários anos. A psicanálise não é somente uma terapêutica e uma prática, é também um conhecimento teórico, uma análise do homem: nessa [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]], toca a filosofia. Não é a teoria psicanalítica que é [[lexico:i:interessante:start|interessante]] para a filosofia, e sim a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] humana que se realiza na análise psicanalítica: ela permite revelar o sentido das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] do homem consigo mesmo e com os outros. A experiência psicanalítica é uma experiência inter-humana particularmente profunda, uma [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] apaixonadamente sincera sobre o outro e sobretudo a respeito de nós mesmos: em [[lexico:s:suma:start|suma]], revela todas as implicações da [[lexico:c:comunicacao:start|comunicação]] com o outro e o [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:p:profundo:start|profundo]] de nossas condutas. Na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que a filosofia deve responder à [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] fundamental: "[[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] o homem?" — como escrevia [[lexico:k:kant:start|Kant]] —, não pode atualmente negligenciar esse método rigoroso e incomparável de aprofundamento da natureza humana, representado pela psicanálise. Finalmente, no [[lexico:p:plano:start|plano]] da moral, a análise psicanalítica é uma procura do indivíduo [[lexico:a:autentico:start|autêntico]] e, pela análise, uma [[lexico:a:ascese:start|ascese]] purificadora que lhe deve permitir [[lexico:s:superar:start|superar]] seus próprios impulsos agressivos e suas reações incontroláveis. Nessa qualidade, possui uma [[lexico:s:significacao:start|significação]] moral, uma vez que seu [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]] é promover uma [[lexico:i:individualidade:start|individualidade]] perfeitamente livre e [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] e dos verdadeiros valores humanos. Em resumo, a psicanálise é simultaneamente uma terapêutica médica, uma aproximação filosófica do homem e uma ascese moral que visa a dar-nos, [[lexico:a:alem:start|além]] dos problemas morais que nos particularizam, a verdadeira [[lexico:f:figura:start|figura]] do homem. É o nome que recebeu o método psicoterapêutico introduzido por S. Freud, aproximadamente desde 1890, e que consiste em tornar [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]] a origem ([[lexico:p:psicogenese:start|psicogênese]]) de certas perturbações da vida psíquica consciente mediante o descobrimento de suas [[lexico:c:causas:start|causas]] psíquicas inconscientes, a [[lexico:f:fim:start|fim]] de as suprimir pela subsequente consciencialização destas causas. Alguns fatos notados nas pesquisas sobre os estados hipnóticos (Charcot, Bernheim) e, principalmente, as observações levadas a [[lexico:e:efeito:start|efeito]] na prática clínica, levaram Freud à sua brilhante, e então inaudita, concepção da [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da vida psíquica. Segundo ela, a [[lexico:v:vida-consciente:start|vida consciente]] assenta, como tênue camada superficial, sobre as camadas muito mais espessas do psíquico inconsciente (pessoal). Vivências "recalcadas" da consciência ou da [[lexico:m:memoria:start|memória]], orientações da vida tendencial e afetiva, em suma, "complexos" repelidos para o inconsciente (recalcamento), tendem a regressar à consciência. Impedidos de aflorarem à consciência por uma "censura" que, por assim dizer, emprega no [[lexico:l:limiar:start|limiar]] da zona pré-consciente, iludem essa censura e influem na vida da consciência, "disfarçando-se" em sintomas neuróticos e psicopáticos ou também numa forma "sublimada", tais, como tendências de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] [[lexico:e:estetica:start|estética]], científica, religiosa, etc. (sublimação). Freud, indo muito longe em suas afirmações, interpretou como energia sexual a energia tendencial reprimida (libido) que desde a zona do inconsciente atua na vida consciente e espiritual, interpretação que, sem protesto especial por sua parte, seus primeiros discípulos tornaram ainda mais exclusiva e apriorística (pansexualismo). (A teoria do complexo de Édipo, ou seja, do apego sexual do [[lexico:f:filho:start|filho]] a sua mãe e da filha a seu pai, desempenhou importante papel na [[lexico:l:literatura:start|literatura]] psicanalítica "clássica" e, principalmente, nos escritos de vulgarização). Numa de suas últimas obras, Freud chegou a reduzir a religião ao complexo de Édipo, pensando que, desmascarando-a por essa forma, ela seria obrigada a mostrar sua inanidade ("O porvir de uma [[lexico:i:ilusao:start|ilusão]]"). Não só a explicação psicogenética dos transtornos psíquicos, oposta à interpretação biológica dos mesmos então imperante, como principalmente os exclusivismos não raro ridículos e as construções conceptuais apriorísticas, e também sua adesão ao [[lexico:p:positivismo:start|positivismo]] do século XIX e sua [[lexico:c:condicao:start|condição]] de psicanálise da [[lexico:c:cultura:start|cultura]], suscitaram, logo de início, nos círculos de especialistas dedicados ao cultivo da [[lexico:p:psiquiatria:start|psiquiatria]] e da psicologia, uma enérgica resistência ao [[lexico:m:movimento:start|movimento]] psicanalítico que (principalmente desde 1910) se tornou mais forte. A. Adler e C. G. Jung, a princípio discípulos de Freud, elaboraram outros tipos de teorias psicogenéticas: a psicologia individual de Adler substituiu a concepção pansexualista pela [[lexico:r:reducao:start|redução]] (sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] tão unilateral como o pansexualismo) de todas as perturbações neuróticas à [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] entre o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] de se fazer valer e a vontade de comunidade. C. G. Jung elaborou a doutrina do inconsciente coletivo. A psicossomática reduz muitas e até ultrapassa todas as enfermidades corporais a pertubações psíquicas. Hoje, a [[lexico:d:discussao:start|discussão]] em torno da psicanálise (que, certamente, domina ainda a psicologia norte-americana) serenou muito. Tomam-se da teoria de Freud sugestões e conceitos fundamentais e valiosos, sem aceitar a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] do [[lexico:s:sistema:start|sistema]] nem as conclusões que implicam uma [[lexico:m:mundividencia:start|mundividência]], e utilizando com maior [[lexico:p:prudencia:start|prudência]] o que na psicanálise há de legítimo, consoante sugerem, a cada [[lexico:m:momento:start|momento]], os casos particulares. — Willwoll. Segundo [[lexico:a:althusser:start|Althusser]], o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da psicanálise seria "1) uma prática (a cura [[lexico:a:analitica:start|analítica]]); 2) uma técnica (método da cura) que dá lugar a uma [[lexico:e:exposicao:start|exposição]] abstrata do aspecto teórico; 3) uma teoria que está em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a prática e com a técnica. Este conjunto [[lexico:o:organico:start|orgânico]] [[lexico:p:pratico:start|prático]] (1), técnico (2), teórico (3) recorda-nos a estrutura de todas as disciplinas científicas" (5). Aceitando-se este [[lexico:s:status:start|status]] científico da Psicanálise, apresentam-se imediatamente dificuldades em [[lexico:c:compreender:start|compreender]] o [[lexico:p:problema:start|problema]] da comunicação, de vez que esta seria apenas um de seus aspectos. Para evitar tais dificuldades pode-se tomar a obra científica de um psicanalista contemporâneo, Jacques Lacan, e [[lexico:v:ver:start|ver]] como ele aborda a estrutura da comunicação na Psicanálise. A psicanálise quer [[lexico:s:saber:start|saber]] como os homens se comunicam uns com os outros, [[lexico:c:como-se:start|como se]] constitui esta [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] de comunicar, e não elaborar uma concepção de [[lexico:m:mundo:start|mundo]] do que o homem é ou deve ser (é [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que há "psicanálises" que fazem isto, mas sua inspiração maior está no [[lexico:c:campo:start|campo]] filosófico, onde se fundamentam as Weltanschauungen, e não no científico. Uma tal [[lexico:a:atitude:start|atitude]] pode ser estudada, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], na eclética obra de Erich Fromm) . Trata de explicar a origem da [[lexico:p:psyche:start|psyche]], função entre o [[lexico:s:simbolico:start|simbólico]] e o imaginário. Aqui aparecem três questões centrais na interpretação lacaniana: 1) — "o aparecimento de resistências do [[lexico:e:eu:start|eu]] durante o período de transferência mostra que a [[lexico:n:negatividade:start|negatividade]] está no cerne do [[lexico:m:modo:start|modo]] de existência do analisando". Comunicação e [[lexico:r:recusa:start|recusa]] de comunicação