===== ONTOLÓGICA ===== ONTOLÓGICA ([[lexico:p:prova:start|prova]]) - A prova de [[lexico:s:santo:start|santo]] Anselmo para a [[lexico:e:existencia-de-deus:start|existência de Deus]] passou a chamar-se, a partir de [[lexico:k:kant:start|Kant]], [[lexico:p:prova-ontologica:start|prova ontológica]], e também [[lexico:a:argumento-ontologico:start|argumento ontológico]]. Tal como foi formulada nos [[lexico:q:quatro:start|Quatro]] capítulos do PROSLOGION, a prova desenvolveu-se assim: Santo Anselmo assinala, no capítulo primeiro que, segundo os SALMOS (treze, 1), o néscio disse no seu [[lexico:c:coracao:start|coração]]: [[lexico:n:nao:start|não]] há [[lexico:d:deus:start|Deus]] Este Deus é algo, maior que o qual [[lexico:n:nada:start|nada]] pode pensar-se. Mas quando o néscio ouve esta [[lexico:e:expressao:start|expressão]] entende o que ouve e o que entende “está no seu [[lexico:e:entendimento:start|entendimento]]” mesmo que não entenda que [[lexico:e:esse:start|esse]] algo, maior que o qual nada pode pensar-se, existe. Pois uma [[lexico:c:coisa:start|coisa]] é a [[lexico:p:presenca:start|presença]] de algo no entendimento, e outra coisa é entendê-lo. Ora, o néscio deve admitir que o que ouve e entende está no entendimento. Mas, [[lexico:a:alem:start|além]] disso, tem de [[lexico:e:estar:start|estar]] na [[lexico:r:realidade:start|realidade]]. Com [[lexico:e:efeito:start|efeito]], se só estivesse no entendimento aquilo de que não pode pensar- se nada maior, não seria o maior que pode pensar-se, pois faltar-lhe ia, para isso, [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:r:real:start|real]]. “se aquilo, maior que o qual nada pode pensar-se - diz Santo Anselmo -, está unicamente no entendimento, aquilo mesmo, maior que o qual nada pode ser pensado, será algo maior que o qual é [[lexico:p:possivel:start|possível]] [[lexico:p:pensar:start|pensar]] algo”. Deve portanto [[lexico:e:existir:start|existir]], quer no entendimento, quer na realidade, algo maior que o qual nada pode pensar-se, e este algo é precisamente Deus. Afirmou-se que há no PROSLOGION de Santo Anselmo, dois argumentos ontológicos distintos: 1) Algo é maior, no caso de existir, do que no caso de não existir; 2) algo é maior se existe necessariamente do que se não existe necessariamente. O [[lexico:a:argumento:start|argumento]] 1) funda-se na [[lexico:i:ideia:start|ideia]] de que a [[lexico:e:existencia:start|existência]] é uma [[lexico:p:perfeicao:start|perfeição]]; o argumento 2), na ideia de que a [[lexico:i:impossibilidade:start|impossibilidade]] [[lexico:l:logica:start|lógica]] de não existência é uma perfeição. A primeira prova foi a que ocupou mais os filósofos que se propuseram [[lexico:e:explicar:start|explicar]] a [[lexico:v:validade:start|validade]] do argumento anselmiano. Muitos entenderam o argumento como a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] de que o maior que pode pensar-se tem de ser real, pois, de contrário, faltando-lhe a realidade, não seria o maior que pode pensar-se, mas simplesmente a ideia do maior pensável. O maior que pode ser pensado é também, portanto, o [[lexico:p:perfeito:start|perfeito]]. se trata de uma passagem da [[lexico:e:essencia:start|essência]] à existência, não é, pois, a passagem de qualquer essência a qualquer existência, mas apenas o [[lexico:f:fato:start|fato]] de, quando se trata de um ser perfeito e [[lexico:i:infinito:start|infinito]], a existência estar implicada pela sua essência. Deste [[lexico:m:modo:start|modo]] refuta já o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] Santo Anselmo a objecção que lhe foi feita por Gaunilo em “EM DEFESA DO NÉSCIO”. O fato de uma ideia como a de ilha perfeita não precisar de existir na realidade não é [[lexico:m:motivo:start|motivo]] suficiente, diz Santo Anselmo, para que deixe de existir nela a própria perfeição infinita. Pois entre os dois tipos de perfeição há uma [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] fundamental: o primeiro é o perfeito no seu [[lexico:g:genero:start|gênero]] e é