===== OBJETIVIDADE DO VALOR ===== VIDE [[lexico:o:objetividade-dos-valores:start|objetividade dos valores]] Suponho que a [[lexico:o:objetividade-do-valor:start|objetividade do valor]] implica a sua [[lexico:t:transcendencia:start|transcendência]]. Porém [[lexico:n:nao:start|não]] há [[lexico:t:termo:start|termo]] de [[lexico:u:uso:start|uso]] mais largo e mais ambíguo que o de transcendência. Frequentemente, os filósofos de procedência kantiana têm afirmado a transcendência do [[lexico:v:valor:start|valor]]. Mas é preciso [[lexico:s:saber:start|saber]] de que transcendência se trata. Se a transcendência for entendida em [[lexico:s:sentido:start|sentido]] kantiano, como sinônimo de [[lexico:i:incognoscivel:start|incognoscível]], o valor não pode [[lexico:s:ser:start|ser]] [[lexico:t:transcendente:start|transcendente]], porque então não seria conhecido; mas como o valor é valor para o [[lexico:s:sujeito:start|sujeito]] [[lexico:p:pessoal:start|pessoal]] ou [[lexico:g:geral:start|geral]] que o conhece, como esta [[lexico:r:relacao:start|relação]] com o sujeito cognoscente é da [[lexico:e:essencia:start|essência]] do valor, a conclusão kantiana há de ser, sempre, que os valores são imanentes. A [[lexico:i:imanencia:start|imanência]] dos valores é inevitável em toda a [[lexico:t:tradicao:start|tradição]] kantiana. Em [[lexico:k:kant:start|Kant]] não são apenas os produtos da [[lexico:r:razao-pratica:start|razão prática]] que constituem valorações subjetivas; é valoração subjetiva também o [[lexico:o:objeto:start|objeto]] da [[lexico:r:razao-pura:start|razão pura]], porque se [[lexico:t:todo:start|todo]] objeto é determinado pelo sujeito, todo objeto afinal é valoração do sujeito. Tudo é [[lexico:i:imanente:start|imanente]], não só o [[lexico:r:reino:start|reino]] da [[lexico:c:cultura:start|cultura]], mas também o reino da [[lexico:n:natureza:start|natureza]]. Se tudo é imanente, as cousas perdem o seu [[lexico:s:significado:start|significado]] [[lexico:p:proprio:start|próprio]], como portadoras de valor, para revestirem os significados que lhes são atribuídos pelo sujeito. Este [[lexico:h:humanismo:start|humanismo]] elimina a [[lexico:s:significacao:start|significação]] da [[lexico:r:realidade:start|realidade]] cósmica e [[lexico:m:metafisica:start|metafísica]] e pretende tornar o [[lexico:h:homem:start|homem]] o [[lexico:u:unico:start|único]] ser significativo, porque portador da significação dos objetos. É um humanismo inevitável em qualquer [[lexico:t:teoria:start|teoria]] kantiana, em qualquer teoria positivista, empirista ou racionalista. — Separado da Natureza, o homem se vê cercado de objetos feitos pela [[lexico:c:ciencia:start|ciência]] e pela [[lexico:t:tecnica:start|técnica]]. Podemos lembrar aqui a [[lexico:d:distincao:start|distinção]] estabelecida por [[lexico:h:heidegger:start|Heidegger]] entre objeto e cousa: interpreto essa distinção, tomando o objeto pelo correlato da [[lexico:r:razao:start|razão]] científica, e a cousa como um centro de [[lexico:s:significacoes:start|significações]] metafísicas. O objeto é um [[lexico:p:produto:start|produto]] [[lexico:l:logico:start|lógico]], científico, [[lexico:h:humano:start|humano]]; não tem [[lexico:o:outro:start|outro]] valor, senão aquele que o homem lhe atribui; a cousa, ao contrário, é portadora de valor, como um foco de significações e de sentidos que o sujeito descobre. Transformada porém a cousa em objeto científico e os fenômenos em fatos amorfos, fatos e objetos são entidades mortas, que o homem fecunda pela valoração. Uma vez que as ciências da natureza desconheceram e negaram a Natureza, essa fecundação dos objetos e dos fatos pela valoração humana é uma [[lexico:t:tese:start|tese]] frequente nas teorias do valor. E se é o homem que fecunda os fatos e os objetos pela sua valoração, o valor é então [[lexico:s:subjetivo:start|subjetivo]]. Quando se negaram as metafísicas tradicionais, quando se negou o [[lexico:r:realismo:start|realismo]] da cousa, negou-se também a [[lexico:o:objetividade:start|objetividade]] do [[lexico:r:real:start|real]]. Negada a objetividade do real, é contraditório afirmar a objetividade dos valores, exceto como objetividade projetada pelo sujeito, objetividade subjetiva. Esta falsa