===== OBJETO ===== (lat. obiectum; in. Object; fr. Objet; al. Objekt, Gegenstand; it. Oggettó). [[lexico:t:termo:start|termo]] de qualquer [[lexico:o:operacao:start|operação]], ativa, passiva, prática, cognoscitiva, ou [[lexico:l:linguistica:start|linguística]]. O [[lexico:s:significado:start|significado]] dessa [[lexico:p:palavra:start|palavra]] é generalíssimo e corresponde ao significado de [[lexico:c:coisa:start|coisa]] . objeto é o [[lexico:f:fim:start|fim]] a que se tende, a coisa que se deseja, a [[lexico:q:qualidade:start|qualidade]] ou a [[lexico:r:realidade:start|realidade]] percebida, a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] da [[lexico:f:fantasia:start|fantasia]], o significado expresso ou o [[lexico:c:conceito:start|conceito]] pensado. A [[lexico:p:pessoa:start|pessoa]] é objeto de [[lexico:a:amor:start|amor]] ou de ódio, de estima, de consideração ou de [[lexico:e:estudo:start|estudo]]; neste [[lexico:s:sentido:start|sentido]], o [[lexico:p:proprio:start|próprio]] [[lexico:e:eu:start|eu]] é ou pode [[lexico:s:ser:start|ser]] objeto. Toda [[lexico:a:atividade:start|atividade]] ou passividade tem como termo ou [[lexico:l:limite:start|limite]] um objeto, qualificado em [[lexico:c:correspondencia:start|correspondência]] com o [[lexico:c:carater:start|caráter]] específico de atividade ou de passividade. Ao lado deste significado genérico e fundamental, em que [[lexico:e:esse:start|esse]] termo é insubstituível, encontra-se algumas vezes na [[lexico:l:linguagem:start|linguagem]] filosófica e na comum um significado mais restrito ou específico, segundo o qual o objeto só é objeto se tiver alguma [[lexico:v:validade:start|validade]]: p. ex. se é "[[lexico:r:real:start|real]]", "[[lexico:e:externo:start|externo]]", [[lexico:i:independente:start|independente]]", etc. (v. [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]). No entanto, este segundo significado [[lexico:n:nao:start|não]] elimina o primeiro, mas o pressupõe. Essa palavra foi introduzida em [[lexico:f:filosofia:start|Filosofia]] pelos escolásticos, no séc. XIII. É claramente definida por [[lexico:t:tomas-de-aquino:start|Tomás de Aquino]] de Aquino, que diz: "objeto de uma [[lexico:p:potencia:start|potência]] ou de um [[lexico:h:habito:start|hábito]] é propriamente aquilo sob cuja [[lexico:r:razao:start|razão]] ([[lexico:r:ratio:start|ratio]]) se inclui tudo o que se refere à potência ou ao hábito em [[lexico:q:questao:start|questão]]. P. ex.: o [[lexico:h:homem:start|homem]] e a pedra referem-se à [[lexico:v:visao:start|visão]] por terem cor; portanto, o que tem cor é o objeto da visão" (S. Th., I, q. 1, a. 7). Essa [[lexico:n:nocao:start|noção]] de objeto foi substancialmente retomada por Duns Scot, que definiu o objeto de um [[lexico:s:saber:start|saber]] como [[lexico:m:materia:start|matéria]] (subjectum) do saber, enquanto aprendida ou conhecida. Segundo Scot, uma matéria cog-noscível torna-se objeto conhecido através de um hábito intelectual [[lexico:r:relativo:start|relativo]] a esse objeto (Op. Ox., Prol., q. 3, a. 2, nQ 4). Jungius só fazia expressar com mais simplicidade a mesma noção ao afirmar: "Chama-se de objeto aquilo em torno do que versam as [[lexico:f:faculdades:start|faculdades]], seus hábitos e seus atos" ([[lexico:l:logica:start|Lógica]], 1638, 1, 9, 37). [[lexico:w:wolff:start|Wolff]] por sua vez dizia: "objeto é o [[lexico:e:ente:start|ente]] que termina a [[lexico:a:acao:start|ação]] do [[lexico:a:agente:start|agente]] ou no qual terminam as [[lexico:a:acoes:start|ações]] do agente: de [[lexico:m:modo:start|modo]] que é quase um limite da ação" (Ont, § 949). Esse significado continuou sendo fundamental na [[lexico:f:filosofia-moderna:start|filosofia moderna]] e contemporânea. A questão do caráter real ou [[lexico:i:ideal:start|ideal]] do objeto em [[lexico:g:geral:start|geral]] ou de uma [[lexico:c:classe:start|classe]] específica de objeto (p. ex., dos objeto físicos ou [[lexico:c:coisas:start|coisas]]) não teve [[lexico:i:influencia:start|influência]]. Assim, pode-se considerar objeto do [[lexico:c:conhecimento:start|conhecimento]] uma [[lexico:i:ideia:start|ideia]] (como queria [[lexico:b:berkeley:start|Berkeley]]), uma [[lexico:r:representacao:start|representação]] (como queria [[lexico:s:schopenhauer:start|Schopenhauer]]), uma coisa material (como queria a [[lexico:e:escola-escocesa:start|escola escocesa]] do [[lexico:s:senso-comum:start|senso comum]]) ou um [[lexico:f:fenomeno:start|fenômeno]] (como queria [[lexico:k:kant:start|Kant]]), mas como objeto é sempre o termo ou limite da operação cognoscitiva. No entanto, é Kant [[lexico:q:quem:start|quem]] inaugura o [[lexico:u:uso:start|uso]] restrito do termo, segundo o qual o objeto, ou mais exatamente o objeto de conhecimento é, de preferência, objeto "real" ou "[[lexico:e:empirico:start|empírico]]". Kant diz: "Há grande [[lexico:d:diferenca:start|diferença]] entre ser algo [[lexico:d:dado:start|dado]] à minha razão como objeto em [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]] ou apenas como objeto na ideia. No primeiro caso, meus [[lexico:c:conceitos:start|conceitos]] passam a determinar o objeto; no segundo, o que existe de [[lexico:f:fato:start|fato]] é só um [[lexico:e:esquema:start|esquema]] ao qual não se atribui diretamente nenhum objeto, nem por [[lexico:h:hipotese:start|hipótese]], mas que serve apenas para [[lexico:r:representar:start|representar]] outros objeto, em sua [[lexico:u:unidade:start|unidade]] [[lexico:s:sistematica:start|sistemática]], por [[lexico:m:meio:start|meio]] de sua [[lexico:r:relacao:start|relação]] com a ideia. Assim, digo: o conceito de uma [[lexico:i:inteligencia:start|inteligência]] suprema é uma [[lexico:s:simples:start|simples]] ideia; vale dizer: sua realidade objetiva não deve consistir em que ele se refira diretamente a um objeto (pois seu [[lexico:v:valor:start|valor]] objetivo não pode ser justificado desse modo), mas é apenas um esquema, organizado segundo as condições da [[lexico:m:maxima:start|máxima]] [[lexico:r:racionalidade:start|racionalidade]] do conceito de uma coisa em geral" (Crít. R. Pura, [[lexico:d:dialetica:start|Dialética]], Apêndice). Essas considerações de Kant são uma reiteração de que a ideia da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]] não tem propriamente objeto porque objeto é somente o empírico (a coisa [[lexico:n:natural:start|natural]]), e a ideia refere-se apenas indiretamente a um [[lexico:g:grupo:start|grupo]] de tais objetos. Todavia, esse significado específico do objeto não elimina, nem para Kant, o significado geral e fundamental. De fato, esse [[lexico:f:filosofo:start|filósofo]] não só considera o conceito de objeto como o "mais elevado" em filosofia (v. o fim deste verbete), como também [[lexico:f:fala:start|fala]] de uma "[[lexico:d:distincao:start|distinção]] de todos os objeto em geral em fenômenos e númenos", considerando o [[lexico:n:numeno:start|númeno]] como "o objeto de uma [[lexico:i:intuicao:start|intuição]] não [[lexico:s:sensivel:start|sensível]]", admitida em [[lexico:h:hipoteses:start|hipóteses]], que poderia pertencer a um [[lexico:i:intelecto:start|intelecto]] [[lexico:d:divino:start|divino]] (Crít. R. Pura, Anal. dos Princ, cap. III). Por [[lexico:o:outro:start|outro]] lado, para Kant, [[lexico:a:alem:start|além]] do objeto de conhecimento, há "o objeto da [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]]", que é "a representação de um objeto como de um [[lexico:e:efeito:start|efeito]] [[lexico:p:possivel:start|possível]] através da [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]]" (Crít. R. Prática, I, Livro I, cap. 2); isso significa que neste caso o objeto é o termo ou resultado de uma ação livre. O que em [[lexico:t:todo:start|todo]] caso constitui o objeto é sua [[lexico:f:funcao:start|função]] de limite ou termo de uma atividade ou de uma operação qualquer. Essa noção não desaparece nem nas formas mais radicais de [[lexico:i:idealismo:start|Idealismo]]: para o próprio [[lexico:f:fichte:start|Fichte]], o objeto é o limite da atividade do Eu: "O Eu põe-se como limitado pelo [[lexico:n:nao-eu:start|não-eu]]" ( Wissenschaftslehre, 1794, § 4. A), e o não-eu [[lexico:n:nada:start|nada]] mais é que objeto (Ibid., § 4 E. III; trad. it., p. 143). Analogamente, qualquer outra [[lexico:d:determinacao:start|determinação]] que os filósofos possam [[lexico:c:criar:start|criar]] sobre a [[lexico:n:natureza:start|natureza]] do objeto tem como [[lexico:p:ponto:start|ponto]] de partida a sua [[lexico:d:definicao:start|definição]] geral. P. ex., o objeto pode ser considerado um dado (como costumam fazer os empiristas) ou como um [[lexico:p:problema:start|problema]] (como fizeram os neocriticistas; p. ex. [[lexico:n:natorp:start|Natorp]], Platos Ideenlehre, p. 367), mas só pode ser uma ou outra coisa se é considerado como o termo ou limite da atividade cognoscitiva. Na filosofia contemporânea, o recurso à noção de [[lexico:i:intencionalidade:start|intencionalidade]] permitiu reconhecer claramente o caráter geral da noção de objeto [[lexico:b:brentano:start|Brentano]], que foi o primeiro a reintroduzir essa noção, diz que "todo fenômeno [[lexico:p:psiquico:start|psíquico]] inclui em si [[lexico:a:alguma-coisa:start|alguma coisa]] como objeto, embora nem sempre da mesma [[lexico:f:forma:start|forma]]. Na representação, há algo representado; no [[lexico:j:juizo:start|juízo]], algo reconhecido ou negado; no amor, algo amado; no ódio, algo odiado, etc." (Psychologie vom empirischen Standpunkt, 1874, I, p. 115). E [[lexico:h:husserl:start|Husserl]] ainda generalizou o conceito, distinguindo objeto e "objeto percebido": "Deve-se notar que o objeto [[lexico:i:intencional:start|intencional]] de uma [[lexico:c:consciencia:start|consciência]] (tomado como pleno correlato dela) não é absolutamente igual ao objeto apreendido (erfasstes). Costumamos pressupor o ser apreendido no conceito de objeto (objeto intencional), porquanto, ao pensarmos nele ou falarmos sobre ele, temo-lo como objeto no sentido de apreendido. (...) Com [[lexico:c:certeza:start|certeza]] só podemos lidar com uma coisa [[lexico:f:fisica:start|física]] apreendendo-a, e o mesmo se diga de todas as objetividades francamente representáveis... Ao contrário, no [[lexico:a:ato:start|ato]] de avaliar, de alegrar-se, de amar, de agir, lidamos com valor, com o objeto da [[lexico:f:felicidade:start|felicidade]], com o objeto amado, com a ação, respectivamente, sem [[lexico:a:apreender:start|apreender]] nada de tudo isto" (Ideen, I, § 37). Paralela e analogamente, [[lexico:m:meinong:start|Meinong]] defendia o significado generalíssimo da noção de objeto (Gegenstand), dividindo-a nas classes de objeto da representação (Objekte) e de objeto do juízo (Objektive) (Über Annahmen, 1902, pp. 142 ss.). Quase ao mesmo [[lexico:t:tempo:start|tempo]], no domínio da [[lexico:l:logica-matematica:start|lógica matemática]], Frege defendia uma noção substancialmente idêntica do objeto, identificando-o com o significado: "O significado de uma palavra é o objeto que indicamos com ela" (Über Sinn und Bedeutung, 1892, § 3; trad. it., p. 222), pretendendo dizer que o objeto é o termo ou limite da operação linguística, do uso do [[lexico:s:signo:start|signo]]. [[lexico:w:wittgenstein:start|Wittgenstein]], por sua vez, dizia: "O [[lexico:n:nome:start|nome]] variável ‘x’ é o signo do [[lexico:p:pseudoconceito:start|pseudoconceito]] objeto. Sempre que o termo objeto (’coisa’, ‘[[lexico:e:entidade:start|entidade]]’, etc.) é usado corretamente, é expresso no [[lexico:s:simbolismo:start|simbolismo]] [[lexico:l:logico:start|lógico]] pelo nome variável" (Tractatus, 4.1272). Não muito distante disso está a noção de objeto exposta por [[lexico:d:dewey:start|Dewey]], para quem objeto é o resultado de uma operação de [[lexico:i:investigacao:start|investigação]]: "O nome objeto será reservado à matéria tratada, na [[lexico:m:medida:start|medida]] em que foi produzida e organizada de modo [[lexico:s:sistematico:start|sistemático]] por meio da investigação; prolepticamente, objetos são os objetivos da investigação. A [[lexico:a:ambiguidade:start|ambiguidade]] que se poderia encontrar no uso do termo, neste sentido (pois de [[lexico:r:regra:start|regra]] a palavra se aplica às coisas observadas e pensadas), é apenas [[lexico:a:aparente:start|aparente]], visto que as coisas existem como objeto para nós só se tiverem sido preliminarmente determinadas como resultados de investigação" (Logic, cap. 6; trad. it., p. 175). É fácil [[lexico:v:ver:start|ver]] que a diferença entre essas definições de objeto é apenas a diferença entre as [[lexico:a:atividades:start|atividades]] ou as operações consideradas: objeto é o termo do significado, se considerarmos a linguagem e,-em geral, o uso dos signos; é