===== PRINCÍPIO DE NÃO-CONTRADIÇÃO ===== VIDE [[lexico:c:contradicao|contradição]]; [[lexico:p:principio-de-contradicao|princípio de contradição]] E sob que [[lexico:f:formula|fórmula]] convém exprimir este [[lexico:p:principio|princípio]]? [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] nos propõe esta: "É [[lexico:i:impossivel|impossível]] que o mesmo [[lexico:a:atributo|atributo]] pertença e [[lexico:n:nao|não]] pertença ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] ao mesmo [[lexico:s:sujeito|sujeito]] soba mesma [[lexico:r:relacao|relação]]". O que [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]] traduz: Impossibile est eidem simul inesse et non inesse idem secundum idem. E que se traduz também frequentemente por esta fórmula equivalente: "É impossível afirmar e negar ao mesmo tempo a mesma [[lexico:c:coisa|coisa]] soba mesma relação." Assim formulado, o [[lexico:p:principio-de-nao-contradicao|princípio de não-contradição]] é diretamente [[lexico:r:relativo|relativo]] às [[lexico:o:operacoes-do-espirito|operações do espírito]], [[lexico:a:atribuicao|atribuição]] e não atribuição, [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] e [[lexico:n:negacao|negação]] das quais declara a [[lexico:i:incompatibilidade|incompatibilidade]] em certas condições. Mas se observarmos que o [[lexico:e:espirito|espírito]] julgando é manifestamente determinado pelo [[lexico:r:real|real]] que lhe serve de [[lexico:o:objeto|objeto]] — por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], se julgo que o [[lexico:c:ceu|céu]] é azul, é porque vejo que é realmente assim — será mais conforme com a própria [[lexico:e:estrutura|estrutura]] do [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] formular o princípio de não-contradição em relação ao seu conteúdo [[lexico:o:objetivo|objetivo]]. Dir-se-á então: "O [[lexico:s:ser|ser]] não pode não ser" — "[[lexico:o:o-que-e|o que é]] não é o que não é" [[lexico:e:ens|ens]] non est non ens. Em [[lexico:m:metafisica|metafísica]], onde nos colocamos no [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista objetivo do ser, é evidentemente esta fórmula objetiva que deve [[lexico:t:ter|ter]] nossas preferências. Tentemos [[lexico:v:ver|ver]] de mais perto como o espírito é levado a reconhecer este princípio. Tal princípio resulta evidentemente do relacionamento de duas noções, a de ser e a de [[lexico:n:nao-ser|não-ser]]. A [[lexico:n:nocao-de-ser|noção de ser]] não é outra coisa senão este primeiro [[lexico:d:dado|dado]] da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]] que já nos é familiar. Se considerarmos [[lexico:a:agora|agora]] a [[lexico:n:nocao|noção]] de não-ser, observaremos imediatamente que não contém [[lexico:n:nada|nada]] a mais de [[lexico:p:positivo|positivo]] do que a noção precedente de ser; difere da primeira devido a uma pura [[lexico:a:atividade|atividade]] intelectual, a negação, [[lexico:r:reacao|reação]] absolutamente original do espírito, que se define [[lexico:p:por-si|por si]] mesma: [[lexico:e:eu|eu]] ponho o ser, em seguida eu o nego, e é assim que obtenho a noção ou a pseudo-noção de não-ser. Se agora, aproximo as duas noções que acabo de distinguir, constato que elas não podem convir, e esta incompatibilidade se impõe a mim como algo de imediatamente percebido, como um dado [[lexico:p:primitivo|primitivo]]: o ser, de [[lexico:m:modo|modo]] algum e enquanto tal, é não-ser. Há [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre estas duas noções, e daí resulta — reencontramos a primeira formulação do princípio — que é impossível afirmar e negar ao mesmo tempo e sob a mesma relação a mesma coisa, pois isto seria identificar ser e não-ser, o que acabamos de recusar de modo [[lexico:a:absoluto|absoluto]]. Em tudo isso, intervieram uma noção positiva, a de ser, duas [[lexico:a:atividades|atividades]] negativas sucessivas do espírito, e a [[lexico:v:visao|visão]] objetiva da incompatibilidade finalmente proclamada. É [[lexico:p:possivel|possível]] dar uma [[lexico:j:justificacao|justificação]] diversa daquela que traz consigo essa visão objetiva do nosso princípio? É evidentemente certo que não se pode sonhar com uma [[lexico:d:demonstracao|demonstração]] direta, uma vez que tal demonstração se apoiaria em uma [[lexico:v:verdade|verdade]] anteriormente reconhecida, o que certamente não pode ter [[lexico:l:lugar|lugar]] aqui, já que nada é anterior ao ser. Mas não se poderia [[lexico:f:falar|falar]] de uma [[lexico:d:demonstracao-indireta|demonstração indireta]] ou de uma [[lexico:r:refutacao|refutação]] por [[lexico:a:absurdo|absurdo]]? De modo [[lexico:g:geral|geral]], a refutação por absurdo consiste em mostrar que, sustentando uma certa [[lexico:t:tese|tese]], se é levado necessariamente à contradição. É fácil ver que sob esta [[lexico:f:forma|forma]] comum a refutação por absurdo é aqui sem [[lexico:s:significacao|significação]], uma vez que é precisamente isto que é afirmado pelo adversário, isto é, a [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de contradição. Nesse caso, não é à contradição que é preciso levar o adversário. mas ao [[lexico:s:silencio|silêncio]]. Afirmar a [[lexico:i:identidade|identidade]] dos contraditórios é não ter mais nenhum objeto distinto de [[lexico:p:pensamento|pensamento]], é em [[lexico:r:realidade|realidade]] não [[lexico:p:pensar|pensar]] em nada; pois desde que se quer pensar em algo, é preciso que se tenha diante de si um objeto determinado. No [[lexico:m:momento|momento]] em que o adversário concede que pensa em algo de determinado, que dá uma significação a uma [[lexico:p:palavra|palavra]], reconhece por isto mesmo que o ser não é contraditório, e se ele mantém por um [[lexico:p:puro|puro]] artifício verbal sua tese da contradição do ser, não tem mais nenhum objeto distinto de pensamento. A [[lexico:a:alternativa|alternativa]] é aqui pensar em [[lexico:a:alguma-coisa|alguma coisa]] ou não pensar. Se quereis pensar, vos é [[lexico:n:necessario|necessário]] fixar um objeto determinado, isto é, reconhecer o [[lexico:v:valor|valor]] do ser. Qual é, portanto, a [[lexico:e:extensao|extensão]] ou o [[lexico:c:campo|campo]] de aplicação deste princípio de não-contradição? Uma vez que tem sua [[lexico:r:raiz|raiz]] na noção de ser, considerada nela mesma e sem nada de restritivo, ele deve valer para todas as modalidades do ser, para [[lexico:t:todo|todo]] o ser, e correlativamente para todo pensamento se reportando ao ser. Mas que se tome cuidado, os seres que nos são dados, múltiplos e cambiantes, não são plenamente ser: sob certos aspectos são ser, enquanto que sob outros são não-ser. O princípio de não-contradição só se aplica a eles sob certos pontos de vista e dentro de certos limites: na [[lexico:m:medida|medida]] em que serão ser, não serão não-ser; tal princípio somente vale de modo absoluto para o ser absoluto, para [[lexico:d:deus|Deus]].