===== ONTOLOGIA DOS VALORES ===== Terminávamos a lição anterior anunciando que na [[lexico:a:atual|atual]] íamos nos ocupar de outra [[lexico:e:esfera|esfera]] [[lexico:o:ontologica|ontológica]], que já assinalávamos na primeira destas lições sobre [[lexico:o:ontologia|ontologia]], e que é a esfera dos valores. Constatáramos que na nossa [[lexico:v:vida|vida]] há [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]], há objetos ideais e há também valores. Pois [[lexico:b:bem|Bem]]; em que [[lexico:s:sentido|sentido]] há tudo isto? Em que sentido há [[lexico:c:coisas|coisas]] reais, objetos ideais e valores? Há em minha vida, em nossa vida, as coisas reais e objetos ideais no sentido de [[lexico:s:ser|ser]]. [[lexico:a:agora|agora]], porém, devemos perguntar-nos em que sentido há valores em nossa vida. Se retornamos à consideração [[lexico:e:existencial|existencial]] primária que nos serviu de [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida, ou seja nós vivendo, verificamos que as coisas de que se compõe o [[lexico:m:mundo|mundo]], no qual estamos, [[lexico:n:nao|não]] são [[lexico:i:indiferentes|indiferentes]], antes essas coisas têm todas elas um [[lexico:a:acento|acento]] peculiar que as faz. ser melhores ou piores, boas ou más, belas ou feias, santas ou, profanas. Por conseguinte, o mundo no qual estamos não é indiferente. A não-indiferença do mundo e de cada uma das coisas que constituem o mundo em que consiste? Consiste em que não há [[lexico:c:coisa|coisa]] alguma diante da qual não adotemos uma [[lexico:p:posicao|posição]] positiva ou negativa, uma posição de preferência. Por conseguinte, objetivamente visto, visto do lado do [[lexico:o:objeto|objeto]], não há coisa alguma que não tenha um [[lexico:v:valor|valor]]. Umas serão boas, outras más, umas úteis, outras prejudiciais; porém nenhuma absolutamente indiferente. Pois bem; quando de uma coisa enunciamos que é boa, má, bela, feia, santa ou profana, que é que enunciamos dela? A [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] atual emprega muitas vezes a [[lexico:d:distincao|distinção]] entre juízos de [[lexico:e:existencia|existência]] e juízos de valor; é esta uma distinção frequente na filosofia, e assim os juízos de existência serão aqueles juízos que enunciam de uma coisa aquilo que essa coisa é, enunciam propriedades, atributos, [[lexico:p:predicados|predicados]] dessa coisa, que pertencem ao ser dela, tanto do ponto de vista da existência dela como [[lexico:e:ente|ente]], como do ponto de vista da [[lexico:e:essencia|essência]] que a define. Em frente a estes juízos de existência, a filosofia contemporânea põe ou contrapõe os juízos de valor. Os juízos de valor enunciam acerca de uma coisa algo que não acrescenta nem tira [[lexico:n:nada|nada]] do cabedal existencial e [[lexico:e:essencial|essencial]] da coisa. Enunciam algo que não se confunde nem com o ser enquanto existência nem com o ser enquanto essência de coisa. Se dizemos, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], que uma [[lexico:a:acao|ação]] é justa ou injusta, o [[lexico:s:significado|significado]] por nós no [[lexico:t:termo|termo]] justo ou injusto não se refere à [[lexico:r:realidade|realidade]] da ação, nem enquanto efetiva e existencial, nem quanto aos [[lexico:e:elementos|elementos]] que integram sua essência. Então daqui puderam tirar-se duas consequências. A primeira [[lexico:c:consequencia|consequência]] é a seguinte: os valores não são coisas nem elementos das coisas. E dessa consequência primeira tirou-se esta outra segunda consequência: [[lexico:d:dado|dado]] que os valores não são