===== PROBLEMA DO SER ===== De todos os [[lexico:p:problemas-da-filosofia:start|problemas da filosofia]], aquele que constitui o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] [[lexico:c:capital:start|capital]], por onde se definem os sistemas e divergem as escolas é o [[lexico:p:problema-do-ser:start|problema do ser]]. Uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] se apoia tanto mais sobre o [[lexico:s:senso:start|senso]] [[lexico:n:natural:start|natural]], sobre a [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] quotidiana e sobre os primeiros [[lexico:p:principios-da-inteligencia:start|princípios da Inteligência]], quanto mais se orienta para uma [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] realista. E se afasta tanto mais do senso natural e dos [[lexico:p:principios:start|princípios]] da [[lexico:i:inteligencia:start|Inteligência]] quanto mais se encaminha para o [[lexico:s:subjetivismo:start|subjetivismo]] idealista e para o [[lexico:m:materialismo:start|materialismo]], duas atitudes no fundo correlatas, que traduzem igualmente uma [[lexico:n:negacao:start|negação]] do [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:s:substancial:start|substancial]] ou da [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] que tem a inteligência de penetrá-lo na sua [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]]. Em linhas gerais, três diversas atitudes diante do [[lexico:p:problema:start|problema]] do ser produzem respectivamente o [[lexico:r:realismo:start|realismo]], o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] e o materialismo. Estas três atitudes respectivamente teocêntrica, antropocêntrica e materialista se caracterizam: o realismo pela [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] dos seres e do Ser, seja sob a [[lexico:f:forma:start|forma]] do realismo natural ou do realismo crítico; o fundo comum de [[lexico:t:todo:start|todo]] realismo é o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] da [[lexico:e:existencia:start|existência]] de cousas reais independentes da [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] do [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]. — O idealismo pela negação ou a problematização do ser substancial, seja sob a forma do idealismo [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], para o qual a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] [[lexico:n:nao:start|não]] existe fora da consciência do sujeito; seja sob a forma do idealismo [[lexico:l:logico:start|lógico]], para o qual a realidade é um [[lexico:p:produto:start|produto]] do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], um [[lexico:s:sistema:start|sistema]] de juízos, não existindo fora da consciência [[lexico:g:geral:start|geral]] do conhecimento; o fundo comum de todo idealismo é considerar o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] do conhecimento como [[lexico:i:ideal:start|ideal]] e não como [[lexico:r:real:start|real]] e o seu ponto de partida está na [[lexico:s:subordinacao:start|subordinação]] do ser ao conhecer e da realidade às formas [[lexico:a:a-priori:start|a priori]] da [[lexico:r:razao:start|razão]]. O materialismo, a seu turno envolve a negação pura e [[lexico:s:simples:start|simples]] do ser subsistente como realidade ou mesmo como problema: considera a filosofia superada pela [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e afirma o [[lexico:r:relativo:start|relativo]] com a negação do [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] e os acidentes com a negação da [[lexico:s:substancia:start|substância]]. Como é evidente, toda ontologia não realista, todo idealismo e todo materialismo, vêm desde sua [[lexico:o:origem:start|origem]] falseados pela afirmação implícita do ser que negam, desde que não se pode [[lexico:p:pensar:start|pensar]] sem pensar o ser e desde que não se pode afirmar um ou [[lexico:o:outro:start|outro]] dos aspectos da realidade, sem afirmar essa realidade como subsistente em si mesma — como ser e como existência. *[[lexico:n:nota:start|nota]]: Gredt opõe o realismo natural (que não é o realismo ingênuo) ao idealismo e ao realismo critico. Realismus naturalis integralis est doctrina secundum quam immediate cognoscimus obiecta transsubiectiva prout in se sunt etiam secundum qualitates immediate sensibiles. Realismus igitur naturalis opponitur tum idealismo tum realismo critico (illationismo) tum doctrinae corum qui negant obicctivitatem formalem qualitatum sensibüium (interpretationhmo). Realismus naturalis a quibusdam vocatur perceptionismus, [[lexico:q:quem:start|quem]] opponunt conceptionismo, [[lexico:q:quo:start|quo]] nomine complectuntur tum idealismum tum realismum criticum. — "Elementa Philosophiae Aristotelico-Thomisticae", art. 695 E. Quinta, e também "De Cognitione Sensuum Externorum" (Unsere Aussenwelt) Innsbruck, 1921, Roma 1924.