===== PITÁGORAS ===== Pitágoras nasceu em Samos, ilha da costa jônica, cerca de 570 a.C, e é sem [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] por [[lexico:m:motivos:start|motivos]] ético-religiosos e políticos que se exilou por volta de 530, numa idade mais madura que [[lexico:x:xenofanes:start|Xenófanes]]: o "tirano" Poliorates lançava Samos na conquista brutal da prosperidade e do luxo, indo de encontro assim às velhas tradições de [[lexico:m:misticismo:start|misticismo]] e de [[lexico:a:ascetismo:start|ascetismo]] [[lexico:b:bem:start|Bem]] como ao [[lexico:a:amor:start|amor]] intelectual à [[lexico:o:ordem:start|ordem]] e à [[lexico:m:medida:start|medida]], que marcaram, [[lexico:c:como-se:start|como se]] pode supor, a [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] de Pitágoras ([[lexico:n:nao:start|não]] sem [[lexico:a:analogia:start|analogia]] com a de Xenófanes). Pitágoras se instalou em Crótona, no sul da Itália, onde obteve uma [[lexico:i:influencia:start|influência]] dominante graças à confraria que aí fundou; a maioria das cidades da Grande [[lexico:g:grecia:start|Grécia]] tinha que encontrar um equilíbrio entre forças sociais violentamente opostas e os pitagóricos ajudaram-nas eficazmente elaborando constituições. É [[lexico:v:verdade:start|verdade]] que seu "puritanismo" conservador e seu autoritarismo de minorias inspiradas provocaram várias revoluções, o que deslocou o centro de gravidade do [[lexico:m:movimento:start|movimento]], não sem enfraquecê-lo, da Itália para a Grécia continental. O [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Pitágoras, banido de Crótona, teria morrido no sul da Itália, em Metaponto, cerca de 490 a.C. No centro do [[lexico:p:pitagorismo:start|pitagorismo]] juntam-se a [[lexico:c:conviccao:start|convicção]] da [[lexico:i:imortalidade-da-alma:start|imortalidade da alma]], a [[lexico:a:aspiracao:start|aspiração]] da [[lexico:s:salvacao:start|salvação]] e, para obtê-la, a prescrição de um [[lexico:m:modo:start|modo]] de [[lexico:v:vida:start|vida]] determinado, comportando uma [[lexico:p:purificacao:start|purificação]] pela [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] intelectual ([[lexico:t:theoria:start|theoria]], phylosophia). A inspiração religiosa de Pitágoras se afasta tanto do [[lexico:o:otimismo:start|otimismo]] prosaico dos [[lexico:m:milesianos:start|milesianos]] quanto da [[lexico:p:piedade:start|piedade]] aristocrática dos poemas homéricos, um e [[lexico:o:outro:start|outro]] dotados de um sólido amor à vida perecível e de nenhum modo inclinados a sonhar com uma [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] bem-aventurada; ela é próxima, ao contrário, do que certamente cumpre considerar como crenças do "povinho" a [[lexico:v:viver:start|viver]] sob duras condições, crenças que as aristocracias mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]] suplantadas teriam retomado, refinando-as mais ou menos. A vida terrestre surge então como um [[lexico:t:templo:start|templo]] de provação: há que se esforçar por "se assemelhar ao [[lexico:d:divino:start|divino]]" a [[lexico:f:fim:start|fim]] de escapar à "ronda de nascimentos" que traz de volta à [[lexico:t:terra:start|Terra]] em encarnações diversas os que ainda não se revelaram bastante puros para uma [[lexico:e:eternidade:start|Eternidade]] de bemaventurança supra-terrestre. Convém, pois, cultivar neste [[lexico:m:mundo:start|mundo]] a moderação, a ordem, a doçura. [[lexico:p:politica:start|Política]], [[lexico:r:religiao:start|religião]], medicina e [[lexico:m:musica:start|música]] têm igualmente que suprimir os conflitos e as violências; um traço de [[lexico:u:uniao:start|união]] [[lexico:c:capital:start|capital]] aparece entre a terapêutica sagrada da lira de Orfeu e a [[lexico:d:definicao:start|definição]] numérica da justa medida que reconcilia as facções na [[lexico:c:cidade:start|cidade]], quando Pitágoras descobre que os números comandam também a música e que os acordes musicais