===== OBJETO DA INTELIGÊNCIA ===== Uma [[lexico:p:potencia|potência]] no [[lexico:a:aristotelismo|aristotelismo]] é especificada, e portanto definida, pelo seu [[lexico:o:objeto|objeto]]. Mas como há diversos gêneros de objetos, importa que fixemos de que [[lexico:g:genero|gênero]] se vai tratar. A [[lexico:e:escolastica|escolástica]] anota continuamente uma primeira [[lexico:d:distincao|distinção]]: a do objeto material (a [[lexico:c:coisa|coisa]] [[lexico:e:exterior|exterior]] conhecida em sua [[lexico:r:realidade|realidade]] total), e a do objeto [[lexico:f:formal|formal]] (o [[lexico:a:aspecto|aspecto]] preciso visado nesta coisa pela potência). [[lexico:t:tomas-de-aquino|Tomás de Aquino]], por sua vez, [[lexico:n:nao|não]] contesta de [[lexico:m:modo|modo]] algum a legitimidade desta distinção. De ordinário [[lexico:n:nada|nada]] diz a [[lexico:r:respeito|respeito]]. Para ele o objeto é normalmente o objeto formal. Se [[lexico:a:agora|agora]] nos referirmos ao [[lexico:t:texto|texto]] fundamental do [[lexico:d:de-anima|De anima]] (II, c. 6), convirá distinguir, com respeito às potências, três espécies de objetos: - o objeto [[lexico:p:proprio|próprio]]: [[lexico:o:o-que-e|o que é]] atingido imediatamente e [[lexico:p:por-si|por si]], "primo et per se", pela potência: a cor, por [[lexico:e:exemplo|exemplo]], para a vista, o som para o ouvido: diante deste objeto uma potência não pode falhar, encontrando-se em condições normais de [[lexico:p:percepcao|percepção]]. - o objeto comum: o que é atingido por diferentes potências, pertencendo sempre a um mesmo gênero de objetos; assim, para [[lexico:a:aristoteles|Aristóteles]], o [[lexico:m:movimento|movimento]], o repouso, o [[lexico:n:numero|número]], a [[lexico:f:figura|figura]], o tamanho, constituem o [[lexico:g:grupo|grupo]] dos sensíveis comuns; como há no [[lexico:h:homem|homem]] só uma [[lexico:f:faculdade|faculdade]] intelectual, só se pode, neste nível, [[lexico:f:falar|falar]] de objeto comum relativamente a inteligências de graus diversos, divina, angélica e humana. - o objeto acidental: o que apenas indiretamente é atingido pela potência, enquanto associado a seu objeto próprio: é acidental para minha vista que o objeto branco que avança para mim seja o [[lexico:f:filho|filho]] de Diares. - na doutrina da [[lexico:i:inteligencia|inteligência]], ao lado de seu objeto próprio, deve-se ainda tratar de seu objeto [[lexico:a:adequado|adequado]] ou [[lexico:e:extensivo|extensivo]]: é aquele que corresponde a todas as virtualidades desta faculdade, as quais só incompletamente podem [[lexico:s:ser|ser]] determinadas pelo seu objeto próprio; praticamente será o objeto comum, considerado sob o aspecto mediante o qual preenche toda a [[lexico:c:capacidade|capacidade]] de uma inteligência dada. A [[lexico:t:teoria-do-conhecimento|teoria do conhecimento]] apresenta-se no aristotelismo como uma [[lexico:r:reacao|reação]] contra o [[lexico:i:intelectualismo|intelectualismo]] da [[lexico:f:filosofia|Filosofia]] das [[lexico:i:ideias|ideias]]: por isso será [[lexico:n:necessario|necessário]], antes de tudo, considerar a reação no [[lexico:s:sentido|sentido]] do [[lexico:e:empirismo|empirismo]]: com isto estaremos em condições de assinalar à inteligência seu objeto próprio, a "[[lexico:q:quididade|quididade]]" das [[lexico:c:coisas|coisas]] sensíveis. Esta volta para um intelectualismo mais [[lexico:c:concreto|concreto]], mas também mais limitado, colocará um novo [[lexico:p:problema|problema]]. Se