===== PRESTÍGIO ===== O que a era [[lexico:m:moderna|moderna]] pensa do domínio [[lexico:p:publico|público]], após a espetacular ascensão da [[lexico:s:sociedade|sociedade]] à [[lexico:d:dignidade|dignidade]] pública, foi expresso por [[lexico:a:adam-smith|Adam Smith]] quando, com desarmante franqueza, ele mencionou “essa desafortunada [[lexico:r:raca|raça]] de homens comumente chamados homens de letras” para os quais “a [[lexico:a:admiracao|admiração]] pública (...) é sempre uma [[lexico:p:parte|parte]] considerável da recompensa (...), na profissão médica; talvez parte ainda maior na profissão jurídica; e quase toda a recompensa na [[lexico:p:poesia|poesia]] e na [[lexico:f:filosofia|Filosofia]]” . Nessas [[lexico:p:palavras|palavras]] fica evidente que a admiração pública e a recompensa monetária têm a mesma [[lexico:n:natureza|natureza]] e podem substituir uma à outra. A admiração pública é também algo a [[lexico:s:ser|ser]] usado e consumido, e o [[lexico:s:status|status]], como diríamos hoje, satisfaz uma [[lexico:n:necessidade|necessidade]] como o alimento satisfaz outra: a admiração pública é consumida pela vaidade individual da mesma [[lexico:f:forma|forma]] como o alimento é consumido pela fome. Obviamente, desse [[lexico:p:ponto|ponto]] de vista, a [[lexico:p:prova-da-realidade|prova da realidade]] [[lexico:n:nao|não]] está na [[lexico:p:presenca|presença]] pública de outros, mas antes na maior ou menor premência das necessidades, cuja [[lexico:e:existencia|existência]] ou inexistência ninguém pode jamais atestar senão aquele que as sente. E tal como a necessidade de alimento tem sua base demonstrável de [[lexico:r:realidade|realidade]] no [[lexico:p:processo|processo]] vital, é também óbvio que a [[lexico:a:angustia|angústia]] da fome, inteiramente subjetiva, é mais [[lexico:r:real|real]] que a “vanglória” como [[lexico:h:hobbes|Hobbes]] chamava a necessidade de admiração pública. Contudo, ainda que essas necessidades, por algum [[lexico:m:milagre|milagre]] da [[lexico:s:simpatia|simpatia]], fossem compartilhadas por outros, a sua própria futilidade as impediria sempre de estabelecer algo tão sólido e durável como um [[lexico:m:mundo|mundo]] comum. Assim, o que importa não é que haja [[lexico:f:falta|falta]] de admiração pública pela poesia e pela filosofia no mundo [[lexico:m:moderno|moderno]], mas sim que essa admiração não constitui um [[lexico:e:espaco|espaço]] no qual as [[lexico:c:coisas|coisas]] são salvas da [[lexico:d:destruicao|destruição]] pelo [[lexico:t:tempo|tempo]]. Ao contrário, a futilidade da admiração pública, consumida diariamente em doses cada vez maiores, é tal que a recompensa monetária, uma das coisas mais fúteis que existem, pode tornar-se mais “objetiva” e mais real. Em contraste com essa “[[lexico:o:objetividade|objetividade]]” cuja base única é o dinheiro como denominador comum para a satisfação de todas as necessidades, a realidade do domínio público depende da presença simultânea de inúmeros aspectos e perspectivas nos quais o mundo comum se apresenta e para os quais nenhuma [[lexico:m:medida|medida]] ou denominador comum pode jamais ser concebido. Pois, embora o mundo comum seja o local de reunião de todos, os que estão presentes ocupam nele diferentes posições, e, assim [[lexico:c:como-se|como se]] dá com dois objetos, o [[lexico:l:lugar|lugar]] de um não pode coincidir com o de [[lexico:o:outro|outro]]. A importância de ser visto e ouvido por outros provém do [[lexico:f:fato|fato]] de que todos veem e ouvem de ângulos diferentes. É [[lexico:e:esse|esse]] o [[lexico:s:significado|significado]] da [[lexico:v:vida|vida]] pública, em comparação com a qual até a mais fecunda e satisfatória vida familiar pode oferecer somente o prolongamento ou multiplicação de cada [[lexico:i:individuo|indivíduo]], com os seus respectivos aspectos e perspectivas. A [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] da [[lexico:p:privatividade|privatividade]] pode prolongar-se e multiplicar-se na [[lexico:f:familia|família]] e até tornar-se tão forte que o seu [[lexico:p:peso|peso]] se faça sentir no domínio público; mas esse “mundo” familiar jamais pode substituir a realidade resultante da [[lexico:s:soma|soma]] total de aspectos apresentados por um [[lexico:o:objeto|objeto]] a uma [[lexico:m:multidao|multidão]] de espectadores. Somente quando as coisas podem ser vistas por muitas pessoas, em uma variedade de aspectos, sem mudar de [[lexico:i:identidade|identidade]], de [[lexico:s:sorte|sorte]] que os que estão à sua volta sabem que veem identidade na mais completa [[lexico:d:diversidade|diversidade]], pode a realidade do mundo [[lexico:a:aparecer|aparecer]] real e fidedignamente. [ArendtCH, 7]