correspondem a proporções [[lexico:s:simples:start|simples]]. A [[lexico:n:nocao:start|noção]] de [[lexico:h:harmonia:start|harmonia]] se estende a partir daí ao cosmos inteiro, numa religião aritmológica que retoma também, certamente, velhas tradições de [[lexico:m:magia:start|magia]] dos números ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] que tira talvez algum ensinamento da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] da moeda (como organização quantitativa da [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] qualitativa das mercadorias). A [[lexico:t:tetraktys:start|tetraktys]], [[lexico:s:soma:start|soma]] dos [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] primeiros números inteiros, é seu [[lexico:s:simbolo:start|símbolo]] [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]]: ela basta para definir os acordes de oitava, de quinta e de quarta, os quatro números são associados respectivamente ao [[lexico:p:ponto:start|ponto]], à linha, à superfície e ao volume assim como às distâncias da Terra à Lua, ao [[lexico:s:sol:start|sol]] e aos astros fixos etc. Toda [[lexico:r:realidade:start|realidade]] é, pois, constituída, em sua [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]], como que musical, por números; os números, como conjunto de pontos, deixam-se dispor em figuras e, sobretudo, as realidades em [[lexico:g:geral:start|geral]] consistem em misturas dosadas com [[lexico:p:precisao:start|precisão]], segundo uma [[lexico:r:regra:start|regra]] definindo em cada caso a [[lexico:e:essencia:start|essência]]. A justa proporção, a harmonia, une e concilia pacificamente os componentes que, abandonados a si próprios, se opunham violentamente. Mas o ponto capital é a [[lexico:e:existencia:start|existência]] de duas espécies de polaridades bem distintas: o mais e o menos, o agudo e o grave etc, são pares de opostos harmonizáveis e sem conflito, ou, antes, sua instável [[lexico:d:desordem:start|desordem]] apenas se manifesta se a medida não lhes é imposta; eles formam, pois, juntos, numa [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] desta vez fundamental, um só [[lexico:t:termo:start|termo]], o [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]], o [[lexico:a:apeiron:start|apeiron]], submetido à [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] benéfica e pacificadora de um termo [[lexico:s:superior:start|superior]], o [[lexico:l:limite:start|limite]]. O pitagorismo é nesse [[lexico:s:sentido:start|sentido]] francamente dualista: é a partir da fixação do indeterminado pelo limite que são constituídos o cosmos e tudo o que ele abarca e, em primeiro [[lexico:l:lugar:start|lugar]], os próprios números como distintos de suas aplicações múltiplas. O limite, ou [[lexico:u:unidade:start|unidade]] suprema que instaura uma [[lexico:u:universal:start|universal]] [[lexico:a:afinidade:start|afinidade]] entre as [[lexico:c:coisas:start|coisas]], imóvel [[lexico:a:alma-do-mundo:start|alma do mundo]], que rege sua ordem e sua [[lexico:b:beleza:start|beleza]], é o próprio [[lexico:d:deus:start|Deus]], o Deus ao qual as almas puras aspiram reunir-se, a fim de realizar seu [[lexico:d:destino:start|destino]]. Esta concepção, a despeito de seus [[lexico:p:principios:start|princípios]] aritmológicos e musicais (com a célebre música das esferas celestes), permanece consideravelmente tributária da cosmologia milesiana; indiquemos simplesmente que ao parafraseá-la, ela a modifica e amplifica e que, certamente, nela o cosmos é imperecível. A [[lexico:o:originalidade:start|originalidade]] do pitagorismo resulta evidentemente muito mais do seu [[lexico:i:ideal:start|ideal]] de precisão que diviniza o limite e das especulações matemáticas que nos fazem semelhantes a Deus. Certamente corre-se o [[lexico:r:risco:start|risco]] de superestimar a importância do pitagorismo antigo no [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] das matemáticas se não se leva em conta, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], que