===== ORIGEM DO PRINCÍPIO DE CAUSALIDADE ===== Todos os raciocínios que se referem aos fatos parecem assentar na [[lexico:r:relacao:start|relação]] de [[lexico:c:causa:start|causa]] a [[lexico:e:efeito:start|efeito]]. Só mediante tal relação podemos ir para [[lexico:a:alem:start|além]] dos dados da nossa [[lexico:m:memoria:start|memória]] e dos sentidos. Se tivéssemos de perguntar a alguém porque acredita num [[lexico:f:fato:start|fato]] ausente — por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]]: que um seu amigo está em França —, dar-nos-ia uma [[lexico:r:razao:start|razão]], e esta razão seria [[lexico:o:outro:start|outro]] fato: que recebeu uma carta dele ou que conhece as suas resoluções e promessas anteriores. Um [[lexico:h:homem:start|homem]] que encontre um relógio ou qualquer outra [[lexico:m:maquina:start|máquina]] numa ilha deserta concluirá que alguma vez houve homens na ilha. Todos os nossos raciocínios sobre os fatos são da mesma [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. E supõe-se sempre que há conexão entre o fato presente e aquele do qual ele se infere. Se [[lexico:n:nada:start|nada]] houvesse que os ligasse, a [[lexico:i:inferencia:start|inferência]] seria totalmente precária. A [[lexico:a:audicao:start|audição]] de uma [[lexico:v:voz:start|voz]] articulada e de uma conversação [[lexico:r:racional:start|racional]] na escuridão assegura-nos da [[lexico:p:presenca:start|presença]] de alguma [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]]. Porquê? Porque esses sons são os efeitos da organização e contextura humanas e estão estreitamente conexionados com ela. Se analisarmos todos os restantes raciocínios desta natureza, acharemos que assentam na relação de causa a efeito e que tal relação lá está, [[lexico:b:bem:start|Bem]] próxima ou remota, bem direta ou colateral. O calor e a [[lexico:l:luz:start|luz]] são efeitos colaterais do [[lexico:f:fogo:start|fogo]], e um efeito pode muito bem inferir-se a partir de outro. Portanto, se quiséssemos ficar satisfeitos no que respeita à natureza da [[lexico:e:evidencia:start|evidência]] que nos assegura acerca dos fatos, deveríamos investigar como chegamos ao [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] da causa e do efeito. Permitir-me-ei afirmar, como [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] [[lexico:g:geral:start|geral]] sem excepção, que o conhecimento de tal relação em nenhum caso se alcança por [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], e, sim, resulta inteiramente da [[lexico:e:experiencia:start|experiência]], desde que vemos que qualquer [[lexico:c:classe:start|classe]] de objetos particulares estão sempre reunidos entre si. Apresente-se um [[lexico:o:objeto:start|objeto]] a um homem dotado de razão [[lexico:n:natural:start|natural]] e habilidades tão extraordinárias quanto se queira: se o objeto lhe é inteiramente estranho, [[lexico:n:nao:start|não]] será capaz de descobrir nenhuma das suas [[lexico:c:causas:start|causas]] ou dos seus efeitos, nem mesmo mediante o exame mais prolixo. Mesmo que supuséssemos que as [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]] racionais de Adão tivessem sido inteiramente perfeitas a partir do primeiro [[lexico:m:momento:start|momento]], ele não seria capaz de inferir a [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]] de afogar-se na água, ou, relativamente à luz e ao calor do fogo, que este pudesse consumi-lo. Nenhum objeto revela jamais, pelas qualidades que se deparam aos sentidos, nem as causas que o produziram nem os efeitos a que dará [[lexico:l:lugar:start|lugar]]. Nem pode a nossa razão, sem o auxílio da experiência, inferir jamais algo a [[lexico:r:respeito:start|respeito]] dos fatos e das [[lexico:c:coisas:start|coisas]] existentes. [...] Assim, ninguém imagina que a explosão da pólvora ou a atração do imã pudessem [[lexico:t:ter:start|ter]] sido descobertas alguma vez por [[lexico:m:meio:start|meio]] de argumentos a priori. [...] Talvez as reflexões seguintes bastem para convencer-nos de que só pela experiência conhecemos, sem excepção alguma, todas as leis da natureza e todas as operações dos corpos. Se nos apresentarem um objeto e nos pedirem, sem recorrer a observações ulteriores, que nos pronunciemos sobre o efeito que dele resultará, de que maneira — gostaria de sabê-lo — há-de o [[lexico:e:espirito:start|espírito]] proceder? Terá de inventar ou