são inseparáveis e a resistência se tornará num dos problemas básicos de [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] da comunicação; 2) — a resistência se manifesta não verbalmente, pelo [[lexico:s:silencio:start|silêncio]]. Mas o elo [[lexico:e:essencial:start|essencial]] entre analista e analisando é a comunicação verbal: o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] só pode libertar pela [[lexico:m:manifestacao:start|manifestação]] da [[lexico:f:fala:start|fala]], de sua [[lexico:p:palavra:start|palavra]]. O que significa o outro do [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] se não houver diálogo [[lexico:i:intersubjetivo:start|intersubjetivo]], se o diálogo se reduzir à intrasubjetividade? (entre as instâncias constitutivas do sujeito: id, ego, superego). Melhor [[lexico:d:dito:start|dito]], a [[lexico:q:quem:start|quem]] se atinge no diálogo, e quem atinge? 3) — Lacan acha [[lexico:n:necessario:start|necessário]] interpretar psicanaliticamente as psicoses, pois a comunicação não pode ser dada, mas precisa ser provada (a ciência não pode se restringir a tautologizar os fatos existenciais). Para a psicanálise a história do sujeito se constitui exteriormente à consciência que este sujeito tem de si. A rede de [[lexico:s:significacoes:start|significações]] onde o seu [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] se determina só pode ser examinada no nível de seu desenvolvimento [[lexico:h:historico:start|histórico]]. Este não é determinado pelos instintos, mas por um [[lexico:d:desejo:start|desejo]] "que renova sem cessar sua [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]] pelas substituições imaginárias que não cabe ao "eu" dominar". É através desta função histórica que se pode analisar o sujeito. O instinto de morte (thanatos) se opõe ao seu desenvolvimento, pois é regressivo. Mas pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] mesmo de sua condição negativa, thanatos "é a condição primeira a partir da qual o sujeito se historializa, já que sendo a morte puramente instintual, ela é o [[lexico:c:comeco:start|começo]] da substituição [[lexico:s:simbolica:start|simbólica]] onde se opera a historialização". Lacan afirma que o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] dos saberes sobre a Comunicação só pode ser atingido quando da [[lexico:e:enunciacao:start|enunciação]] da fala. Quando o eu estatui o outro, sua relação se dá sempre no plano de imaginário, o eu se situando (a si mesmo) e situando o outro ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], numa estrutura de significação constituída por este mesmo eu (e não pelo outro, que repete o mesmo processo). Esta [[lexico:c:constituicao:start|constituição]] se dá no plano da [[lexico:l:lingua:start|língua]]. O [[lexico:d:discurso:start|discurso]] que o sujeito coloca entre ele próprio e o outro é o inconsciente: "o inconsciente do sujeito é o discurso do outro". A comunicação se estabelece à medida do desenvolvimento do discurso do sujeito e só é possível através do inconsciente que fundamenta as falas do sujeito e do outro, que o sujeito constitui em si. O papel do psicanalista será, exatamente, permitir o desdobramento da fala do analisando tornando-se seu outro. O outro que o analisando constitui rompe com o outro já anteriormente constituído, mas dá-se sempre no plano do analisando. O analisando é remetido "à [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] primeira de seu desejo", que lhe propiciará a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de constituir um novo outro (e, ao mesmo tempo, um novo eu). Ou seja, [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] de inconsciente como lugar do [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do outro, mas desta vez há a tematização da constituição deste outro, onde o desejo pode se exprimir livremente. Para Lacan a psicanálise se definirá assim: "seus meios (do método [[lexico:a:analitico:start|analítico]]) são os da fala enquanto ela confere um sentido às funções do indivíduo; suas operações são as da história enquanto esta constitui a [[lexico:e:emergencia:start|emergência]] da verdade no real". Donde se poderiam tomar "três dimensões essenciais da experiência psicanalítica". 