o [[lexico:e:enunciado:start|enunciado]] do [[lexico:t:teorema:start|teorema]] "de Pitágoras" era conhecido dos babilônios do II milênio e sobretudo o [[lexico:f:fato:start|fato]] de Pitágoras [[lexico:t:ter:start|ter]] passado a metade de sua vida no [[lexico:m:meio:start|meio]] jónico, onde as matemáticas aplicadas faziam sensíveis progressos. Contudo, a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] de propriedades notáveis dos números foi indubitavelmente estimulada por sua [[lexico:p:promocao:start|promoção]] religiosa à [[lexico:d:dignidade:start|dignidade]] de realidades particularmente interessantes em si mesmas e o [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] [[lexico:p:profundo:start|profundo]] de sua unidade [[lexico:g:genetica:start|genética]] não pode senão fazer progredir, e provavelmente de maneira decisiva, o sentido da [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]]. A título de exemplo, engendra-se a [[lexico:s:sequencia:start|sequência]] dos quadrados pelo [[lexico:m:metodo:start|método]] do esquadro ou gnomon: em linhas de pontos formando ângulo reto, ajunta-se à unidade os ímpares sucessivos, o que demonstra geometricamente que n2 + (2n + 1) = (n + 1)². O descontinuismo pitagórico se chocou, nos meados do século V, com a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] do primeiro "[[lexico:i:irracional:start|irracional]]", [[lexico:r:raiz:start|raiz]] de 2 (incomensurabilidade da diagonal do quadrado com o lado), e disso resultou talvez uma cisão ou pelo menos a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de divergências entre os "fiéis" ([[lexico:a:acusmaticos:start|acusmáticos]]) e os "sábios" (matemáticos), os primeiros ligados aos ritos, os segundos desejosos de conservar o [[lexico:i:intelectualismo:start|intelectualismo]] da confraria, e, consequentemente, mais inclinados a renovar. O movimento dá [[lexico:t:testemunho:start|testemunho]], aliás, de uma grande flexibilidade de [[lexico:a:adaptacao:start|adaptação]] e de [[lexico:e:evolucao:start|evolução]], em [[lexico:f:funcao:start|função]] tanto dos [[lexico:d:deuses:start|deuses]] da religião oficial quanto das filosofias novas, e pode-se julgar com grande plausibilidade que desde as [[lexico:o:origens:start|origens]], apesar de seus acessos de sectarismo [[lexico:p:politico:start|político]], a pequena célula formada pelos "iguais" admitia sempre à sua volta um grande [[lexico:c:circulo:start|círculo]] de simpatizantes. Entre estes encontrou lugar um notável médico [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] de Crótona, Alcmeon, que reconhecia o cérebro como sede do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]], concebia a [[lexico:a:alma:start|alma]] como movimento circular e a aproximava, em [[lexico:c:consequencia:start|consequência]], dos astros, e definia a saúde em termos de política pitagórica pela [[lexico:i:isonomia:start|isonomia]], ou [[lexico:i:igualdade:start|igualdade]] constitucional dos componentes do [[lexico:o:organismo:start|organismo]]. Explica-se assim a imensa influência do pensamento pitagórico, aliás conciliador e [[lexico:s:sintetico:start|sintético]] na própria [[lexico:f:fonte:start|fonte]], se é verdade que o [[lexico:g:genio:start|gênio]] próprio de Pitágoras consistiu, colocando em [[lexico:f:forma:start|forma]] expressa uma [[lexico:t:tendencia:start|tendência]] importante da religiosidade do tempo, em veicular a sede de imortalidade dos cultos agrários na medida e clareza de Apolo, deus das formas nítidas e das regras bem determinadas. [J. Bernhardt] Pitágoras nasceu em Samos, vivendo o apogeu de sua vida em torno de 530 a.C. e morrendo no início do século V a.C. O mais conhecido dos antigos biógrafos dos filósofos, Diógenes Laércio, assim resume as etapas de sua vida: "Jovem e ávido de [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], abandonou sua pátria e foi iniciado em todos os ritos mistéricos, tanto gregos como