o termo de uma operação de investigação se considerarmos a [[lexico:p:pesquisa:start|pesquisa]] científica; e assim por diante; mas em todo caso é (como já julgavam os escolásticos) o termo ou o limite de determinada operação. Assim, a palavra objeto é o termo mais geral de que dispõe a linguagem filosófica. Kant tinha razão ao afirmar que, se "o conceito mais elevado de que se costuma partir na filosofia [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]] é a [[lexico:d:divisao:start|divisão]] entre possível e [[lexico:i:impossivel:start|impossível]]", visto que toda divisão pressupõe um conceito a ser dividido, "deve-se aduzir um conceito ainda mais elevado, que é o conceito de objeto em geral, assumido de modo [[lexico:p:problematico:start|problemático]], sem decidir se ele é algo ou nada" (Crít. R. Pura, Anal. dos Princ, [[lexico:n:nota:start|nota]] às anfibolias dos conceitos da [[lexico:r:reflexao:start|reflexão]]). É óbvio que o conceito de objeto não coincide inteiramente com nenhuma de suas especificações possíveis. As coisas, os corpos físicos, as entidades lógicas e matemáticas, os valores, os estados psíquicos, etc, são todos objeto, especificados ou especificáveis por meio de modos de ser particulares ou procedimentos de [[lexico:v:verificacao:start|verificação]] particulares; mas nenhuma dessas classes de objeto possui uma [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] privilegiada e nenhuma se presta a exprimir, em seu âmbito, a [[lexico:c:caracteristica:start|característica]] do objeto em geral. Etimologicamente, "objeto" (do latim: obiectum = atirado diante) significa [[lexico:o:o-que-e:start|o que é]] atirado diante, ou posto diante. O vocábulo alemão correspondente "Gegenstand" tem [[lexico:s:significacao:start|significação]] idêntica: "o que está (em pé) diante, em frente". Assim sendo, "objeto" evoca essencialmente uma relação a alguém, em face de quem o objeto se encontra. A [[lexico:t:terminologia:start|terminologia]] filosófica rigorosa atém-se a este sentido relativo da palavra, e, por conseguinte, emprega o termo "objeto", não como muitas vezes acontece na [[lexico:v:vida:start|vida]] corrente, como simples sinônimo de "coisa". Objeto, em sentido lato (1) é tudo aquilo a que se dirige o ato [[lexico:c:consciente:start|consciente]] de um [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]], ou tudo aquilo a que uma [[lexico:f:faculdade:start|faculdade]] ou [[lexico:a:atitude:start|atitude]] psíquica duradoura ou hábito (habitus), ou também uma [[lexico:c:ciencia:start|ciência]], pode dirigir-se, ou seja, o fim do ato (da faculdade, etc.) enquanto tal; por conseguinte, o [[lexico:p:puro:start|puro]] ente em si não é objeto, a não ser enquanto cognoscível, apetecível, etc., tornando se objeto, de um modo novo, ao ser conhecido, apetecido de fato. A filosofia [[lexico:e:escolastica:start|escolástica]] distingue o objeto material, ou seja, o ente [[lexico:c:concreto:start|concreto]] total a que se dirige o sujeito, e o objeto [[lexico:f:formal:start|formal]], ou seja, a característica peculiar, o [[lexico:a:aspecto:start|aspecto]] especial ("forma") que neste todo se considera, ou sob a qual este todo é considerado. Objeto formal de uma faculdade, de uma ciência, de uma [[lexico:v:virtude:start|virtude]], é aquele aspecto comum a todos os seus objetos e apreendido, ao menos implicitamente, em cada uma das participações individuais de [[lexico:d:dito:start|dito]] aspecto. — Em sentido restrito, objeto (2) significa, não toda e qualquer coisa conhecida ou querida, mas unicamente aquilo que "está diante" do sujeito com independência deste e ao qual este se deve amoldar. Neste sentido, por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]], o conhecimento e a [[lexico:v:vontade:start|vontade]] criadora de [[lexico:d:deus:start|Deus]] não têm objeto; seu saber pode, antes, qualificar-se de saber no esboço ou na [[lexico:o:origem:start|origem]]. — Sob outro aspecto, o conceito de "objeto" (3) restringe-se ao ente material diretamente visado na [[lexico:p:percepcao:start|percepção]], ao passo que se denomina não objetivo tudo o que possui [[lexico:c:condicao:start|condição]] de sujeito e de pessoa, ou seja, o próprio eu, experimentado unicamente na realização