===== PERDA ===== Em 1917, apareceu, em Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse (vol. IV), o ensaio intitulado “Luto e [[lexico:m:melancolia:start|melancolia]]”, um dos raros textos em que [[lexico:f:freud:start|Freud]] enfrenta tematicamente a [[lexico:i:interpretacao:start|interpretação]] psicanalítica do antigo [[lexico:c:complexo:start|complexo]] humoral saturnino. A distância que separa a [[lexico:p:psicanalise:start|psicanálise]] dos últimos resquícios do século XVII da medicina humoral [v. humores] coincide com o nascimento e o [[lexico:d:desenvolvimento:start|desenvolvimento]] da [[lexico:m:moderna:start|moderna]] [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] psiquiátrica, que classifica a melancolia entre as formas graves de [[lexico:d:doenca-mental:start|doença mental]]; [[lexico:n:nao:start|não]] é, pois, sem alguma surpresa que encontramos na [[lexico:a:analise:start|análise]] freudiana do [[lexico:m:mecanismo:start|mecanismo]] da melancolia, traduzidos naturalmente para a [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] da [[lexico:l:libido:start|libido]], dois [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que apareciam tradicionalmente nas descrições patrísticas da [[lexico:a:acidia:start|acídia]] e na [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] do [[lexico:t:temperamento:start|temperamento]] atrabiliário, e cuja persistência no [[lexico:t:texto:start|texto]] freudiano testemunha a extraordinária fixidez no [[lexico:t:tempo:start|tempo]] da constelação melancólica: o recesso do [[lexico:o:objeto:start|objeto]] e a retração em si mesma da [[lexico:i:intencao:start|intenção]] contemplativa. Segundo Freud, o mecanismo [[lexico:d:dinamico:start|dinâmico]] da melancolia em [[lexico:p:parte:start|parte]] toma emprestadas as suas características essenciais do luto e em parte da [[lexico:r:regressao:start|regressão]] narcisista. Assim como, no luto, a libido reage diante da [[lexico:p:prova-da-realidade:start|prova da realidade]] que mostra que a [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] amada deixou de [[lexico:e:existir:start|existir]], fixando-se em toda lembrança e em [[lexico:t:todo:start|todo]] objeto que se encontravam relacionadas com ela, assim também a melancolia é uma [[lexico:r:reacao:start|reação]] diante da perda de um objeto de [[lexico:a:amor:start|amor]], ao que não se segue, porém, conforme se poderia esperar, uma [[lexico:t:transferencia:start|transferência]] da libido para um novo objeto, mas sim o seu retrair-se no [[lexico:e:eu:start|eu]], narcisisticamente identificado com o objeto perdido. De [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com uma [[lexico:f:formula:start|fórmula]] concisa de Abraham, em [[lexico:e:estudo:start|estudo]] sobre a melancolia, publicado cinco anos antes, e cujas conclusões servem de base para a [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] de Freud: “depois de se [[lexico:t:ter:start|ter]] retirado do objeto, o investimento libidinoso volta para o eu e, simultaneamente, o objeto é incorporado ao eu”. Contudo, com [[lexico:r:relacao:start|relação]] ao [[lexico:p:processo:start|processo]] [[lexico:g:genetico:start|genético]] do luto, a melancolia apresenta em sua [[lexico:o:origem:start|origem]] uma circunstância especialmente difícil de [[lexico:e:explicar:start|explicar]]. Freud não esconde o seu embaraço diante da irrefutável constatação de que, enquanto o luto sucede a uma perda realmente acontecida, na melancolia não só [[lexico:f:falta:start|falta]] clareza a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] do que foi perdido, mas nem sequer sabemos se podemos de [[lexico:f:fato:start|fato]] [[lexico:f:falar:start|falar]] de uma perda. “Deve-se admitir” — escreve ele com certo desapontamento — “que se produziu uma perda, mas sem que se consiga [[lexico:s:saber:start|saber]] o que foi perdido”. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, procurando suavizar as contradições a partir das quais haveria uma perda, mas não um objeto perdido, ele [[lexico:f:fala:start|fala]] logo depois de uma “perda desconhecida”, ou de uma “perda objetual que escapa à [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]”. O exame do mecanismo da melancolia, tal como é descrito por Freud e por Abraham, mostra que o recesso da libido é o [[lexico:d:dado:start|dado]] original, para além do qual não é [[lexico:p:possivel:start|possível]] remontar; assim, querendo conservar a [[lexico:a:analogia:start|analogia]] com o luto, dever-se ia afirmar que a melancolia apresenta o [[lexico:p:paradoxo:start|paradoxo]] de uma intenção lutuosa que precede e antecipa a perda do objeto. A psicanálise parece ter chegado aqui a conclusões [[lexico:b:bem:start|Bem]] parecidas àquelas alcançadas pela [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] psicológica dos Padres da Igreja, que concebiam a acídia como recesso frente a um bem que não foi perdido e interpretavam o mais terrível dos seus filhos, o [[lexico:d:desespero:start|desespero]], como [[lexico:a:antecipacao:start|antecipação]] do não-cumprimento e da condenação. Dado que o recesso do acidioso não nasce de um defeito, mas de uma excitada exacerbação do [[lexico:d:desejo:start|desejo]], que torna inacessível o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] objeto na desesperada tentativa de proteger-se dessa [[lexico:f:forma:start|forma]] em relação à sua perda e de aderir a ele pelo menos na sua [[lexico:a:ausencia:start|ausência]], assim se poderia dizer que a retração da libido melancólica não visa senão tornar possível uma apropriação em uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] em que [[lexico:p:posse:start|posse]] alguma é, realmente, possível. Sob essa [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], a melancolia não seria tanto a reação regressiva diante da perda do objeto de amor, quanto a [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] fantasmática de fazer [[lexico:a:aparecer:start|aparecer]] como perdido um objeto inapreensível. Se a libido se comporta [[lexico:c:como-se:start|como se]] tivesse acontecido uma perda, embora [[lexico:n:nada:start|nada]] tenha sido de fato perdido, isso acontece porque ela encena uma simulação em cujo âmbito o que não podia [[lexico:s:ser:start|ser]] perdido, porque nunca havia sido possuído, aparece como perdido, e aquilo que não podia ser possuído porque, talvez, nunca tenha sido [[lexico:r:real:start|real]], pode ser [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]] enquanto objeto perdido. Nesta altura, torna-se compreensível a ambição específica do ambíguo [[lexico:p:projeto:start|projeto]] melancólico, que a analogia com o mecanismo [[lexico:e:exemplar:start|exemplar]] do luto havia desfigurado parcialmente e tornado irreconhecível, e que justamente a antiga [[lexico:t:teoria:start|teoria]] humoral identificava na [[lexico:v:vontade:start|vontade]] de transformar em objeto de abraço o que teria podido ser apenas objeto de [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]]. Cobrindo o seu objeto com os enfeites fúnebres do luto, a melancolia lhes confere a fantasmagórica [[lexico:r:realidade:start|realidade]] do perdido; mas enquanto ela é o luto por um objeto inapreensível, a sua estratégia abre um [[lexico:e:espaco:start|espaço]] à [[lexico:e:existencia:start|existência]] do [[lexico:i:irreal:start|irreal]] e delimita um cenário em que o eu pode entrar em relação com ele, tentando uma apropriação que posse alguma poderia igualar e perda alguma poderia ameaçar. [AgambenE:43-45] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}