===== PENSAMENTO ===== (gr. [[lexico:n:noesis:start|noesis]], [[lexico:d:dianoia:start|dianoia]]; lat. [[lexico:c:cogitatio:start|cogitatio]]; in. Thought; fr. Pensée, al. Denken; it. Pensieró). Podemos distinguir os seguintes significados do [[lexico:t:termo:start|termo]]: 1) qualquer [[lexico:a:atividade:start|atividade]] mental ou espiritual; 2) atividade do [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] ou da [[lexico:r:razao:start|razão]], em [[lexico:o:oposicao:start|oposição]] aos sentidos e à [[lexico:v:vontade:start|vontade]]; 3) atividade discursiva; 4) atividade [[lexico:i:intuitiva:start|intuitiva]]. 1) O [[lexico:s:significado:start|significado]] mais amplo do termo, que indica qualquer atividade ou conjunto de [[lexico:a:atividades:start|atividades]] espirituais, foi introduzido por [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]: "Com a [[lexico:p:palavra:start|palavra]] ‘[[lexico:p:pensar:start|pensar]]’, entendo tudo o que acontece em nós, de tal [[lexico:m:modo:start|modo]] que o percebamos imediatamente por nós mesmos; por isso [[lexico:n:nao:start|não]] só entender, querer e imaginar, mas também sentir é o mesmo que pensar" (Princ. phil., I, 9; cf. Méd., II). [[lexico:e:esse:start|esse]] significado é conservado pelos cartesianos (cf., p. ex., [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]], Recherche de la vérité, I, 3, 2) e aceito por [[lexico:s:spinoza:start|Spinoza]], que inclui entre as maneiras do pensamento "o [[lexico:a:amor:start|amor]], o [[lexico:d:desejo:start|desejo]] e qualquer outra [[lexico:a:afeicao:start|afeição]] da [[lexico:a:alma:start|alma]]" (Et., II, [[lexico:a:axioma:start|axioma]] III). [[lexico:l:locke:start|Locke]] fazia alusão a esse significado, mesmo notando que em inglês pensamento significa mais propriamente "[[lexico:o:operacao:start|operação]] do [[lexico:e:espirito:start|espírito]] sobre as próprias [[lexico:i:ideias:start|ideias]]" (pensamento [[lexico:d:discursivo:start|discursivo]]) e preferindo por isso a palavra "[[lexico:p:percepcao:start|percepção]]" (Ensaio, II, 9,1). O mesmo significado era aceito por [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], que definia o pensamento como "uma percepção unida à razão, que os animais, pelo que nos é [[lexico:d:dado:start|dado]] [[lexico:v:ver:start|ver]], não possuem" (Op., ed. Erdmann, p. 464), e observava que esse termo podia [[lexico:s:ser:start|ser]] interpretado também com o significado mais [[lexico:g:geral:start|geral]] de percepção, e neste caso o pensamento pertenceria a todas as enteléquias (também aos animais) (Nouv. ess., II, 21, 72). A [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] desse significado interrompe-se com [[lexico:k:kant:start|Kant]] e não é retomada na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]]. 2) No segundo significado, esse termo designa a atividade do intelecto em geral, distinta da [[lexico:s:sensibilidade:start|sensibilidade]], por um lado, e da atividade prática, por [[lexico:o:outro:start|outro]]. Neste significado [[lexico:p:platao:start|Platão]] emprega, às vezes, a palavra noesis, como quando designa com ela [[lexico:t:todo:start|todo]] o [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] intelectivo, que encerra tanto o pensamento discursivo (dianoia) quanto o intelecto intuitivo ([[lexico:n:nous:start|noûs]]) (Rep., VII, 534 a), e outras vezes a palavra dianoia, como faz quando define o pensamento em geral como o [[lexico:d:dialogo:start|diálogo]] da alma consigo mesma. "Quando a alma pensa" — diz ele — "não faz outra [[lexico:c:coisa:start|coisa]] senão discutir consigo mesma por [[lexico:m:meio:start|meio]] de perguntas e respostas, afirmações e negações; e quando, mais cedo ou mais [[lexico:t:tarde:start|Tarde]], ou então de repente, decide-se, assevera e não duvida mais, dizemos que ela chegou a uma [[lexico:o:opiniao:start|opinião]]" (Teet., 190 e, 191 a; cf. Sof., 264 e). No mesmo [[lexico:s:sentido:start|sentido]] geral, [[lexico:a:aristoteles:start|Aristóteles]] emprega a palavra dianoia como quando diz: "Pensável significa aquilo sobre o que existe um pensamento" (Met., V, 15, 1021 a 31). Este significado, que é o mais amplo (depois do precedente), tornou-se tradicional e é compartilhado por todos os que admitem a [[lexico:n:nocao:start|noção]] do intelecto como [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] de