===== OUVINTE ===== Relacionado a isso encontra-se também o [[lexico:f:fato|fato]] de que a [[lexico:o:oposicao|oposição]] entre um [[lexico:a:autentico|autêntico]] [[lexico:p:pensamento|pensamento]] [[lexico:m:mitico|mítico]] e um pensamento poético pseudomítico é uma [[lexico:i:ilusao|ilusão]] romântica, montada sobre um preconceito do [[lexico:a:aufklarung|Aufklärung]]: o de que o fazer poético, pelo fato de [[lexico:s:ser|ser]] uma [[lexico:c:criacao|criação]] da livre [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de imaginar, [[lexico:n:nao|não]] participa mais da vinculação religiosa do [[lexico:m:mythos|mythos]]. E a antiga polêmica entre o [[lexico:p:poeta|poeta]] e o [[lexico:f:filosofo|filósofo]], que entra [[lexico:a:agora|agora]] no seu estágio [[lexico:m:moderno|moderno]] de [[lexico:f:fe|fé]] na [[lexico:c:ciencia|ciência]]. Agora já não se diz que os poetas mentem muito, pois que eles não têm [[lexico:n:nada|nada]] de [[lexico:v:verdadeiro|verdadeiro]] para dizer, já que somente produzem um [[lexico:e:efeito|efeito]] estético e só pretendem estimular a [[lexico:a:atividade|atividade]] da [[lexico:f:fantasia|fantasia]] e o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] vital do ouvinte ou do leitor através das criações de sua fantasia. [[lexico:v:verdade|verdade]] E [[lexico:m:metodo|MÉTODO]] SEGUNDA [[lexico:p:parte|parte]] 2. O [[lexico:a:atual|atual]] [[lexico:p:problema|problema]] é o de [[lexico:s:saber|saber]] como pode se dar um saber filosófico sobre o ser [[lexico:m:moral|moral]] do [[lexico:h:homem|homem]]. Se [[lexico:o:o-que-e|o que é]] [[lexico:b:bom|Bom]] só aparece na concreção da [[lexico:s:situacao|situação]] prática em que ele se encontra, então o saber ético deve oferecer, para se haver com a situação concreta, o que é que esta exige dele ou, [[lexico:d:dito|dito]] de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]], aquele que atua deve [[lexico:v:ver|ver]] a situação concreta à [[lexico:l:luz|luz]] do que se exige dele em [[lexico:g:geral|geral]]. Negativamente isto significa que um saber geral que não saiba aplicar-se à situação concreta permanece sem [[lexico:s:sentido|sentido]], e até ameaça obscurecer as exigências concretas que emanam de uma determinada situação. Esta conjuntura, que expressa a própria [[lexico:e:essencia|essência]] da [[lexico:r:reflexao|reflexão]] [[lexico:e:etica|ética]], não somente converte uma [[lexico:e:etica-filosofica|ética filosófica]] em um problema metódico difícil, mas ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] dá relevância moral ao problema do método. Face à idéia do [[lexico:b:bem|Bem]], determinada pela [[lexico:t:teoria|teoria]] platônica das idéias, [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]] enfatiza o fato de que, no terreno do problema ético não se pode [[lexico:f:falar|falar]] de uma exatidão, de nível máximo, como a que fornece o matemático. [[lexico:e:esse|esse]] requisito de exatidão, na verdade, estaria fora de [[lexico:l:lugar|lugar]]. Aqui se trata tão-somente de tornar visível o perfil das [[lexico:c:coisas|coisas]] e ajudar, de certo modo, a [[lexico:c:consciencia-moral|consciência moral]] com este esboço do mero perfil. Mas o problema de como deve ser [[lexico:p:possivel|possível]] esta ajuda já é um problema moral. Pois faz parte dos traços essenciais do [[lexico:f:fenomeno|fenômeno]] ético, que aquele que atua deve saber e decidir por [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]] e não permitir que lhe arrebatem essa [[lexico:a:autonomia|autonomia]] por nada. Portanto, o que