* Historicamente, estas três atitudes representam e acompanham o gradual declínio do [[lexico:h:homem:start|homem]] [[lexico:r:religioso:start|religioso]] para o homem [[lexico:p:politico:start|político]] e deste para o homem econômico. Mas isto não significa que as atitudes da filosofia tenham uma [[lexico:e:explicacao:start|explicação]] histórica, porque o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] da filosofia são os [[lexico:p:primeiros-principios:start|primeiros princípios]] da Inteligência, não susceptíveis de transformações históricas, pelo que se vê que a ciência progride sempre, mas a filosofia gira sempre em torno dos mesmos problemas. (...) A [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] que há entre o realismo e as demais sistematizações da [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] é constituída primacialmente pelo [[lexico:f:fato:start|fato]] de que o realismo descobre e os demais sistemas forjam a realidade. Forjam filosoficamente a realidade e depois a forjam também cientificamente, substituindo os mitos das primitivas religiões pelos mitos das fórmulas científico-matemáticas que são, uns e outros, tomados em si mesmos, apenas mitos, [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]] que a [[lexico:p:principio:start|princípio]] querem apenas traduzir e depois querem também constituir a realidade, o ser. Sob este [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]], tão válida é, para traduzir atitudes diante da [[lexico:v:vida:start|vida]], a [[lexico:m:mitologia:start|mitologia]] pré-lógica, como as fórmulas das ciências contemporâneas; e ainda, os símbolos míticos encerram realidades concretas, enquanto os símbolos científicos encerram apenas abstrações. O [[lexico:a:abstracionismo:start|abstracionismo]] racionalista (que em tudo se distingue da [[lexico:a:abstracao:start|abstração]], qual a entendiam os clássicos) [[lexico:e:esse:start|esse]] abstracionismo é que caracteriza a [[lexico:a:atitude:start|atitude]] do homem contemporâneo perante o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] e a vida, enquanto um largo subjetivismo caracteriza a sua atitude filosófica; isto até o [[lexico:m:momento:start|momento]] em que a filosofia, erigida numa negação de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] ([[lexico:p:positivismo:start|positivismo]]) procura sair do subjetivismo caindo numa pseudo-objetividade, a qual explica paradoxalmente o sujeito que conhece pelo objeto conhecido, assim como o idealismo supunha [[lexico:e:explicar:start|explicar]] o objeto conhecido pelo sujeito que conhece. Eliminada a existência da realidade [[lexico:e:exterior:start|exterior]] pelo idealismo, anulada a [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] entre o sujeito e o objeto do conhecimento, o materialismo nasce necessariamente da [[lexico:c:corrupcao:start|corrupção]] do idealismo, pela simples inversão das proposições. [[lexico:k:kant:start|Kant]], com o [[lexico:a:apriorismo:start|apriorismo]] das formas da razão, declarou que trazia uma [[lexico:r:revolucao-copernicana:start|revolução copernicana]] ao mundo, fazendo o objeto do conhecimento girar em torno do sujeito e não o sujeito em torno do objeto. A simples inversão desta atitude kantiana gerou o positivismo e formas subalternas do materialismo, que negam a [[lexico:a:autonomia:start|autonomia]] do sujeito cognoscente, considerando-o um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] qualquer da [[lexico:n:natureza:start|natureza]], um ponto de cruzamento de leis químicas, físicas, biológicas e sociológicas; explicar o homem, previamente esvaziado de toda [[lexico:i:interioridade:start|interioridade]], seria o mesmo que descobrir essas inúmeras leis, das quais ele não é mais do que um ponto de convergência. Por isso, a [[lexico:s:sociologia:start|sociologia]], tal como a via [[lexico:c:comte:start|Comte]], "a