===== PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS ===== Historicamente, a consideração da [[lexico:o:ordem|ordem]] da [[lexico:n:natureza|natureza]] foi o que primeiro sugeriu, desde o alvor da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] ocidental, o [[lexico:a:argumento|argumento]] para chegar a um [[lexico:f:fundamento|fundamento]] [[lexico:p:primitivo|primitivo]] espiritual do [[lexico:m:mundo|mundo]] ([[lexico:n:nous|noûs]]). Esboços desta "[[lexico:p:prova|prova]] teleológica" já se encontram em [[lexico:a:anaxagoras|Anaxágoras]], depois em [[lexico:p:platao|Platão]], nos estoicos e em Cicero; os [[lexico:a:apologistas|apologistas]] cristãos dos séculos II e III aduzem-na explicitamente como [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] de um [[lexico:d:deus|Deus]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] e supramundano. — A doutrina platônica das [[lexico:i:ideias|ideias]] contém as ideias básicas da prova pelos graus de [[lexico:p:perfeicao|perfeição]] (prova dos graus de perfeição): a [[lexico:d:diversidade|diversidade]] de graus de [[lexico:b:beleza|beleza]] e de [[lexico:b:bondade|bondade]], que há nas [[lexico:c:coisas|coisas]], mostra que elas são belas e boas "por [[lexico:p:participacao|participação]]" e pressupõe, como fundamento [[lexico:u:ultimo|último]] e [[lexico:a:arquetipo|arquétipo]], a pura e imutável Beleza e Bondade. Estas ideias exerceram especial [[lexico:i:influencia|influência]] em S. [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] e S. Anselmo e, através destes, em S. [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] e na filosofia [[lexico:e:escolastica|escolástica]]. [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], em sua prova pelo [[lexico:m:movimento|movimento]] (prova cinesiológica), [[lexico:p:parte|parte]] do movimento local dos corpos, principalmente das revoluções das esferas celestes, e daí conclui a [[lexico:e:existencia-de-deus|existência de Deus]] como [[lexico:p:primeiro-motor|primeiro motor]], o qual movendo apenas enquanto [[lexico:f:fim|fim]] desejado, permanece imóvel. Contrariamente a isto, S. Tomás mostra que Deus, sem prejuízo de sua [[lexico:i:imutabilidade|imutabilidade]], deve [[lexico:s:ser|ser]] admitido também como [[lexico:c:causa|causa]] eficiente; mas, sobretudo, eleva a prova a um [[lexico:p:plano|plano]] metafísico, ao conceber o "movimento" como trânsito da [[lexico:p:potencia|potência]] ao [[lexico:a:ato|ato]]. Apesar disso, a prova encontrou muitos críticos até dentro da escolástica. — Em Cícero e nos apologistas cristãos da [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]], encontram-se as ideias fundamentais da prova, tomadas da [[lexico:p:persuasao|persuasão]] concorde dos povos sobre a [[lexico:e:existencia|existência]] de Deus (prova histórica ou etnológica). — A prova de S. Agostinho, fundada na imutabilidade da [[lexico:v:verdade|verdade]], que pressupõe uma verdade primeira, subsistente, tem sido [[lexico:o:objeto|objeto]] de múltiplas interpretações. Provavelmente, [[lexico:n:nao|não]] deve ela ser tomada como "prova ideológica" que da [[lexico:v:validade|validade]] pura infere a necessária base [[lexico:o:ontologica|ontológica]] da mesma, mas no [[lexico:s:sentido|sentido]] de o [[lexico:r:raciocinio|raciocínio]] chegar a Deus como [[lexico:l:luz|luz]] que ilumina nosso [[lexico:e:espirito|espírito]] e como Verdade subsistente, fundamento primitivo e arquétipo do (ontologicamente) [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]]. — S. Anselmo de Cantuária foi [[lexico:q:quem|quem]] primeiro se propôs demonstrar a existência de Deus só a partir do seu [[lexico:c:conceito|conceito]]. Esta prova, que no século XVIII recebeu o [[lexico:n:nome|nome]] de "[[lexico:p:prova-ontologica|prova ontológica]]" ([[lexico:a:argumento-ontologico|argumento ontológico]]), foi retomada por [[lexico:d:descartes|Descartes]] e, em [[lexico:f:forma|forma]] mais depurada, por Scotus e [[lexico:l:leibniz|Leibniz]]; pelo contrário, foi rejeitada não só por [[lexico:k:kant|Kant]], como também por S. Tomás e pela maioria dos escolásticos. — Tornaram-se clássicas as provas que S. Tomás expôs em suas "cinco vias". Todas elas, baseadas no [[lexico:p:principio-de-causalidade|princípio de causalidade]], levam à conclusão de Deus, [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]] do [[lexico:u:universo|universo]]. Ulterior amplificação encontraram as [[lexico:p:provas-da-existencia-de-deus|provas da existência de Deus]] entre os apologistas do século XVIII, na [[lexico:l:luta|luta]] contra o [[lexico:a:ateismo|ateísmo]] da [[lexico:e:epoca|época]]. Neles aparece, pela primeira vez, a [[lexico:c:classificacao|classificação]] das provas em metafísicas, físicas e morais. Enquanto as provas metafísicas passavam a plano Secundário, as preferências iam para as "físicas" (nomeadamente para a teleológica, então denominada "prova físico-teleológica") e para as morais. Entre estas últimas contam-se, [[lexico:a:alem|além]] da etnológica, a prova [[lexico:m:moral|moral]] em sentido [[lexico:e:estrito|estrito]], isto é, baseada na [[lexico:o:obrigacao|obrigação]] moral que pressupõe um legislador [[lexico:d:divino|divino]] ("prova ético-teológica") e a prova tomada da inata [[lexico:a:aspiracao|aspiração]] do [[lexico:h:homem|homem]] à [[lexico:f:felicidade|felicidade]], posteriormente denominada prova eudemonológica, a qual chega à conclusão de Deus como supremo [[lexico:b:bem|Bem]] e fim último do homem. Recentemente tentaram-se outras provas, p. ex., a fundada na [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de um primeiro [[lexico:p:principio|princípio]] [[lexico:t:temporal|temporal]] do mundo, o qual se procurou demonstrar por considerações apriorísticas ou com a ajuda da [[lexico:l:lei|lei]] [[lexico:f:fisica|física]] da [[lexico:e:entropia|entropia]], isto é, da [[lexico:t:transformacao|transformação]] crescente de toda [[lexico:e:energia|energia]] em energia calorífica (prova da entropia). De [[lexico:m:modo|modo]] [[lexico:a:analogo|análogo]], se intentou mais recentemente calcular o início da [[lexico:e:evolucao|evolução]] do universo, tomando como fundamento a progressiva expansão deste e a [[lexico:d:desintegracao|desintegração]] da [[lexico:m:materia|matéria]] radioativa. Perante a acumulação de provas da existência de Deus no transcurso dos séculos, hoje, no tratamento [[lexico:s:sistematico|sistemático]] delas, com [[lexico:r:razao|razão]] se atribui a importância [[lexico:m:maxima|máxima]] à sua sustentação fundamental e à sua estabilidade. A este [[lexico:r:respeito|respeito]], merecem a preferência as provas "clássicas" de S. Tomás. Partem elas de notas ou [[lexico:c:caracteres|caracteres]] experimentalmente comprováveis, peculiares de [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:e:ente|ente]] intra-mundano; por essa forma demonstram a [[lexico:c:contingencia|contingência]] [[lexico:m:metafisica|metafísica]] deste e, com o auxílio do princípio de [[lexico:c:causalidade|causalidade]], concluem a existência de Deus como Causa primeira do mundo. Assim, a prova teleológica, partindo da [[lexico:c:caracteristica|característica]] da ordem [[lexico:e:experimental|experimental]] da natureza, infere que nas coisas, principalmente nos seres vivos, deve admitir-se uma autêntica [[lexico:f:finalidade|finalidade]] produzida pelo espírito; mas, como o espírito ordenador não se encontra nem nos seres particulares naturais, nem no universo como conjunto (à