===== OTIMISMO ===== (in. Optimism; fr. Optimisme; al. Optimismus; it. Ottimismo). Este [[lexico:t:termo|termo]] começou a difundir-se na [[lexico:c:cultura|cultura]] europeia durante as discussões filosóficas sobre a [[lexico:o:ordem|ordem]] e a [[lexico:b:bondade|bondade]] do [[lexico:m:mundo|mundo]] suscitadas pelo terremoto de Lisboa, em 1755. Num Poema sobre o terremoto de Lisboa (1755), [[lexico:v:voltaire|Voltaire]] combatera a [[lexico:m:maxima|máxima]] "tudo está [[lexico:b:bem|Bem]]", considerando-a um insulto às dores da [[lexico:v:vida|vida]]; alguns anos depois, no romance Cândido ou o otimismo (1759), fizera uma sátira feroz a essa máxima e à [[lexico:a:atitude|atitude]] que ela implica. O otimismo, porém, tinha outros defensores, entre os quais [[lexico:k:kant|Kant]], que no mesmo ano de 1759 publicou um opúsculo intitulado "[[lexico:e:ensaios|Ensaios]] de algumas considerações sobre o otimismo" (Versuch einiger Betrachtungen überden Optimismus) (que depois repudiou), em que defendia a bondade do mundo com base na [[lexico:t:tese|tese]] leibniziana de que "quando [[lexico:d:deus|Deus]] faz uma [[lexico:e:escolha|escolha]], escolhe sempre o melhor". Como dizia Voltaire, o otimismo outra [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:n:nao|não]] é senão a [[lexico:t:teoria|teoria]] do [[lexico:f:finalismo|finalismo]] [[lexico:u:universal|universal]]. Assim, em seu romance, o Doutor Pangloss, [[lexico:m:mestre|mestre]] de "metafísico-teólogo-cosmolonigologia" diz: "Está demonstrado que as [[lexico:c:coisas|coisas]] não podem [[lexico:s:ser|ser]] de outra maneira: visto que tudo foi feito para um [[lexico:f:fim|fim]], tudo se dirige necessariamente ao melhor fim. Notai que o nariz foi feito para suportar lentes e por isso usamos lentes". [[lexico:l:leibniz|Leibniz]] dissera que "Deus escolheu o mundo mais [[lexico:p:perfeito|perfeito]], ou seja, o mais [[lexico:s:simples|simples]] em [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] e ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] o mais rico em fenômenos" (Disc. de mét. § 6), e que, "se no mundo não houvesse o mínimo [[lexico:m:mal|mal]], não seria mais o mundo que, depois de tudo considerado e somado, foi julgado o melhor pelo criador que o escolheu" ( Théod., 1,9). Isto pode ser expresso pela [[lexico:f:frase|frase]] com que Cândido constantemente conclui suas infelizes peripécias ("Vivemos no melhor dos [[lexico:m:mundos|mundos]] possíveis"), que se tornou a [[lexico:e:expressao|expressão]] popular do otimismo. O otimismo é [[lexico:c:caracteristico|característico]] das doutrinas que admitem o finalismo universal, especialmente: 1) as doutrinas espiritualistas de fundo teológico, tais como a [[lexico:m:metafisica-aristotelica|metafísica aristotélica]] e a [[lexico:e:escolastica|escolástica]], o leibnizianismo e as formas modernas e contemporâneas do [[lexico:c:consciencialismo|consciencialismo]] espiritualista; 2) das doutrinas idealistas (no [[lexico:s:sentido|sentido]] romântico do termo), que compartilham o [[lexico:p:principio|princípio]] da coincidência entre [[lexico:r:realidade|realidade]] e [[lexico:r:racionalidade|racionalidade]] (expresso por Voltaire com a frase "as coisas não podem ser de [[lexico:o:outro|outro]] [[lexico:m:modo|modo]]"), tipificadas pela doutrina de [[lexico:h:hegel|Hegel]]. O oposto do otimismo não é o [[lexico:p:pessimismo|pessimismo]], que, na formulação de [[lexico:s:schopenhauer|Schopenhauer]], apesar de apregoar que "a vida é [[lexico:d:dor|dor]]", julga que o mundo está organizado com vistas à melhor ordem (Die Welt, I, § 28), mas sim a [[lexico:n:negacao|negação]] do finalismo, com o [[lexico:r:reconhecimento|reconhecimento]] do [[lexico:c:carater|caráter]] imperfeito, acidental e [[lexico:p:problematico|problemático]] das ordens observáveis no [[lexico:u:universo|universo]]. atitude ou doutrina segundo a qual a [[lexico:s:soma|soma]] de [[lexico:b:bens|bens]] no mundo ultrapassa a dos males (Leibniz). — Mais especificamente, o otimismo é a [[lexico:c:crenca|crença]] na bondade [[lexico:n:natural|natural]] do [[lexico:h:homem|homem]] ([[lexico:r:rousseau|Rousseau]]), a [[lexico:f:fe|fé]] no [[lexico:p:progresso|progresso]] do [[lexico:g:genero|gênero]] [[lexico:h:humano|humano]] e da [[lexico:c:civilizacao|civilização]] (os [[lexico:e:enciclopedistas|enciclopedistas]] do século XVIII). O otimismo é uma [[lexico:f:forma|forma]] de [[lexico:c:coragem|coragem]] e de caráter que consiste em [[lexico:p:pensar|pensar]] que nem tudo está perdido, que nosso [[lexico:t:trabalho|trabalho]] cotidiano é [[lexico:u:util|útil]], que o mundo é perfectível e que podemos concorrer para o seu progresso. Nessa [[lexico:q:qualidade|qualidade]], o otimismo é o fermento indispensável de todas as formas da [[lexico:a:atividade|atividade]] humana e mesmo o princípio primeiro de toda [[lexico:m:moral|moral]]: o homem não agiria se pensasse que sua [[lexico:a:acao|ação]] fosse necessariamente inútil, que o outro fosse necessariamente mau etc. No fundo, o otimismo é apenas uma retomada [[lexico:c:consciente|consciente]] do [[lexico:m:movimento|movimento]] original da vida, que é um movimento criador e progressivo. Em sentido [[lexico:p:psicologico|psicológico]] (1), é aquela [[lexico:d:disposicao|disposição]] de ânimo que propende para [[lexico:v:ver|ver]] tudo pelo lado [[lexico:b:bom|Bom]]. Em sentido metafísico, denomina-se otimismo a doutrina, segundo a qual o mundo existente, como expressão necessária da [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] e da bondade de Deus, é o melhor de todos os mundos possíveis (2) (Leibniz, [[lexico:i:iluminismo|Iluminismo]]), ou também a doutrina de que tudo quanto há no mundo é fundamentalmente bom e de que o mal consiste apenas na [[lexico:f:finitude|finitude]] do [[lexico:e:ente|ente]] (3) (estoicos, [[lexico:s:spinoza|Spinoza]]). A doutrina escolástica pode ser qualificada de otimismo moderado (4); segundo ela o ente tem em si [[lexico:v:valor|valor]], e o mal, que não é mera [[lexico:d:diminuicao|diminuição]] de um bem, mas o [[lexico:n:nao-ser|não-ser]] do que deve-ser, é, no entanto, guiado pela sabedoria e bondade de Deus, embora nem sempre nos seja [[lexico:d:dado|dado]] penetrar seus desígnios em casos particulares ( [[lexico:t:teodiceia|Teodiceia]]). — O otimismo cultural ([[lexico:l:lessing|Lessing]], Herder, [[lexico:f:fichte|Fichte]], Hegel, [[lexico:m:marxismo|marxismo]]) conta com uma suposta [[lexico:e:evolucao|evolução]] contínua da [[lexico:h:humanidade|humanidade]] e de sua cultura para estádios mais elevados: o mal [[lexico:f:fisico|físico]] e até o mal moral é somente uma transição necessária, que será absorvida num bem [[lexico:s:superior|superior]]. — O otimismo (2), em sua forma mais radical, ignora que o [[lexico:i:infinito|infinito]] nunca pode encontrar no [[lexico:f:finito|finito]] sua expressão absolutamente necessária. O mundo saiu, sem [[lexico:d:duvida|dúvida]], da sabedoria e bondade infinitas, mas apesar disso não é o melhor, porque o finito por [[lexico:n:natureza|natureza]] não permite nenhum máximo, pelo contrário pode ser superado em cada fase de sua realização. O mal não é mera [[lexico:l:limitacao|limitação]], mas deficiência. Nem o autor do mal moral pode justificá-lo, apelando para as consequências boas necessárias do mesmo. — [[lexico:b:brugger|Brugger]].