não pretenda intrometer-se no lugar da [[lexico:c:consciencia|consciência]] moral, nem tampouco ser um [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]] moral a esclarecer-se a si mesma graças a esse esclarecimento do perfil dos diversos fenômenos. Naquele que há de receber essa ajuda — o ouvinte da lição aristotélica — isto supõe um montão de coisas. Tem de possuir tanta maturidade [[lexico:e:existencial|existencial]], que possa não esperar da indicação que se lhe oferece mais do que esta pode e deve dar. Ou, formulado positivamente: por [[lexico:e:educacao|educação]] e exercício ele já deve [[lexico:t:ter|ter]] desenvolvido uma determinada [[lexico:a:atitude|atitude]] em si mesmo, e seu empenho constante deve ser mantê-lo ao largo das situações concretas de sua [[lexico:v:vida|vida]] e conservá-la através de um [[lexico:c:comportamento|comportamento]] correto. VERDADE E MÉTODO SEGUNDA PARTE 2. Se quisermos determinar corretamente o [[lexico:c:conceito|conceito]] de pertença, de que se trata aqui, será conveniente que observemos a [[lexico:d:dialetica|dialética]] peculiar, contida no ouvir. Não se trata somente de que aquele que ouve é de algum modo interpelado. Antes, nisso está o fato de que [[lexico:q:quem|quem]] é interpelado tem de ouvir, queira ou não. Não pode apartar seus ouvidos, tal [[lexico:c:como-se|como se]] aparte a vista de outra [[lexico:c:coisa|coisa]], olhando numa determinada direção. Essa [[lexico:d:diferenca|diferença]] entre ver e ouvir é para nós importante, porque ao fenômeno hermenêutico subjaz uma verdadeira primazia do ouvir, como Aristóteles já reconhece. Não há nada que não seja acessível ao ouvido através da [[lexico:l:linguagem|linguagem]]. Enquanto nenhum dos demais sentidos participa diretamente na universalidade da [[lexico:e:experiencia|experiência]] lingüística do [[lexico:m:mundo|mundo]], já que cada um deles abarca tão-somente o seu [[lexico:c:campo|campo]] específico, o ouvir é um [[lexico:c:caminho|caminho]] rumo ao [[lexico:t:todo|todo]], porque está capacitado para escutar o [[lexico:l:logos|Logos]]. À luz da nossa colocação [[lexico:h:hermeneutica|hermenêutica]], esse velho conhecimento da primazia do ouvir sobre o ver alcança um [[lexico:p:peso|peso]] novo. A linguagem, na qual o ouvir participa, não é somente [[lexico:u:universal|universal]] no sentido de que nela tudo pode vir à [[lexico:f:fala|fala]]. O sentido da experiência hermenêutica reside, antes, no fato de que, face a todas as formas de experiência no mundo, a linguagem põe a descoberto uma [[lexico:d:dimensao|dimensão]] completamente nova, uma dimensão de profundidade, a partir da qual a [[lexico:t:tradicao|tradição]] alcança os que vivem no presente. Tal é a verdadeira essência do ouvir, já desde tempos remotos, e inclusive antes da [[lexico:e:escrita|escrita]]: O ouvinte está capacitado a ouvir a [[lexico:l:lenda|lenda]], o [[lexico:m:mito|mito]], a verdade dos antepassados. A transmissão literária da tradição, como a conhecemos, não significa, face a isso, nada de novo, apenas altera a [[lexico:f:forma|forma]] e dificulta a [[lexico:t:tarefa|tarefa]] do verdadeiro ouvir. VERDADE E MÉTODO TERCEIRA PARTE 3. Mas, para não falarmos sempre apenas desse sentido mais [[lexico:e:extremo|extremo]] e [[lexico:p:profundo|profundo]] de [[lexico:d:dialogo|diálogo]], devemos também considerar diversas formas de diálogo que ocorrem em nossa vida, agora ameaçados como discutimos em nosso [[lexico:t:tema|tema]]. O primeiro é o diálogo pedagógico. Não que merecesse [[lexico:p:por-si|por si]] uma primazia especial, mas nele