de seus atos, e a pessoa do [[lexico:p:proximo:start|próximo]] compreendida numa [[lexico:e:especie:start|espécie]] de co-realização de seus atos intencionais. Com esta acepção poderia também relacionar-se a [[lexico:r:restricao:start|restrição]] do conceito de objeto (4), reduzindo-o a significar o objeto de um puro e desinteressado afã de conhecer. Quando o conhecimento se perfaz por intermédio de uma imagem cognoscitiva [[lexico:i:inconsciente:start|Inconsciente]], importa distinguir entre objeto e "conteúdo" do conhecimento. Assim, p. ex., o conteúdo mental é a representação incluída no conceito ou no juízo; o objeto é o ente independente do [[lexico:p:pensamento:start|pensamento]] (e que o transcende), ente significado ("intendido") pelo pensamento. Considerando o conteúdo como sendo o próprio objeto, desembocamos no idealismo epistemológico, para o qual o objeto é um [[lexico:p:produto:start|produto]] do pensamento. Este sentido idealístico de objeto (5) por vezes está subjacente, quando se insiste em afirmar que Deus nunca pode tornar-se objeto de nossa atividade pensante. — Com a distinção entre conteúdo de conhecimento e objeto está conexo o fato de que o dado nem sempre coincide com o objeto. Denomina-se (imediatamente) "dado" tudo o que se mostra imediatamente sem cooperação consciente do sujeito. Assim é "dado" aquilo que vem imediatamente à consciência na percepção dos [[lexico:s:sentidos-externos:start|sentidos externos]]; isto porém — segundo a concepção do [[lexico:r:realismo:start|realismo]] [[lexico:m:mediato:start|mediato]] — não é o objeto [[lexico:e:exterior:start|exterior]] em seu próprio ser real, mas o ser interno, a modo de imagem, (intencional), no qual o objeto é contemplado. — Num sentido lato, denomina-se, às vezes, "dado" todo objeto (2) que se contrapõe independentemente ao sujeito cognoscente; assim acontece, quando dizemos que o nosso conhecimento consiste numa [[lexico:a:assimilacao:start|assimilação]] a um objeto pré-dado. Consideração especial merece o objeto correspondente a um juízo, ou seja o objeto-expresso neste juízo, não enquanto pensado nele, senão enquanto existe independentemente do pensamento de dito juízo. O objeto, no caso do juízo, consiste, portanto, em que a um ente (que é expresso pelo sujeito do juízo) convém uma determinação qualquer (uma nota, uma qualidade, uma atividade, uma relação — justamente o que é expresso pelo [[lexico:p:predicado:start|predicado]]). Mas a [[lexico:e:estrutura:start|estrutura]] lógica do juízo não corresponde uma estrutura especificamente igual do conteúdo objetivo real; a relação lógica de sujeito e predicado existe só em nosso pensamento, não "em si", como pretende o [[lexico:t:transcendentalismo:start|transcendentalismo]] lógico. Certamente à relação lógica corresponde amiúde no objeto real (ou no conteúdo objetivo real) alguma relação análoga, p. ex., de [[lexico:s:substancia:start|substância]] e [[lexico:a:acidente:start|acidente]]; todavia o objeto de um juízo não possui necessariamente a estrutura de uma relação real. (Quando, p. ex., dizemos: "Deus é [[lexico:e:espirito:start|espírito]]", a esta [[lexico:p:proposicao:start|proposição]] não corresponde uma relação real entre Deus e seu [[lexico:s:ser-espiritual:start|ser espiritual]]). A forma lógica do juízo é precisamente nosso modo [[lexico:u:unico:start|único]] de [[lexico:p:pensar:start|pensar]] e a [[lexico:v:verdade:start|verdade]] do juízo não exige que nosso "modo" de pensar se encontre na coisa, mas somente que o conteúdo [[lexico:o:ontologico:start|ontológico]] corresponda ao "conteúdo" de pensamento. — Os objetos do juízo podem ser necessários e contingentes. Os objetos incondicionadamente necessários são (prescindindo da [[lexico:e:existencia:start|existência]] real de Deus) meros conteúdos essenciais, que em si não denotam ainda existência real; assim, p. ex., o objeto de juízo 2 X 2 = 4 não diz que 2 X 2 exista realmente nalgum sítio, mas diz tão-somente que a [[lexico:e:essencia:start|essência]] 2 X 2 traz consigo necessariamente a relação = 4, de [[lexico:s:sorte:start|sorte]] que, sempre que se realizem 2 X 2, necessariamente são = 4. Os objetos contingentes existem só na medida em que em certo [[lexico:m:momento:start|momento]] lhes