pensar em geral: na [[lexico:r:realidade:start|realidade]] as duas noções coincidem. S. [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]] (De Trin., XIV, 7) e [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] (S. Th., II, 2, q. 2 a. 1) admitem esse significado genérico ao lado do significado específico de pensamento discursivo (v. adiante). Neste sentido, o pensamento constitui a atividade própria de certa faculdade distinta do espírito [[lexico:h:humano:start|humano]], mais precisamente a faculdade à qual pertence a atividade cognoscitiva [[lexico:s:superior:start|superior]] (não [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]). [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] definia neste sentido: "Dizemos que estamos pensando quando estamos cientes daquilo que acontece em nós, que representa as [[lexico:c:coisas:start|coisas]] que estão fora de nós" (Psychol. empírica, § 23). Este significado constitui, hoje também, o emprego mais comum desse termo na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] corrente. 3) O [[lexico:t:terceiro:start|terceiro]] significado de pensamento especifica-o como pensamento discursivo. É esse o pensamento que Platão chamava de dianoia, considerando-o [[lexico:o:orgao:start|órgão]] das ciências propedêuticas ([[lexico:a:aritmetica:start|aritmética]], [[lexico:g:geometria:start|geometria]], [[lexico:a:astronomia:start|astronomia]] e [[lexico:m:musica:start|música]]), encaminhamento e preparação para o pensamento intuitivo do intelecto (Rep., VI, 511 d). S. Agostinho negava que o [[lexico:v:verbo:start|verbo]] de [[lexico:d:deus:start|Deus]] pudesse chamar-se pensamento neste sentido (De Trin., XV, 16); o mesmo fazia Tomás de Aquino, porque neste sentido pensar é "uma consideração do intelecto acompanhada pela [[lexico:i:indagacao:start|indagação]], sendo portanto anterior à [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]] que o intelecto atinge na [[lexico:c:certeza:start|certeza]] da [[lexico:v:visao:start|visão]]" (S. Th., II, 2, q. 2, a. 1; cf. I q. 34, a. 1). Segundo Tomás de Aquino, este é o significado "mais [[lexico:a:apropriado:start|apropriado]]" da palavra "pensamento". Neste significado, pode-se integrar o outro, que ele distingue como terceiro (o primeiro é o genérico, conforme o nB 2), o pensamento como [[lexico:a:ato:start|ato]] da faculdade cogitativa (virtus cogitativa) ou razão [[lexico:p:particular:start|particular]] ([[lexico:r:ratio:start|ratio]] particularis), que corresponde à [[lexico:c:capacidade:start|capacidade]] estimativa dos animais e consiste em reunir e [[lexico:c:comparar:start|comparar]] as intenções particulares, assim como a razão intelectiva ou pensamento discursivo consiste em reunir e comparar as intenções [[lexico:u:universais:start|universais]](Ibid., I, q. 78, a. 4). [[lexico:v:vico:start|Vico]] só fazia expressar os mesmos [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] ao afirmar, em De antiquissima italorum sapientia (1710), que a Deus pertence a [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] (intelligere), que é o conhecimento [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]], resultante de todos os [[lexico:e:elementos:start|elementos]] que constituem o [[lexico:o:objeto:start|objeto]], e ao [[lexico:h:homem:start|homem]] pertence só o pensamento (cogitare), que é como ir recolhendo alguns dos elementos constitutivos do objeto (De antiquissima italorum sapientia, I, 1). O [[lexico:e:empirismo:start|empirismo]] referia-se à mesma noção de pensamento quando [[lexico:h:hume:start|Hume]], p. ex., afirmava que tudo o que o pensamento pode fazer consiste "no poder de compor, transportar, aumentar ou diminuir os materiais fornecidos pelos sentidos e pela [[lexico:e:experiencia:start|experiência]]" (Inq. Conc. Underst., II; trad. it., 1910, p. 17). E este é, finalmente, o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de Kant: "Pensar é interligar representações numa [[lexico:c:consciencia:start|consciência]]" (.Prol., § 22). O que significa "pensar é o conhecimento por conceitos", e também "os conceitos, como [[lexico:p:predicados:start|predicados]] de juízos possíveis, referem-se a algumas representações de um objeto ainda [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]]", e portanto, quando esse objeto não é dado à [[lexico:i:intuicao-sensivel:start|intuição