objetividade se encontra por [[lexico:e:exemplo:start|exemplo]] na [[lexico:m:moral:start|moral]] de Kant: se o [[lexico:i:imperativo-categorico:start|imperativo categórico]] se funda só na razão humana, se não resulta do [[lexico:a:acordo:start|acordo]] entre as normas da razão e o [[lexico:f:fundamento:start|fundamento]] metafísico do [[lexico:d:dever-ser:start|dever-ser]], então [[lexico:e:esse:start|esse]] [[lexico:i:imperativo:start|imperativo]] é subjetivo e não [[lexico:o:objetivo:start|objetivo]]. O mesmo sucede com os valores: é contraditória a [[lexico:a:afirmacao:start|afirmação]] da transcendência do valor em qualquer teoria que não rejeite os postulados kantianos. Estes postulados, que traem o mais [[lexico:p:profundo:start|profundo]] [[lexico:a:antropocentrismo:start|antropocentrismo]], geraram todas as teorias [[lexico:h:humanistas:start|humanistas]] do valor. O humanismo das teorias do valor se revela nas classificações que fazem dos mesmos. Esse humanismo penetra até as teorias metafísicas do valor. Nessas classificações, o valor se apresenta como o que deve ser conhecido, admirado e amado pelo homem, [[lexico:c:como-se:start|como se]] o valor valesse porque o homem o ama e não inversamente. Nas teorias subjetivistas, o valor perde a [[lexico:s:subsistencia:start|subsistência]] e se torna [[lexico:s:simples:start|simples]] produto da [[lexico:v:vida:start|vida]] biológica, ou das operações humanas valorativas. Mas o valor, ao contrário, se manifesta dotado de insistência metafísica; manifesta-se, digamos, qual um [[lexico:m:modelo:start|modelo]] [[lexico:t:transcendental:start|transcendental]], apreendido imediatamente pela [[lexico:v:vivencia:start|vivência]] emotiva, sem que isto elimine a sua cognoscibilidade intelectiva. Nesta [[lexico:p:perspectiva:start|perspectiva]] metafísica o valor vale [[lexico:p:por-si:start|por si]] e [[lexico:e:eu:start|eu]] me descubro e me reconheço nele. É, como diria [[lexico:s:santo:start|santo]] [[lexico:a:agostinho:start|Agostinho]], uma [[lexico:i:iluminacao:start|iluminação]], por onde transluz o supremo sentido do [[lexico:s:sagrado:start|sagrado]] e do [[lexico:d:divino:start|divino]]. O homem se realiza em [[lexico:f:funcao:start|função]] do valor e não inversamente. O valor não vale porque eu o queira, mas eu o procuro porque ele vale. Tal é uma tese inteiramente válida até o [[lexico:m:momento:start|momento]] em que não incorre no [[lexico:e:erro:start|erro]] de substituir o ser pelo valor. Menos incorreto seria converter o valor nalgum dos [[lexico:t:transcendentais:start|transcendentais]] da metafísica medieval, do que ontologisar o valor, pondo-o no [[lexico:l:lugar:start|lugar]] do Ser e tornando inexplicáveis o Ser e o valor. Toda teoria que se [[lexico:r:recusa:start|recusa]] a admitir a identificação do ser e do valor no [[lexico:a:absoluto:start|absoluto]], se revela ainda mais incoerente, quando a mesma teoria que sustenta a objetividade do valor, separa o valor e o ser, e declara até mesmo a irrealidade do valor. Suponho que o valor é uma realidade mais real que a do [[lexico:m:mundo:start|mundo]] [[lexico:c:contingente:start|contingente]]. Que é o modelo, a [[lexico:i:imagem:start|imagem]] que se identifica com o Ser Absoluto. Nega-se porém a realidade do valor quando se opõe o ser ao valor, sob fundamento de que o valor não é, mas vale; e vale como [[lexico:n:norma:start|norma]] [[lexico:i:ideal:start|ideal]], ou como [[lexico:c:condicao:start|condição]] de [[lexico:p:possibilidade:start|possibilidade]], como algo que está fora da [[lexico:e:existencia:start|existência]] e da realidade. Em Kant também, [[lexico:d:deus:start|Deus]], a [[lexico:l:liberdade:start|liberdade]] e a [[lexico:i:imortalidade:start|imortalidade]] são postulados da razão prática, são valores, mas isto não quer dizer que existam. Suponho que entre o valor e o ser [[lexico:r:relativo:start|relativo]] ou contingente, há uma distinção, mas não pode haver [[lexico:s:separacao:start|separação]]. [[lexico:s:scheler:start|Scheler]], [[lexico:h:hartmann:start|Hartmann]] e Johannes Hessen sabem que o valor só se manifesta aderido a um ser e que sem o ser o valor não se manifesta. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}