a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] de uma coisa; o segundo é o perfeito em si, e é a própria coisa. Não é, pois, de estranhar que a partir de Santo Anselmo a [[lexico:p:posicao:start|posição]] tomada perante a prova seja decisiva para a [[lexico:i:inteleccao:start|intelecção]] do [[lexico:s:sentido:start|sentido]] de uma [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]]. Duns Escoto, [[lexico:d:descartes:start|Descartes]], [[lexico:l:leibniz:start|Leibniz]], [[lexico:m:malebranche:start|Malebranche]] e [[lexico:h:hegel:start|Hegel]] admitem, com variantes e distintas fundamentações, a prova anselmiana. Com outras variantes e fundamentos, S. Tomás, [[lexico:l:locke:start|Locke]], [[lexico:h:hume:start|Hume]] e Kant rejeitam-na. S. Tomás critica a prova. Posta em [[lexico:f:forma:start|forma]] [[lexico:s:silogistica:start|silogística]], aceita a maior (que por Deus se entende o ser maior que pode pensar-se), mas não aceita a menor (que deixaria de ser o maior e mais perfeito que se pode pensar se não existisse atualmente). Com efeito, aceita que deixaria de ser o [[lexico:s:sumo:start|sumo]], mas o fato de que se não tivesse existência extramental deixaria de ser o sumo é admitido só na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] real não na ordem [[lexico:i:ideal:start|ideal]]. A [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] “Deus existe” é evidente em [[lexico:s:si-mesmo:start|si mesmo]], mas não relativamente a nós; portanto, pode demonstrar-se que Deus existe, mas não por uma prova [[lexico:a:a-priori:start|a priori]], nem simultânea, mas apenas a posterior.. Daí as célebres cinco vias, propostas por S. Tomás; parte-se em cada caso de um efeito, de um [[lexico:g:grau:start|grau]] de perfeição, etc, para chegar à [[lexico:c:causa-primeira:start|causa primeira]], ao ser perfeito. Duns Escoto tenta, em contrapartida, uma defesa da prova anselmiana sempre que se proceda a modificações em alguns aspectos. Segundo Duns Escoto, a prova em [[lexico:q:questao:start|questão]] pode ser modificada ou retocada do seguinte modo: o que existe é mais cognoscível que o que não existe, isto é, pode ser conhecido mais perfeitamente. O que não existe me si mesmo, ou em algo mais nobre ao qual acrescenta algo, não pode ser intuído... Mas o intuível (visível) é mais perfeitamente cognoscível que o não intuível; portanto, o ser mais perfeito que possa conhecer-se existe. Duns Escoto põe em relevo que, para aceitar a prova anselmiana, há que partir de que Deus é um ser cognoscível sem [[lexico:c:contradicao:start|contradição]]. Só por “o ser maior que pode pensar-se” relativamente à sua essência, será o “ser maior” relativamente à sua existência. Se o “ser maior que pode pensar- se “ estivesse só no entendimento que o pensa, poderia ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]] existir (já que o pensável é possível) e não existir (já que não lhe convém existir por [[lexico:m:meio:start|meio]] de uma [[lexico:c:causa:start|causa]] alheia). A prova anselmiana foi defendida por Descartes em várias passagens das suas obras, especialmente nas MEDITAÇÕES (III, V). Descartes insiste na ideia de infinitude e afirma que enquanto é certo que possuímos a ideia de infinito, e inclusive que esta ideia é mais clara que a de [[lexico:f:finito:start|finito]], tal ideia não pode [[lexico:t:ter:start|ter]] surgido de um ser finito, mas tem que ter sido depositada nele por um ser infinito, isto é Deus. Como disse depois Malebranche, o finito só pode ver-se através do infinito e a partir do infinito. Leibniz defende a prova introduzindo a sua conhecida correcção: não basta passar da ideia de ser infinito i perfeito à realidade, mas há que demonstrar previamente a sua [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]]. Mas como a possibilidade é demonstrada, torna-se patente a realidade. As correntes empiristas rejeitam energicamente a prova. Especialmente Locke e Hume. A [[lexico:s:separacao:start|separação]] estabelecida por este [[lexico:u:ultimo:start|último]] entre as