mostra-se de modo especial o que pode [[lexico:e:estar|estar]] por trás da experiência da incapacidade para o diálogo. O diálogo entre professor e alunos é certamente uma das formas mais primitivas de experiência de diálogo, e aqueles carismáticos do diálogo de que falamos acima são todos mestres e professores que ensinam seus discípulos ou alunos através do diálogo. Na situação do professor reside uma dificuldade peculiar em manter firme a capacidade para o diálogo, na qual a maioria sucumbe. Aquele que tem que ensinar acredita [[lexico:d:dever|dever]] e poder falar, e quanto mais consistente e articulado por sua fala, tanto mais imagina estar se comunicando com seus alunos. É o perigo da cátedra que todos conhecemos. Recordo-me de meu tempo de estudante de um seminário que fiz com [[lexico:h:husserl|Husserl]]. Sabemos que o exercício do seminário costuma conter o máximo de diálogo investigativo possível e o mínimo possível de diálogo pedagógico. Husserl, que nos primeiros vinte anos como [[lexico:m:mestre|mestre]] de [[lexico:f:fenomenologia|fenomenologia]] em Friburgo sentia-se movido por um profundo [[lexico:i:impulso|impulso]] missionário e exercia na [[lexico:r:realidade|realidade]] uma atividade filosófica de ensino muito significativa, não era nenhum mestre do diálogo. Ele abria aqueles seminários com uma [[lexico:q:questao|questão]] inicial, recebia uma resposta curta e movido por essa prosseguia seu monólogo por duas horas seguidas. Quando ao final da reunião saía da sala junto com seu assistente, [[lexico:h:heidegger|Heidegger]], dizia a este [[lexico:u:ultimo|último]]: "hoje, sim, tivemos realmente um debate animado". São experiências desse [[lexico:t:tipo|tipo]] que nos dias de hoje colocaram em crise as preleções acadêmicas. A incapacidade para dialogar dá-se principalmente por parte do professor, e sendo o professor o autêntico transmissor da ciência, essa incapacidade radica-se na [[lexico:e:estrutura|estrutura]] de monólogo da ciência [[lexico:m:moderna|moderna]] e da [[lexico:f:formacao|formação]] teórica. Em escolas superiores têm-se feito repetidas tentativas de animar as preleções através do debate, fazendo-se também a experiência contrária de que a passagem da [[lexico:p:posicao|posição]] receptiva de ouvinte para a iniciativa da [[lexico:p:pergunta|pergunta]] e da oposição é extremamente difícil e raras vezes alcança êxito. Por [[lexico:f:fim|fim]], na situação de ensino, quando esta ultrapassa a intimidade de um pequeno [[lexico:c:circulo|círculo]], reside uma dificuldade intransponível para o diálogo. [[lexico:p:platao|Platão]] já sabia disso: o diálogo jamais se torna possível com muitas pessoas, nem pela [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:p:presenca|presença]] de muitos. Nossas experiências com os chamados fóruns de conversação, esses [[lexico:d:dialogos|diálogos]] em mesas semi-redondas, são também diálogos semimortos. Há também outras situações de diálogo autênticas, isto é, individualizadas, onde o diálogo conserva sua verdadeira [[lexico:f:funcao|função]]. Gostaria de distinguir três tipos diferentes: O diálogo para negociação, o diálogo terapêutico e o diálogo familiar. VERDADE E MÉTODO II COMPLEMENTOS 16. Mas a oratória como tal está ligada à imediaticidade de seus efeitos. Com profunda erudição, Klaus Dockhorn mostrou em que [[lexico:m:medida|medida]] o produzir efeitos se impôs como o mais importante recurso [[lexico:p:persuasivo|persuasivo]] desde Cícero e Quintiliano até a [[lexico:r:retorica|retórica]] [[lexico:p:politica|política]] inglesa do século XVIII. Mas o