maneira de [[lexico:a:alma|alma]] cósmica), deve necessariamente exigir-se um Ordenador supramundano. A prova pelo movimento, entendida meta-fisicamente, mostra como todo ato, que é enriquecimento [[lexico:o:ontologico|ontológico]] de um ente, de si apenas potencial, depende de [[lexico:o:outro|outro]] ser [[lexico:a:atual|atual]] no [[lexico:a:aspecto|aspecto]] respectivo, e, por essa forma, chega finalmente a um [[lexico:a:ato-puro|ato puro]], fundamento [[lexico:p:primario|primário]] de toda evolução neste mundo temporal. A prova cosmológica (prova da contingência), baseando-se no nascimento e no deperecimento das coisas, conclui a contingência das mesmas, e partindo da mutabilidade própria também dos [[lexico:e:elementos|elementos]] constitutivos fundamentais cuja [[lexico:o:origem|origem]] não pode ser mostrada experimentalmente, infere sua natureza também [[lexico:c:contingente|contingente]], provando dessa maneira que o mundo todo é causado por um Criador supramundano. A mais profunda e, a um [[lexico:t:tempo|tempo]], a mais difícil prova da existência de Deus é a prova dos graus. Tomando como base a [[lexico:f:finitude|finitude]] de todas as coisas mundanas, mostra que as perfeições puras ontológicas só lhes advêm "por participação", e, por conseguinte, não de maneira necessária; por essa forma, conduz a uma Causa primeira que, como Ser subsistente, é a infinita plenitude do ser. Esta prova é completada pela prova henológica, a qual, partindo da [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] numérica de perfeições especificamente iguais neste mundo, infere, de modo [[lexico:i:identico|idêntico]], o "ser-por-participação" das mesmas e com isso demonstra a [[lexico:u:unicidade|unicidade]] do Ser subsistente. As restantes provas afastam-se destas clássicas, em [[lexico:g:grau|grau]] maior ou menor. Os argumentos baseados no [[lexico:c:comeco|começo]] temporal do universo ou do acontecer cósmico, p. ex., a prova da entropia, concluem com a ajuda do princípio de causalidade, mas o centro de gravidade desloca-se para a comprovação da característica (do começo temporal) indicadora de contingência. Afora isso, graves objeções se têm erguido contra esta prova. Outras provas, deixando de lado a [[lexico:i:ideia|ideia]] de causalidade eficiente, procurem mostrar diretamente Deus como arquétipo ou fim do universo. Entre estas últimas conta-se, sobretudo, a prova eudemonológica, que se fundamenta no "princípio de infrustrabilidade do fim" ([[lexico:p:principio-de-finalidade|princípio de finalidade]]) e, por conseguinte, na [[lexico:p:propriedade|propriedade]] de "ter-sentido" que convém a todo ser; neste caso surge a [[lexico:q:questao|questão]]: se com isso não se pressupõe já a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] do Criador. As provas moral e histórica apresentam, em comum, a particularidade de não referir a Deus como Causa (eficiente, final ou [[lexico:e:exemplar|exemplar]]) o ser [[lexico:r:real|real]] de um ente intra-mundano, mas de partir de uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:u:uniao|união]] [[lexico:i:intencional|intencional]] de nossas [[lexico:f:faculdades|faculdades]] espirituais, para explicá-la, embora não de igual modo, partindo de um [[lexico:i:influxo|influxo]] de Deus: a união moral de nossa [[lexico:v:vontade|vontade]] (que, é claro, tem de pressupor-se) só pode realizar-se mediante uma lei divina; a união naturalmente necessária do [[lexico:e:entendimento|entendimento]], tal [[lexico:c:como-se|como se]] manifesta na persuasão [[lexico:u:universal|universal]], só encontra [[lexico:e:explicacao|explicação]] na [[lexico:e:evidencia|evidência]] da existência de Deus. Na prova ideológica deveria mostrar-se que o trânsito da mera validade da verdade ao ser [[lexico:e:eterno|eterno]] de uma verdade subsistente não se justifica. Com maior razão, devido ao trânsito injustificado da ordem puramente mental à ordem ontológica, deve ser rejeitada a prova ontológica, a qual por seu modo de proceder apriorístico se aparta, o máximo [[lexico:p:possivel|possível]], dos argumento clássicos. — De Vries. **A existência de Deus.