===== PROBLEMA ===== Nem toda [[lexico:q:questao:start|questão]] se denomina problema, mas tão-só aquela que, por [[lexico:c:causa:start|causa]] da dificuldade que lhe é intrínseca, [[lexico:n:nao:start|não]] logra [[lexico:s:ser:start|ser]] resolvida sem especial [[lexico:e:esforco:start|esforço]]. A exata [[lexico:p:posicao:start|posição]] de um problema assume importância [[lexico:c:capital:start|capital]] para o [[lexico:p:progresso:start|progresso]] da [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], especialmente da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Deve ele indubitavelmente referir-se a um [[lexico:d:dado:start|dado]], ou então, numa fase ulterior da [[lexico:i:investigacao:start|investigação]], ao já conhecido e, a partir daí, desenvolver as questões resultantes das obscuridades que envolvem o [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. A elaboração [[lexico:m:metodica:start|metódica]] de um problema requer, [[lexico:a:alem:start|além]] de uma clara empostação da questão, que se ponham em destaque, com nitidez, as razões pró e contra as aporias. Já [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] acentua (no início do Livro III da [[lexico:m:metafisica:start|Metafísica]]) a [[lexico:s:suma:start|suma]] importância deste oportuno "duvidar" ([[lexico:d:duvida:start|dúvida]]) para toda [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] científica. Assim como a empostação exata e fecunda do problema favorece a investigação científica, assim também as falsas empostações de um problema podem gerar confusão e desorientação. São sumamente inócuos aqueles pseudoproblemas que, por detrás de [[lexico:p:palavras:start|palavras]] altissonantes, ocultam questões que, depois de claramente conhecidas, sem dificuldade se resolvem, quer por ser trivial a solução, quer por carecerem de [[lexico:s:sentido:start|sentido]]. Muito mais perigosas são as falsas empostações de problemas, que tacitamente partem de uma [[lexico:p:pressuposicao:start|pressuposição]] errônea e fazem enveredar a investigação por um [[lexico:c:caminho:start|caminho]] errado. Há problemas que, sem dúvida, encerram uma [[lexico:p:possivel:start|possível]] empostação da questão, mas que, não obstante, são infecundos, porque, p. ex., a solução deles supera radicalmente as forças humanas, ou porque faltam ainda os necessários trabalhos preparatórios, ou, finalmente, porque a solução, embora possível, devido à sua diminuta importância, não compensa o esforço que se lhes dedica. — De Vries. (gr. problema; lat. Problema; in. Problem; fr. Problème, al. Problem; it. Problema). Em [[lexico:g:geral:start|geral]], qualquer [[lexico:s:situacao:start|situação]] que inclua a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de uma [[lexico:a:alternativa:start|alternativa]]. O problema não tem necessariamente [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]], não é redutível à dúvida, embora, em certo sentido, a dúvida também seja um problema. Trata-se mais do caráter de uma situação que não tem um [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:u:unico:start|único]] ou que inclui alternativas de qualquer [[lexico:e:especie:start|espécie]]. problema é a declaração de uma situação desse [[lexico:g:genero:start|gênero]]. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de problema foi elaborada pela [[lexico:m:matematica:start|matemática]] antiga, que a distinguiu da noção de [[lexico:t:teorema:start|teorema]]. Por problema entendeu-se uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] que [[lexico:p:parte:start|parte]] de certas condições conhecidas para buscar [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] desconhecida. Alguns geômetras (provavelmente os da [[lexico:e:escola:start|escola]] platônica) acreditavam que sua ciência era constituída essencialmente por problemas; outros, por teoremas ([[lexico:p:proclo:start|Proclo]], Com. ao I de [[lexico:e:euclides:start|Euclides]], 11, 7-81, 22, Friedlein). Aristóteles definia o problema como um procedimento dialético que tende à [[lexico:e:escolha:start|escolha]] ou à [[lexico:r:recusa:start|recusa]], ou também à [[lexico:v:verdade:start|verdade]] e ao [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]]" (Top., I, II, 104 b), no qual as palavras "escolha" ou "recusa" significam as alternativas que se apresentam aos problemas de [[lexico:o:ordem:start|ordem]] prática, enquanto "verdade" e "conhecimento" designam as alternativas teóricas. Aristóteles exemplifica sua [[lexico:d:definicao:start|definição]] dizendo que pertence à primeira espécie o problema de [[lexico:s:saber:start|saber]] se o [[lexico:p:prazer:start|prazer]] é um [[lexico:b:bem:start|Bem]] ou não; à segunda espécie, o problema de saber se o [[lexico:m:mundo:start|mundo]] é [[lexico:e:eterno:start|eterno]] (Ibid., 104 b 8). Visto que, onde existem problema também existem silogismos contrários, os problema, segundo Aristóteles, só podem nascer quando não há [[lexico:d:discurso:start|discurso]] concludente: em outros termos, o problema pertence ao domínio da [[lexico:d:dialetica:start|dialética]], isto é, dos discursos prováveis, e não ao da ciência. Seja como for, para Aristóteles o problema conserva o caráter de [[lexico:i:indeterminacao:start|indeterminação]] que lhe é dado pela alternativa. No [[lexico:u:uso:start|uso]] matemático do [[lexico:t:termo:start|termo]], porém, [[lexico:e:esse:start|esse]] caráter foi-se atenuando. A [[lexico:l:logica:start|lógica]] medieval