sobrevêm a existência real; frequentemente se lhes dá também o nome de fatos. — O modo de [[lexico:f:falar:start|falar]], segundo o qual ao [[lexico:j:juizo-negativo:start|juízo negativo]] [[lexico:v:verdadeiro:start|verdadeiro]] corresponde "um objeto [[lexico:n:negativo:start|negativo]] existente em si" é [[lexico:e:equivoco:start|equívoco]]; o juízo negativo é verdadeiro, precisamente quando o objeto nele negado "não" existe na [[lexico:o:ordem:start|ordem]] do ser; é contraditório atribuir ao negativo um "ser-em-si"; o negativo "existe" só em nosso pensamento. — De Vries. Pode dizer-se que objeto significa, em geral, “o contraposto”. Na [[lexico:h:historia-da-filosofia:start|história da filosofia]] ocidental, os significados do vocábulo podem dividir-se em dois grupos: aquele a que pode chamar-se tradicional, especial [[lexico:m:mente:start|mente]] entre os escolásticos, e aquele a que pode chamar-se [[lexico:m:moderno:start|moderno]], particularmente desde Kant. Os escolásticos entenderam por objeto várias coisas; não se dá exatamente o mesmo sentido a objeto quando se trata do objeto em [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]], em [[lexico:t:teoria-do-conhecimento:start|teoria do conhecimento]] e em [[lexico:e:etica:start|ética]]. Contudo, há um sentido comum de objeto em qualquer caso, que é o de termo. Assim, em metafísica, o objeto é um termo, um fim, ou [[lexico:c:causa:start|causa]] final; em [[lexico:t:teoria:start|teoria]] do conhecimento o objeto é o termo do ato do conhecimento especialmente a forma, quer como espécie sensível, quer como espécie [[lexico:i:inteligivel:start|inteligível]]; em ética, o objeto é a [[lexico:f:finalidade:start|finalidade]], o propósito, o justo. S. Tomás dizia que “objeto é aquilo sobre o qual cai algum poder ou condição. A [[lexico:r:referencia:start|referência]] intencional que isso põe não precisa de ser unicamente cognoscitiva>; pode ser também volitiva e emotiva. Ocupar-nos-emos primeiramente, do aspecto cognoscitivo. O objeto no sentido atrás definido chama-se, por vezes, “objeto conatural”. Mas o termo objeto qualifica-se de diversas maneiras. Por exemplo, fala-se de objeto direto ou [[lexico:i:imediato:start|imediato]] (quando o poder a que S. Tomás se referia alcança o objeto diretamente”; de objeto direto ou mediato (quando o poder em questão alcança o objeto por meio de outro objeto); de objeto formal e de objeto material. Estes dois últimos tipos de objeto interessam-nos aqui especialmente pelo uso frequente que se fez dos conceitos correspondentes. O objeto formal e o objeto material são habitualmente considerados “objetos do conhecimento”. O objeto formal é o alcançado direta e essencialmente (ou naturalmente) pelo poder ou ato. por meio do objeto formal, alcança-se o objeto material, que é simplesmente o termo para o qual aponta o poder ou ato de conhecimento através do objeto formal. O objeto material é como um objeto [[lexico:i:indeterminado:start|indeterminado]]; a sua determinação opera-se por meio do objeto formal. A diferença entre objeto material e objeto funda-se na diferença entre o conhecimento e o objeto do conhecimento. Note- se que, por vezes, o objeto formal se chama também sujeito, enquanto se expressa logicamente num termo no qual se predica algo. O fato de algo ser objeto material não significa necessariamente que seja “fisicamente real”. Pode ser qualquer objeto de conhecimento. Aquilo que corresponde ao objeto chama- se, amiúde, objetivo. Deste vocabulário - que persiste em muitos autores modernos, especialmente em autores do século dezassete, que se valem muitas vezes da ideia do [[lexico:t:ter:start|ter]] objetivo como “ser representado” - deriva uma noção principal: a de que objeto e objetivo não se determinam como o real (cognoscível ou não) perante o sujeito e o subjectivo. Desde Kant e já um pouco antes deles, usou-se frequentemente objetivo para designar aquilo que não reside meramente no sujeito, em [[lexico:c:contraposicao:start|contraposição]] a subjectivo, entendido como aquilo que está no sujeito. O objeto é então equiparado à realidade - a realidade objetiva que pode ser declarada cognoscível -, em contraposição com o sujeito, o qual visto, por assim dizer, de fora para um objeto, mas, visto