1) — teoria histórica do [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] — O símbolo só existe quando o significante se torna autônomo em relação ao significado. Diversamente do [[lexico:s:signo:start|signo]], onde o significante remete sempre ao significado (o leitor deve observar que os termos usados em Comunicação não estão homogeneizados. Ver a [[lexico:d:definicao:start|definição]] de símbolo, por exemplo). O símbolo psicanalítico refere-se à história individual do sujeito, mas está [[lexico:d:dado:start|dado]] na universalidade de uma linguagem pois seus referenciais são os mesmos nas várias falas particulares: [[lexico:c:corpo:start|corpo]], nascimento, morte, vida, relações de parentesco (poucas estruturas, imagens infinitas). Língua e simbólico estão intrincados. O [[lexico:s:simbolismo:start|simbolismo]] inconsciente não constitui a língua, mas se enxerta sobre ela, super-determinando-a, o que a torna possível não apenas como signo, mas como símbolo, isto é, ela não informará apenas, mas também evocará (por isto é que a língua é contínua, apesar de ser constituída por [[lexico:e:elementos:start|elementos]] discretos). Este é o lado mais profundo da língua e da função simbólica e que possibilita os discursos cotidiano e analítico. De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com o que foi discutido, em linhas acima, não há [[lexico:u:univocidade:start|univocidade]] no discurso já que este só se estabelece desde que o [[lexico:i:interlocutor:start|interlocutor]] aparece constituído. E a univocidade do eu difere da univocidade do outro interlocutor deste eu que o estatui como outro. Logo, o significante só tem [[lexico:v:valor:start|valor]] de [[lexico:m:mensagem:start|mensagem]] no outro, e não no próprio sujeito. E a única [[lexico:r:referencia:start|referência]] científica possível entre o eu do sujeito e o eu do outro que ele constitui (esta [[lexico:d:dialetica:start|dialética]] é multívoca) é a cadeia do significante. Por isto Lacan dirá que a linguagem originária do sujeito (do analisando, no caso) é a linguagem do desejo do sujeito. Esta linguagem não é "[[lexico:n:natural:start|natural]]" mas é sempre simbólica, como algo [[lexico:n:negativo:start|negativo]] (já que exprime do "objeto" que visa [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] que ele não é). A relação com o pai e a mãe é com os objetivos concretos referenciais "meu pai" e "minha mãe" pois o nível simbólico situa ambos num lugar imaginário. O Pai será o [[lexico:m:mediador:start|mediador]] da relação com o outro; este Pai é referência no significante, no nível inconsciente e não o pai do sujeito. A relação com o Pai é simbólica: já as primeiras manifestações do desejo fazem com que a relação do sujeito com o outro sejam dadas num campo necessário, determinado. Não é um encontro [[lexico:e:empirico:start|empírico]] de um sujeito "natural" que imprimirá em si um outro sujeito empírico, [[lexico:b:bom:start|Bom]] ou mau. As relações são estatuídas simbolicamente e não livre e arbitrariamente. O homem só é homem constituído na cadeia do significante. 2) — a [[lexico:l:logica:start|lógica]] intersubjetiva — "O encontro do outro se opera, então, na fala como atualização da língua e portadora de sua [[lexico:i:intersubjetividade:start|intersubjetividade]]". A atualização depende da cadeia do significante, lugar do reconhecimento do outro e de si mesmo (conforme o item anterior). A lógica subjetiva não é aleatória, mas depende da estrutura desta cadeia: à medida que a língua fica mais geral, ela se torna imprópria à fala e se nos tornando demasiado [[lexico:p:particular:start|particular]] ela perde sua função de língua". A [[lexico:e:expectativa:start|expectativa]] delimita, para o nível [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], a comunicação da fala na estrutura da língua. O que o psicanalista procura na história do sujeito não será a memória, mas o modo originário de sua organização simbólica. Desenvolvendo este [[lexico:e:esquema:start|esquema]], Lacan demonstrará a universalidade do complexo de Édipo, de acordo com Freud. Não se trata da relação empírica filho/mãe/pai, "porque se trata de uma relação simbólica e não real, a relação primeira entre a mãe e o filho não é uma simples relação dual: esta relação que se sabe ser feita de [[lexico:p:presenca:start|presença]] e [[lexico:a:ausencia:start|ausência]] deixa intercalar no seu [[lexico:b:bem:start|Bem]] [[lexico:e:estar:start|estar]] o [[lexico:e:elemento:start|elemento]] imaginário, cujo papel de significante é maior, o falo, ligado ao pai simbólico, em nome do pai, que se torna a sede do significante. O pai, no complexo (de Édipo), representa a interdição da mãe e a relação do pai ao