produzir efeitos, enquanto a tarefa [[lexico:e:essencial|essencial]] do orador, tem muito pouca [[lexico:i:influencia|influência]] quando se trata da [[lexico:e:expressao|expressão]] escrita, a qual se torna [[lexico:o:objeto|objeto]] do [[lexico:e:esforco|esforço]] hermenêutico; e é justamente essa diferença que queremos destacar: o orador arrasta o ouvinte. O brilho de seus argumentos deslumbra o ouvinte. A [[lexico:f:forca|força]] persuasiva do [[lexico:d:discurso|discurso]] não deve nem pode admitir a reflexão [[lexico:c:critica|crítica]]. A [[lexico:l:leitura|leitura]] e [[lexico:i:interpretacao|interpretação]] do [[lexico:e:escrito|escrito]], ao contrário, estão tão distanciadas e afastadas do escritor, de seus [[lexico:h:humores|humores]], de suas intenções e de suas tendências latentes que a [[lexico:a:apreensao|apreensão]] do sentido do [[lexico:t:texto|texto]] adquire o [[lexico:c:carater|caráter]] de uma produção autônoma que se assemelha mais à [[lexico:a:arte|arte]] do discurso do que ao comportamento de seu ouvinte. Compreende-se assim o fato de os recursos teóricos da arte da interpretação serem tomados em grande medida da retórica, como demonstrei em alguns pontos e como expôs Dockhorn numa ampla base. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 18. Mesmo assim, a situação hermenêutica na [[lexico:r:relacao-social|relação social]] dos interlocutores é bem diferente da que se dá na [[lexico:r:relacao|relação]] [[lexico:a:analitica|analítica]]. Quando [[lexico:c:conto|conto]] um [[lexico:s:sonho|sonho]] a alguém sem ser movido por uma [[lexico:i:intencao|intenção]] analítica ou por meu papel de paciente, a [[lexico:c:comunicacao|comunicação]] não tem o sentido de introduzir uma interpretação analítica do sonho. Se fizer isso, o ouvinte não atina com o scopus hermenêutico. A intenção é antes compartilhar os jogos inconscientes da própria fantasia onírica, do mesmo modo que na fantasia por [[lexico:e:exemplo|exemplo]] participamos das lendas ou no caso da [[lexico:i:imaginacao|imaginação]] poética. Essa reivindicação hermenêutica é legítima e nada tem a ver com a resistência que é um fenômeno bem conhecido dentro da [[lexico:a:analise|análise]]. É perfeitamente justificável rechaçar a atitude de alguém que não leve em conta essa situação hermenêutica descrita e, em vez de [[lexico:c:compreender|compreender]] por exemplo as poesias oníricas de Jean Paul como jogos significativos da imaginação, trata de interpretá-los como uma gravidade significativa do [[lexico:s:simbolismo|simbolismo]] [[lexico:i:inconsciente|Inconsciente]] de uma biografia entulhada. É oportuna aqui a crítica hermenêutica à legitimidade da [[lexico:p:psicologia|psicologia]] profunda, e não se limita de modo algum a fantasias estéticas. Quando alguém, por exemplo, procura convencer argumentativamente um outro sobre uma questão política, tomado de uma [[lexico:e:emocao|emoção]] apaixonada e uma veemência beirando a irritação, sua pretensão hermenêutica será escutar contra-argumentos e não ver suas emoções serem analisadas por vias da psicologia profunda, segundo a [[lexico:m:maxima|máxima]] de que "quem se irrita jamais tem [[lexico:r:razao|razão]]". Mais adiante voltaremos a discutir essa relação entre reflexão psicanalítica e hermenêutica e os perigos de uma confusão desses dois "jogos de linguagem". VERDADE E MÉTODO II OUTROS 19. Uma das teses do Platão mais autêntico ([[lexico:t:tese|tese]] que Aristóteles comentou e buscou fundamentar) também é que a essência da retórica não se esgota nessas artes que se podem formular como regras