coisas nem elementos das coisas, então os valores são impressões subjetivas de agrado ou desagrado que as coisas nos produzem e que nós projetamos sobre as coisas. Recorreu-se então ao [[lexico:m:mecanismo|mecanismo]] da [[lexico:p:projecao|projeção]] [[lexico:s:sentimental|sentimental]]; recorreu-se ao mecanismo de uma [[lexico:o:objetivacao|objetivação]] e se disse: essas impressões gratas ou ingratas que as coisas nos produzem, nós as tiramos do nosso [[lexico:e:eu|eu]] [[lexico:s:subjetivo|subjetivo]] e as projetamos e objetivamos nas coisas mesmas e dizemos que as coisas mesmas são boas ou más, ou santas ou profanas. Mas se considerarmos atentamente esta consequência que se extraiu, teremos que chegar à conclusão de que é errônea, de que não é verdadeira. Supõe esta [[lexico:t:teoria|teoria]] que os valores são impressões subjetivas de agrado ou de desagrado; porém esta teoria não percebe que o agrado ou desagrado subjetivo não é de [[lexico:f:fato|fato]] nem pode ser de [[lexico:d:direito|direito]] jamais [[lexico:c:criterio|critério]] do valor. O critério do valor não consiste no agrado ou desagrado que nos produzam as coisas, mas em algo completa [[lexico:m:mente|mente]] distinto; porque uma coisa pode produzir-nos agrado, e, não obstante, ser para nós considerada como má, e pode produzir-nos de [[lexico:s:sagrado|sagrado]] e ser por nós considerada como boa. Nem [[lexico:o:outro|outro]] é o sentido contido dentro do [[lexico:c:conceito|conceito]] do [[lexico:p:pecado|pecado]]. O pecado é grato, mas mau Nem outro é o sentido contido no conceito do "[[lexico:c:caminho|caminho]] íngreme dá [[lexico:v:virtude|virtude]]". A virtude é difícil de praticar, desagradável de praticar e, não obstante, reputamo-la boa. Como diz o [[lexico:p:poeta|poeta]] latino: Video melio ra proboque, deteriora sequor: "Vejo o melhor e o aprovo, e pratico o pior." por conseguinte, a [[lexico:s:serie|série]] das impressões subjetivas de agrado ou desagrado não coincide, nem de fato nem de direito, com as determinações objetivas do valor e do não-valor. Este [[lexico:a:argumento|argumento]] me parece decisivo. Mas se fosse pouco, poderiam acrescentar-se alguns mais; dentre outros, o seguinte: acerca dos valores, há [[lexico:d:discussao|discussão]] [[lexico:p:possivel|possível]]; acerca do agrado ou desagrado subjetivo não há discussão possível. Se eu digo que este quadro me é desagradável e doloroso, ninguém pode negá-lo, já que ninguém pode comprovar que o [[lexico:s:sentimento|sentimento]] subjetivo que o quadro me produz é como eu digo ou não, pois enuncio algo cuja existência na realidade é íntima e subjetiva no meu eu. Se eu afirmo, porém, que o quadro é [[lexico:b:belo|belo]] ou feio, disso se discute, e se discute do mesmo [[lexico:m:modo|modo]] que se discute acerca de uma [[lexico:t:tese|tese]] científica, e os homens podem chegar a convencer-se uns aos outros de que o quadro é belo ou feio, não certamente por razões ou argumentos como nas teses científicas, mas por exibição dos valores Não se pode demonstrar para ninguém que o quadro é belo, [[lexico:c:como-se|como se]] demonstra que a [[lexico:s:soma|soma]] dos ângulos de um [[lexico:t:triangulo|triângulo]] é igual a dois retos; porém pode-se-lhe mostrar a [[lexico:b:beleza|beleza]]; pode-se-lhe descortinar o véu que cobre para ele a [[lexico:i:intuicao|intuição]] da beleza; pode-se-lhe fazer [[lexico:v:ver|ver]] a beleza que ele não viu, assinalando-lha, dizendo-lhe: "veja, olhe", que é a única maneira de fazer quando se trata destes objetos. VIDE [[lexico:o:objetividade-dos-valores|objetividade dos valores]]