a inteligência encontra no [[lexico:m:mundo|mundo]] corpóreo seu objeto próprio, não será necessário lhe interditar tudo o que está acima deste mundo, os [[lexico:e:espiritos|espíritos]] puros e o próprio [[lexico:d:deus|Deus]]? E se admitirmos que estas realidades são também atingidas, resta [[lexico:e:explicar|explicar]] como isso é [[lexico:p:possivel|possível]]. Com isso será precisado o que se deve entender por [[lexico:o:objeto-adequado-da-inteligencia|objeto adequado da inteligência]] humana. Mas, até onde se estende este poder de nossa inteligência? No cume do mundo dos objetos encontra-se o supremo [[lexico:i:inteligivel|inteligível]], a [[lexico:e:essencia|essência]] divina. A inteligência criada estará em condições de captar diretamente este objeto? Sendo a resposta afirmativa, como conceber esta capacidade do [[lexico:d:divino|divino]]? É o problema especial da [[lexico:v:visao-de-deus|visão de Deus]], problema que se coloca antes para o teólogo, mas, como filósofos, ser-nos-á proveitoso considerar certos aspectos dele. **[[lexico:d:discussao|Discussão]] das teorias antecedentes.** Para se [[lexico:p:por|pôr]] a [[lexico:c:caminho|caminho]] da [[lexico:d:definicao|definição]] do objeto próprio da inteligência humana, não se pode fazer melhor que seguir a marcha progressiva dos artigos pelos quais, na Summa, Tomás de Aquino chega a esta definição (Ia Pa, q. 84, a. 1-8). "Como a [[lexico:a:alma|alma]] unida a um [[lexico:c:corpo|corpo]], [[lexico:p:pergunta|pergunta]] ele nesta [[lexico:q:questao|questão]], pode conhecer as realidades corporais que estão abaixo dela?". **A alma, pela sua inteligência, conhece os corpos (A. 1).** Neste primeiro artigo, Tomás de Aquino institui uma discussão [[lexico:g:geral|geral]] da [[lexico:t:tese|tese]] platônica. Tendo em vista escapar do [[lexico:m:materialismo|materialismo]] mobilista de [[lexico:h:heraclito|Heráclito]], que comprometia a [[lexico:v:verdade|verdade]] de [[lexico:t:todo|todo]] o [[lexico:c:conhecimento|conhecimento]], dera [[lexico:p:platao|Platão]], por objeto às ciências, realidades imóveis e separadas; daqui se seguia que o conhecimento intelectual não se referia de modo algum às coisas percebidas pelos sentidos. Esta doutrina tem um duplo inconveniente: torna vã toda [[lexico:c:ciencia|ciência]] da [[lexico:n:natureza|natureza]]. Chega a esta [[lexico:c:consequencia|consequência]] absurda que, para se tomar [[lexico:c:consciencia|consciência]] das coisas que nos são manifestas, recorre-se a seres que diferem delas substancialmente. O [[lexico:e:erro|erro]] de Platão fundamenta-se no [[lexico:f:fato|fato]] de não [[lexico:t:ter|ter]] podido [[lexico:c:compreender|compreender]] que as coisas têm um modo de [[lexico:e:existir|existir]] diferente no [[lexico:e:espirito|espírito]] e na realidade: [[lexico:u:universal|universal]] e imaterial no primeiro caso, [[lexico:p:particular|particular]] e material no segundo. **A alma não conhece o corpo pela sua própria essência (A.2).** Outras [[lexico:h:hipoteses|hipóteses]] podem ser formuladas. Assim, não conheceremos as coisas corporais percebendo-nos a nós mesmos, como Deus conhece todas as coisas na sua essência? Os antigos naturalistas tinham [[lexico:d:dado|dado]] uma [[lexico:f:forma|forma]] materialista a esta [[lexico:t:teoria|teoria]]: o [[lexico:s:semelhante|semelhante]] é conhecido pelo semelhante, o [[lexico:f:fogo|fogo]] exterior pelo fogo que está em nós, etc. Esta [[lexico:e:explicacao|explicação]] evidentemente não se sustenta, pois, entre outras razões, o conhecimento só pode supor na alma uma [[lexico:p:presenca|presença]] imaterial das coisas. Na realidade, só a inteligência divina conhece as coisas pela sua essência, per essentiam; as inteligências inferiores, humanas ou angélicas, podem captá-las somente por [[lexico:m:meio|meio]] de uma [[lexico:s:semelhanca|semelhança]], ou per similitudinem. **A alma não conhece as coisas por idéias infusas ou inatas (A. 3).