técnicas. Aquilo que fazem os mestres de retórica, criticados por Platão no [[lexico:f:fedro|Fedro]], é algo que está "aquém" da verdadeira arte. Pois a autêntica arte da retórica é inseparável do conhecimento da verdade e do conhecimento da "[[lexico:a:alma|alma]]". Platão refere-se ao [[lexico:e:estado|Estado]] anímico do ouvinte, cujos afetos e paixões o discurso deve despertar para poder persuadir. Esse é o ensinamento do Fedro, e toda a retórica segue assim o [[lexico:p:principio|princípio]] do argumentum [[lexico:a:ad-hominem|ad hominem]] no trato cotidiano com as pessoas até os nossos dias. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 20. Não é por [[lexico:a:acaso|acaso]] que a [[lexico:p:palavra|palavra]] "[[lexico:l:literatura|literatura]]" conservou um sentido axiológico, de forma que a pertença a ela representa uma [[lexico:c:caracteristica|característica]] distintiva. Um texto desse [[lexico:g:genero|gênero]] não significa a mera fixação de um discurso, mas possui sua própria autenticidade. Se o caráter do discurso consegue fazer com que o ouvinte ultrapasse o [[lexico:p:proprio|próprio]] discurso, ouvindo através dele e centrando sua [[lexico:a:atencao|atenção]] no que o discurso lhe comunica, esse fato põe de manifesto o que é a linguagem ela mesma. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 24. Nesse sentido, a palavra [[lexico:s:singular|singular]] como portadora de seu [[lexico:s:significado|significado]] e como co-portadora do sentido [[lexico:d:discursivo|discursivo]] é apenas um [[lexico:m:momento|momento]] [[lexico:a:abstrato|abstrato]] do discurso. Tudo deve ser visto no âmbito mais amplo da [[lexico:s:sintaxe|sintaxe]]. Tratando-se de um texto literário, é uma sintaxe que não é tal incondicionalmente nem tampouco segundo a [[lexico:g:gramatica|gramática]] usual. Assim como o orador lança mão de liberdades sintáticas outorgadas pelo ouvinte, na medida em que este está em sintonia com todas as modulações e gesticulações do orador, também o texto literário — com todos os matizes que ostenta — possui suas próprias liberdades. Essas liberdades se encaixam na realidade sonora que reforça o sentido do conjunto do texto. De certo, já no âmbito da [[lexico:p:prosa|prosa]] corrente supõe-se que um discurso não é um "escrito", tampouco como uma conferência é uma aula, um paper. Isso fica ainda mais acentuado no caso da literatura, no sentido eminente da palavra. Ela supera a [[lexico:a:abstracao|abstração]] do escrito não somente porque o texto seja legível, quer dizer, compreensível em seu sentido. Um texto literário possui um [[lexico:s:status|status]] próprio. Sua presença como texto estruturado na linguagem exige uma [[lexico:r:repeticao|repetição]] da literalidade original. Isso sem recorrer a uma linguagem originária, mas na medida em que inaugura uma linguagem nova e [[lexico:i:ideal|ideal]]. A trama das referências de sentido nunca se esgota nas [[lexico:r:relacoes|relações]] existentes entre os significados principais das [[lexico:p:palavras|palavras]]. Justamente as relações de significado anexas, que não aparecem ligadas à teleología de sentido, conferem sua magnitude (Volumen) à [[lexico:f:frase|frase]] literária. Tais relações não se dariam se o conjunto do discurso por assim dizer não se mantivesse de pé por si só, se convidasse à [[lexico:q:quietude|quietude]] e impedisse o leitor ou o ouvinte de tornar-se cada vez mais ouvinte. Mas, apesar disso, como toda [[lexico:a:audicao|audição]], esse tornar-se ouvinte é sempre um ouvir algo, que entende o que ouviu como a [[lexico:f:figura|figura]] de sentido de um discurso. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 24. No fundamental, a arte de recitar tampouco é diferente. Necessita apenas de uma [[lexico:t:tecnica|técnica]] especial, porque os ouvintes são pessoas anônimas e o texto poético exige sua realização em cada ouvinte. Encontramos aqui algo parecido com o que acontece quando soletramos, a saber, a recitação [[lexico:m:mecanica|mecânica]]. Declamar mecanicamente não é falar, mas alinhar fragmentos de sentido, um atrás do outro. Um exemplo claro é o das crianças que aprendem versos de [[lexico:m:memoria|memória]] e os "recitam", para a [[lexico:a:alegria|alegria]] dos pais. Quem é realmente capaz de recitar ou é um [[lexico:a:artista|artista]] da recitação, ao contrário, tornará presente uma figura global de linguagem, do mesmo modo que o ator deve [[lexico:c:criar|criar]] as palavras de seu [[lexico:p:personagem|personagem]] como se as encontrasse no [[lexico:a:ato|ato]]. Não poderá ser uma [[lexico:s:serie|série]] de retalhos de fala, mas um todo, [[lexico:c:composto|composto]] de sentido e som, que "se sustenta por si". Por isso o falante ideal não pode fazer-se presente a si mesmo, mas unicamente ao texto, que deve tornar-se acessível inclusive a um cego, incapaz de ver seus gestos. Disse [[lexico:g:goethe|Goethe]] certa vez: "Não há maior nem mais [[lexico:p:puro|puro]] [[lexico:p:prazer|prazer]] do que fechar os olhos e ouvir recitar — não declamar — um fragmento de Shakespeare, entoado com uma [[lexico:v:voz|voz]] [[lexico:n:natural|natural]] perfeita". Podemos perguntar, no entanto, se a recitação é possível com qualquer tipo de textos poéticos; por exemplo, quando se trata de [[lexico:p:poesia|poesia]] para [[lexico:m:meditacao|meditação]]. Este problema surge também na [[lexico:h:historia|história]] dos gêneros da lírica. A lírica coral e o canto em geral, que convida a cantar junto, é algo totalmente distinto do tom elegíaco. A poesia para meditação somente parece possível na pura [[lexico:s:solidao|solidão]]. VERDADE E MÉTODO II OUTROS 24. A [[lexico:m:motivacao|motivação]] moral contida no conceito do common sense ou do bon sens permaneceu ativa até os nossos dias e diferencia esses [[lexico:c:conceitos|conceitos]] do nosso conceito da "[[lexico:c:compreensao|compreensão]] humana sadia". Cito, como exemplo, o [[lexico:b:belo|belo]] discurso que Henri [[lexico:b:bergson|Bergson]] fez em 1895, sobre o bon sens, por [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] da homenagem que lhe foi prestada na Sorbônia. Sua crítica às abstrações da ciência da [[lexico:n:natureza|natureza]], bem como às da linguagem e do pensamento jurídico, seu tempestuoso apelo à "[[lexico:e:energia|energia]] interior de uma [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], que a todo momento se reconquista sobre si mesma, eliminando as idéias feitas para deixar [[lexico:e:espaco|espaço]] livre para as idéias que se fazem" (88), tudo isso pôde, na França, ser batizado sob a [[lexico:d:denominacao|denominação]] de bon sens. A [[lexico:d:determinacao|determinação]] desse conceito continha, como é natural, uma [[lexico:r:referencia|referência]] aos sentidos, mas para Bergson é evidente que, diferentemente dos sentidos, o bon sens se refere ao milieu [[lexico:s:social|social]] ([[lexico:m:meio|meio]] social). "Enquanto que os outros sentidos nos colocam em relação com coisas, o [[lexico:b:bom-senso|bom senso]] preside nossas relações para com pessoas" (85). Ele é uma [[lexico:e:especie|espécie]] de [[lexico:g:genio|gênio]] para a vida