===== PROFECIA ===== Se o [[lexico:f:futuro|futuro]] inautêntico significa um mero aguardar (Gewärtigen),115 então o aguardar no [[lexico:s:sentido|sentido]] da excentricidade significa a confiança em que “o futuro” se deixe captar por [[lexico:a:antecipacao|antecipação]], que ele se deixe ordenar segundo determinados [[lexico:p:principios|princípios]] ou [[lexico:c:conceitos|conceitos]]. Só [[lexico:a:agora|agora]] podemos [[lexico:c:compreender|compreender]] por que justamente o [[lexico:c:calculo|cálculo]] do futuro — tal como no [[lexico:e:exemplo|exemplo]] do historiador — desempenha também em outros casos um papel de tamanha importância na excentricidade! Basta lembrar a grande difusão das profecias astrológicas do futuro, das profecias que se “leem” nas cartas de baralho, nas linhas da mão, etc. Em tudo isso, o [[lexico:s:ser-ai|ser-aí]] “esquiva-se” de seu mais [[lexico:p:proprio|próprio]], de seu [[lexico:a:autentico|autêntico]] poder- e saber-ser, e enleva-se num futuro “[[lexico:v:vazio|vazio]]”, isto é, [[lexico:n:nao|não]] projetado a partir do próprio ser-aí, mas “simulado”. Entregue, em seu decaimento, a [[lexico:s:semelhante|semelhante]] simulação, ele “esquiva-se”, como costumamos dizer, à sua própria [[lexico:r:responsabilidade|responsabilidade]]. Mas isso também é apenas um caso [[lexico:l:limite|limite]] da excentricidade. [Binswanger, TRÊS FORMAS DA EXISTÊNCIA MALOGRADA] O anjo-tzelem constitui assim uma [[lexico:e:especie|espécie]] de alter [[lexico:e:ego|ego]] ou de duplo celeste, a [[lexico:i:imagem|imagem]] originária na qual [[lexico:t:todo|todo]] [[lexico:h:homem|homem]] existia no [[lexico:c:ceu|céu]] e que o acompanha também na [[lexico:t:terra|Terra]] (é também assim na doutrina neoplatônica do idios [[lexico:d:daimon|daimon]], que, nas palavras de Jâmblico, “existe como paradigma antes que a [[lexico:a:alma|alma]] desça na geração” — Myst., 9, 6, 8-10). Importante, do nosso [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, é a ligação desse [[lexico:t:tema|tema]] — que diz [[lexico:r:respeito|respeito]], digamos assim, à pré-história e à preexistência do homem — aos [[lexico:m:motivos|motivos]] profetológicos e escatológicos — [[lexico:r:relativos|relativos]] à [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] [[lexico:m:mistico|místico]] — e aos motivos soteriológicos e escatológicos — que dizem respeito ao [[lexico:d:destino|destino]] e à [[lexico:s:salvacao|salvação]] do homem; por outras [[lexico:p:palavras|palavras]]: sua [[lexico:h:historia|história]] e sua pós-história. Segundo uma doutrina que se encontra tanto em textos cabalísticos como em escritos herméticos, a [[lexico:v:visao|visão]] do [[lexico:a:anjo|anjo]] [[lexico:p:pessoal|pessoal]] coincide, de [[lexico:f:fato|fato]], com o [[lexico:e:extase|êxtase]] profético e com o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] supremo. Em uma compilação cabalística que remonta ao final do século XIII (Shushan sodot), a profecia se apresenta como uma visão súbita de seu duplo: “O segredo completo da profecia, para o profeta, consiste no seguinte: ele vê, subitamente, erguida à sua frente, a [[lexico:f:figura|figura]] de si próprio, e se esquece do seu si e este lhe é roubado e ele vê diante de si a figura de seu si, que [[lexico:f:fala|fala]] com ele e lhe anuncia o futuro”.8 Em [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:t:texto|texto]] cabalístico (Isaac [[lexico:c:cohen|Cohen]], por volta de 1270), a [[lexico:e:experiencia|experiência]] profética é descrita como uma [[lexico:m:metamorfose|metamorfose]] do homem no próprio anjo: “No profeta e vidente, todas as espécies das suas forças enfraquecem e se transmutam de [[lexico:f:forma|forma]] em forma, até que ele reveste a [[lexico:f:forca|força]] da forma que lhe aparece, e sua força se transmuta então na forma de um anjo, e essa forma, que toma o [[lexico:l:lugar|lugar]] dele, dá-lhe a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de receber a força profética” [SCHOLEM. Von der mystischen Gestalt der Gottheit, p. 258]. [Agamben, A potência do pensamento]