===== PROBLEMA DO OUTRO ===== (in. Problem of others; fr. Problème de l’autre; al. Problem von fremden Ichen; it. [[lexico:p:problema|problema]] dell’altró). Na [[lexico:f:filosofia-moderna|filosofia moderna]] e contemporânea, essa [[lexico:e:expressao|expressão]] indica o problema da [[lexico:e:existencia|existência]] de outros eus ([[lexico:e:espiritos|espíritos]] ou pessoas), independentes do [[lexico:e:eu|eu]] que formula o problema. [[lexico:e:esse|esse]] problema nasce de dois pontos de vista diferentes, mas vinculados por alguns pressupostos comuns. O primeiro é o do [[lexico:i:idealismo|Idealismo]] romântico segundo o qual, sendo a [[lexico:r:realidade|realidade]] um [[lexico:p:principio|Princípio]] [[lexico:i:infinito|infinito]] e [[lexico:u:universal|universal]] (p. ex., o Eu [[lexico:a:absoluto|absoluto]] de [[lexico:f:fichte|Fichte]]), é preciso [[lexico:v:ver|ver]] de que [[lexico:m:modo|modo]] ela se rompe ou se multiplica na [[lexico:d:diversidade|diversidade]] dos eus singulares. O segundo é o [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista genericamente idealista e espiritualista, segundo o qual originaria-mente é [[lexico:d:dado|dado]] a cada um de nós somente o eu e as suas experiências psíquicas, dentre as quais algumas (uma [[lexico:p:parte|parte]] apenas) se refeririam a outros indivíduos. Fichte respondeu ao primeiro problema, em Doutrina [[lexico:m:moral|moral]] (1798), afirmando o [[lexico:c:carater|caráter]] originário da [[lexico:i:ideia|ideia]] do [[lexico:d:dever|dever]], da qual deriva o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] dos outros eus. A ideia do dever é a [[lexico:a:autodeterminacao|autodeterminação]] originária do eu, mas ela [[lexico:n:nao|não]] poderia [[lexico:s:ser|ser]] realizada se não existissem outros eus, outros sujeitos em face dos quais, somente, a ideia do dever pode [[lexico:t:ter|ter]] sua [[lexico:d:determinacao|determinação]] e, portanto, [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de realização. Portanto, para Fichte, a realidade dos outros eus é um [[lexico:p:postulado|postulado]] moral: a existência dos outros eus deverá ser admitida e reconhecida, se o eu quiser realizar concretamente a sua [[lexico:m:moralidade|moralidade]] (Sittenlebre, § 18). Com algumas variantes, essa concepção foi retomada por outros filósofos, como p. ex. por Riehl em seu livro sobre o [[lexico:c:criticismo|criticismo]] (1886-87), e por [[lexico:c:cohen|Cohen]], em [[lexico:e:etica|Ética]] da [[lexico:v:vontade|vontade]] pura (1904); este [[lexico:u:ultimo|último]] deduz a existência das pessoas em [[lexico:g:geral|geral]] do caráter jurídico e das funções públicas do [[lexico:h:homem|homem]], de modo que a [[lexico:m:multiplicidade|multiplicidade]] dos eus só existiria como multiplicidade de "pessoas jurídicas". Por [[lexico:o:outro|outro]] lado, o ponto de vista segundo o qual o eu só conhece de modo [[lexico:i:imediato|imediato]] a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e seus estados interiores, ou seja, o ponto de vista do [[lexico:a:acesso|acesso]] privilegiado ao [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] interior do eu (v. [[lexico:c:consciencia|consciência]]), dá [[lexico:o:origem|origem]] ao problema de se [[lexico:s:saber|saber]] como uma parte da [[lexico:e:experiencia|experiência]] do eu pode referir-se a outro eu, e ao problema ainda mais sério de saber que [[lexico:g:garantia|garantia]] essa [[lexico:r:referencia|referência]] oferece em favor da existência efetiva do outro eu. Para responder a esses problemas foram formuladas duas teorias. 1) A existência dos outros seria inferida por um "[[lexico:j:juizo|juízo]] de [[lexico:a:analogia|analogia]]" a partir das percepções que nos revelam movimentos análogos àqueles por [[lexico:m:meio|meio]] dos quais exprimimos nosso [[lexico:p:proprio|próprio]] eu. Mas esta [[lexico:t:teoria|teoria]], pertencente à [[lexico:p:psicologia|psicologia]] associacionista, é desmentida pelo [[lexico:f:fato|fato]] de que a [[lexico:c:crenca|crença]] na existência dos outros seres animados também pode ser encontrada nos animais e nas crianças, que são incapazes de juízos analógicos. 