===== O QUE É ===== O [[lexico:p:problema|problema]] que imediatamente ressalta naqueles que são hoje comumente considerados os primeiros [[lexico:d:dialogos|diálogos]] de [[lexico:p:platao|Platão]] é o da [[lexico:d:determinacao|determinação]] do [[lexico:s:sentido|sentido]] da [[lexico:e:excelencia|excelência]] ou de uma das suas partes: na sua [[lexico:e:enumeracao|enumeração]] mais corrente e simultaneamente mais completa, a [[lexico:j:justica|justiça]] (δικαιοσύνη , δικαιότης ), a [[lexico:c:coragem|coragem]] (ἀνδρεία ), a [[lexico:t:temperanca|temperança]] ou moderação (σωφροσύνη ), a [[lexico:p:piedade|piedade]] (ὅσιον , ὁσιότης ) e a [[lexico:s:sabedoria|sabedoria]] (σοφία , ἐπιστήμη , φρόνησις ). A [[lexico:e:expressao|expressão]] determinação tem aqui um sentido preciso: ela assinala o [[lexico:m:modo|modo]] interrogativo pelo qual cada uma destas excelências é expressamente convocada, a [[lexico:s:saber|saber]], através da [[lexico:p:pergunta|pergunta]] «[[lexico:o:o-que-e|o que é]]?», a qual busca incessantemente e segundo um padrão regular um [[lexico:e:enunciado|enunciado]] que dê conta do que cada uma delas é, terminando, de modo igualmente regular, por uma suspensão [[lexico:a:aporetica|aporética]], em que nenhuma resposta aparentemente se acha. Ora, se [[lexico:b:bem|Bem]] que em nenhum [[lexico:d:dialogo|diálogo]] deste período encontremos um exame exaustivo de todas estas ἀρεταί [v. arete], pois só o [[lexico:p:protagoras|Protágoras]] tematiza explicitamente o problema da sua [[lexico:u:unidade|unidade]] global, dir-se-ia que um tal exame é deliberadamente preterido em favor de uma [[lexico:i:investigacao|investigação]] completa mas faseada de cada uma delas, encarada em si mesma. Assim, vemos o Laques a braços com a determinação da coragem, o [[lexico:c:carmides|Cármides]] perante a σωφροσύνη, o Êutifron defrontando-se com a piedade, o Trasímaco (livro da [[lexico:r:republica|República]] metodologicamente enquadrável no período [[lexico:s:socratico|socrático]]) ensaiando a [[lexico:d:definicao|definição]] da justiça, e o Protágoras, o [[lexico:m:menon|Ménon]], o [[lexico:g:gorgias|Górgias]], e também, de certa [[lexico:f:forma|forma]], o Eutidemo, refletindo, cada um a seu modo, sobre o problema da ensinabilidade da ἀρετή. A um segundo olhar, entretanto, este parcelamento é meramente ilusório. Pois, se é [[lexico:v:verdade|verdade]] que cada um destes diálogos tematiza uma [[lexico:p:parte|parte]] da excelência, é também verdade que todos eles descobrem, de uma forma ou de outra, um vínculo unificador da própria excelência, o qual é simultaneamente o que faz de cada uma delas justamente uma excelência. E tal vínculo unificador é o saber . Deste modo, por detrás da demanda pela determinação do sentido da excelência, o que outrossim se busca é o [[lexico:p:proprio|próprio]] sentido da determinação, enquanto ele corresponde a um [[lexico:p:projeto|projeto]] específico de saber. Poder-se-ia sustentar esta [[lexico:a:afirmacao|afirmação]] a dois níveis: porque as reiteradas interrogações pelas diversas excelências, sob a forma de «o que é», ao mesmo [[lexico:t:tempo|tempo]] que visam a determinação disso, põem igualmente em [[lexico:q:questao|questão]] a legitimidade da própria [[lexico:i:interrogacao|interrogação]], sob essa forma, levando a uma explicitação do que se entende por tal «o que é» ) que distingue cada ἀρετή (Euthphr., 5d, 6de; Men., 72a-73a).]. E porque, subjacente à [[lexico:a:analise|análise]] de cada excelência está a [[lexico:n:nocao|noção]] de que cada uma delas carece do saber para se realizar e que mesmo o que cada uma delas é coincide com um saber determinado [v. ignorância]. Encontramos assim três noções fundamentais — excelência, «o que é» e saber — que se cruzam sucessivamente em três planos distintos, cada uma delas determinando o conjunto de todas num [[lexico:p:plano|plano]] [[lexico:p:particular|particular]] e sendo determinada pelas outras noutro plano particular. Numa primeira aproximação, com [[lexico:e:efeito|efeito]], é a excelência que domina, pois que é dela que se procura saber o que é; mas já num segundo [[lexico:m:momento|momento]] surge tematicamente «o que é» como aquilo mesmo que tem de [[lexico:s:ser|ser]] esclarecido para que a primeira pergunta obtenha resposta; e, finalmente, é o saber que sobreleva, pois que [[lexico:n:nao|não]] é já tão-só saber da excelência, mas saber em que a excelência consiste, i. e., porque ele próprio responde [[lexico:a:agora|agora]] à pergunta, na [[lexico:m:medida|medida]] em que, ao tentarmos saber o que é a ἀρετή , começámos a suspeitar que ela é justamente saber. A insistência no «o que é» como modo próprio da questão e, mais do que isso, a consideração de que é [[lexico:e:esse|esse]] o [[lexico:p:ponto|ponto]] de partida [[lexico:n:necessario|necessário]] de toda a investigação bem sucedida, ο ἐξ ἀρχῆς sem o qual qualquer exame redunda em [[lexico:a:aporia|aporia]], é um traço constante da [[lexico:t:totalidade|totalidade]] dos diálogos do primeiro período e mesmo da totalidade do [[lexico:p:pensamento|pensamento]] platônico. Todavia, a essa [[lexico:c:condicao|condição]] junta-se frequentemente uma outra, que constitui simultaneamente uma determinação suplementar do saber por que se demanda. Tal é a exigência, explícita no Cármides, quase expressa no Lísis, e tácita nos restantes textos, de que o que procura participe já da [[lexico:n:natureza|natureza]] daquilo mesmo que procura. [MesquitaPlatão:45-47]