===== PRIMUS MOTOR ===== Tomemos o [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:e:exemplo|exemplo]] dos livros IX e XII da [[lexico:m:metafisica|Metafísica]], nos quais [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] nos [[lexico:f:fala|fala]] do motor imóvel. É claro que a [[lexico:q:questao|questão]] [[lexico:n:nao|não]] é simples, porque essa passagem foi tomada, ao longo da [[lexico:h:historia-da-filosofia|História da Filosofia]], como o [[lexico:m:modelo|modelo]] para se [[lexico:p:pensar|pensar]] o [[lexico:e:ente|ente]] supremo, o [[lexico:p:principio|princípio]] das [[lexico:c:coisas|coisas]] e o coroamento da [[lexico:t:totalidade|totalidade]]. E se Aristóteles não tivesse [[lexico:e:escrito|escrito]] aquela [[lexico:o:obra|obra]], à qual estamos presos por uma [[lexico:f:facticidade|facticidade]] impassível e ingênua? Como leitores, intérpretes e autores, por um lado, e como participantes de uma [[lexico:h:historia|história]], de uma [[lexico:c:cultura|cultura]], de uma [[lexico:v:visao-de-mundo|visão de mundo]], por [[lexico:o:outro|outro]], teríamos uma [[lexico:t:tarefa|tarefa]] muito diferente se simplesmente disséssemos que [[lexico:e:esse|esse]] foi apenas o [[lexico:m:modo|modo]] de um grande [[lexico:c:classico|clássico]] dizer algo no seu [[lexico:t:tempo|tempo]], que era algo como o coroamento das questões complexas como [[lexico:o:origem|origem]], [[lexico:m:movimento|movimento]], tempo e perecimento das coisas no [[lexico:m:mundo|mundo]], que para os gregos se regiam pelo [[lexico:e:eterno-retorno|eterno retorno]] do mesmo. Sabemos que [[lexico:t:todo|todo]] o movimento aristotélico é pensado em sua origem como estando amarrado à questão da atração do mais [[lexico:p:perfeito|perfeito]]. E por isso que o mundo se move em direção do motor imóvel, [Hamesse, Jacqueline. Les auctoritates Aristotelis: un florilege medieval. Paris: Publications Universitaires, 1974, p. 137: “Primus motor movet sicut animatur et desideraturi’ (“O primeiro motor move assim como anima e é desejado”).] o qual [[lexico:n:nada|nada]] tem a [[lexico:v:ver|ver]] com o movimento explicado pela [[lexico:f:filosofia-medieval|filosofia medieval]], atrelado ao [[lexico:p:principio-da-causalidade|princípio da causalidade]] eficiente, por [[lexico:c:causa|causa]] da narrativa da [[lexico:c:criacao|criação]]. Em resumo, para uns do nada nada vem e para outros do nada tudo vem por uma [[lexico:c:causa-primeira|causa primeira]]. Não vamos nos ater a discussões filosóficas sobre o que nisso seria defensável. [ErStein2014:23] [...] Consideremos Aristóteles um [[lexico:f:filosofo|filósofo]] empirista que naturalmente escreveu vários livros (de [[lexico:l:logica|Lógica]]) como ferramenta para as suas análises, e que dedicou seus estudos a uma grande variedade de materiais empíricos. Sobrara-lhe, no entanto, um [[lexico:c:campo|campo]] em que percebeu que deveria procurar uma universalidade que não derivava da empiria. É por isso que ele fundou a epistéme zetoumene, a [[lexico:c:ciencia|ciência]] procurada, que trataria das primeiras [[lexico:c:causas|causas]] e do ente enquanto ente juntamente com o einai ([[lexico:s:ser|ser]]). O filósofo não desenvolveu para isso um [[lexico:n:nome|nome]] específico, [[lexico:a:alem|além]] de chamá-la de [[lexico:f:filosofia-primeira|filosofia primeira]]. Não denominou essa ciência nem de [[lexico:o:ontologia|ontologia]] e nem de [[lexico:t:teologia|teologia]]. Diante do movimento, do surgimento e do perecimento do tempo, no entanto, o filósofo se perguntou pelas [[lexico:o:origens|origens]] desses fenômenos. Como as respostas não podiam ser empíricas, porque levariam necessariamente a uma circularidade inaceitável, ele saiu dessa [[lexico:s:situacao|situação]] paradoxal e lançou uma [[lexico:h:hipotese|hipótese]] que o reconduziu para a [[lexico:e:escola|escola]] de seu [[lexico:m:mestre|mestre]] [[lexico:p:platao|Platão]]. Não há uma causa eficiente que inicie o movimento, isto é, pela qual tudo deveria começar do nada. Todas as coisas sublunares são atraídas pelo mais perfeito. É para isso que Aristóteles estabelece a sua [[lexico:t:teoria|teoria]] do motor imóvel. [Ibid., p. 138: “’Primum principium extra se nihil intelligit’ (“O primeiro princípio nada conhece fora de si”).] Mesmo não sendo conhecido, e nada conhecendo das coisas sublunares, ele atua como causa final de todo movimento. Desse modo, bastava Aristóteles definir esse motor imóvel e achar um [[lexico:l:lugar|lugar]] no seu cosmos de esferas. [Ibid., p. 137: “A primo principio dependet caelum et tota natura” (“Do primeiro princípio dependem o céu e toda natureza”).] [ErStein2014:27]