desprezara a [[lexico:a:analise:start|análise]] e a definição dessa noção, e quando ela volta a atrair a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] dos lógicos, no séc. XVII, o significado que eles lhe atribuem é extraído da matemática. Assim, Jungius diz que "o problema ou a proposição [[lexico:p:problematica:start|problemática]] é uma proposição principal enunciando que alguma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] pode ser feita, mostrada ou achada" (Logica hamburgensis, 1638, IV, 11, 7). [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]] notava que "por problema os matemáticos entendem as questões que deixam em branco uma parte da proposição" (Nouv. ess., IV, II, 7). E foi recorrendo ao uso matemático que [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] definiu: o problema como "uma proposição prática demonstrativa", entendendo por "prática" a proposição "com a qual se afirma que alguma coisa pode ou deve ser feita" e excluindo explicitamente o significado aristoté-lico do termo (Log., §§ 266, 276). Não muito diferente é a definição de [[lexico:k:kant:start|Kant]]: "problema são proposições demonstráveis que exigem provas ou expressam uma [[lexico:a:acao:start|ação]] cujo [[lexico:m:modo:start|modo]] de execução não é imediatamente certo" (Logik, § 38). Também no [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] [[lexico:m:moderno:start|moderno]] a noção de problema foi e continua sendo das mais negligenciadas. Embora falem o [[lexico:t:tempo:start|tempo]] [[lexico:t:todo:start|todo]] em problema e achem que é sua [[lexico:f:funcao:start|função]] solucionar certo [[lexico:n:numero:start|número]] deles, especialmente dos definidos como "máximos", os filósofos não se preocuparam muito em analisar a noção correspondente. Na [[lexico:m:maioria-das-vezes:start|maioria das vezes]] o problema foi considerado como [[lexico:c:condicao:start|condição]] ou situação subjetiva e confundido com a dúvida. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:m:mach:start|Mach]] o definia neste sentido, como "a discordância dos [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] entre si" (Erkenntniss und lntum, cap. XV; trad. fr., pp. 252-53). Só recentemente foi reconhecido o caráter de indeterminação objetiva, que define o problema: isto aconteceu na Lógica(1959) de [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], para [[lexico:q:quem:start|quem]] o problema é a "[[lexico:p:propriedade:start|propriedade]] lógica primária". O problema é a situação que constitui o [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida de qualquer [[lexico:i:indagacao:start|indagação]], ou seja, a situação indeterminada. "A situação indeterminada torna-se problemática no próprio [[lexico:p:processo:start|processo]] de sujeição à indagação. Decorre de [[lexico:c:causas:start|causas]] reais, como acontece, p. ex., no desequilíbrio [[lexico:o:organico:start|orgânico]] da fome. [[lexico:n:nada:start|nada]] há de intelectual ou cognitivo na [[lexico:e:existencia:start|existência]] de situações desse gênero, a não ser que elas são a condição necessária para operações ou indagações cognitivas. O primeiro resultado do [[lexico:f:fato:start|fato]] de promover a indagação é que a situação é reconhecida como problemática (Logic, cap. VI, trad. it., p. 161). A [[lexico:e:enunciacao:start|enunciação]] do problema permite a [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] de uma solução possível, que é a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] — a ideia exige o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] das [[lexico:r:relacoes:start|relações]] inerentes ao seu significado, que é o [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]]. Finalmente, a solução [[lexico:r:real:start|real]] é a [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] da situação inicial, em que se chega a uma situação unificada em suas relações e distinções constitutivas. Análise análoga a esta, em sua [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] fundamental, foi feita por G. Boas, que define o problema como "a [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] de um [[lexico:d:desvio:start|desvio]] da [[lexico:n:norma:start|norma]]" (The Inquiring Mind, 1959, p. 56). Contudo, à análise de Dewey cabe acrescentar uma determinação fundamental: o [[lexico:r:reconhecimento:start|reconhecimento]] do fato de que um problema não é eliminado ou destruído pela sua solução. Um "problema resolvido" não é um problema que não se apresentará mais como tal, mas é um problema que continuará [[lexico:a:a-se:start|a se]] apresentar com [[lexico:p:probabilidade:start|probabilidade]] de solução. A [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] de um medicamento que cure uma [[lexico:d:doenca:start|doença]] é a solução de um problema, mas nem por isso o problema está eliminado, pois a doença continuará a ocorrer; portanto, o que a solução permite é, em certos limites, resolver o problema todas as vezes que ele se apresente. Com base neste caráter do problema, fala-se da [[lexico:p:problematicidade:start|problematicidade]] dos campos em que se apresenta o problema Neste sentido, o problema é diferente não só da dúvida (que, uma vez resolvida, está eliminada e é substituída pela [[lexico:c:crenca:start|crença]]), mas também da [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]], que, uma vez respondida, perde o significado. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}