proposições analíticas e as que se referem a fatos será suficiente para dar uma base à [[lexico:c:critica:start|crítica]] da prova, mas, além, disso, verifica-se que, um [[lexico:r:raciocinio:start|raciocínio]] a priori não pode produzir qualquer [[lexico:e:entidade:start|entidade]], uma vez que não há nenhuma [[lexico:e:experiencia:start|experiência]] limitante.. No fundo, portanto, o [[lexico:s:suposto:start|suposto]] último da aceitação ou rejeição da prova consiste na [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]] que cada um dos pensadores tem como base do seu pensar. Kant escreveu que o ser não é um [[lexico:p:predicado:start|predicado]] real, isto é, um [[lexico:c:conceito:start|conceito]] de uma coisa, mas a posição da coisa ou de certas determinações da coisa em si mesmas. “a proposição “Deus é [[lexico:t:todo:start|todo]] poderoso” contém dois [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] que têm os seus objetos: Deus e todo poderoso. O [[lexico:t:termo:start|termo]] é, não é [[lexico:p:por-si:start|por si]] mesmo, todavia, um predicado, mas unicamente, aquilo que põe em relevo o predicado com o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]]. Ora, se [[lexico:e:eu:start|eu]] tomo o sujeito Deus com todos os seus [[lexico:p:predicados:start|predicados]] (nos quais também está incluída a omnipotência), e digo que Deus é ou que ele é um Deus, não acrescento nenhum predicado novo (isto é, nenhum conceito-predicado) ao conceito Deus; não faço se não [[lexico:p:por:start|pôr]] o sujeito em si mesmo com todos os seus predicados, e ao mesmo tempo, é evidente, o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] que corresponde ao meu conceito. Ambos devem conter exatamente a mesma coisa e, portanto, não pode acrescentar-se ao conceito que expressa simplesmente a possibilidade nada mais pelo fato de que eu concebo (mediante a expressão e) o objeto como [[lexico:d:dado:start|dado]] absolutamente”. O real não contem mais notas que o possível (pensado); cem moedas reais não contêm mais (a meu [[lexico:v:ver:start|ver]]) que cem moedas possíveis. Para que haja realidade, deve haver um [[lexico:a:ato:start|ato]] de “posição dela” sem que baste supor que o objeto está contido analiticamente no conceito. Ora, o fato de o ser não ser um predicado real altera radicalmente a possibilidade de dar um [[lexico:s:significado:start|significado]] às proposições do argumento [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]]. Segundo Kant, que nisto estaria plenamente dentro da linha de Hume, não pode haver separação entre a coisa e a existência da coisa; ambas são, dizia Hume, uma mesma realidade, de tal modo que a proposição “algo existe” não é a junção de um predicado, mas a expressão da [[lexico:c:crenca:start|crença]] (a posição) na coisa. Assim se nega aquilo que tinha constituído o suposto próprio não só da prova anselmiana, mas também das formas que lhe foram dadas por Leibniz e Descartes. O fato de a existência pertencer às perfeições, o fato de a própria possibilidade de demonstrar a ideia absoluta não são, neste caso, suficientes, pois o que aqui fica alterado é a própria [[lexico:f:funcao:start|função]] do [[lexico:j:juizo:start|juízo]]. Para Kant, o juízo [[lexico:e:existencial:start|existencial]] é um juízo [[lexico:c:categorico:start|categórico]] no qual a [[lexico:r:relacao:start|relação]] entre sujeito e predicado não é uma relação entre dois conceitos, mas entre um conceito que ocupa um [[lexico:l:lugar:start|lugar]] do sujeito e o objeto. Alguns pensam que o que acontece com o argumento ontológico é, pois, uma confusão: a de uma [[lexico:d:definicao:start|definição]] nominal com a de uma definição real, e a de um [[lexico:j:juizo-negativo:start|juízo negativo]] com um juízo [[lexico:p:positivo:start|positivo]]. Por outras [[lexico:p:palavras:start|palavras]], no argumento supõe-se que Deus é um ser infinitamente perfeito quando isto pressupõe aquilo que se tratava de demonstrar, isto é, a existência de Deus. Assim se pode afirmar que aquilo que