de dentro, é o que conhece quer ou sente o objeto. Em algumas das objetos atuais, entende-se objeto no sentido que, embora não coincida estritamente com o tradicional, tem em conta algumas das suas caraterísticas. Isto acontece em todas as filosofias onde a noção de intencionalidade desempenha um papel fundamental. Assim, para Husserl, objeto é tudo o que pode ser sujeito de um juízo; o objeto fica assim transformado desde logo, no suporte lógico expresso gramaticalmente no vocábulo sujeito, em tudo o que é susceptível de receber uma determinação e, em última [[lexico:a:analise:start|análise]], em tudo o que é ou vale de alguma forma. objeto equivale, por conseguinte, a conteúdo intencional; o objetivo não é, pois, algo que tenha forçosamente uma existência real, mas o objeto pode ser real ou ideal, pode ser ou valer. Todo o conteúdo intencional ‘ é, neste caso, um objeto. Assente a definição de objeto como sujeito de um juízo, a [[lexico:t:teoria-do-objeto:start|teoria do objeto]] investiga formalmente as diferentes classes de objetos existentes e adscreve-lhes as correspondentes determinações gerais. A teoria do objeto converte-se assim numa [[lexico:p:parte:start|parte]] da [[lexico:o:ontologia:start|ontologia]], à qual corresponde a investigação do ser enquanto tal. A ontologia está, por conseguinte, situada num [[lexico:p:plano:start|plano]] [[lexico:s:superior:start|superior]] à [[lexico:t:teoria-dos-objetos:start|teoria dos objetos]]; na qualidade de ontologia geral, trata das determinações do ser e faz parte, portanto, da metafísica como investigação do em si. como ontologia regional, averigua as determinações gerais que correspondem a cada um dos tipos do ser. Assim se liga à ontologia regional à teoria dos objetos. Segundo as investigações realizadas até este momento na teoria do objeto, os objetos são ilimitados. contudo, essa infinitude não impede o seu agrupamento de [[lexico:a:acordo:start|acordo]] com as suas notas mais gerais. A [[lexico:t:totalidade:start|totalidade]] dos objetos, que corresponde à totalidade da realidade, pode cindir-se nos seguintes grupos: 1) os objetos reais, que possuem realidade em sentido [[lexico:e:estrito:start|estrito]]. Neles estão incluídos os objetos físicos e os objetos psíquicos. As notas dos primeiros são a espacialidade e a [[lexico:t:temporalidade:start|temporalidade]]. as dos segundos, a temporalidade e a inespacialidade... 2) objetos ideais. as suas são a inespacialidade e a intemporalidade.. A este grupo pertencem os objetos matemáticos e as [[lexico:r:relacoes:start|relações]] ideais. 3) objetos cujo ser consiste no valer. A este grupo pertencem os valores que também podem ser considerados como objetos. 4) objetos metafísicos, cuja função consiste provavelmente numa unificação dos demais grupos, pois o objeto metafísico enquanto ser em si e [[lexico:p:por-si:start|por si]] ou absoluto contem necessariamente como [[lexico:e:elementos:start|elementos]] imanentes todos os objetos tratados pelas ontologias regionais. As classificações de objetos propostas pelas “teorias dos objetos” são, certamente, muitas. De alguma maneira, quase todos os filósofos tiveram uma teoria do objeto. Assim, por exemplo, a divisão do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] em mundo sensível e em mundo inteligível equivale, em grande parte, a uma [[lexico:c:classificacao:start|classificação]] de objetos. O mesmo acontece com a distinção entre substância pensante e substância extensa, etc. Podem formular-se as teorias do objeto atendendo primariamente às realidades do objeto que se trata ou então à linguagem por meio da qual se fala de quaisquer objetos possíveis, ou então combinando aquilo a que pode chamar-se o ponto de vista ontológico ou o ponto de vista “lógico-gramatical”. Entre as várias concepções apresentadas acerca da natureza do objeto como tal, destacamos as seguintes: A concepção [[lexico:e:existencial:start|existencial]] do objeto, segundo a qual tudo o que existe é um objeto e, ao invés, tudo o que é objeto existe; a concepção fenomenalista, segundo a qual o objeto é só aquilo que de algum modo é representado; a concepção reísta, segundo a qual o objeto é só aquilo que designa a coisa ou res, isto é, uma [[lexico:m:massa:start|massa]] que