sensível]], tem-se um "pensamento [[lexico:f:formal:start|formal]]", mas não um conhecimento propriamente [[lexico:d:dito:start|dito]], que consiste na [[lexico:u:unidade:start|unidade]] de conceito e [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] (Crít. R. Pura, Anal. dos conceitos, seç. 1, § 22). Ao pensamento neste sentido referia-se Hamilton, considerando-o "ato ou [[lexico:p:produto:start|produto]] da faculdade discursiva, ou faculdade das [[lexico:r:relacoes:start|relações]]" (Lecture on Logic, V, 10; I, p. 73). Desse [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, a atividade do pensamento é definida em termos de [[lexico:s:sintese:start|síntese]], unificação, confronto, coordenação, [[lexico:s:selecao:start|seleção]], [[lexico:t:transformacao:start|transformação]], etc, dos dados que são oferecidos ao pensamento, mas não por ele mesmo produzidos. Portanto, a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do pensamento visto como atividade discursiva é, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], negativa: o pensamento discursivo nunca se identifica com seu objeto, mas versa sobre ele, ou seja, caracteriza-o e expressa-o. Neste sentido, Frege chama de pensamento o conteúdo de uma [[lexico:p:proposicao:start|proposição]], o seu sentido ("Über sinn und Bedeutung", § 5; trad. it., em Aritmética e [[lexico:l:logica:start|lógica]], p. 225). Neste mesmo sentido, [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]] dizia: "O pensamento é a proposição significante", e identificava pensamento e linguagem com o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] de que "a [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] das proposições é a linguagem" (Tractatus, 3, 5; 4; 4.001). 4) A característica do conceito de pensamento como intuição é a sua [[lexico:i:identidade:start|identidade]] com o objeto. Neste sentido, pensamento é atividade do intelecto intuitivo, ou seja, do intelecto que é visão direta do [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], segundo Platão (Rep., VI, 511 c), ou que, segundo Aristóteles, identifica-se com o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] inteligível em sua atividade (Met., XII, 2, 1072 b 18 ss.). Para o pensamento neste sentido os antigos usaram constantemente a palavra intelecto ; já vimos que S. Agostinho e Tomás de Aquino recusaram-se a estender a ele o significado de "pensamento". Mas no [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]] romântico, ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] em que o intelecto era rebaixado à faculdade do imóvel, o pensamento era alçado à [[lexico:p:posicao:start|posição]] já ocupada pelo intelecto intuitivo, e identificado com ele. [[lexico:f:fichte:start|Fichte]] foi o primeiro a fazer isso, quando identificou o pensamento com o [[lexico:e:eu:start|eu]] ou [[lexico:a:autoconsciencia:start|Autoconsciência]] Infinita (Wissenschaftslehre, 1794, § 1); o mesmo fizeram [[lexico:s:schelling:start|Schelling]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]]. Schelling afirmava: "Meu eu contém um ser que precede qualquer pensamento e [[lexico:r:representacao:start|representação]]. É porque é pensado; e é pensado porque é. (...) Produz-se com meu pensamento, graças a uma [[lexico:c:causalidade:start|causalidade]] absoluta" (Vom lch als Prinzip der Philosophie, 1795, § 3). Hegel, por sua vez, foi [[lexico:q:quem:start|quem]] expressou com mais clareza a identificação do pensamento com a autoconsciência criadora, ou seja, como atividade que coincide com sua própria produção. Ao definir a lógica como "[[lexico:c:ciencia:start|ciência]] do pensamento", afirmava que "ela contém o pensamento porque é ao mesmo tempo a coisa em si mesma, ou contém a coisa em si mesma porque é ao mesmo tempo o pensamento [[lexico:p:puro:start|puro]]" (Wissenschaft der Logik, Intr., Conceito geral; trad. it., I, p. 32). E partindo do conceito discursivo de pensamento, Hegel chega ao seu conceito intuitivo: "O pensamento no seu [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] mais [[lexico:p:proximo:start|próximo]] mostra-se sobretudo em seu significado [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]] comum como uma atividade ou faculdade espiritual, ao lado de outras (sensibilidade, intuição, [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]], [[lexico:a:apeticao:start|apetição]], querer, etc). O