prática, mas menos um [[lexico:d:dom|dom]] (Gabe) do que a permanente tarefa (Aufgabe) de "ajustamento sempre novo de situações sempre novas, uma espécie desadaptação dos [[lexico:p:principios|princípios]] gerais à realidade, através da qual se realiza a [[lexico:j:justica|justiça]], um "[[lexico:t:tato|tato]] da verdade prática", uma "[[lexico:r:retidao|retidão]] de [[lexico:j:juizo|juízo]], que provém da retitude da alma" (88). O bons sens é, segundo Bergson, enquanto a [[lexico:f:fonte|fonte]] comum do pensamento e do querer, em sens social, que tanto evita o [[lexico:e:erro|erro]] dos dogmáticos científicos, que estão à busca de leis sociais, como o dos utopistas metafísicos. "Falando mais propriamente, talvez não exista mais método, mas antes, um certo modo de fazer." É verdade que Bergson fala sobre o significado dos estudos clássicos para o aperfeiçoamento desse bon sens — ele vê neles o empenho de romper o "gelo das palavras" e para descobrir, sob elas, a corrente livre do pensamento (91) — mas é claro que ele não coloca a pergunta contrária, ou seja, até que [[lexico:p:ponto|ponto]] é [[lexico:n:necessario|necessário]] o bon sens para os próprios estudos clássicos, isto é, não fala de sua função hermenêutica. Sua pergunta não se dirige, de forma alguma, às ciências, mas, sim, ao sentido [[lexico:i:independente|independente]] do bon sens para a vida. Nós sublinhamos apenas a [[lexico:e:evidencia|evidência]], para ele e seus ouvintes, o sentido moral-político desse conceito assume a liderança. VERDADE E MÉTODO PRIMEIRA PARTE 1. Essas observações pareceriam contraditas pelo fato de que na dialética socrático-platônica a arte do perguntar se eleva a um domínio [[lexico:c:consciente|consciente]]. Não obstante, também esta arte é uma coisa peculiar. Já havíamos visto que ela está reservada àquele que quer saber, isto é, àquele que já tem perguntas. A arte de perguntar não é a arte de esquivar-se da coerção das opiniões; ela pressupõe essa [[lexico:l:liberdade|liberdade]]. Nem sequer é uma arte no sentido em que os gregos falavam de [[lexico:t:techne|techne]], não é um saber que se possa ensinar e através do qual podemos nos apoderar do conhecimento da verdade. O [[lexico:c:chamado|chamado]] excurso epistemológico da sétima carta está orientado, antes, precisamente no sentido de destacar esta arte peculiar da dialética em seu caráter [[lexico:u:unico|único]], face a tudo o que se pode ensinar e aprender. A arte da dialética não é a arte de ganhar de todo mundo na [[lexico:a:argumentacao|argumentação]]. Pelo contrário, é perfeitamente possível que aquele que é perito na arte dialética, isto é, na arte de perguntar e buscar a verdade, apareça aos olhos de seus ouvintes como o menos indicado a argumentar. A dialética, como arte do perguntar, só pode se manter, se aquele que sabe perguntar é capaz de manter em pé suas perguntas, isto é, a [[lexico:o:orientacao|orientação]] para o [[lexico:a:aberto|aberto]]. A arte de perguntar é a arte de continuar perguntando; isso significa, porém, que é a arte de [[lexico:p:pensar|pensar]]. Chama-se dialética porque é a arte de conduzir uma autêntica conversação. VERDADE E MÉTODO SEGUNDA PARTE 2. Em si, todo escrito levanta a pretensão de ser alentado por si mesmo no lingüístico, e esta pretensão de autonomia de sentido vai tão longe que inclusive uma leitura autêntica, por exemplo, a de um poema pelo seu autor se torna questionável, no momento em que a intenção dos ouvintes se afasta do ponto a que nós, como aqueles que compreendem, realmente estamos orientados. Posto que o que importa é a