bárbaros. Depois, foi para o Egito (...); depois, esteve entre os caldeus e magos. Posteriormente, em Creta, com Epimênides, entrou no antro de Ida, mas também no Egito entrou nos santuários e aprendeu os arcanos da [[lexico:t:teologia:start|teologia]] egípcia. Então, retornou a Samos e, encontrando sua pátria sob a [[lexico:t:tirania:start|tirania]] de Policrates, levantou velas para Crotona, na Itália. Ali, elaborou leis para os italiotas e conseguiu grande fama, juntamente com seus seguidores, que em [[lexico:n:numero:start|número]] de cerca de trezentos, administravam tão bem á [[lexico:c:coisa:start|coisa]] pública que seu [[lexico:g:governo:start|governo]] foi quase uma [[lexico:a:aristocracia:start|aristocracia]]." Talvez as viagens ao Oriente tenham sido uma [[lexico:i:invencao:start|invenção]] posterior. Mas é certo que Crotona foi a cidade em que Pitágoras operou principalmente. Mas as doutrinas pitagóricas também tiveram muita difusão em inúmeras outras cidades da Itália meridional e da Sicília: de Síbari a Régio, de Locri a Metaponto, de Agrigento a Catania. [[lexico:a:alem:start|Além]] de filosófica e religiosa, como vimos, a influência dos pitagóricos também foi notável no [[lexico:c:campo:start|campo]] político. O ideal político pitagórico era uma forma de aristocracia baseada nas novas camadas dedicadas especialmente ao comércio, que, como já dissemos, haviam alcançado um elevado nível nas colônias, antes ainda do que na mãe-pátria. Conta-se que os crotonienses, temendo que Pitágoras quisesse tornar-se tirano da cidade, incendiaram o prédio em que ele se havia reunido com seus discípulos. Segundo algumas fontes, Pitágoras teria morrido nessas circunstâncias; segundo outros, porém, teria conseguido fugir, vindo a morrer em Metaponto. Muitos escritos são atribuídos a Pitágoras, mas os que chegaram até nós sob o seu [[lexico:n:nome:start|nome]] são falsificações de épocas posteriores. E [[lexico:p:possivel:start|possível]] que o seu ensinamento tenha sido somente (ou predominantemente) oral. Podemos dizer muito pouco, senão pouquíssimo, sobre o pensamento original desse pensador, bem como sobre os dados reais de sua vida. As numerosas Vidas de Pitágoras posteriores não têm credibilidade histórica, porque logo depois de sua [[lexico:m:morte:start|morte]] (e talvez já nos últimos anos de sua vida) o nosso filósofo já havia perdido os traços humanos aos olhos de seus seguidores: ele era venerado quase como um nume e sua [[lexico:p:palavra:start|palavra]] tinha quase o [[lexico:v:valor:start|valor]] de oráculo. A [[lexico:e:expressao:start|expressão]] com que se referiam à sua doutrina tornou-se muito famosa: "ele o disse" (autos épha; [[lexico:i:ipse-dixit:start|ipse dixit]]). [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] não tinha mais à [[lexico:d:disposicao:start|disposição]] [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que lhe permitissem distinguir Pitágoras dos seus discípulos. Assim, falava dos "chamados pitagóricos", ou seja, os filósofos "que eram chamados" ou "que se chamavam" pitagóricos, filósofos que procuravam juntos a verdade e que, portanto, não se diferenciavam singularmente. Mas, por mais que possa parecer estranho, [[lexico:e:esse:start|esse]] fato não é anômalo, se levarmos em conta algumas características peculiares dessa [[lexico:e:escola:start|escola]]: 1) A escola nasceu como uma [[lexico:e:especie:start|espécie]] de fraternidade ou ordem religiosa, organizada com base em regras precisas de convivência e de [[lexico:c:comportamento:start|comportamento]]. O seu fim era a concretização de um determinado [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de vida, para o qual a ciência e a doutrina constituíam um meio: esse meio era um [[lexico:b:bem-comum:start|bem comum]], que todos alcançavam e que todos procuravam desenvolver. 2) As doutrinas eram consideradas como um segredo, do qual só os adeptos podiam tomar [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] e cuja difusão era severamente proibida. 