produto dessa atividade, [[lexico:c:carater:start|caráter]] ou [[lexico:f:forma:start|forma]] do pensamento é o [[lexico:u:universal:start|universal]], o [[lexico:a:abstrato:start|abstrato]] em geral. O pensamento como atividade é, por isso, o universal ativo, é propriamente aquilo que se faz, visto que o feito, o produto, é justamente o universal. O pensamento representado como [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], é o pensante; e a [[lexico:e:expressao:start|expressão]] [[lexico:s:simples:start|simples]] do sujeito existente como pensante é o eu" (Enc., § 20). Em outros termos, o pensamento é ao mesmo tempo a atividade produtiva e o seu produto (o universal ou conceito): ele é, portanto, a [[lexico:e:essencia:start|essência]] ou a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] de tudo (Ibid., § 21). A partir de Hegel essa noção intuitiva do pensamento foi às vezes qualificada pelos seus defensores como conceito "especulativo" do pensamento, e considerado o [[lexico:u:unico:start|único]] [[lexico:a:adequado:start|adequado]], por entender o pensamento em sua infinidade e [[lexico:f:forca-criadora:start|força criadora]]. Mas na realidade tratava-se ainda da velha noção de intelecto intuitivo estendida ao homem, sem levar mais em conta os limites e as condições que os antigos impunham a essa [[lexico:e:extensao:start|extensão]]. [[lexico:g:grego:start|grego]]: noesis, [[lexico:l:logismos:start|logismos]] tudo de que temos consciência. — O pensamento designa principalmente o ato de refletir ("Pensar é julgar", diz Kant) ou o produto da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]] (os [[lexico:p:pensamentos:start|Pensamentos]] de [[lexico:p:pascal:start|Pascal]]). O [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:n:natureza:start|natureza]] e da [[lexico:o:origem:start|origem]] de nossos pensamentos, que é o problema [[lexico:u:ultimo:start|último]] de toda reflexão, só foi diretamente abordado por Spinoza (no segundo livro da [[lexico:e:etica:start|Ética]]), por Fichte (na [[lexico:t:teoria-da-ciencia:start|Teoria da Ciência]]) e por [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] (em [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] pensar?). Parece que a análise do pensamento humano e a reflexão sobre sua própria atividade constituem o [[lexico:c:caminho:start|caminho]] mais fecundo para atingir o conhecimento do ser [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] ou Deus. Distingue-se, rigorosamente, a noção de "pensamento", que é reflexiva, da de "conhecimento", que se focaliza imediatamente sobre um objeto [[lexico:r:real:start|real]] (o [[lexico:m:mundo:start|mundo]], os homens etc.) e não implica necessariamente na reflexão. É o modo de conhecimento não intuitivo dirigido ao [[lexico:e:ente:start|ente]] enquanto tal e às relações implicadas no seu sentido. O pensamento perfaz-se no espírito humano em variados atos de [[lexico:a:apreensao:start|apreensão]] (compreensão da [[lexico:r:relacao:start|relação]], [[lexico:f:formacao:start|formação]] do conceito, raciocínio) e de tomada de posição ([[lexico:i:interrogacao:start|interrogação]], [[lexico:d:duvida:start|dúvida]], etc), a [[lexico:f:fim:start|fim]] de, no [[lexico:a:assentimento:start|assentimento]] do [[lexico:j:juizo:start|juízo]], abarcar de modo definitivo (ou que se julgar ser definitivo) um objeto. Numa transição rítmica passa-se da [[lexico:c:contemplacao:start|contemplação]] tranquila de um objeto (apreendido) ao processamento e busca de conhecimentos sempre novos (pensar discursivo), e do ato de entender, meramente em forma reprodutiva, uma verdade apresentada, mediante a [[lexico:c:compreensao:start|compreensão]] de suas relações lógicas com verdades adquiridas noutra [[lexico:o:ocasiao:start|ocasião]] (pensamento reprodutivo), transita-se a um pensamento criador mais [[lexico:i:independente:start|independente]] (inspiração, intuição e mais abaixo). O pensamento distingue-se essencialmente do [[lexico:c:conhecimento-sensorial:start|conhecimento sensorial]]. Ele dirige-se não só ao que recai sob os sentidos mas também ao intuitivo e, no sensorialmente perceptível, à [[lexico:q:quididade:start|quididade]] da coisa não apreensível pelos sentidos. Não se limita a seguir as leis das associações e dos complexos que atuam de maneira cega para os