comunicação do verdadeiro sentido de um texto, sua interpretação se encontra submetida a uma [[lexico:n:norma|norma]] que se pauta no assunto em questão. E esta a exigencia que coloca a [[lexico:d:dialetica-platonica|dialética platônica]], quando procura fazer valer o logos como tal, e deixa, às vezes, para trás o seu companheiro [[lexico:r:real|real]] de diálogo no curso desse empenho. E mais, a debilidade específica da escrita, sua maior [[lexico:n:necessidade|necessidade]] de auxílio, em comparação com o falar vivo, tem como reverso o fato de que faz sobressair a tarefa hermenêutica da compreensão com dobrada clareza. Tal como na conversação, também aqui a compreensão tem que tentar fortalecer o sentido do que foi dito. O que se diz no texto tem de ser despojado de toda a [[lexico:c:contingencia|contingência]] que — lhe é inerente, e entendido na plena [[lexico:i:idealidade|idealidade]] em que unicamente tem seu [[lexico:v:valor|valor]]. Por isso a fixação por escrito permite que o leitor compreensivo possa erigir-se em advogado de sua pretensão de verdade, precisamente porque separa por completo o sentido do [[lexico:e:enunciado|enunciado]] aquele que enuncia. É assim como o leitor experimenta, em sua validez, o que lhe fala e o que ele compreende. Por sua vez, aquilo que ele compreendeu será sempre mais que uma [[lexico:o:opiniao|opinião]] estranha: já será sempre uma possível verdade. Isto é o que emerge em [[lexico:v:virtude|virtude]] da liberação do dito com [[lexico:r:respeito|respeito]] a quem o disse e em virtude do status de [[lexico:d:duracao|duração]] que lhe confere a escrita. E o fato de que pessoas pouco acostumadas à leitura nunca cheguem inteiramente à suspeita de que algo escrito possa ser [[lexico:f:falso|falso]], tem, como já vimos , uma razão hermenêutica profunda, pois para eles todo escrito é uma espécie de documento que se avaliza a si mesmo. VERDADE E MÉTODO TERCEIRA PARTE 1. À primeira vista, o fato de que não se deva introduzir num texto nada que não pudesse ter tido em [[lexico:m:mente|mente]] o autor e o leitor, soa como um [[lexico:c:canon|cânon]] hermenêutico da razão, que, enquanto tal, também é reconhecido geralmente. E, no entanto, somente nos casos mais extremos pode-se realmente aplicá-lo. Os textos não querem ser entendidos como expressão vital da [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]] de seu autor. Por conseqüência, não é a partir daí que podem ser traçados os limites de seu sentido. Todavia, o duvidoso não é somente a [[lexico:l:limitacao|limitação]] do sentido de um texto às verdadeiras idéias do autor. Ainda quando se procura determinar objetivamente o sentido de um texto, entendendo-o como alocução contemporânea e referindo-o a seu leitor original, como fazia a [[lexico:p:premissa|premissa]] básica de [[lexico:s:schleiermacher|Schleiermacher]], tampouco se conseguirá ir mais [[lexico:a:alem|além]] de uma delimitação casual. O próprio conceito do destinatário contemporâneo não pode ter mais que uma validez crítica limitada. Pois, o que quer dizer contemporaneidade? Os ouvintes de anteontem, tal como os de depois de amanhã, continuam pertencendo aos que nós falaríamos como contemporâneos. Onde se poderia traçar a fronteira daquele depois de amanhã que exclua a um leitor como possível [[lexico:i:interlocutor|interlocutor]]? O que são os contemporâneos, e o que é a pretensão de verdade de um texto, face a esta múltipla confusão de ontem e amanhã? O conceito do leitor originário encontra-se envolto em uma idealização completa e opaca. VERDADE E MÉTODO TERCEIRA PARTE 1.