===== PRODUTO ===== O desprezo pelo [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] na [[lexico:t:teoria:start|teoria]] antiga e sua [[lexico:g:glorificacao:start|glorificação]] na teoria [[lexico:m:moderna:start|moderna]] baseavam-se ambos na [[lexico:a:atitude:start|atitude]] subjetiva ou na [[lexico:a:atividade:start|atividade]] do trabalhador – um desconfiando de seu doloroso [[lexico:e:esforco:start|esforço]], outra louvando sua [[lexico:p:produtividade:start|produtividade]]. A [[lexico:s:subjetividade:start|subjetividade]] dessa [[lexico:f:forma:start|forma]] de abordagem talvez seja mais óbvia na [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre trabalho leve e pesado; mas já vimos que, pelo menos no caso de [[lexico:m:marx:start|Marx]] – que, sendo o maior dos modernos teóricos do trabalho, necessariamente estabelece uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de pedra de toque em tais discussões –, a produtividade do trabalho é [[lexico:m:medida:start|medida]] e aferida em [[lexico:r:relacao:start|relação]] às exigências do [[lexico:p:processo:start|processo]] vital para fins da própria [[lexico:r:reproducao:start|reprodução]]; reside no excedente potencial inerente à [[lexico:f:forca:start|força]] de trabalho humana, e [[lexico:n:nao:start|não]] na [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] ou no [[lexico:c:carater:start|caráter]] das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que ele produz. Similarmente, a [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] grega, para a qual os pintores eram superiores aos escultores, certamente não tinha por base algum [[lexico:r:respeito:start|respeito]] maior pela pintura. Parece que a distinção entre trabalho e [[lexico:o:obra:start|obra]], que os nossos teóricos tão obstinadamente negligenciaram e nossas línguas tão aferradamente conservam, torna-se realmente apenas uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] de [[lexico:g:grau:start|grau]] quando não se leva em conta o caráter [[lexico:m:mundano:start|mundano]] da [[lexico:c:coisa:start|coisa]] produzida – sua [[lexico:l:localizacao:start|localização]], sua [[lexico:f:funcao:start|função]] e a [[lexico:d:duracao:start|duração]] de sua [[lexico:p:permanencia:start|permanência]] no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]. A distinção entre um pão, cuja “[[lexico:e:expectativa:start|expectativa]] de [[lexico:v:vida:start|vida]]” no mundo dificilmente ultrapassa um dia, e uma mesa, que pode facilmente sobreviver a gerações de homens, é sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] muito mais óbvia e decisiva que a diferença entre um padeiro e um carpinteiro. A curiosa discrepância entre a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] e a teoria que observamos no início resulta então em uma discrepância entre a linguagem “objetiva” que falamos, orientada para o mundo , e as teorias subjetivas, orientadas para o [[lexico:h:homem:start|homem]], que usamos em nossas tentativas de [[lexico:c:compreender:start|compreender]]. É a linguagem e são as experiências humanas fundamentais subjacentes a ela, e não a teoria, que nos ensinam que as coisas do mundo, entre as quais transcorre a [[lexico:v:vita-activa:start|vita activa]], são de [[lexico:n:natureza:start|natureza]] muito diferente e produzidas por tipos muito diferentes de [[lexico:a:atividades:start|atividades]]. Vistos como [[lexico:p:parte:start|parte]] do mundo, os produtos da obra – e não os produtos do trabalho – garantem a permanência e a [[lexico:d:durabilidade:start|durabilidade]] sem as quais um mundo absolutamente não seria [[lexico:p:possivel:start|possível]]. É dentro desse mundo de coisas duráveis que encontramos os [[lexico:b:bens:start|bens]] de consumo com os quais a vida assegura os meios de sua [[lexico:s:sobrevivencia:start|sobrevivência]]. Exigidas por nossos corpos e produzidas pelo trabalho deles, mas sem estabilidade própria, essas coisas destinadas ao consumo incessante aparecem e desaparecem em um [[lexico:a:ambiente:start|ambiente]] de coisas que não são consumidas, mas usadas, e às quais, à medida que as usamos, nos habituamos e acostumamos. Como tais, elas geram a familiaridade do mundo, seus [[lexico:c:costumes:start|costumes]] e hábitos de intercâmbio entre os homens e as coisas, [[lexico:b:bem:start|Bem]] como entre homens e homens. O que os bens de consumo são para a vida humana, os objetos de [[lexico:u:uso:start|uso]] são para o mundo [[lexico:h:humano:start|humano]]. É destes que os bens de consumo derivam o seu caráter-de-coisa ; e a linguagem, que não permite que a atividade do trabalho produza algo tão sólido e não verbal como um substantivo, sugere a forte [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] de que nem mesmo saberíamos o que uma coisa é se não tivéssemos diante de nós “a obra de nossas [[lexico:m:maos:start|mãos]]”. Diferentes tanto dos bens de consumo quanto dos objetos de uso há, finalmente, os “produtos” da [[lexico:a:acao:start|ação]] e do [[lexico:d:discurso:start|discurso]] que constituem juntos a textura das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] e dos assuntos humanos. [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmos, são não apenas destituídos da tangibilidade das outras coisas, mas são ainda menos duráveis e mais fúteis que o que produzimos para o consumo. Sua [[lexico:r:realidade:start|realidade]] depende inteiramente da [[lexico:p:pluralidade:start|pluralidade]] humana, da [[lexico:p:presenca:start|presença]] constante de outros que possam [[lexico:v:ver:start|ver]] e ouvir e, portanto, atestar sua [[lexico:e:existencia:start|existência]]. Agir e [[lexico:f:falar:start|falar]] são ainda manifestações externas da vida humana, e esta só conhece uma atividade que, embora relacionada com o mundo [[lexico:e:exterior:start|exterior]] de muitas maneiras, não se manifesta nele necessariamente, nem precisa [[lexico:s:ser:start|ser]] ouvida, vista, usada ou consumida para ser [[lexico:r:real:start|real]]: a atividade de [[lexico:p:pensar:start|pensar]]. [ArendtCH:C12] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}