sentidos ([[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] subjetiva do pensamento), mas orienta-se, em última [[lexico:i:instancia:start|instância]], pela conexão necessária dos próprios conteúdos conceptuais (necessidade lógica ou objetiva do pensamento). A despeito dos múltiplos vínculos que o prendem à realidade material, o pensamento não é, como o conhecimento [[lexico:s:sensorial:start|sensorial]], uma atividade imediatamente co-executada com a [[lexico:m:materia:start|matéria]], mas é de natureza espiritual (espírito). Tendendo para o ser propriamente dito e encontrando aí seu objeto formal, ele pode, embora muitas vezes só analogicamente, entrar em contato com tudo o que de algum modo tem ser. Portanto, sua amplitude é ilimitada. — Todavia, o pensamento humano permanece frequentemente enlaçado por muitas maneiras à unidade psíquico-somática do [[lexico:c:conhecimento-sensivel:start|conhecimento sensível]] (e, por isso mesmo, à matéria e ao [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]]), tanto nos atos de apreensão como nos atos de tomar posição. Os conteúdos de nossos conceitos procedem quase todos da experiência sensível ([[lexico:f:formacao-do-conceito:start|formação do conceito]]). Toda compreensão mais ou menos complexa de dados e todo pensamento criador de [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] nova servem-se de complexos e de complementações de [[lexico:c:complexo:start|complexo]] inconscientes, e não raro isto acontece com tal frequência que as "intuições" criadoras ou "inspirações" podem dar a [[lexico:i:impressao:start|impressão]] de serem pouco mais que [[lexico:o:obra:start|obra]] do inconsciente. Contudo, tais processos inconscientes não são [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] pensamento; o [[lexico:t:trabalho:start|trabalho]] espiritual produtivo completa-se pela [[lexico:c:consciente:start|consciente]] inteligência da relação de conexões intelectuais dotadas de sentido. [[lexico:a:alem:start|Além]] disso, nosso pensamento é concomitantemente condicionado pelo "[[lexico:a:a-priori:start|a priori]] [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]]", na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que as particularidades individuais típicas ou acidentais do "[[lexico:t:temperamento:start|temperamento]] mental" e a peculiaridade dos conteúdos pensamentais adquiridos e habituais (nos quais se deve enquadrar logicamente aquilo que pela primeira vez deve ser compreendido) influem (de maneira frequentemente imperceptível, mas, por isso mesmo, mais importante) tanto nos processos da elaboração discursiva de conhecimentos quanto na configuração de seus conteúdos. Devem incluir-se também aqui a peculiaridade do [[lexico:e:estilo:start|estilo]] formal do pensamento, dirigido mais para o [[lexico:c:concreto:start|concreto]] ou mais paia o abstrato, o [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]] mais [[lexico:s:sintetico:start|sintético]] ou mais criticamente [[lexico:a:analitico:start|analítico]], o [[lexico:t:tipo:start|tipo]] de [[lexico:a:atencao:start|atenção]] mais tenaz ou mais lábil, a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] da [[lexico:p:personalidade:start|personalidade]] predominantemente esquizotímica ou ciclotímica, mais integrada ou mais desintegrada, e, por último, o [[lexico:e:ethos:start|ethos]] incondicional da verdade. Por esse [[lexico:m:motivo:start|motivo]], o pensamento humano, quanto mais se ocupa de coisas de importância vital e mais se empenha num trabalho sério de [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]], tanto mais é uma "atividade [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]]" sustentada pela personalidade total. Do mesmo modo que a índole e a formação desta personalidade influi no pensamento,, assim também a [[lexico:e:educacao:start|educação]] do pensamento em [[lexico:o:ordem:start|ordem]] ao ethos da verdade, à autocrítica sensata, à clareza e exatidão lógica, à abertura e docilidade para aprender, assume a [[lexico:m:maxima:start|máxima]] importância para a educação da personalidade integral e para a [[lexico:d:descoberta:start|descoberta]] objetiva da verdade. — Segundo Kant, pensamento, em oposição a conhecimento, significa todo [[lexico:u:uso:start|uso]] de conceitos quer haja um objeto determinado por eles, quer não haja; em oposição a