===== ONTOLOGIA DA VIDA ===== Ao terminar esta excursão que empreendemos pelo [[lexico:c:campo|campo]] da [[lexico:o:ontologia|ontologia]], chegamos ao [[lexico:m:momento|momento]] em que, após [[lexico:t:ter|ter]] estudado a [[lexico:e:estrutura|estrutura]] ôntica dos objetos reais e irreais (v. [[lexico:c:coisas-reais|coisas reais]] e [[lexico:c:coisas|coisas]] [[lexico:i:ideias|ideias]]) e a dos valores (v. [[lexico:o:ontologia-dos-valores|ontologia dos valores]]), nos encontrávamos defronte a um quarto e [[lexico:u:ultimo|último]] [[lexico:p:problema|problema]] [[lexico:o:ontologico|ontológico]]: o da [[lexico:r:raiz|raiz]] mesma em que todos esses objetos revelam sua [[lexico:e:existencia|existência]], sua [[lexico:e:entidade|entidade]]; encontrávamo-nos com a [[lexico:v:vida|vida]] mesma, na qual "há" essas coisas reais, esses objetos ideais e esses valores. Já podemos prever que os problemas ontológicos que há de nos apresentar a vida como [[lexico:o:objeto|objeto]] metafísico têm que [[lexico:s:ser|ser]] problemas de aspectos muito distintos daqueles que nos apresentam essas esferas da ontologia que anteriormente percorremos. Em nossa vida "há" coisas reais, objetos ideais e valores. Cada uma dessas esferas ontológicas tem sua própria estrutura; e podemos nos perguntar: que significa isso que [[lexico:e:eu|eu]] exprimo com a [[lexico:p:palavra|palavra]] "há"? Que significa [[lexico:e:esse|esse]] haver coisas reais, objetos ideais, valores? Esse "haver" [[lexico:n:nao|não]] significa outra [[lexico:c:coisa|coisa]] que a [[lexico:t:totalidade|totalidade]] da existência. Haver algo é [[lexico:e:existir|existir]] algo de uma ou de outra [[lexico:f:forma|forma]]; e a totalidade da existência, a existência inteira é aquilo que há. Existência de que? perguntar-se-á. Pois a existência das coisas reais, dos objetos ideais, dos valores e de mim mesmo. [[lexico:t:todo|todo]] este conjunto do que há é, gramaticalmente [[lexico:d:dito|dito]], o complemento determinativo da existência; a existência é existência de tudo isso. A existência, pois, na sua totalidade, abrange o [[lexico:o:ontico|ôntico]] e o ontológico, porque me abrange a mim também. Abrange o eu, capaz de [[lexico:p:pensar|pensar]] as coisas, e as coisas, que o eu pode pensar. Essa existência inteira, total, podemos denominá-la muito [[lexico:b:bem|Bem]] "vida", minha vida; porque eu não posso, de [[lexico:m:modo|modo]] algum, sonhar sequer que exista algo que não existe de um modo ou de [[lexico:o:outro|outro]] em minha vida: diretamente, com uma existência especial, que é a existência de [[lexico:p:presenca|presença]], ou indiretamente, por [[lexico:m:meio|meio]] de uma existência de [[lexico:r:referencia|referência]]. Esta existência de minha vida é aquilo que o [[lexico:f:filosofo|filósofo]] alemão contemporâneo [[lexico:h:heidegger|Heidegger]] chama "a existência do [[lexico:e:ente|ente]] [[lexico:h:humano|humano]]". Ela mesma é ente, ou seja, que ela mesma — a existência — é entitativa. O ente humano, como existente, abrange, por conseguinte, não somente, estritamente falando, a [[lexico:s:subjetividade|subjetividade]], mas também a [[lexico:o:objetividade|objetividade]]. Desta maneira recebe um [[lexico:s:sentido|sentido]] pleno a [[lexico:f:formula|fórmula]] que constantemente emprega o filósofo que citei para definir aquilo que essencialmente constitui esse ente da existência humana e é "O [[lexico:e:estar|estar]] eu com as coisas no [[lexico:m:mundo|mundo]]". A [[lexico:c:contraposicao|contraposição]], pois, das coisas e o eu, pertence exatamente às velhas posições do problema metafísico no [[lexico:r:realismo|realismo]] e no [[lexico:i:idealismo|Idealismo]]. O estar eu com as coisas no mundo, o mundo e eu juntamente formando a existência [[lexico:r:real|real]] da vida humana, é o que constitui esse mais [[lexico:p:profundo|profundo]] [[lexico:e:elemento|elemento]] que serve de base e raiz, tanto às soluções realista como idealista. **A vida: ente [[lexico:i:independente|independente]].** Assim, pois, este quarto objeto metafísico que podemos, indistintamente, chamar a vida ou a existência, vai constituir o término de nossas reflexões. Mas logo cabe a adversão que este objeto — a vida — ocupa, na ontologia, um [[lexico:p:plano|plano]] mais profundo que qualquer das três esferas objetivas que anteriormente desenhamos. Ocupa tal plano pela [[lexico:s:simples|simples]] [[lexico:r:reflexao|reflexão]]: que qualquer dessas três esferas ontológicas — as coisas reais, os objetos ideais, os valores — "estão em" a vida; todavia ela, a vida, não está em nenhuma [[lexico:p:parte|parte]]. Por conseguinte, ontologicamente, há uma [[lexico:d:diferenca|diferença]] [[lexico:e:essencial|essencial]] entre o ente das coisas reais, o ente dos objetos ideais, o ente dos valores e o ente vida, sendo que os três primeiros são entes "em" a vida, ao passo que a vida não é "em", não está "em". É o que poderíamos expressar, de um modo muito mais simples e claro, dizendo que os três primeiros entes não são independentes, quando a