implica uma espacialidade; e a concepção do objeto como classe, segundo a qual o objeto é, em última análise, uma classe ou conjunto de caraterísticas, ou elementos. (do lat. ob-jectum, que está colocado diante), qualquer coisa que se ofereça à vista. — De maneira mais precisa, o objeto é o conteúdo de nosso pensamento e contrapõe-se ao sujeito pensante. Nesse sentido, o objeto pode designar (como em [[lexico:d:descartes:start|Descartes]]) uma [[lexico:s:sensacao:start|sensação]] ou um [[lexico:s:sentimento:start|sentimento]] no qual eu penso, ou uma imagem no meu espírito, e não necessariamente um objeto real existente no mundo. É nesse sentido que a [[lexico:f:fenomenologia:start|fenomenologia]] [[lexico:m:moderna:start|moderna]] (Husserl) fala de objeto intencional: põe "entre [[lexico:p:parenteses:start|parênteses]]" todo problema de existência real; quando reflete, por exemplo, no sentido das religiões, seu objeto é ao mesmo tempo um sentimento específico e um conjunto de [[lexico:s:simbolos:start|símbolos]], de dogmas, de ritos através dos quais se exprime. A [[lexico:r:reflexao-fenomenologica:start|reflexão fenomenológica]] não coloca o problema de saber se essas religiões ainda existem realmente no mundo, ou se elas são a "verdadeira" [[lexico:r:religiao:start|religião]] ou não: seu objetivo é simplesmente desenvolver o sentido de seu objeto, as religiões. O termo objeto diferencia-se então do termo real. — Na ordem de nosso conhecimento, temos inicialmente consciência dos objetos do mundo antes de termos consciência de nós mesmos. Entretanto, do ponto de vista [[lexico:p:psicologico:start|psicológico]], toda percepção ou toda ação implica, como um fato indiscutível, na [[lexico:s:solidariedade:start|solidariedade]] entre o sujeito e o objeto: não há objeto sem sujeito que o veja e o pense. Do ponto de vista metafísico! o problema da causa ou [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] do objeto inscreve-se no problema teológico da origem do mundo. Contrapõe-se ao problema crítico (Kant) do fundamento de "nosso conhecimento" dos objetos. Aliás, também o termo "objeto" é muito significativo. Para apreendermos seu alcance, precisamos aproximá-lo de seu correspondente em [[lexico:l:lingua:start|língua]] alemã, do termo "Gegenstand". O objeto ob-jectum é aquilo que, de certa forma, é lançado diante de nós, que se encontra exposto ao nosso olhar. O termo alemão é mais forte, pois, em "Gegenstand", há o "Gegen ", prefixo significando, ao mesmo tempo, o que está "diante" e o que é "contra". Este termo, "Gegenstand", sugere que existe uma espécie de insurreição do objeto diante do sujeito. O termo "Stand" se relaciona com o [[lexico:v:verbo:start|verbo]] "stehen"; [[lexico:e:estar:start|estar]] de pé, encontrar-se ereto. O "Gegenstand" se encontra de pé diante do sujeito e, de certa maneira, se ergue contra ele. O objeto é aquilo que se levanta por conta própria, lá longe, distante do sujeito, mas necessariamente relacionado com ele. Evidentemente, há uma relação entre o sujeito e o objeto: se o objeto se dá ao sujeito, erguendo-se diante dele próprio por conta própria, por sua vez o sujeito deve se assegurar do objeto. A grande [[lexico:p:preocupacao:start|preocupação]] de Descartes, por exemplo, é a do [[lexico:c:criterio:start|critério]] de certeza. [[lexico:c:como-se:start|como se]] assegurar do valor do conhecimento? Como se assegurar do objeto? Toda a concepção cartesiana do conhecimento gira em torno do papel da "ideia", considerada como o "médium" pelo qual nos asseguramos do objeto. Nesta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]], o [[lexico:p:problema-filosofico:start|problema filosófico]] fundamental é o de saber como podemos adquirir uma [[lexico:p:posse:start|posse]] sólida do objeto ou, em outros termos, como podemos adquirir o "domínio" do objeto. O termo "domínio" é tomado de empréstimo a Descartes: num célebre [[lexico:t:texto:start|texto]] do [[lexico:d:discurso-sobre-o-metodo:start|Discurso sobre o Método]], entrevendo aquilo em que se tornaria a ciência moderna, ele nos diz que, pelo [[lexico:c:caminho:start|caminho]] da ciência, os homens se tornarão "mestres e possuidores da natureza". [Ladrière] {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}