===== PENSAMENTO E EU ===== **O [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] e o [[lexico:e:eu:start|eu]].** Pois [[lexico:b:bem:start|Bem]]: fazendo o [[lexico:e:esforco:start|esforço]] [[lexico:n:necessario:start|necessário]] para adotar esta [[lexico:a:atitude:start|atitude]] idealista que é artificial, que é voluntária, que é introvertida e que considera a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] [[lexico:n:nao:start|não]] como algo [[lexico:d:dado:start|dado]], mas como algo que há de se conquistar à [[lexico:f:forca:start|força]] do pensamento; adotando esta atitude, verificamos que aparece diante de nossa inspeção intelectual, ante nossa [[lexico:i:intuicao-intelectual:start|intuição intelectual]], um novo [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:s:ser:start|ser]]. e um novo ser aquele que o [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] descobriu: o ser do pensamento [[lexico:p:puro:start|puro]]. Este ser do pensamento puro em que consiste? Que é? Insinuávamos uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] [[lexico:e:essencial:start|essencial]] para dar-nos conta da [[lexico:c:consistencia:start|consistência]] deste novo ser, que aparece no [[lexico:h:horizonte:start|horizonte]] metafísico. Distinguíamos entre o pensamento e o seu [[lexico:o:objeto:start|objeto]]. [[lexico:t:todo:start|todo]] pensamento, por força de ser [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]], mas muito especialmente todo [[lexico:a:ato:start|ato]] intelectual consiste na [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] de um objeto. Todo pensamento é, pois, um dirigir a [[lexico:a:atencao:start|atenção]] da [[lexico:m:mente:start|mente]] para algo. Em todo pensamento existe o pensamento como ato e o objeto como conteúdo deste ato; o pensamento que pensa e o pensado no pensamento. Esta distinção leva-nos à [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] de que objeto do pensamento, o pensado no pensamento entra em contacto comigo através do pensamento. É, pois, a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] de mim, [[lexico:m:mediato:start|mediato]]. Necessito o intermédio do ato de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] para pôr-me em contacto com ele. Pelo contrário, o pensamento do pensado é para mim [[lexico:i:imediato:start|imediato]]; não necessito de intermédio algum para [[lexico:e:estar:start|estar]] em mim na mais imediata [[lexico:p:presenca:start|presença]]. Quando eu penso algo, o algo em que penso está, por assim dizer, mais longe de mim. Meu pensamento deste algo, em troca, é o que está mais perto de mim; tão perto de mim que sou eu [[lexico:p:proprio:start|próprio]] pensando. Por isso o chamamos imediato. A imediatez faz com que o pensamento que eu penso seja meu próprio eu no ato de pensar. Por isso a [[lexico:i:identidade:start|identidade]] entre o pensamento e o eu é o primeiro resultado a que se chega quando, no afã de obter algo indubitável, abandonamos os objetos que são duvidosos, já que são mediatos, e entramos a firmar nossa atenção sobre os [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] que são indubitáveis, precisamente porque são imediatos, porque são meu próprio eu pensando. Esta identidade do pensamento que é imediato e o próprio eu é aquilo que [[lexico:d:descartes:start|Descartes]] descobre e o que constitui para ele a base, o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] mesmo de toda a [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Aplicando a [[lexico:d:duvida:start|dúvida]] a tudo quanto se apresenta, resume esta aplicação metodológica da dúvida nos termos de afastar de si, como duvidosos, todos os objetos, e, em troca, de não considerar como indubitáveis mais do que os pensamentos. E por que considera indubitáveis os pensamentos? Porque os pensamentos estão tão imediatamente próximos a mim, que se confundem com meu próprio eu. E é esta imediatez que os torna indubitáveis e ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] os faz fundir-se todos eles na [[lexico:u:unidade:start|unidade]] do eu. Existem os pensamentos, responde Descartes à [[lexico:p:pergunta:start|pergunta]] [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]]. Mas como os pensamentos não são outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] que eu pensando, como ser pensante, je suis une chose qui pense: eu sou uma coisa que pensa. **O eu como "coisa em si".** Eis aqui a nova [[lexico:e:existencia:start|existência]] sobre a qual acha-se presa a atitude idealista. Essa atitude insólita, artificial; essa atitude voluntária, deliberada, de esforço para resolver-se dentro de [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], faz com que o idealista descubra como primeira realidade, como [[lexico:e:ente:start|ente]] que existe primeiramente, o eu pensando. E aqui devemos fazer uma [[lexico:o:observacao:start|observação]] que convém levar em conta para que muito mais adiante, dentro de algumas lições, voltemos alguma vez sobre ela. Quando Descartes diz que os pensamentos existem, que os pensamentos não são mais do que eu pensando e que eu existo como pensante — je suis une chose qui pense — o que faz é introduzir ingenuamente na nova realidade [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] (na realidade pensamento) o velho [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de coisa. Considera Descartes