2) A segunda teoria postula um [[lexico:o:orgao|órgão]] específico para o conhecimento da existência do outro, como p. ex. uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:i:intuicao|intuição]] afetiva ([[lexico:e:einfuhlung|Einfühlung]]), que nos poria em [[lexico:r:relacao|relação]] com o que está [[lexico:a:alem|além]] das manifestações corpóreas do outro, com a [[lexico:a:alma|alma]] do outro (cf., p. ex., Th. Lipps, Aesthetik, I ; 2a ed., 1914, p. 106 ss.). Mas o recurso a órgãos desta espécie só faz reduzir a existência de outros espíritos a [[lexico:o:objeto|objeto]] de uma crença injustificável, logo [[lexico:i:irracional|irracional]]. Na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] contemporânea, a partir da [[lexico:o:obra|obra]] de [[lexico:s:scheler|Scheler]], [[lexico:e:essencia|Essência]] e [[lexico:f:forma|forma]] da [[lexico:s:simpatia|simpatia]] (1923), o [[lexico:p:pressuposto|pressuposto]] subjetivista do problema mostrou-se cada vez mais frágil; e foi também atacado pela psicologia contemporânea, com base em observações experimentais. Scheler observou que não existe nenhum privilégio [[lexico:o:ontologico|ontológico]] ou metafísico a favor dos [[lexico:p:pensamentos|Pensamentos]] ou dos sentimentos que o eu chama de "meus". Meu [[lexico:p:pensamento|pensamento]] me é dado como "meu" do mesmo modo como o pensamento de outro me é dado como pensamento "alheio": esse é o caso comuníssimo e [[lexico:n:normal|normal]], em que compreendemos uma [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] qualquer que nos é feita. Entre o meu e o alheio há sempre uma conexão estreitíssima, e os dois determinam-se e condicionam-se reciprocamente, sem que as respectivas esferas se deixem jamais fixar rigidamente, como [[lexico:p:prova|prova]] o fato de que muitas vezes nós não sabemos dizer se certa experiência psíquica vem de nós mesmos ou de outros (Sympathie, III, cap. III). Isto equivale a negar o caráter [[lexico:p:pessoal|pessoal]] e rigidamente [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] do Eu e a reconhecer que, a partir de sua [[lexico:c:constituicao|constituição]] e em todas as suas manifestações, ele se move numa rede de [[lexico:r:relacoes|relações]] intersubjetivas que o constituem e no qual estão recortadas as esferas correlativas do "meu" e do "teu". Este ponto de vista é frequente na filosofia contemporânea, encontrando-se mesmo em escolas diferentes. Mead afirma que "o homem só se torna um eu na sua experiência na [[lexico:m:medida|medida]] em que sua [[lexico:a:atitude|atitude]] suscita uma atitude correspondente nas relações sociais". Nesse caso, [[lexico:a:autoconsciencia|autoconsciência]], ou eu, outra [[lexico:c:coisa|coisa]] não é senão a atitude generalizada dos outros em relação a nós. "Assumimos o papel daquilo que poderia ser [[lexico:c:chamado|chamado]] de outro generalizado e, ao fazermos isto, aparecemos como objetos sociais, como eu" (Phil. of the Present, p. 185). Por outro lado, Carnap expressou ponto de vista bastante [[lexico:p:proximo|próximo]] deste, ao insistir no caráter secundário e derivado da [[lexico:d:distincao|distinção]] entre o eu e o tu. "Mesmo a caracterização dos [[lexico:e:elementos|elementos]] fundamentais do nosso [[lexico:s:sistema|sistema]] [[lexico:c:constitutivo|constitutivo]] como psiquicamente próprios, isto é, como ‘psíquicos’ e como ‘meus’, só adquire [[lexico:s:significado|significado]] com a constituição dos campos do não-psíquico (contraposto ao [[lexico:p:psiquico|psíquico]]) e do ‘tu’" (Der logische Aufbau der Welt, § 65). Estas observações demonstram que é cada vez mais difícil sustentar pontos de partida solipsistas, que pretendam fundar-se em dados pertencentes ao âmbito da consciência pessoal. E mesmo uma filosofia como a de [[lexico:s:sartre|Sartre]], para a qual a outra existência é tal porquanto não é minha, de tal modo que a relação interpessoal é uma relação de [[lexico:n:negacao|negação]] recíproca e só a negação é "a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] constitutiva do ser outro" (L’être et le néant, p. 285), apresenta-se como um transcender do [[lexico:c:cogito|cogito]]. "O que, por [[lexico:f:falta|falta]] de melhor expressão, chamamos de cogito da existência do outro, confunde-se com o meu próprio cogito. É preciso que o cogito me lance fora dele, sobre o Outro, assim como me lançou fora dele sobre o [[lexico:e:em-si|em-si]], e isto não me revelando uma estrutura minha [[lexico:a:a-priori|a priori]], que apontaria para o outro igualmente a priori, mas descobrindo em mim a [[lexico:p:presenca|presença]] concreta e indubitável deste ou daquele outro [[lexico:c:concreto|concreto]], como já me revelou a minha existência inconfrontável, [[lexico:c:contingente|contingente]] e, todavia, necessária e concreta" (Ibid., pp. 308-09). Analogamente, para [[lexico:h:husserl|Husserl]], a experiência do outro é uma espécie de Einfühlung ou [[lexico:e:empatia|empatia]], em [[lexico:v:virtude|virtude]] da qual o outro se constitui por "[[lexico:a:apresentacao|apresentação]]" como "um outro eu mesmo" (Cart. Med., § 52). O próprio eu age de tal modo que "uma modificação [[lexico:i:intencional|intencional]] de si mesmo e da sua primordialidade chegue à [[lexico:v:validade|validade]] sob o título de [[lexico:p:percepcao|percepção]] da estraneidade, percepção de um outro, de um outro eu" ([[lexico:k:krisis|krisis]], § 54 b).