filho é comandada pelo temor de castração, temor que só adquire seu sentido na ordem simbólica". Falo e Nome do Pai constituirão o significante essencial, "em torno do qual se constitui a aquisição pelo sujeito da ordem do significante na qual ele se historializa". Pode-se concluir que o psicanalista não substitui sua (dele, do psicanalista) ordem simbólica pela do analisando. A fala do analisando, atendendo aos reclames originários de satisfação do desejo, se experimenta como re-originária através dos mesmos processos de constituição (imposta pela lógica intersubjetiva, que é original no homem só há homem porque há o sistema onde ele se insere). A verdade segue o mesmo processo que a não-verdade, mas no caso da verdade a comunicação não é mais velada: o desejo se faz ouvir. 3) — a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]] do sujeito — então o sujeito não permanece mais encerrado na [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] a que seu ego constituído o levava: "o sujeito realiza o verdade de sua história em continuidade com um [[lexico:f:futuro:start|futuro]]". A temporalidade implica no encontro do simbólico, encontro e [[lexico:a:assuncao:start|assunção]]. Que só se dão numa comunicação que se auto-conhece, que fundamenta e manipula (ao mesmo tempo) o lugar de sua origem. Pode-se ver o papel fundamental da teoria da comunicação na obra de Lacan, mas, conforme frisado naquele verbete, não se deve ser deixado guiar pelas armadilhas dos "fatos comunicativos". O [[lexico:u:uso:start|uso]] em voga na psicanálise de "comunicação" com sentidos inúmeros e estruturas nenhuma fazem o teórico duvidar de sua existência no [[lexico:u:unico:start|único]] lugar possível: a teoria. (Chaim Katz - [[lexico:d:dcc:start|DCC]]) Do [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista da psicanálise, o [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] não é inteiramente explicável pelos dados conscientes; para compreendê-lo de maneira satisfatória, é preciso que, a título essencial, façamos intervir uma interpretação que repousa sobre uma teoria do inconsciente. Visto que o inconsciente é, por definição, inacessível a uma [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] direta, para atingi-lo faz-se necessário recorrer à [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] de uma estrutura teórica. É preciso então perguntar-se de que modo esta estrutura pode justificar-se, levando-se em conta, é claro, o seu conteúdo, isto é, aquilo que ela própria afirma acerca das motivações subjacentes do discurso. Ou ela há de ser capaz de fornecer uma completa elucidação de suas próprias pressuposições, ou deve revelar-se [[lexico:i:independente:start|independente]] do inconsciente. No primeiro caso, trata-se de estabelecer a possibilidade de se obter um controle completo do inconsciente, ou seja, de realizar uma [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] total do inconsciente no consciente, programa este, no mínimo, ambicioso demais. No segundo caso, trata-se efetivamente de provar que o próprio discurso psicanalítico é independente do inconsciente. Isto pode ser feito graças a uma redução fisicalista: o discurso psicanalítico será então considerado como uma formulação provisória que finalmente deve conduzir a uma interpretação exaustiva do comportamento em termos de conceitos físicos, por exemplo, em termos de [[lexico:c:cibernetica:start|cibernética]]. Isto pode ser feito ainda graças a uma [[lexico:f:formalizacao:start|formalização]] rigorosa do discurso psicanalítico (como parece sugerir a interpretação estruturalista da psicanálise): tratar-se-á, então, de um discurso que, sem ser necessariamente fisicalista, possuirá, em [[lexico:t:todo:start|todo]] caso, a mesma forma lógica das teorias físicas. Enfim, isto pode fazer-se, ainda, graças a um apelo à filosofia: tratar-se-á de compreender o discurso psicanalítico como uma variedade do discurso filosófico, ou então, de fornecer uma teoria filosófica que possa lhe servir de fundamento. Contudo, qualquer que seja o método adotado, será preciso mostrar como e porque a interpretação utilizada (fisicalista, formalista ou filosófica) é privilegiada, isto é, em [[lexico:r:razao:start|razão]] do que pode ser tida como realmente autônoma em relação às determinações inconscientes, bem como, de modo geral, em relação a toda [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] extrínseca. [Ladrière] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}