** Se a filosofia de Descartes não pudesse sair daqui, encalharia naquilo que se chama "[[lexico:s:solipsismo|solipsismo]]", ou seja: existo [[lexico:e:eu|eu]] e meus [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]], e mais [[lexico:n:nada|nada]]. Porém eis aqui que Descartes descobre dentre os pensamentos claros e distintos um [[lexico:p:pensamento|pensamento]], um só, que talvez seja o [[lexico:u:unico|único]] que tem em [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] a [[lexico:g:garantia|garantia]] de que o objeto pensado existe fora do pensamento. De modo que há um pensamento que se distingue de todos os demais pensamentos claros e distintos porque contém no [[lexico:p:proprio|próprio]] pensamento esta garantia de existência do seu objeto. E este pensamento único é o pensamento de Deus, a [[lexico:i:ideia-de-deus|ideia de Deus]]. A ideia de Deus é tal que se a examinamos como tal ideia, encontramos nela, não somente que pensamos num ente (Deus) do qual não sabemos se existe ou não existe, mas que pensamos num ente (Deus) e que este pensamento contém uma porção de caracteres segundo os quais Deus, além de ser objeto do meu pensamento, existe realmente fora de mim. E então desenvolve esses caracteres que a ideia de Deus tem, na forma de três provas, de três demonstrações da existência de Deus. A primeira demonstração da existência de Deus, consiste em considerar o pensado por nós quando pensamos em Deus; e em examinar a própria ideia de Deus. Examinamos essa ideia e encontramos a ideia de um ser [[lexico:i:infinito|infinito]], [[lexico:p:perfeito|perfeito]], infinitamente [[lexico:b:bom|Bom]], onisciente; todo-poderoso. Ora: essa ideia que temos, que pensamos, [[lexico:e:esse|esse]] objeto que ainda não sei se existe ou não, mas que está contido dentro do meu pensamento. Como poderíamos nós tê-lo formado? Donde poderíamos nós [[lexico:t:ter|ter]] tirado essa ideia? Não de nós mesmos, porque o contido nessa ideia é tão enormemente [[lexico:s:superior|superior]] a tudo quanto nós somos, que não é possível que de nós mesmos, de nosso próprio fundo, tenhamos extraído o referido nessa ideia. O mencionado nessa ideia é tão enormente [[lexico:t:transcendente|transcendente]], tão por cima das possibilidades de [[lexico:i:invencao|invenção]] e combinação que possa haver em nosso [[lexico:p:pensar|pensar]] em [[lexico:g:geral|geral]], que sem [[lexico:d:duvida|dúvida]] alguma não é possível outra [[lexico:c:coisa|coisa]] senão que o conteúdo nessa ideia, essa perfeição infinita, essa "infinidade", responda a uma [[lexico:r:realidade|realidade]] fora dela. A segunda prova que dá Descartes da existência de Deus é uma aplicação da prova que dá Aristóteles. A que dá Descartes é a seguinte: eu existo; tal é a primeira verdade que descobri ao afastar minha vista dos objetos e concentrá-la sobre os pensamentos. Descobri-me a mim mesmo, como [[lexico:e:eu-pensante|eu pensante]]. Eu existo, mas eu, que existo, tenho uma existência cujo fundamento não percebo, não vejo. Eu existo com uma existência contingente. Não vale dizer que devo a existência a meus pais; não vale dizer que no passado e no [[lexico:f:futuro|futuro]] minha existência permanece; porque não há nenhum [[lexico:m:motivo|motivo]] pelo qual se dê na minha existência a prolongação dela dentro de um [[lexico:m:momento|momento]] ou de ter existido um momento antes. Por