imaginar um [[lexico:s:sucesso:start|sucesso]] que considere como efeito do objeto, e é claro que essa [[lexico:i:invencao:start|invenção]] deve [[lexico:s:ser:start|ser]] inteiramente arbitrária. Nem por meio do exame e da [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] mais rigorosos pode o espírito jamais encontrar o efeito da causa suposta. Porque o efeito é totalmente diferente da causa e, por conseguinte, jamais pode ser descoberto nela. O [[lexico:m:movimento:start|movimento]] da segunda bola de bilhar é sucesso muito distinto do movimento da primeira, visto não haver numa o menor indício da outra. Uma pedra ou um pedaço de metal erguidos ao [[lexico:a:ar:start|ar]] e deixados sem apoio caem imediatamente. Mas, se considerarmos o assunto a priori, poderemos descobrir algo que nessa [[lexico:s:situacao:start|situação]] possa dar [[lexico:o:origem:start|origem]] à [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de um movimento para baixo, em vez de para cima ou qualquer outro movimento, da pedra ou do metal? E, como procedemos arbitrariamente ao imaginar ou inventar um efeito [[lexico:p:particular:start|particular]] em todas as operações naturais em que consultamos a experiência, devemos supor também que é igualmente [[lexico:a:arbitrario:start|arbitrário]] o laço ou conexão entre a causa e o efeito que os liga, e torna [[lexico:i:impossivel:start|Impossível]] que qualquer outro efeito possa resultar por [[lexico:o:obra:start|obra]] de essa causa. Quando vejo, por exemplo, que uma bola de bilhar se move retilineamente em direção a outra, e supondo ainda que porventura me ocorresse que o movimento da segunda bola é o resultado do seu contato ou [[lexico:i:impulso:start|impulso]], não poderei [[lexico:a:acaso:start|acaso]] supor que dessa causa poderiam igualmente ter-se seguido cem acontecimentos diferentes? Não poderiam ambas as bolas ficar em repouso [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]]? Não poderia a primeira bola voltar em linha reta ou fazer ricochete na segunda em qualquer linha ou direção? Todas estas suposições são compatíveis e concebíveis. Porque deveremos então dar preferência a uma delas, que não é mais compatível e concebível que as restantes? Nenhum dos nossos raciocínios a priori será capaz de ministrar-nos um [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] para essa preferência. Numa [[lexico:p:palavra:start|palavra]]: [[lexico:t:todo:start|todo]] efeito é um sucesso diferente da sua causa. *Depois de mostrar que os fatos vistos pela primeira vez nada dizem sobre o [[lexico:f:futuro:start|futuro]], mas que, quando se observou a sua [[lexico:r:repeticao:start|repetição]], já se realizam inferências, [[lexico:h:hume:start|Hume]] alude ao [[lexico:p:principio:start|princípio]] que as determina:* Este princípio é o [[lexico:c:costume:start|costume]] ou [[lexico:h:habito:start|hábito]]. Porque sempre que a repetição de um [[lexico:a:ato:start|ato]] ou [[lexico:o:operacao:start|operação]] particular produz uma [[lexico:p:propensao:start|propensão]] para renovar o mesmo ato ou operação, sem ser impelido por nenhum raciocínio ou [[lexico:p:processo:start|processo]] do [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]], dizemos que tal propensão é efeito do hábito. Ao empregar esta palavra não pretendemos ter fornecido a razão última dessa propensão. Assinalamos apenas um princípio da [[lexico:n:natureza-humana:start|natureza humana]] que é reconhecido por todos e bem conhecido pelos seus efeitos. Talvez não possamos levar mais adiante a nossa [[lexico:i:investigacao:start|investigação]] ou pretender indicar a causa desta causa, e antes devamos ficar contentes com ela, como o [[lexico:u:ultimo:start|último]] princípio que podemos assinalar de todas as nossas conclusões derivadas da experiência. É satisfação suficiente poder chegar até aqui, sem nos queixarmos de que a estreiteza das nossas faculdades nos não leve mais adiante. Certo é que exprimimos uma proposição que, se não é verdadeira, pelo menos é muito [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]], quando sustentamos que depois da junção constante de dois objetos —por exemplo, o calor e a chama, o [[lexico:p:peso:start|peso]] e a solidez — só o hábito nos leva a esperar um, devido à aparição do outro. David Hume, An Enquiry Concerning Human Understanding, seções IV e V. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}