** Poder-se-ia ainda imaginar que estas semelhanças, de que necessita a alma para conhecer outras coisas, ou foram-lhe originariamente comunicadas, ou as tem por um privilégio da natureza. Não pode ser assim, pois então deveríamos ter um conhecimento sempre [[lexico:a:atual|atual]], o que evidentemente não se dá. Dizer com Platão que esta não-atuação de formas que possuímos deva-se ao impedimento de nosso corpo, só nos lança em outra dificuldade: [[lexico:c:como-se|como se]] explica que uma [[lexico:u:uniao|união]], que é segundo a natureza (a da alma e do corpo), possa impedir o exercício de uma [[lexico:a:atividade|atividade]] fundada, também ela, na natureza (o conhecimento das "[[lexico:s:species|species]]" naturalmente presentes à alma)? **A alma não pode conhecer por meio de "species" vindo de formas separadas (A.4).** Ainda uma vez nos encontramos diante de uma tese de Platão mas sob a forma que lhe vestiu [[lexico:a:avicena|Avicena]]. As formas separadas não teriam [[lexico:e:existencia|existência]] [[lexico:i:independente|independente]], o que é pouco inteligível, mas preexistem em inteligências superiores; estas as comunicam ao [[lexico:i:intelecto-agente|intelecto agente]] de onde, no [[lexico:m:momento|momento]] conveniente, informam o [[lexico:i:intelecto-possivel|intelecto possível]]. As dificuldades relativas à existência separada das ideias seriam assim resolvidas. Mas com essa teoria permanece não justificada a união da alma e do corpo. Se o corpo não tem por [[lexico:f:funcao|função]] [[lexico:s:superior|superior]] fazer chegar até nós as semelhanças das coisas, ele não tem mais [[lexico:r:razao|razão]] de ser. **Em que sentido a alma conhece nas "razões eternas" (A. 5).** Aqui Tomás de Aquino se interroga sobre o [[lexico:v:valor|valor]] da [[lexico:a:adaptacao|adaptação]] feita por [[lexico:a:agostinho|Agostinho]] às concepções de Platão. este é um [[lexico:p:ponto|ponto]] sobre o qual só podemos [[lexico:d:dar-razao|dar razão]] ao [[lexico:i:interprete|intérprete]] cristão da teoria das ideias; colocando-as em Deus, corta de um só golpe todas as dificuldades que sua existência separada apresenta. Mas pode-se com ele afirmar que conhecemos as coisas por meio dessas "razões" que eternamente apresentam as coisas ao [[lexico:p:pensamento|pensamento]] criador? Uma feliz distinção permitirá a Tomás de Aquino, sem em nada comprometer sua própria doutrina, entrar em [[lexico:a:acordo|acordo]] com o doutor de Hipona. Conhecer uma coisa "em [[lexico:o:outro|outro]]" pode ser tomado em dois sentidos: como "em um objeto conhecido", o que é [[lexico:i:impossivel|impossível]] aqui e como "em um [[lexico:p:principio|princípio]] de conhecimento", não sendo nossa [[lexico:l:luz|luz]] intelectual mais que a semelhança participada desta luz incriada na qual estão contidas as tais razões. Isto não impede que, para se dar o conhecimento, sejam requeridas, a mais, semelhanças extraídas das coisas sensíveis. Aristóteles e [[lexico:s:santo|santo]] Agostinho encontram-se