===== PENSAMENTO POLÍTICO MEDIEVAL ===== O desaparecimento do [[lexico:a:abismo|abismo]] que os antigos tinham de transpor diariamente a [[lexico:f:fim|fim]] de transcender o estreito domínio do [[lexico:l:lar|lar]] e “ascender” ao domínio da [[lexico:p:politica|política]] é um [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] essencialmente [[lexico:m:moderno|moderno]]. [[lexico:e:esse|esse]] abismo entre o [[lexico:p:privado|privado]] e o [[lexico:p:publico|público]] ainda existia de certa [[lexico:f:forma|forma]] na Idade Média, embora houvesse perdido muito da sua importância e mudado inteiramente de [[lexico:l:localizacao|localização]]. Já se disse com acerto que, após a [[lexico:q:queda|Queda]] do Império Romano, foi a Igreja Católica que ofereceu aos homens um substituto para a cidadania antes outorgada exclusivamente pelo [[lexico:g:governo|governo]] municipal. [R. H. Barrow, The romans (1953), p. 194] A [[lexico:t:tensao|tensão]] medieval entre a treva da [[lexico:v:vida|vida]] diária e o grandioso esplendor de tudo o que era [[lexico:s:sagrado|sagrado]], com a concomitante ascensão do [[lexico:s:secular|secular]] ao [[lexico:r:religioso|religioso]], corresponde em muitos aspectos à ascensão do privado ao público na [[lexico:a:antiguidade|antiguidade]]. É claro que a [[lexico:d:diferenca|diferença]] é muito marcante, pois, [[lexico:n:nao|não]] importa quão “mundana” a Igreja tenha se tornado, o que mantinha reunida a [[lexico:c:comunidade|comunidade]] dos crentes era essencialmente sempre uma [[lexico:p:preocupacao|preocupação]] extramundana. Embora só com alguma dificuldade seja [[lexico:p:possivel|possível]] equacionar o público com o religioso, realmente o domínio secular, sob o feudalismo, era inteiramente aquilo que o domínio privado havia sido na Antiguidade. Sua marca distintiva era a [[lexico:a:absorcao|absorção]] de todas as [[lexico:a:atividades|atividades]] na [[lexico:e:esfera|esfera]] do lar – onde tinham [[lexico:s:significacao|significação]] apenas privada – e, consequentemente, a própria [[lexico:a:ausencia|ausência]] de um domínio público. ) reconhece na organização feudal do [[lexico:t:trabalho|trabalho]] aplicam-se às comunidades feudais como um [[lexico:t:todo|todo]]: “Chacun vivait chez soi et vivait de soi-même, le noble sur sa seigneurie, le villain sur sa culture, le citadin dans sa ville” (p. 229).] É [[lexico:c:caracteristico|característico]] desse crescimento da esfera privada e, incidentalmente, da diferença entre o antigo chefe de [[lexico:f:familia|família]] e o senhor feudal que este [[lexico:u:ultimo|último]] pudesse administrar [[lexico:j:justica|justiça]] dentro dos limites do seu feudo, ao passo que o antigo chefe de família, embora pudesse exercer um comando mais ameno ou mais severo, não conhecia leis nem justiça fora do domínio [[lexico:p:politico|político]] [v. escravos]. A [[lexico:t:transferencia|transferência]] de todas as atividades humanas para o domínio privado e a conformação de todas as [[lexico:r:relacoes|relações]] humanas ao molde do lar atingiram profundamente as organizações profissionais especificamente medievais nas cidades – as guildas, confréries e compagnons – e mesmo as primeiras companhias comerciais, nas quais “a reunião original do lar parecia aludida pela própria [[lexico:p:palavra|palavra]] ‘companhia’ (companis) (...) em expressões como ‘aqueles que comem do mesmo pão’ ‘homens que compartilham do mesmo pão e do mesmo vinho’” [W. J. Ashley, An introduction to English economic history and theory, p. 415.]. O [[lexico:c:conceito|conceito]] medieval do “[[lexico:b:bem-comum|bem comum]]” longe de indicar a [[lexico:e:existencia|existência]] de um domínio político, reconhecia apenas que os indivíduos privados têm interesses materiais e espirituais em comum, e só podem conservar sua [[lexico:p:privatividade|privatividade]] e cuidar de seus próprios negócios quando um deles se encarrega de zelar por esse [[lexico:i:interesse|interesse]] comum. O que distingue da [[lexico:r:realidade|realidade]] [[lexico:m:moderna|moderna]] essa [[lexico:a:atitude|atitude]] essencialmente cristã em [[lexico:r:relacao|relação]] à política não é tanto o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] de um “[[lexico:b:bem|Bem]] comum” quanto a exclusividade da esfera privada e a ausência daquele domínio curiosamente [[lexico:h:hibrido|híbrido]] que chamamos de “[[lexico:s:sociedade|sociedade]]” no qual os interesses privados assumem importância pública. Não é surpreendente, portanto, que o [[lexico:p:pensamento-politico-medieval|pensamento político medieval]], preocupado exclusivamente com o domínio secular, tenha permanecido ignorante do abismo entre a vida protegida no lar e a impiedosa [[lexico:e:exposicao|exposição]] na pólis e, consequentemente, da [[lexico:v:virtude|virtude]] da [[lexico:c:coragem|coragem]] como uma das atitudes políticas mais elementares. O que continua a [[lexico:s:ser|ser]] surpreendente é que tenha sido [[lexico:m:maquiavel|Maquiavel]] o [[lexico:u:unico|único]] [[lexico:t:teorico|teórico]] político pós-clássico que, em um [[lexico:e:extraordinario|extraordinário]] [[lexico:e:esforco|esforço]] para restaurar a antiga [[lexico:d:dignidade|dignidade]] da política, percebeu o abismo e compreendeu até certo [[lexico:p:ponto|ponto]] a coragem necessária para transpô-lo, que o descreveu na elevação “do Condottiere de uma baixa [[lexico:p:posicao|posição]] para um alto posto” da privatividade para o principado, isto é, das circunstâncias comuns a todos os homens para a [[lexico:g:gloria|glória]] resplandecente das grandes realizações. [ArendtCH, 5]