intuição, pensamento significa o ato de determinar, mediante conceitos, a [[lexico:d:diversidade:start|diversidade]] dada, construindo com eles a unidade de um objeto, quer dizer, coincide com o conhecimento. — Willwoll. Para distinguir rigorosamente entre aquilo que pertence ao [[lexico:c:campo:start|campo]] da [[lexico:p:psicologia:start|psicologia]] e aquilo que pertence ao campo da lógica, há que separar o pensar, por um lado, e o pensamento, por outro, este último é uma [[lexico:e:entidade:start|entidade]] intemporal e inespacial: invariável e, portanto, não psíquica, pois embora o apreendamos mediante um ato [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]], pensar, não pode confundir-se com este. O pensamento entendido como aquilo que o pensar apreende, é um objeto [[lexico:i:ideal:start|ideal]] e, portanto, está submetido às determinações que correspondem a esse tipo de objeto. Isto faz que, para muitos autores, o pensamento seja o objeto da lógica enquanto [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] da sua estrutura, das suas relações e das suas formas independentemente dos atos psíquicos e dos conteúdos intencionais. Os pensamentos enquanto objeto da lógica, têm uma realidade formal e distinta da que têm quando constituem o objeto de uma ciência e são considerados como a forma que envolve um conteúdo que se refere a uma [[lexico:s:situacao:start|situação]] objetiva. Isto não equivale a uma [[lexico:n:negacao:start|negação]] do conteúdo do pensamento , mas, para poder constituir o [[lexico:t:tema:start|tema]] da lógica tem de ser abstraído e esvaziado do seu conteúdo. Note-se que a [[lexico:i:idealidade:start|idealidade]] do pensamento não é, contudo, uma maneira de ser, que só adota quando se abstrai do pensar e se lhe tira o conteúdo [[lexico:i:intencional:start|intencional]] a que se refere, mas que é propriamente a sua forma de ser enquanto é pensamento e é tratado como tal. O pensamento pode referir-se a todos os objetos e não só aos objetos reais. Sendo assim, pode definir-se o pensamento como a forma de qualquer objeto [[lexico:p:possivel:start|possível]] e, ao mesmo tempo, pode definir-se o objeto como a matéria de qualquer possível pensamento. Esta [[lexico:a:acao:start|ação]] do pensamento, posta em relevo pela [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]], não coincide com a concepção tradicional que ou faz do pensamento um ato de pensar (e nisto concordam muitas correntes da [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]]) ou o converte numa entidade extratemporal e [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]].. Quer como [[lexico:p:paradigma:start|paradigma]] das coisas, quer como o Absoluto que se desenvolve num [[lexico:p:processo:start|processo]] dialéctico e nele expande toda a sua realidade (Hegel). É diferente do anterior, em contrapartida, o problema do pensar como atividade ou processo. O pensar é um ato psíquico que tem [[lexico:l:lugar:start|lugar]] no tempo, e é formulado por um sujeito que apreende um pensamento, o qual se refere, por sua vez, a uma situação objetiva ou a objetos. Contudo, uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] como esta é demasiado exclusivamente descritiva e imprecisa. Por um lado, os objetos a que se refere o pensar são de índole muito diferente, por outro, há que recorrer à psicologia para averiguar qual é a origem do pensar e da sua estrutura. Alguns filósofos contemporâneos, especialmente G. Ryle, e os pensadores do [[lexico:c:chamado:start|chamado]] [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de Oxford, sustentaram que é [[lexico:i:impossivel:start|impossível]] reduzir o pensar a uma definição precisa, o que se põe em relevo ao examinar a diversidade de usos da palavra pensar. Por seu lado, Heidegger entendeu o pensar de uma forma muito peculiar. Segundo Heidegger, não aprendemos ainda a pensar, e a nossa [[lexico:t:tarefa:start|tarefa]] consiste em nos situarmos na atmosfera do pensar. A ciência não é o pensar, a sua [[lexico:v:vantagem:start|vantagem]] consiste precisamente em que carece de pensamento. Mas da ciência para o pensamento não há uma passagem gradual, mas um [[lexico:s:salto:start|salto]]. Uma das caraterísticas salientes do pensar é que só pode ser mostrado e não demonstrado. O pensar é um caminho que nos conduz ao pensável, isto é, ao ser em cujo âmbito, e só em cujo âmbito, há