reside na [[lexico:n:natureza:start|natureza]] de uma coisa não pode dizer-se a priori categoricamente, mas só hipoteticamente. A [[lexico:o:opiniao:start|opinião]] kantiana de que “a absoluta [[lexico:n:necessidade:start|necessidade]] do juízo não é uma necessidade absoluta das [[lexico:c:coisas:start|coisas]]” deve transformar-se na ideia de que, no que diz [[lexico:r:respeito:start|respeito]] ao ser perfeito, a sua a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] é necessária, embora não apriorística para nós. Os que, seguindo Hegel, consideraram que “o finito é algo não [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]]”, reabilitaram a prova, possivelmente porque seu [[lexico:f:fim:start|fim]] último consiste na afirmação do infinito [[lexico:a:atual:start|atual]] como realidade positiva e não, como Hegel já assinalava, a [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] da [[lexico:r:representacao:start|representação]] e existência do finito com o infinito. Quando os idealistas negaram o reforço hegeliano da prova, foi porque se fez uma [[lexico:d:distincao:start|distinção]] entre a perfeição teórica - cuja [[lexico:d:demonstracao:start|demonstração]] se admitiu - e a perfeição prática - cuja prova se negou. As tendências empiristas rejeitaram geralmente a prova ou consideraram que ela remete, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], para um fato suficiente seja, além disso, existente. Pois a [[lexico:r:razao-suficiente:start|razão suficiente]] seria unicamente de [[lexico:c:carater:start|caráter]] [[lexico:a:analitico:start|analítico]] e tautológico, mas nunca poderia ter um [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] existencial. Assim, algumas das últimas tendências, simultaneamente empiristas e analistas, rejeitaram a prova - e, em [[lexico:g:geral:start|geral]], qualquer [[lexico:a:argumentacao:start|argumentação]] acerca de um [[lexico:p:principio:start|princípio]] [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]] - não só pela alegada impossibilidade da sua comprovação ou [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] empírica, ou pelas falhas descobertas na própria trama da argumentação [[lexico:r:racional:start|racional]], mas porque as proposições contidas nela foram consideradas como carentes de [[lexico:s:significacao:start|significação]], isto é, como [[lexico:p:pseudoproposicoes:start|pseudoproposições]] que não se referem nem ao lógico-tautológico nem ao empiricamente comprovável.. Em contrapartida, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que a [[lexico:q:questao-do-ser:start|questão do ser]] continua a ser considerada como [[lexico:c:capital:start|capital]] na [[lexico:m:meditacao:start|meditação]] filosófica, uma análise da prova - seja qual for o resultado a que conduza -.- voltará a pôr sempre de um modo radical os problemas fundamentais da filosofia. Deste [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de vista, pode dizer-se que não são tão incompatíveis como poderia parecer à primeira vista a própria forma de pôr a questão por [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] anselmiana e por parte das argumentações que apontam a necessidade de ir da coisa para o princípio. com efeito, penetrar nos supostos íntimos da prova parece obrigar a partir do nada e a dizer-se que, se algo existe, deve existir algo que exista necessariamente. Se há algo, deve, pois, haver um princípio; ora, este princípio tem necessariamente de existir, porque precisamente existir é para ele existir necessariamente. Se, portanto, há algo, deve haver um princípio [[lexico:n:necessario:start|necessário]]. Assim, quer se parta da coisa para ir para o princípio, quer se parta do nada para se pôr o [[lexico:p:problema:start|problema]] da [[lexico:j:justificacao:start|justificação]] da coisa, o problema do princípio necessário parece iniludível. É isto que faz da prova ontológica um [[lexico:t:tema:start|tema]] obrigatório de qualquer meditação do ser. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}