3) O primeiro pitagórico a publicar alguma [[lexico:o:obra:start|obra]] foi Filolau, um contemporâneo de [[lexico:s:socrates:start|Sócrates]]. Relata uma fonte antiga: "E de maravilhar o rigor do segredo dos pitagóricos. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], ao longo de tantos anos, parece que ninguém deparou qualquer [[lexico:e:escrito:start|escrito]] dos pitagóricos antes do tempo de Filolau. Encontrando-se em grande e dura [[lexico:p:pobreza:start|pobreza]], foi este o primeiro a divulgar aqueles celebrados três livros, que se diz teriam sido comprados por Dion de Siracusa a mando de [[lexico:p:platao:start|Platão]]." 4) Consequentemente, entre fins do século VI a.C. e fins do século V até início do século IV a.C., o pitagorismo pôde enriquecer notavelmente o seu patrimônio doutrinário sem que possamos ter elementos seguros para realizar distinções precisas entre as doutrinas originárias e as posteriores. 5) Entretanto, como as bases sobre as quais o pitagorismo trabalhou eram substancialmente homogêneas, é lícito considerar essa escola em bloco, precisamente como os antigos já faziam, a começar por Aristóteles. Pitágoras foi um [[lexico:h:homem:start|homem]] de gênio, porque é o primeiro filósofo [[lexico:g:grego:start|grego]] a [[lexico:q:quem:start|quem]] ocorre a [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de que o [[lexico:p:principio:start|princípio]] donde tudo o mais se deriva, aquilo que existe de verdade, o [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] [[lexico:s:ser:start|ser]], o ser em si, não é nenhuma coisa; ou, melhor [[lexico:d:dito:start|dito]], é uma coisa; porém, que não se vê, nem se ouve, nem se toca, nem se cheira, que não é acessível aos sentidos. Essa coisa é "número". Para Pitágoras a essência última de [[lexico:t:todo:start|todo]] ser, dos que percebemos pelos sentidos, é o número. As coisas são números, escondem dentro de si números. As coisas são distintas umas de outras pela [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] quantitativa e numérica. Pitágoras era um aficionado da música, e foi quem descobriu (ele ou algum dos seus numerosos discípulos) que na lira se as notas das diferentes cordas soam diferentemente, é porque umas são mais curtas que as outras e não somente descobriu isso, mas também mediu o comprimento [[lexico:r:relativo:start|relativo]] e encontrou que as notas da lira estavam entre si numa simples [[lexico:r:relacao:start|relação]] numérica de comprimento: na relação de um dividido por dois, um dividido por três, um dividido por quatro, um dividido por cinco. Descobriu pois, a oitava, a quinta, a quarta, a sétima musical, e isto o levou a [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e o conduziu à ideia de que tudo quanto vemos e tocamos, as coisas tais e como se apresentam, não existem de verdade, mas antes são outros tantos véus que ocultam a verdadeira e autêntica realidade, a existência [[lexico:r:real:start|real]] que está atrás dela e que é o número. Seria [[lexico:c:complexo:start|complexo]] (e nem pertenceria ao [[lexico:t:tema:start|tema]], nem à oportunidade) demonstrar minuciosamente esta [[lexico:t:teoria:start|teoria]] de Pitágoras. Interessa-me tão-somente fazê-la notar, porque é a primeira vez que na [[lexico:h:historia:start|história]] do pensamento grego surge como coisa realmente existente, uma coisa não material, nem extensa, nem visível, nem [[lexico:t:tangivel:start|tangível]]. 