===== OTTO ===== Ainda nos lembramos da repercussão mundial que obteve o livro de Rudolf Otto, Das Heilige (1917). Seu [[lexico:s:sucesso|sucesso]] deu-se graças, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], à novidade e à [[lexico:o:originalidade|originalidade]] da [[lexico:p:perspectiva|perspectiva]] adotada pelo autor. Em vez de estudar as [[lexico:i:ideias|ideias]] de [[lexico:d:deus|Deus]] e de [[lexico:r:religiao|religião]], Rudolf Otto aplicara-se na [[lexico:a:analise|análise]] das modalidades da [[lexico:e:experiencia-religiosa|experiência religiosa]]. Dotado de grande refinamento [[lexico:p:psicologico|psicológico]] e fortalecido por uma dupla preparação de teólogo e de historiador das religiões, Rudolf Otto conseguiu esclarecer o conteúdo e o [[lexico:c:carater|caráter]] específico dessa [[lexico:e:experiencia|experiência]]. Negligenciando o lado [[lexico:r:racional|racional]] e especulativo da religião, Otto voltou-se sobretudo para o lado [[lexico:i:irracional|irracional]], pois tinha lido [[lexico:l:lutero|Lutero]] e compreendera o que quer dizer, para um crente, o "Deus vivo". [[lexico:n:nao|Não]] era o Deus dos filósofos, o Deus de [[lexico:e:erasmo|Erasmo]], por [[lexico:e:exemplo|exemplo]]; não era uma [[lexico:i:ideia|ideia]], uma [[lexico:n:nocao|noção]] abstrata, uma [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:a:alegoria|alegoria]] [[lexico:m:moral|moral]]. Era, pelo contrário, um poder terrível, manifestado na "cólera" divina. Na [[lexico:o:obra|obra]] Das Heilige, Rudolf Otto esforça se por clarificar o caráter específico dessa experiência terrífica e irracional. Descobre o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] de pavor diante do [[lexico:s:sagrado|sagrado]], diante desse mysterium tremendum, dessa majestas que exala uma superioridade esmagadora de poder; encontra o temor [[lexico:r:religioso|religioso]] diante do mysterium fascinans, em que se expande a perfeita plenitude do [[lexico:s:ser|ser]]. R. Otto designa todas essas experiências como numinosas (do latim numen, "deus") porque elas são provocadas pela [[lexico:r:revelacao|revelação]] de um [[lexico:a:aspecto|aspecto]] do poder [[lexico:d:divino|divino]]. O [[lexico:n:numinoso|numinoso]] singulariza se como qualquer [[lexico:c:coisa|coisa]] de ganz andere, radical e totalmente diferente: não se assemelha a [[lexico:n:nada|nada]] de [[lexico:h:humano|humano]] ou cósmico; em [[lexico:r:relacao|relação]] ao ganz andere, o [[lexico:h:homem|homem]] tem o sentimento de sua profunda nulidade, o sentimento de "não ser mais do que uma criatura", ou seja – segundo os termos com que Abraão se dirigiu ao Senhor –, de não ser "senão cinza e pó" (Gênesis, 18: 27). O sagrado manifesta se sempre como uma [[lexico:r:realidade|realidade]] inteiramente diferente das realidades "naturais". É certo que a [[lexico:l:linguagem|linguagem]] exprime ingenuamente o tremendum, ou a majestas, ou o mysterium fascinans mediante termos tomados de empréstimo ao domínio [[lexico:n:natural|natural]] ou à [[lexico:v:vida|vida]] espiritual profana do homem. Mas sabemos que essa [[lexico:t:terminologia|terminologia]] analógica se deve justamente à incapacidade humana de exprimir o ganz andere: a linguagem apenas pode sugerir tudo o que ultrapassa a experiência natural do homem mediante termos tirados dessa mesma experiência natural.