mais complexa de todas as ciências", pretendeu durante o século XIX, quando não pretende ainda, substituir a filosofia. Esta [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] da sociologia sobrevive atualmente num [[lexico:e:esforco:start|esforço]] supremo de resistência contra os novos rumos que tomou esta ciência, rumos que farão com que a sociologia se oriente de [[lexico:m:modo:start|modo]] cada vez mais nítido para um [[lexico:s:sentido:start|sentido]] cultural. Mas Augusto Comte, com a "[[lexico:l:lei:start|lei]] dos três estados", não menos famosa do que falsa, pretenderia que a restauração da ontologia, da metafísica, seria o [[lexico:r:regresso:start|regresso]] a uma fase pretérita do [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] [[lexico:h:humano:start|humano]]. O positivismo é uma [[lexico:t:teoria:start|teoria]] eminentemente "progressista", que vê linearmente o desenvolvimento [[lexico:h:historico:start|histórico]], que acredita no aperfeiçoamento [[lexico:i:indefinido:start|indefinido]] da [[lexico:e:especie:start|espécie]] humana, e para os positivistas a metafísica não é senão um produto da [[lexico:f:falta:start|falta]] de ciência, quando, em [[lexico:v:verdade:start|verdade]], o positivismo é que é um produto da falta de filosofia. Para a indigência positivista, um fato só seria explicado filosoficamente, enquanto não o fosse cientificamente. Aos positivistas, nunca foi [[lexico:p:possivel:start|possível]] admitir duas ordens de explicações, uma fenomênica e outra [[lexico:o:ontologica:start|ontológica]], porque uma explicação ontológica seria sempre uma explicação em termos de realidade substancial e o positivismo nega pura e simplesmente o ser. Negado o ser sobram apenas os fenômenos que a ciência deve explicar e explicará porque o seu "[[lexico:p:progresso:start|progresso]]" é indefinido, desde que, no positivismo não se pode pensar em termos de progresso limitado, não se admite a [[lexico:e:essencia:start|essência]] para a existência, nem a [[lexico:p:potencia:start|potência]] para o [[lexico:a:ato:start|ato]]. Por isso [[lexico:n:nada:start|nada]] interessa mais ao positivismo do que as objeções que lhe foram dirigidas por [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] e Max [[lexico:s:scheler:start|Scheler]]. Este [[lexico:u:ultimo:start|último]] observa particularmente que as possibilidades do desenvolvimento têm um [[lexico:l:limite:start|limite]] e chegam ao seu [[lexico:f:fim:start|fim]] ([[lexico:w:wesen:start|Wesen]] und Formen der Sympathie). — Não há um progresso indefinido, mas ao contrário, se há um progresso, esse é [[lexico:b:bem:start|Bem]] definido, limita-se por todas as partes. O que significa que o ato está em [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a potência e a essência com a existência. De fato, o positivismo, querendo tudo explicar pelos conhecimentos científicos, positivos, começa acreditando nas leis científicas abstraídas de fenômenos que se repetem, e depois pretende estender o domínio dessas leis e por [[lexico:m:meio:start|meio]] delas explicar a constante violação da [[lexico:r:repeticao:start|repetição]] pelo progresso, o qual é a quebra permanente da repetição, porque se houvesse repetição não haveria progresso. Assim, as leis científicas não podem explicar o progresso e quando querem explicá-lo incorrem naquele [[lexico:a:absurdo:start|absurdo]] tão bem indicado por [[lexico:b:bergson:start|Bergson]] e segundo o qual a ciência, com seu [[lexico:m:modelo:start|modelo]] físico-matemático, pretende reconstruir o todo com o fragmento das partes, explicar a [[lexico:e:evolucao:start|evolução]] pelo evoluído e o vivo pelo inerte. Por outro lado, não só a ontologia realista não poderá ser nunca invalidada pela ciência, porque a ciência atinge os fenômenos e não o ser substancial, como também, as mesmas explicações científicas, longe de restringir, dilatam o [[lexico:c:campo:start|campo]] da filosofia em seus vários ramos extra-ontológicos. O papel da filosofia não é, [[lexico:c:como-se:start|como se]] pensou largamente, cobrir as lacunas não ainda preenchidas pela ciência. Porque, quanto mais a ciência resolver os seus problemas, os quais sempre resultam de problemas anteriores, novos problemas surgirão, porque os problemas científicos surgem numa progressão geométrica, à [[lexico:m:medida:start|medida]] em que são resolvidos. E