vida é um ente independente. E o que significa ser independente? Significa não depender de nenhuma outra coisa, o que em [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] sempre se denominou [[lexico:a:absoluto|absoluto]], [[lexico:a:autentico|autêntico]]. Dizemos então que o [[lexico:u:unico|único]] ente absoluto e autêntico é a vida, a que Heidegger chama existência. Posso dar [[lexico:a:agora|agora]], num relance, a resposta que a filosofia contemporânea insinua para o problema metafísico que apresentamos ao iniciar estas lições: [[lexico:q:quem|quem]] existe? que é que existe? Agora a resposta é simples: existe a vida; por isso que a vida é a existência, a única existência absoluta e autêntica, uma vez que os outros três tipos de entes, que chamamos coisas reais, objetos ideais e valores, estão "em" a vida, dela dependendo de certo modo ou, de certo modo, subordinados a ela. **Estrutura ôntica da vida** Vamos tentar esboçar os problemas principais de uma ontologia fundamental da vida. A grande dificuldade com que tropeçamos, e à qual me referia faz um momento, para descrever adequadamente estas sinuosidades nas estruturas íntimas da vida, provém do seguinte: que, como era historicamente [[lexico:n:necessario|necessário]], a filosofia parte da [[lexico:i:intuicao|intuição]] de um ente [[lexico:c:concreto|concreto]] e [[lexico:p:particular|particular]], de um desses entes que estão "em" e que, por conseguinte, não são o ente absoluto e autêntico. A filosofia parte com [[lexico:p:parmenides|Parmênides]] da intuição de um ente particular e derivado; forja então seus [[lexico:c:conceitos|conceitos]] lógicos, dobrando-se à estrutura desse ente particular, e então esses conceitos do ente particular são conceitos de entes inertes, definitivos; de entes que "são já" tudo aquilo que têm que ser; de entes em cuja entranha não existe o [[lexico:t:tempo|tempo]]; de entes absolutamente estáticos, quietos, daquilo que chamaríamos "entes-coisas". Duas características tem todo ente-coisa: o "ser já", ou seja, o ser sem tempo, e a [[lexico:i:identidade|identidade]]. Assim, todos os conceitos lógicos que desde Parmênides baralham a ontologia para reproduzir ou tentar reproduzir a estrutura da [[lexico:r:realidade|realidade]], são conceitos lógicos que contêm no seu seio essas duas características: o "já" definitivo, que exclui toda [[lexico:p:possibilidade|possibilidade]] de [[lexico:f:futuro|futuro]], e a identidade, que exclui toda possibilidade de variação. Pois bem; se nós, com esses conceitos que desde Parmênides até hoje dominam na [[lexico:l:logica|lógica]], queremos apresar o ente [[lexico:p:primario|primário]] da existência humana — a vida — concluímos o que esses conceitos não servem, porque a vida é, não identidade, mas constante variabilidade, e porque a vida é justamente o contrário do "já"; não é descritível por meio do advérbio "já", antes é o [[lexico:n:nome|nome]] daquilo que ainda não é. Por conseguinte, a estrutura [[lexico:o:ontologica|ontológica]] da vida nos mostra um [[lexico:t:tipo|tipo]] antológico para o qual não temos [[lexico:c:conceito|conceito]]. E o que primeiro tem a fazer, ou pelo menos o que, paralelamente à [[lexico:m:metafisica|metafísica]] da existência humana, tem que fazer uma lógica [[lexico:e:existencial|existencial]], é forjar esses novos conceitos. Existem conceitos ocasionais tais que o que designam não é [[lexico:n:nada|nada]] [[lexico:i:identico|idêntico]] nem sempre igual a [[lexico:s:si-mesmo|si mesmo]], nada inerte e definitivo. antes designam o que quer que "haja" na [[lexico:o:ocasiao|ocasião]] e no momento. Dizemos: "algo", a palavra "algo", o pronome [[lexico:i:indefinido|indefinido]] "algo"; dizemos também "agora", o advérbio "agora". Pois bem; o conteúdo real desses conceitos pode ser variadíssimo. O "agora" de 1937 é diferente do "agora" de 1837, não obstante, com um mesmo conceito designamos todas essas variações. Eis aqui, pois, um fundo de conceitos ocasionais cujo [[lexico:e:estudo|estudo]] na lógica poderia ser de grande fecundidade para estas necessidades novas na metafísica existencial. Esses conceitos ocasionais não somente não fixam o ser como uma borboleta na coleção do entomólogo; não fixam o inerte num pensar sob eles cada vez um ser distinto, um ser que muda. Por ser "já" e num ser idêntico, antes, pelo contrário, nos convidam a isso, a [[lexico:d:descricao|descrição]] que vamos fazer da realidade ontológica vital vai ser difícil e alguma vez deverá ter aspectos preferentemente literários ou sugestivos; porque a [[lexico:v:verdade|verdade]] é que carecemos dos conceitos puros e apropriados para isto. Assim vamos [[lexico:v:ver|ver]] que esta descrição desse ente particular que é a vida se caracteriza essencialmente por estar semeada de alto abaixo de aparentes contradições. VIDE [[lexico:c:caracteres-da-vida|caracteres da vida]]; [[lexico:v:vida-e-tempo|vida e tempo]]; [[lexico:a:angustia-e-nada|angústia e nada]]; [[lexico:p:problema-da-morte|problema da morte]]; [[lexico:p:problema-de-deus|problema de Deus]].