conseguinte, minha existência é contingente; não é necessária. E se minha existência é contingente, necessita um fundamento. Mesmo que eu vá longe tomar este fundamento, subindo a outro e a outro e a outro, terei que acabar sempre, de longe e de perto, admitindo um ser, uma existência (Deus), que seja o fundamento da minha. A terceira prova da existência de Deus que dá Descartes é o famoso argumento ontológico. Descartes lhe concede uma importância especial; tanto que lhe consagra quase uma [[lexico:m:meditacao|meditação]] inteira. Expõe-no num capítulo distinto do capítulo em que expôs os dois argumentos anteriores. O argumento ontológico consiste em assinalar a característica da ideia de Deus como uma ideia singularíssima, única, na qual o pensamento de Deus contém também sua existência. O pensamento desse objeto — Deus — é o pensamento de um objeto em cujas notas características, em cujo objeto pensado está também a existência. Vou formular o argumento ontológico de uma maneira não cartesiana; falsa, por conseguinte, e que não responde ao espírito de Descartes, mas que nos ajudará a entendê-lo. Eu tenho a ideia de um ser perfeito; este ser existe. Demonstração: um ser perfeito tem todas as perfeições; a existência é uma perfeição; logo o ser perfeito tem existência. Descartes não o formula nesta forma [[lexico:s:silogistica|silogística]], mas nessa outra, ou seja: no pensamento da [[lexico:e:essencia|essência]] do ser perfeito está contida necessariamente a existência; e está contida a existência como uma das notas que ao mesmo tempo resulta ser [[lexico:n:nota|nota]] do conteúdo do pensamento e nota da realidade objetiva do pensamento. Descartes considera a ideia de Deus como a única das ideias que leva em si mesma a marca, a garantia de sua realidade [[lexico:e:exterior|exterior]]. De todos os argumentos de que se vale Descartes, o único no qual realmente acredita profundamente é este último. O segundo, o da contingência da existência, ultrapassa por completo o [[lexico:c:circulo|círculo]], a maneira de pensar cartesiana. Parte de existências: da existência do eu, o qual já é um [[lexico:m:mal|mal]] para Descartes; é um pis aller verdadeiro. Os únicos argumentos nos quais confia são o primeiro e o [[lexico:t:terceiro|terceiro]]; no terceiro sobretudo. VIDE [[lexico:d:dialetica|dialética]] [[lexico:t:transcendental|transcendental]] Passa Kant à terceira parte de seu [[lexico:e:estudo|estudo]], na [[lexico:c:critica-da-razao-pura|Crítica da Razão Pura]], que se refere à existência de Deus. Kant encontra também, nas provas que tradicional [[lexico:m:mente|mente]] se vêm dando da existência de Deus, um [[lexico:e:erro|erro]] de raciocínio, o qual consiste — como os anteriores — em eludir a razão, as condições de todo [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] possível, de toda [[lexico:o:objetividade|objetividade]] possível. Kant agrupa as provas tradicionais da existência de Deus em três argumentos principais: o argumento ontológico, o argumento cosmológico e o argumento físico-teleológico. O argumento ontológico é aquele que Descartes nos expõe numa de suas [[lexico:m:meditacoes-metafisicas|Meditações metafísicas]]. Descartes não foi o primeiro em expô-lo, mas provavelmente o estudou já em [[lexico:s:santo|santo]] Anselmo. É o argumento que todos recordamos: eu tenho a ideia de um ser, de um ente perfeito; este ente perfeito tem que [[lexico:e:existir|existir]], porque se não existisse faltar-lhe-ia a perfeição da existência e não seria perfeito. Kant discute este argumento e mostra que a existência, aquilo que chamamos existência, tem um sentido muito claro e muito completo na [[lexico:s:serie|série]] das condições do conhecimento possível. Existir, a existência, é uma [[lexico:c:categoria|categoria]]; e uma categoria [[lexico:f:formal|formal]], como o [[lexico:e:espaco|espaço]], o tempo, a causalidade, a [[lexico:s:substancia|substância]], que nós aplicamos, mas que não podemos legitimamente aplicar mais que a percepções sensíveis. Se nós não aplicássemos a categoria de existência à [[lexico:p:percepcao|percepção]] [[lexico:s:sensivel|sensível]], teríamos de dizer, como [[lexico:h:hume|Hume]], que nossas percepções sensíveis são nada mais que nossas, e que não lhes correspondem nada fora de nós. Mas justamente o aplicarmos às percepções sensíveis a categoria de existência, de substância, de causa, é o ato pelo qual estabelecemos os objetos a conhecer, os fenômenos. Este é o sentido da existência. De modo que para afirmar que algo existe não é suficiente ter a ideia deste algo, mas ademais há de se ter a percepção sensível correspondente; tê-la ou poder tê-la. É assim que de Deus não temos, não podemos ter a percepção sensível correspondente; logo não podemos em [[lexico:v:virtude|virtude]] de sua ideia, afirmar sua existência. Ou, [[lexico:d:dito|dito]] de outro modo, podemos dizer: eu tenho a ideia de um ente perfeito e tenho a ideia de que este ente perfeito existe, porque na ideia de um ente perfeito está contida a ideia da existência. Porém, não saímos da ideia. A existência autêntica, ou, como diz Kant, "aquilo que diferencia cem táleres realmente existentes de cem táleres ideais" não é mais que isto: que os cem táleres reais são sensíveis, perceptíveis. E isso é justamente que [[lexico:f:falta|falta]] à ideia de Deus. Depois examina Kant o argumento cosmológico. Consiste em ir enumerando séries de [[lexico:c:causas|causas]] até ter que chegar a deter-se numa causa incausada, que é Deus. Para Kant o erro do raciocínio consiste em que so deixa de aplicar de repente a categoria de causalidade sem motivo algum. Kant examina, por último, o argumento físico-teleológico, que é o argumento popular por [[lexico:e:excelencia|excelência]], é o da finalidade. É o de descrever e descobrir na Natureza uma porção de formas reais de coisas (como, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], a maravilha da [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do olho [[lexico:h:humano|humano]] ou o maravilha dos organismos animais), formas cujas engrenagens e conjunturas várias não podem realmente explicar-se senão supondo uma [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] criadora que lhes tenha impresso estas formas tão perfeitamente engrenadas para a realização dos fins. Porém Kant alega também aqui que o conceito de fim é um desses [[lexico:c:conceitos|conceitos]] metódicos que nós fazemos para a [[lexico:d:descricao|descrição]] da realidade, mas do qual não podemos tirar nenhuma outra [[lexico:c:consequencia|consequência]], senão que tal ou qual forma é adequada a um fim. Não podemos, sem ultrapassarmos os limites da [[lexico:e:experiencia|experiência]], tirar dessa [[lexico:a:adequacao|adequação]] a um fim conclusões referentes ao criador dessas formas. Em definitivo, Kant pretende demonstrar em cada uma das argumentações da metafísica o [[lexico:p:pecado|pecado]] que todas elas cometem, e que consiste em que ultrapassam os limites da experiência; em que aplicam as [[lexico:c:categorias|categorias]] ou não as aplicam, segundo a sua vontade; em que tomam por objeto a conhecer, aquilo que não é objeto a conhecer, mas coisa em si mesma. A metafísica, segundo ele, comete a falha [[lexico:e:essencial|essencial]] de querer conhecer o [[lexico:i:incognoscivel|incognoscível]]. É, pois, uma [[lexico:d:disciplina|disciplina]] [[lexico:i:impossivel|impossível]]. À [[lexico:p:pergunta|pergunta]]: é possível a metafísica?, Kant responde dizendo radicalmente: não é possível.