===== PRESENTE E PASSADO ===== Este «antes», que [[lexico:n:nao:start|não]] é a mais antiga [[lexico:p:presenca:start|presença]] do seu (e do nosso) presente, não no-lo desvela a [[lexico:h:historia:start|História]], pois esta se define precisamente pela sua forçada resignação a deixar o passado fora de si. Isto, que pode parecer paradoxal ou, pelo menos, bastante insólito para [[lexico:q:quem:start|quem]] persiste em considerar a História como [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] do passado, não é insólito nem paradoxal para quem já se acomodou à [[lexico:i:ideia:start|ideia]] que ela se põe fora de si, quando não encalça as pisadas da presença do presente. Antes de prosseguir, tenho de repetir-me, o que não é de mais, pensando que não calcamos, aqui, a solidez da rotina. Dentro desta presença, ou presente a esta presença, há um [[lexico:a:atual:start|atual]], que é presença próxima, e um antigo, que é presença distante, mas ambas as presenças são-no de um presente que não é [[lexico:i:instante:start|instante]] pontual, mas a dilatada in-stância do «antes» no «depois» (repare-se que «antigo» é o latino antiquus ou anticus, e que este deriva de ante). Lastimo; mas não posso mais dispensar-me de explicitar o que está [[lexico:i:implicito:start|implícito]] nesse «presente», cuja presença a História persegue, cuja presença é desvelamento do [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:s:ser:start|ser]] da História. Presente é o [[lexico:h:homem:start|homem]]. Presença do presente é presença do Homem no [[lexico:m:mundo:start|mundo]]; presente que se denuncia pela [[lexico:r:recusa:start|recusa]] de um mundo que, miticamente falando, lhe fora [[lexico:d:dado:start|dado]] com a mesma gratuidade com que um mundo foi dado à águia e à serpente, ao cervo e ao leão. Presente é o Homem. Presente é o Homem que, sobre e contra este mundo dos outros, vai construindo o seu, e que a si próprio se cria, enquanto e porquanto constrói a sua ambiência própria. Presente é o Homem, [[lexico:e:esse:start|esse]] inimigo inexorável da [[lexico:v:vida:start|vida]] sua e de todos os seres viventes. Presente é o Homem, que, só em pensá-la, se faz [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] soberano da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Presente é o Homem, artífice de todos os artifícios, não só dos artifícios de madeira [[lexico:n:natural:start|natural]] das florestas, e de blocos de mármore da montanha, mas também de outros [[lexico:b:bem:start|Bem]] maiores, que são os de um [[lexico:e:espirito:start|espírito]] divorciado da natureza, que se avolumam e agigantam em poderosas redes conceituais. Presente é o Homem, que só se afirma, negando, que só aceita, recusando, que só constrói, destruindo. Presente é o Homem, e a História faz-se presença da positividade do reverso dessa moeda corrente cujo anverso é a [[lexico:n:negacao:start|negação]], a repulsa e a recusa devastadoras. Carregamos nas cores sombrias que tingem a [[lexico:f:figura:start|figura]] da rejeição hominizante, pois, se [[lexico:a:agora:start|agora]] nos voltamos para a presença do passado, fazemo-lo já na [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] de que o passado se constitui desses rejeitos necessários, necessariamente rejeitados para que se abrisse [[lexico:e:espaco:start|espaço]] e [[lexico:t:tempo:start|tempo]] ao [[lexico:p:projeto:start|projeto]] que designamos por «homem-presente à presença do presente», isto é, presente à presença de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], o que, no fundo, equivale a [[lexico:n:nomear:start|nomear]] o projeto da [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]]. Então, sempre é certo que o passado não é [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da História. E que, sendo a historicidade o [[lexico:c:corpo:start|corpo]] vivo da presença do presente, a presença do passado vem a ser aquele [[lexico:l:limite:start|limite]] da presença do presente, de que antes falávamos, sem que pudéssemos designá-lo, ainda, em sua inteira [[lexico:v:verdade:start|verdade]]. Também agora nos é dado acrescentar que o limite não é apenas o «[[lexico:l:lugar:start|lugar]]» da exaustão da presença do presente, e que a exaustão é dupla: onde a presença do presente se exaure, aí se exaure também a presença do passado. O limite é da [[lexico:o:ordem:start|ordem]] dos confins: no mesmo «lugar» confinam as duas presenças, extenuadas. Daí que tão fácil tivesse sido pensar-se que a História tem por objeto o conhecimento do passado: este reside a um passo do antigo, mas esse passo nunca a História o deu, nunca poderá dá-lo, como jamais ninguém dará o passo que transponha a distância para a lonjura, e o agora para o outrora. [EudoroMito:343-344] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}