45. Pitágoras [[lexico:n:nada:start|nada]] escreveu; o que tanto mais nos solicita a que sobre ele escrevamos nós, sempre com o perigo à vista de tomar a «sombra» pelo «filósofo». No [[lexico:e:estado:start|Estado]] actual dos nossos conhecimentos, e dos preceitos, ou antes, dos preconceitos mais ou menos ocultos que marcaram o rumo da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], parece desesperada a empresa de situar o filósofo na linha que tem início em [[lexico:a:anaximandro:start|Anaximandro]] e sem [[lexico:e:esforco:start|esforço]] se prolonga até Xenófanes, para terminar em Platão. No entanto, apesar de nascido em Samo, posto que já em adulta idade e em [[lexico:g:grau:start|grau]] de amadurecido pensamento, demandou as colônias ocidentais, para aí fundar a sua escola, mais verosímil do que [[lexico:p:provavel:start|provável]] se toma a [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]] de uma influência de Pitágoras sobre Parménides, mais directa que a de Xenófanes, por muito que a [[lexico:h:historiografia:start|historiografia]] filosófica da [[lexico:a:antiguidade:start|antiguidade]] insista na pretensão de que foi este o primeiros dos [[lexico:e:eleatas:start|eleatas]]. As últimas linhas do parágrafo precedente mostraram até que ponto nos conduz, e onde é forçoso que se detenha, um rastreamento do [[lexico:e:eleatismo:start|eleatismo]] de Xenófanes. Em todo o caso, é certo que não há [[lexico:s:sorte:start|sorte]] de «prestidigitação» [[lexico:l:logica:start|lógica]] ou paralógica que converta o Deus-Uno no frg. 23 no Ser de Parménides; mas como também não vemos que ponte possa ligá-lo directamente ao Indiferenciado de Anaximandro, se não quisermos renunciar a alguma [[lexico:m:mediacao:start|mediação]] histórica, só Pitágoras nos resta, como [[lexico:u:ultimo:start|último]] recurso. A sombra de Pitágoras prolonga-se pelos dez ou onze séculos que vão da insegura data do seu nascimento até ao convencional início da Idade Média, e ao longo de todo esse milênio, a única verdade persistente é a da [[lexico:l:lenda:start|lenda]] Pitagórica, circunscrita a dois pontos, cuja [[lexico:h:historicidade:start|historicidade]] reúne os sufrágios da maioria dos pesquisadores responsáveis: o primeiro está no centro de uma aritmologia geométrica e [[lexico:f:fisica:start|física]], ou de uma física e de uma [[lexico:g:geometria:start|geometria]] aritmológica; o segundo, resume-se no teorema, com todos os seus corolários, expressando, pela primeira vez, no mundo [[lexico:c:classico:start|clássico]], o que em termos de [[lexico:c:cultura:start|cultura]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]], se poderia designar por «[[lexico:d:dualismo:start|dualismo]] psico-físico». Desde a primeira edição da [[lexico:p:psique:start|psique]] de Erwin Rohde, reina entre filólogos e historiadores da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] um [[lexico:a:acordo:start|acordo]] quase unânime acerca da [[lexico:o:origem:start|origem]] não grega deste segundo «[[lexico:m:momento:start|momento]]» do [[lexico:p:primitivo:start|primitivo]] pitagorismo. [[lexico:c:corpo-e-alma:start|corpo e alma]], no homem e em todos os seres viventes; [[lexico:m:materia:start|matéria]] e [[lexico:e:espirito:start|espírito]], em toda a amplitude do [[lexico:c:cosmo:start|cosmo]], inequivocamente distintos e separados, ninguém achará, sem o extremado intuito de revoluir a ordem dos tempos, em fidedigno testemunho do pensamento, poética ou prosaicamente expresso, anterior à data mais provável em que se teriam difundido as [[lexico:i:ideias:start|ideias]] pitagóricas. Como as pesquisas de Rohde acerca das concepções gregas da imortalidade da alma tinham por [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] antropológico o pré-animismo de Tylor, não se nos afigura despropositado que, em confronto, citemos algumas das mais significativas passagens de um livro de outro antropólogo, incidentes no mesmo tema, mas que gozam da inapreciável [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] de mostrar que, não obstante a insegura base da sua construção verdadeiramente monumental, é ainda para o mesmo lado que se procuram as origens do pitagorismo, pelo menos no respeitante ao mencionado dualismo psico-físico, só que a concordância entre os dados da [[lexico:a:antropologia:start|antropologia]] e da [[lexico:f:filologia:start|filologia]] se alinham, [[lexico:a:agora:start|agora]], num paralelismo quase [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}