que o pensamento é uma coisa; que eu sou uma coisa que pensa. E não sente o menor reparo em usar inclusive a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] "[[lexico:s:substancia:start|substância]]": eu sou uma substância pensante. Nessas [[lexico:p:palavras:start|palavras]] "coisa que pensa", "substância pensante", conserva Descartes um resíduo do velho [[lexico:r:realismo:start|realismo]], o qual considera todo ser sob a [[lexico:e:especie:start|espécie]] da coisa, sob a espécie da substância; [[lexico:c:como-se:start|como se]] não pudesse haver [[lexico:o:outro:start|outro]] ser que o ser da substância; como se todo ser tivesse que ser substância. Não vamos nós [[lexico:a:agora:start|agora]] fazer [[lexico:u:uso:start|uso]] mormente desta advertência, porém conste a advertência, e é que no [[lexico:c:cogito:start|cogito]] cartesiano ficou esquecida, ou como que sub-repticiamente, ou como que ingenuamente introduzida, uma [[lexico:n:nocao:start|noção]]: a noção de coisa, que provém do velho realismo o que fica incrustada neste novo objeto que é o pensamento. Mas, à [[lexico:p:parte:start|parte]] esta noção de coisa "em si", que fica mantida no próprio seio do [[lexico:e:eu-pensante:start|eu pensante]], é absolutamente indubitável que as aquisições conseguidas pelo idealismo representam uma concepção do ser totalmente distinta da concepção do ser nos realistas. Para os realistas, o ser das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] "é" antes e independentemente de todo pensamento, de qualquer pensamento; porém é um ser [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]. Que significa isto? Significa que está aí; que existe em si mesmo, independentemente de mim; mas que em todo [[lexico:m:momento:start|momento]] pode chegar a ser conhecido por mim; pode ingressar no meu pensamento; pode chegar a ser conteúdo de pensamento, ou, [[lexico:d:dito:start|dito]] de outro [[lexico:m:modo:start|modo]], que a coisa, existente em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]], pode chegar a ser, é possivelmente conteúdo de pensamento; é um conteúdo [[lexico:p:possivel:start|possível]] de pensamento. **A realidade como [[lexico:p:problema:start|problema]]. ** Frente a esta concepção do ser, a do idealismo é radicalmente distinta; porque, embora conservando a noção de coisa, quando diz Descartes je suis une chose qui pense, je suis une substance pensante, embora conservando a noção de coisa (mais adiante veremos a importância e [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] que isto tem), se consideramos [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] esta coisa pensante, o eu pensante, encontramos primeiramente que não se pode dizer que seja inteligível, como dizíamos das coisas no realismo, mas que é inteligente. O eu pensante não é, pois, algo que entre a ser conteúdo de [[lexico:c:consciencia:start|consciência]], mas é consciência continente. Se, pois, o ser dos realistas é um ser inteligível, o ser dos idealistas, o pensamento puro, o eu pensante, é um ser inteligente, é um ser pensante. Do mesmo modo que o [[lexico:a:acento:start|acento]], o sublinhado, mudou de [[lexico:l:lugar:start|lugar]], e em vez de recair sobre o objeto recai agora sobre o ato do pensante, por [[lexico:m:meio:start|meio]] do qual captamos o objeto. E se agora o acento mudou de lugar, e se agora se eleva à [[lexico:c:categoria:start|categoria]] de ser [[lexico:p:primario:start|primário]], de existência primária [[lexico:e:esse:start|esse]] ser inteligente, a própria [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]], o próprio pensamento, então que vai resultar daí? Pois vai resultar, sem dúvida alguma, que aquilo que para o realismo não era problema, tem que tornar-se agora problema para o idealismo. Para o realismo não era problema a [[lexico:e:existencia-e-realidade:start|existência e realidade]] das coisas no [[lexico:m:mundo:start|mundo]], já que as considerava como inteligíveis em si mesmas, ou seja, possíveis objetos de [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]], possíveis conteúdos de conhecimentos. Porém agora que o [[lexico:u:unico:start|único]] que existe indubitavelmente é o eu pensante, ,e o eu pensante não pode funcionar, não pode pensar se não pensa algo, este algo pensado pelo eu pensante se transforma num problema. Porque este algo pensado no pensamento e pelo pensamento, existe ou não existe? É simplesmente um [[lexico:t:termo:start|termo]] interior do pensamento ou indica uma existência em si mesma [[lexico:e:exterior:start|exterior]] e [[lexico:a:alem:start|além]] do pensamento? Eis aqui interrogações que o realismo não poderia levantar. Eis aqui um problema que o realismo não pode de modo algum propor-se. A realidade do mundo exterior, que não era problema para o realismo, se torna um problema, e dos mais graves, para o idealismo. O idealismo agora, havendo lançado a âncora no eu pensante, não pode sair do eu pensante para chegar à realidade das coisas sem fazê-lo de um modo metódico, cauteloso, e em [[lexico:s:suma:start|suma]], sem um esforço especial para construir essa mesma realidade. Dito de outra maneira: a realidade das coisas no realismo é dada; pelo contrário, no idealismo será preciso demonstrá-la, e deduzi-la ou construí-la. O idealista não terá mais remédio que deduzir, demonstrar ou construir a realidade do mundo exterior. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}