pensamento. [[lexico:o:ortega-y-gasset:start|Ortega y Gasset]] insistiu em diferenciar o pensamento ou o pensar do conhecimento. Para Ortega, o conhecimento é pleno pensamento, mas pode ser ou não ser [[lexico:n:necessario:start|necessário]] enquanto pensamento é algo que pode não ser conhecimento mas não pode deixar de havê-lo porque o pensamento é tudo o que fazemos para [[lexico:s:saber:start|saber]] a que ater-nos. Este saber pode ser intelectual, mas pode não o ser. Daí que o que é próprio do homem não é o conhecimento, mas a necessidade de pensar, de saber a que ater-se. Diremos que o objeto determina o sujeito e que esta [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] do sujeito pelo objeto é o pensamento. Mas, guarde-mo-nos muito [[lexico:b:bem:start|Bem]] de julgar esta [[lexico:a:atitude:start|atitude]] receptiva do sujeito como uma total e completa passividade. Não é que o sujeito se deixe passivamente imprimir o pensamento pelo objeto, antes o sujeito atua também; sai de si para o objeto, vai ao encontro do objeto; é também ativo. Mas sua atuação, a atividade do sujeito, não recai sobre o objeto. O objeto permanece intacto dessa atividade do sujeito. O que acontece é que o sujeito, ao ir para o objeto, produz o pensamento. O pensamento é, pois, produzido por uma ação simultânea do objeto sobre o sujeito e do sujeito ao querer ir para o objeto. A atividade do sujeito não é incompatível com a [[lexico:r:receptividade:start|receptividade]] do mesmo sujeito, visto que esta atividade recai sobre o pensamento. Temos, pois, que o objeto pode dizer-se e chamar-se [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] com [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao sujeito. O objeto é transcendente com respeito ao sujeito, e o é tanto se se tratar de um objeto dos chamados reais — como este copo ou esta lâmpada — [[lexico:c:como-se:start|como se]] se tratar do objeto chamado ideal, como o [[lexico:t:triangulo:start|triângulo]] ou a [[lexico:r:raiz:start|raiz]] quadrada de 3, porque, tanto num caso como no outro, o objeto aparece para o sujeito como algo que tem em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]] suas próprias propriedades e que essas propriedades não são no menor [[lexico:g:grau:start|grau]] aumentadas ou diminuídas, ou mudadas, ou desgastadas pela atividade do sujeito que quer conhecê-las. É, pois, na realidade, uma atividade que consiste em ir para o objeto, expor-se diante dele, para que este por sua vez envie suas propriedades ao sujeito e do encontro resulte o pensamento. Por conseguinte, neste sentido, o objeto é sempre, em todo caso, transcendente ao sujeito. E [[lexico:a:agora:start|agora]] talvez se me pergunte: como pode tornar-se compatível esta [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]] do objeto com a necessária [[lexico:c:correlacao:start|correlação]] entre [[lexico:s:sujeito-e-objeto:start|sujeito e objeto]]? Não dizíamos antes que o objeto e o sujeito são correlativos e que o sujeito é sujeito para o objeto e que o objeto é objeto para o sujeito, como a esquerda e a direita se condicionam mutuamente entre si? Agora, ao contrário, dizemos que o objeto é transcendente e que é aquilo que é independentemente de ser ou não ser conhecido pelo sujeito. Parece que aqui há uma [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Mas não há tal contradição, porque o objeto é transcendente para a totalidade da relação de conhecimento; é transcendente enquanto que a relação de conhecimento o considera como transcendente. Porém, em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]], — metafisicamente falando — o objeto não é objeto para o sujeito senão enquanto começa pelo menos a ser conhecido. O objeto que não seja objeto para um sujeito, não é objeto. Será o que for, mas não será problema para o conhecimento, não constituirá [[lexico:e:elemento:start|elemento]] algum do conhecimento. Uma vez que entrou na correlação de ser o objeto para mim, sujeito, e de ser eu sujeito enquanto que penso este objeto; uma vez estabelecida já a correlação, o objeto, dentro já da correlação, é transcendente, porque é [[lexico:i:irreversivel:start|irreversível]] esta correlação, e porque o objeto não pode penetrar nunca dentro do sujeito, antes permanece sempre à distância, mediatizado pelo pensamento. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}