muitas vezes, quando a ciência pretende substituir a filosofia, como sucede com a [[lexico:f:fisica:start|Física]] Teórica, a ciência se torna uma nova falsa filosofia, afastando-se completamente da realidade, como se afastam as fórmulas da Física Teórica, que pretendem reduzir a existência concreta a um [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]]. E por outro lado, se a vida fosse uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] físico-química, se pudesse subordinar-se ao [[lexico:d:determinismo:start|determinismo]] das leis da [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]], então talvez a ciência pudesse algum dia explicar a vida, porque então o seu [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]] seria em tudo [[lexico:s:semelhante:start|semelhante]] ao da [[lexico:m:materia:start|matéria]] inorganizada e morta; e a vida não seria vida, mas [[lexico:m:morte:start|morte]]. E o conhecimento científico-matemático, longe de esgotar em ato a potência das [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] cognitivas, não é senão uma das formas em que se exprime a inteligência, quando endereçada para a consideração das propriedades físicas do ser, voltando toda a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] para os acidentes quantitativos da substância. E ademais, se o mundo [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]], do qual as ciências particulares extraem os seus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]], é [[lexico:d:dado:start|dado]] — segundo a [[lexico:o:observacao:start|observação]] de Bergson — pelo sólido inorganizado; se o [[lexico:e:evolucionismo:start|evolucionismo]], o positivismo e o materialismo entendem que a inteligência não é uma faculdade do [[lexico:e:espirito:start|espírito]], mas apenas um produto histórico das funções orgânicas, gerado pela evolução e se essa evolução é uma experiência sobre o sólido inorganizado — como poderão fugir essas teorias à conclusão bergsoniana de que a inteligência é apenas um [[lexico:i:instrumento:start|instrumento]] de [[lexico:a:acao:start|ação]] e não de [[lexico:e:especulacao:start|especulação]]? De onde, todo aquele que adota as teorias positivistas, evolucionistas e materialistas tem como única, irremediável solução, o [[lexico:i:irracionalismo:start|irracionalismo]] bergsoniano, que é, realmente, o produto final, a conclusão inevitável e depurada de todo pensamento evolucionista. E se a inteligência, ou antes, o matematismo, conhece unicamente o mundo da [[lexico:e:extensao:start|extensão]], da [[lexico:q:quantidade:start|quantidade]], do sólido inorganizado, de que modo poderá [[lexico:t:ter:start|ter]] a pretensão de aplicar suas "leis" científicas ao mundo organizado e vivo? — Esta última pretensão, absurda do ponto de vista do realismo [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]], pareceu entretanto muito natural, em larga escala, ao pensamento contemporâneo, desde que esse pensamento começou pela negação verbal do ser substancial (porque de jato essa negação é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]]) e viu no mundo real apenas uma [[lexico:s:serie:start|série]] de fenômenos, O [[lexico:f:fenomenismo:start|fenomenismo]], frequentemente acusado em [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]], [[lexico:r:renouvier:start|Renouvier]], [[lexico:s:stuart-mill:start|Stuart Mill]], [[lexico:t:taine:start|Taine]], [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]] e outros, na verdade está [[lexico:i:implicito:start|implícito]] em toda a filosofia contemporânea, a partir de Kant; e toda a ciência contemporânea, estendendo ao mundo do inextenso as leis matemáticas deduzidas da experiência sobre o extenso, se apoia igualmente no fenomenismo absoluto, implícito, ou declarado. Este fenomenismo, que resulta da [[lexico:v:visao:start|visão]] horizontal da realidade convertida em [[lexico:p:puro:start|puro]] [[lexico:v:vir-a-ser:start|vir-a-ser]], com a exclusão teórica do ser substancial, é bem [[lexico:t:tipico:start|típico]] do século passado, quando a extraordinária floração das ciências particulares e seus resultados práticos, relegaram ao [[lexico:p:plano:start|plano]] do [[lexico:e:esquecimento:start|esquecimento]] a aplicação dos primeiros princípios da faculdade de inteligir a realidade. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}