assim de acordo **Conclusão: nosso conhecimento intelectual procede das coisas sensíveis. (a. 6, 7, 8)** Uma vez que a teoria platônica, como aliás o [[lexico:s:sensualismo|sensualismo]] de [[lexico:d:democrito|Demócrito]], chocam-se contra toda [[lexico:e:especie|espécie]] de incompatibilidades, uma só via permanece aberta, a deste intelectualismo fundado sobre o [[lexico:c:conhecimento-sensivel|conhecimento sensível]] que constitui a "via media" de Aristóteles. Nosso conhecimento intelectual vem inteiramente dos sentidos: o objeto próprio deste conhecimento, concluir-se-á, é a natureza ou a "quididade" das coisas sensíveis. Seria preciso poder seguir mais de perto as discussões que precedem, como seria [[lexico:b:bom|Bom]] também analisar os artigos 7 e 8, onde a [[lexico:s:solidariedade|solidariedade]] de nossos dois modos de conhecer encontra-se [[lexico:b:bem|Bem]] ressaltada por observações muito importantes, tais como o [[lexico:e:efeito|efeito]] das lesões orgânicas sobre o pensamento, a [[lexico:n:necessidade|necessidade]] das imagens para a [[lexico:v:vida|vida]] intelectual, para que se possa [[lexico:e:estar|estar]] em condições de apreciar todo o cabedal de [[lexico:e:experiencia|experiência]] e de [[lexico:r:reflexao|reflexão]] que fundamenta a solução aqui proposta. Aqui ainda o laconismo das fórmulas e a aridez de certas exposições de nossos mestres não nos devem enganar. **Definição do objeto próprio da inteligência humana. [[lexico:c:carater|Caráter]] deste objeto próprio.** Do que precede resulta que o objeto próprio do [[lexico:i:intelecto|intelecto]] [[lexico:h:humano|humano]], que está unido a um corpo, é a quididade ou a natureza existente na coisa corpórea: "intellectus autem humani qui est conjunctum corpori proprium objectum est [[lexico:q:quidditas|quidditas]], sive natura, in materia corporali existens" a. 7 Inúmeros textos fazem [[lexico:e:eco|Eco]] a este: "o objeto próprio da inteligência é a quididade da coisa, a qual não está separada das coisas, como pretenderam os platônicos" (De [[lexico:a:anima|anima]], III, I. 8, n. 717) ; "o objeto de nossa inteligência em nosso [[lexico:e:estado|Estado]] presente é a quididade da coisa material" (Ia Pa, q. 85, a. 8) etc . . . **Comparação com o objeto próprio das outras inteligências.** A doutrina precedente se esclarece singularmente se colocada em [[lexico:r:relacao|relação]] com a doutrina do objeto próprio das outras potências de conhecer, sensíveis ou espirituais; o que Tomás de Aquino fez diversas vezes (cf. Ia Pa, q. 12, a. 4; q. 85, a. 1). Assim: - No [[lexico:g:grau|grau]] mais inferior da escala está o sentido que é uma potência ligada a um [[lexico:o:orgao|órgão]] corporal; seu objeto próprio é a forma enquanto existente na [[lexico:m:materia|matéria]] corporal: "forma prout in materia corporali exsistit". - Acima, situa-se a inteligência humana que tem por objeto a forma existente na matéria corporal, mas não enquanto está em tal matéria: "forma, in materia quidem corporali existens, non tamen prout est in tali materia". - Vem, a seguir, a inteligência angélica, esta, totalmente desligada da matéria; seu objeto próprio é, paralelamente, a forma subsistente sem matéria: "forma, sine materia subsistens". - Enfim, no cume, encontra-se a inteligência divina, que é idêntica ao próprio ser subsistente de Deus, e que só ela tem este ser como objeto próprio: "cognoscere ipsum [[lexico:e:esse|esse]] subsistens est connaturale soli intelectui divino".